sexta-feira, 27 de novembro de 2009

As mulheres que não comi

Todo homem gosta de revelar para os outros homens as mulheres que já comeu, mesmo que as tenha comido apenas na imaginação. Se o homem for jornalista, um natural contador de histórias (e de vantagens), as chances de tais aventuras íntimas se tornarem de domínio público aumentam. Quase todo jornalista do sexo masculino é ou já foi um grande comedor.

Lembro-me de um amigo que, certa vez, numa rodinha de homens na redação, gabava-se, eufórico, de ter acabado de transar com uma atriz internacional. Uma moça da Ucrânia lindíssima que viera ao Brasil para um festival de cinema. Entrevistou-a e, depois, foi visitá-la em seu hotel. Não parava de falar nela. Estava insuportável. “Ukraine girls really knock me out, they leave the west behind”, cantarolava pela redação, evocando os Beatles. “Duda, o que são essas mulheres do Leste europeu, meu amigo? Sensacionais!”

Embora eu seja um jornalista autêntico, contador de histórias (e de vantagens), sou pobre de aventuras sexuais. Minhas trepadas mais memoráveis são as que não aconteceram.

A empresária criminosa

Estava com uma história quentíssima nas mãos. Uma empresária bem-sucedida, gostosa e com fama de sedutora estava envolvida em um grande esquema de sonegação fiscal. E eu tinha provas. Encontrei-me com ela num café. Queria ouvir sua versão antes de publicar a matéria. Ela, então, me propôs uma noite de sexo selvagem em troca de meu silêncio. Eu disse que não me venderia por uma noite de sexo. Ela aumentou a oferta: um fim de semana de sexo selvagem em sua mansão de Angra dos Reis. Por alguns segundos, imaginei-me com ela numa banheira de hidromassagem, bebericando um champanhe francês. “Sinto muito. Sou um jornalista ético e com princípios. E, além disso, sou casado e fiel”, respondi. Publiquei a história, que gerou algum barulho. O Ministério Público e a polícia decidiram investigar a empresária, mas o caso foi arquivado pouco depois por conta de “provas insuficientes”. Aprendi que nem todos os homens recusam um sexo selvagem em Angra.

A nova estagiária

O dia em que a nova estagiária chegou à redação foi de grande tumulto, inclusive em meu coração. Logo me apaixonei pelo seu jeito meigo e por sua bunda. Naquela época, eu tinha uma namorada, mas não dava muita importância para essa coisa de fidelidade. Em pouco tempo, ficamos amigos. Eu ainda era foca, talvez dois anos mais velho do que ela, mas falava como se fosse o jornalista mais experiente do pedaço. Mas eu era um pouco imaturo e contava piadas estúpidas, como “o que é um ponto amarelo no alto de um prédio?”. Acho que ela só ria para não me deixar sem graça. Um dia a convidei para ir ao cinema e ela aceitou. Mas não apareceu e nem me deu explicações. Descobri depois que, naquela noite, ela havia ido a um restaurante chique com o editor-executivo do jornal, um homem que falava de vinhos e viagens internacionais, jamais sobre fandangos suicidas.

A jornalista gringa

Quando meu casamento acabou, estava decidido a comer todas as mulheres do mundo. A desforra. Numa coletiva de imprensa, conheci uma jornalista gringa que estava em São Paulo fazendo um documentário sobre a cidade para uma TV de seu país. Tinha um Inglês sofrível, mas era bastante interessante. “De onde você é?”, perguntei. “Da República Checa. Venho de longe. Leste europeu”, ela respondeu. Meu Deus, lembrei-me na hora do meu amigo! “Duda, as mulheres do Leste europeu são sensacionais!” Ela precisava de um guia para lhe apresentar a cidade e eu logo me dispus a desempenhar este papel. Ela adorou. Para impressionar, aluguei um carro com ar-condicionado e fiz um empréstimo no banco para financiar jantares e outros programas bacanas. Contei piadas mais inteligentes (nada de fandangos) e num segundo idioma. Ela ria, estava feliz. Eu ainda mais. Porra, vou comer uma mina do Leste europeu, pensava. Até que ela disparou: “Você é muito divertido. Minha namorada iria adorar você”. E me contou detalhes de sua vida sexual. Era 100% lésbica, não curtia um pinto de jeito nenhum! E eu levei alguns meses para acabar com as minhas dívidas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Experiência única

Dias atrás, uma amiga, sabendo que tenho vivido de frilas, encaminhou à minha caixa de e-mails um anúncio de trabalho, cuja fonte é o blog http://mktcomunicacao.blogspot.com. Não sei se ela esqueceu que fiquei velho ou se quis me sacanear mesmo. Já não tenho mais a disposição dos jovens, embora conserve o bom humor para enfrentar a dureza de nossa profissão.

