terça-feira, 22 de abril de 2014

Jornalisten bundamolensen


Carta ao jornalista dinamarquês que ficou chocadinho com o Brasil e desistiu do sonho de cobrir a Copa do Mundo.

Prezado Mikkel Jensen ou “jornalisten bundamolensen” (para falar um dinamarquês bem claro),

Eu adoraria fazer uma cobertura jornalística sobre a bela primavera em Copenhague. A cidade ensolarada e cheia de gente com consciência ecológica pedalando de lá pra cá. Se você me fizer um convite, vou praí com grande satisfação. Desde que o convite inclua, claro, passagem aérea, hospedagem e alimentação.

É muito bom cobrir belas primaveras em qualquer cidade ensolarada do mundo, mas, quando a gente escolhe ser jornalista, precisa estar preparado para tudo, coisas belas ou não.

Mazelas, tragédias, desgraças em geral fazem parte da nossa realidade de jornalista.

Jornalista chocado com a realidade é como um cirurgião chocado com sangue ou uma ninfomaníaca com direito a volumes 1 e 2 chocada com uma “pirocassen” ou uma “xoxotassen” (aliás, estas foram as primeiras palavras que me ensinaram em dinamarquês).

E você, meu caro, chocado com o que ouviu ou imaginou do Brasil ainda abriu mão do sonho de cobrir uma Copa do Mundo? Que porra de jornalista você é, afinal?

Aqui, no Brasil, há muitas coisas lindas para se cobrir, mas aqui também se matam crianças. Se matam velhos, Amarildos, se queimam índios. Violência social é com a gente mesmo. E é por isso que o Brasil precisa tanto do olhar sem medo dos jornalistas.

Não basta ter sangue viking correndo pelas veias. É preciso ter sangue de jornalista correndo pelas veias.

Para não me alongar, paro por aqui. Fico aguardando um convite seu para cobrir a bela primavera em Copenhague. Não me importo de viajar em classe econômica, ok? E torço muito para que você reconsidere sua decisão e volte ao Brasil para realizar o seu sonho. Venha mesmo, mas, por favor, sem “mimimissen” (para falar um dinamarquês bem claro).

Cordialmente,
Duda Rangel


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7 comentários:

Mary Jane. disse...

Fantástico!

Fábio Alves disse...

Q ele fale mesmo, qm sabe assim somos ouvidos aqui dentro do país!?!

Taynara Duarte disse...

Concordo em partes. O mais próximo que cheguei à realidade do Nordeste foi obtida pela leitura de JorgeAmado, com Capitães da Areia. Não me formei ainda, tampouco fui a outro país, mas sei que para set jornalista é preciso ter sangue frio. A questão aqui é cultural. Ainda que não concorde, sou acostumada com a mendicância, na Praça da Sé, por exemplo. Mas mesmo eu, brasileira nata, ficaria horrotizada com a matança em Salvador. Vale a crítica dessa resposta, mas ainda acredito que o dinamarquês usou da violência no nordeste como argumento par algo ainda maior: A Copa do Mundo está preocupada com o turista e não com a população.

Duda Rangel disse...

Oi, Taynara, valeu pela mensagem. Concordo quando você fala sobre a preocupação com a imagem do Brasil para o turista. Mas o que eu quis discutir no texto é a postura do Mikkel Jensen como jornalista. Em nossa profissão, estamos sujeitos a cobrir pautas legais em lugares bonitos, mas também mostrar miséria, desgraça etc. Jornalista lida com a realidade e a realidade nem sempre é bela. E não podemos fugir desta realidade. Abraços.

Fernanda disse...

Sem contar o fato de que ele chegou a constatação de que uma mazela social ocorria, e mesmo com um material de filmagem, não gravou nem depoimentos anônimos sobre a situação! Achei ridículo! Que jornalista descobre um problema social que deve ser exposto e não trabalha em cima disso?

Clarinha França disse...

O seu depoimento não foi como jornalista. Foi como cidadão. Ponto.

Rafael Belo disse...

cobrir pauta boa é fácil e olha que ainda tratamos (quando não os roubamos demais) os estrangeiros como celebridade. Ainda o Bundamolessen não quis pela realidade brasileira. Muito bom Duda!! Nunca concordei com o tal do sangue frio, à sangue-frio só os tais assassinos impiedosos. Nós, jornalistas, sempre nos envolvemos... O resto é mito! ótimo fim de semana pra ti!