Reproduzo abaixo o anúncio, inclusive com os erros de Português, com os meus comentários em negrito. Em alguns trechos, o anúncio parece piada pronta e mostra que ser jornalista é viver, muitas vezes, grandes aventuras.


São Paulo/SP - Requisitos:

  • Graduação em jornalismo
  • Experiência em apuração de fatos e redação para web
  • Experiência em cobertura de eventos
  • Inglês fluente
  • Disponibilidade para viajar do dia 16 a 29 de novembro (SP-MG-SP)
  • Ter notebook é imprescindível (Todos os jornalistas, principalmente os mais jovens, têm notebook, com internet wireless.)
  • Espírito aventureiro, disposição, bom humor e gostar de esportes de aventura são diferenciais (Bom humor é diferencial, sim. Só rindo!)
  • Jornalista jovem e com muita disposição para auxiliar na cobertura jornalística online de um evento esportivo de grande porte no cenário internacional.
É necessário disposição e bom humor (Ai, que erro medonho de concordância) para trabalhar de forma ininterrupta (com revezamento nem sempre possível) no evento que ocorrerá durante 10 dias consecutivos. (A expressão “revezamento nem sempre possível” quer dizer que você vai trabalhar 24 horas por dia durante 10 dias!)

O lema do evento, para atletas e staff, é: "durma quando puder, coma quando puder, tome banho quando puder". (Como o lema dos jornalistas é “viva quando puder”, temos tudo a ver com este evento. Aliás, adorei a sinceridade do anúncio! Comer pra quê? Dormir pra quê?) Portanto, aceitamos CVs de profissionais que realmente queiram fazer a narração de 10 dias de competição (com bases móveis, estilo Rally dos Sertões), onde os atletas têm apenas 4 horas de sono obrigatório durante todo o evento. Experiência única. (Realmente tem de querer muito! Adorei também as “4 horas de sono obrigatório”!)

O trabalho é freelancer e oferece:

  • Verba de alimentação (Mas conseguiremos nos alimentar?)
  • Hospedagem durante a viagem para o evento (Mas conseguiremos dormir?)
  • Transporte de ida e volta para o local do evento (cidades históricas de Minas Gerais) (O que não vai faltar é igrejinha para rezarmos por dias melhores.)
  • Valor para 10 dias de cobertura online: R$ 750,00 (Ou R$ 75,00 por dia, o valor de uma boa faxina em São Paulo, com direito a almoço e dispensa às 17 horas para ver as novelas da Globo. Haja bom humor!)

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Eu? Na merda?

Nunca imaginei que iria encontrar Pedro Henrique, jornalista de hábitos refinados e fascinado pelo glamour, na fila da promoção do filme brasileiro do Cinemark a dois míseros Reais.

– E aí, PH, quanto tempo, hein? Pensei que você só ia a óperas...
– Que nada, Duda. Sempre fui um dos maiores apoiadores do cinema nacional.
Fiquei sabendo, por amigos em comum, que o cara tava falido. Não tinha grana nem para a pipoca.

– Como estão as coisas no jornal? Perdi contato com muita gente.
– Não estou mais lá. Decidi sair. Precisava de novos desafios profissionais.
Na verdade, ele tinha sido demitido. Por justa causa.

– E o que anda fazendo?
– Segui o caminho da comunicação corporativa, um sonho antigo.
PH fazia assessoria de imprensa, coisa que sempre detestou.

– Está em alguma agência?
­– Agência? Rapaz, virei um empresário de sucesso. Sou o big boss!
PH tinha uma empresa de um cliente só e nenhum funcionário. Era chefe de si mesmo.

– E teu escritório, onde fica?
– Então, Duda, até pensei em ter um escritório num centro empresarial badalado, mas optei pelo home office, um conceito mais moderno de trabalho.
Mentiroso desgraçado. Não tinha como pagar o aluguel!

­– Pô, PH, a gente precisa se ver mais, trocar umas idéias. Vamos marcar um café.
– Claro, Duda!!! Aliás, eu pago. Fiquei sabendo que você ainda tá desempregado... Bem, a gente se fala.
Até hoje aguardo este maldito café.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Imprensa livre. Pero no mucho

De seu gabinete no Palácio Miraflores, Hugo Chávez liga para o amigo Fidel Castro, em Havana. Chávez está revoltado com as críticas da SIP à Argentina.

– Mestre, você tem acompanhado a pressão daqueles dinossauros da SIP contra nossos irmãos argentinos?

– Aquilo é uma vergonha, Huguito! Só porque Cristina e Néstor criaram uma lei para controlar a mídia.

– Pobre Kirchner! Logo ele, um defensor da democracia, da liberdade de expressão. Enfim, um partidário de nossas idéias.

– Esta SIP só serve aos interesses dos yankees.

– Hoje em dia, os líderes não têm autonomia pra nada. Não se pode mais intervir numa emissora de TV, censurar um jornal, fechar umas rádios...

– Huguito, está cada vez mais difícil atender aos desejos do povo.

– Somos oprimidos pela imprensa do denuncismo! Cagam de medo da revolução bolivariana.

– A coisa tá feia na Bolívia e no Equador também.

– E essa praga de redes sociais? Blog, Twitter e sei lá mais o quê. Pra que tanta informação se já temos a imprensa oficial?

– Coisa de vagabundo, Huguito. Em Havana, tá cheio disso. Não posso nem mais jogar meu dominó em paz!

– São idiotas com mania de liberdade. Não respeitam nem os aposentados!

– E você, Huguito, anda sumido, hein? Venha pra cá tirar outras fotos comigo. Preciso mostrar ao mundo que ainda estou vivo.

– Vou, sim. Ainda nem conheço teu novo agasalho da Puma.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Obrigado, meu povo!

Uma combinação de admiração pelos meus textos e piedade (aliás, mais piedade) foi a resposta do público à questão Você compraria um livro com as histórias do Duda Rangel?, tema da última enquete. As alternativas "Sim, por que não dar uma chance a um pobre jornalista desempregado?" (50%) e "É claro, será um novo clássico da literatura mundial" (46%) quase emplacaram uma vitória unânime do "sim". Com os olhos lacrimijantes, queria agradecer a meus leitores o apoio!

Terminada a pesquisa, um amigo já me perguntou: “E aí, Duda, o que é mais fácil: você publicar o seu livro ou a moça da Uniban sair pelada na Playboy?”. Respondi que, se a oferta financeira da Playboy à moça for razoável (não precisa ser nem boa nem ótima), a segunda opção tem mais chance de virar realidade. Mas confio também no meu taco. Agora, com o apoio popular, sinto-me mais forte para contar minhas aventuras em livro.

Já vou começar a trabalhar duro para lançar o livro em 2010. Prometo não decepcioná-los e prometo também brigar para que a editora (será que alguma vai se interessar pelo meu projeto?) cobre um preço bem popular, afinal o público-alvo é formado basicamente por jornalistas. De repente, posso até pensar numa promoção, do tipo “Compre um livro do Duda e ganhe outros dez para distribuir para os amigos”.

__________________________________________________

A nova pesquisa quer saber quem é o entrevistado ideal para o jornalista que busca uma matéria polêmica. Para responder a esta pergunta, não vale pedir ajuda à produção do programa da Luciana Gimenez, hein? As opções vão de Caetano, especialista em tombos e declarações bombásticas, ao rei Pelé. Entende?

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Jornalismo e cinema – parte 2

Como comentei no post anterior, outro filme de minha lista de preferidos é Lula e Mainardi na Terra Sem Sol, que mostra a saga e os conflitos internos de um humilde sertanejo.

No começo do filme, de inspiração glauberiana, Manuel estupra a cabrita de um poderoso coronel do sertão e, para não ser capado, foge para São Paulo, a Terra da Garoa e das enchentes nas Marginais. Ao chegar à Rodoviária do Tietê, acha um exemplar da Veja esquecido no banheiro. Com a ajuda de um faxineiro, que lê a revista para ele, Manuel conhece o jornalista Diogo Mainardi e seu ódio contra o presidente Lula, nordestino como ele.

Como pode este jornalista insultar alguém tão generoso como o Lula?, pensa Manuel. O sertanejo tem o presidente como um verdadeiro líder messiânico, o homem que operou o milagre do Bolsa Família nos rincões mais pobres do Nordeste. Manuel passa a odiar Mainardi e os demais jornalistas, esse povo do mal.

A grande mudança na história ocorre tempos depois, quando Manuel, ao andar sem rumo pelas ruas de São Paulo, se depara com uma manifestação de jornalistas por salários mais dignos. Percebe que os jornalistas são pessoas tão sofridas e miseráveis quanto a sua gente do sertão. Um detalhe interessante é que, para filmar esta cena, a responsável pelo elenco optou por jornalistas verdadeiros e não atores profissionais. Os “atores sociais”, como ela explicou no making of, têm uma cara de desgraça que funciona melhor no cinema.

Manuel vê que nem todos os jornalistas são arrogantes como imaginava ao conhecer Mainardi. Fica confuso e não entende quem, afinal de contas, representa o Bem e quem representa o Mal neste mundo. No fundo, Manuel quer ser apenas um homem livre, sem tanta gente poderosa a perturbá-lo. Quer viver em paz, com sua rapadura e com Geni, sua cabritinha de estimação.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Jornalismo e cinema

Existem certas obras do cinema a que todo jornalista deveria assistir, como Todos os Homens do Presidente, O Quarto Poder, entre muitas outras. Elas dispensam comentários. Há ainda filmes que, embora não tão famosos quanto os citados, estão na minha lista de preferidos. Um dos mais marcantes é, sem dúvida alguma, Corra que o Passaralho Vem Aí 3, um filme de suspense, com toques de drama.

O filme tem a assinatura de um antigo crítico de cinema que sonhava ser diretor. Após muito tentar, conseguiu. No fundo, todo crítico é um cineasta frustrado. Ele fez uma obra ousada, mas de baixo orçamento, toda ela filmada no corredor de uma redação de jornal. Os personagens interagem basicamente entre si e com uma máquina de café.

O passaralho, para quem não sabe, é o anúncio de corte de empregos. A chegada do passaralho cria um clima natural de tensão. Em meio ao desespero dos jornalistas que caminham para a lama surgem histórias pessoais belíssimas. A seguir, destaco uma das cenas que mais gosto do filme, a terceira, em que três jornalistas conversam ao lado da máquina de café. A partir deste momento toda uma história de angústia começa a se desenvolver.

CENA 3

Jornalista 1 (sujeito em pânico) encontra o jornalista 2 (mais calmo) ao lado da máquina de café. Eles conversam ao mesmo tempo em que preparam o café.

Jornalista 1: Você já está sabendo da última péssima notícia?

Jornalista 2: Cassaram nossa folga de fim de semana?

J-1: Antes fosse isso. Vão cassar os nossos empregos! Ouvi dizer que tem um passaralho novo vindo aí.

J-2: Pois é, eu também ouvi, mas parece que só vão mandar embora os jornalistas que ganham muito bem.

J-1: Pera aí: tem alguém que ganha muito bem nesta redação?

J-2: Ah, deve ter. Sabe os articulistas que ficam o dia inteiro sem fazer porra nenhuma interessante? Devem ganhar uma fortuna!

J-1: Será? Eu tô muito preocupado. Não posso perder meu emprego. Tô cheio de dívidas. Acabei de comprar um carro 1.0 em 72 vezes. (ele coloca um sachê de adoçante no café)

J-2: Café com adoçante? Você só come porcaria, tá gordo pra caralho e acha que este adoçante vai salvar a sua vida? Você já tá condenado, meu amigo. (sorriso sacana)

J-1: Acho que prefiro perder a vida ao emprego. (semblante ainda mais preocupado)

Neste momento, o jornalista 3 (sujeito alarmista) aproxima-se da máquina de café.

Jornalista 3: Caraca, fiquei sabendo que vão mandar 150 jornalistas embora aqui da redação!

J-2: Mas como vão mandar 150 se aqui só há 90 jornalistas?

J-3: Sei lá, é o que estão dizendo por aí...

J-1: Se estão dizendo, é melhor a gente ficar esperto! Ai, acho que tô com taquicardia...

É um filme realmente sensível e emocionante!


No post de sexta-feira, falarei de um outro filme da minha lista de preferidos: Lula e Mainardi na Terra Sem Sol, uma obra de inspiração glauberiana. Extremamente sutil e poético, o filme conta a história de Manuel, um retirante nordestino que chega a São Paulo após cometer um crime no sertão e, por acaso, passa a acompanhar o duelo entre um jornalista reacionário e um presidente populista. Trata-se naturalmente da velha metáfora da luta entre o Bem e o Mal, mas, neste caso, Bem e Mal se misturam, fazendo uma confusão da mulesta na cabeça do pobre sertanejo.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Os 12 trabalhos de Hércules

Hércules da Silva era um jornalista talentoso. Mas sua ascensão profissional despertou a ira de um editor do jornal em que trabalhava, que temia ser substituído pelo jovem. O editor preparou uma macumba das bravas e amaldiçoou sua carreira. Hércules pirou, virou um jornalista sem escrúpulos e foi demitido.

Ao recuperar a razão, estava sem rumo e sem emprego – não era mais aceito em nenhuma redação. Hércules, então, pediu ajuda a um recrutador de talentos, que lhe indicou uma agência de comunicação empresarial. Virou assessor de imprensa. Para reconquistar o prestígio profissional, precisou servir ao seu chefe em 12 árduas tarefas, com dedicação e coragem extremas, como um verdadeiro herói da mitologia grega.

1º Trabalho – Atendeu a seis contas de diferentes segmentos ao mesmo tempo, com a missão de não perder a sanidade mental.

2º Trabalho – Ficou dias inteiros ao telefone, fazendo follow up. Teve de vender pautas a jornalistas sem paciência de ouvi-lo. Resistiu a xingamentos ao ligar no horário do fechamento.

3º Trabalho – Acordou ao longo de meses de madrugada para fazer clipping de jornais e revistas. Privou-se de cafés da manhã.

4º Trabalho – Suportou uma reunião de briefing com o mais chato cliente da agência.

5º Trabalho – Passou quase um ano tentando emplacar um entrevistado que não tinha porra nenhuma de interessante para contar no programa do Jô Soares.

6º Trabalho – Enfrentou um almoço com jornalistas arrogantes, para estreitar relacionamento.

7º Trabalho – Travou uma luta com o gerente de uma conta para justificar por que apenas dois jornalistas tinham ido a uma coletiva de um cliente importante.

8º Trabalho – Convocou uma reunião de urgência com a imprensa, para que um cliente explicasse um escândalo de corrupção sem muita explicação.

9º Trabalho – Precisou convencer um executivo egocêntrico (cliente da agência) a não pedir ao jornalista que o entrevistara para ler a matéria antes de sua publicação.

10º Trabalho – Teve de comprovar o sucesso de uma campanha de imprensa por meio de um banal relatório de centimetragem.

11º Trabalho – Suportou o ataque selvagem de jornalistas ávidos por um jabá, ao desfilar por uma redação com uma sacola cheia de mimos de um de seus clientes.

12º Trabalho – Venceu a revolta de um grupo ensandecido de RPs, contrários à invasão de jornalistas na área deles.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Não deixe a notícia morrer

Um jovem jornalista tem poucas dúvidas em relação à palavra “suíte”. Ele sabe muito bem que se trata do local em que pretende abater alguma moça. Seu único dilema é decidir por uma suíte mais básica ou por uma suíte mais top, com hidromassagem e pista de dança. No jornalismo, “suíte” é algo bem diferente, é muito mais do que um quartinho de motel.

“Suíte” é o desdobramento do fato, o que acontece no dia ou nos dias seguintes à notícia. Muitas histórias começam hoje e, infelizmente, morrem logo depois, porque o jornalista não se preocupou em ir além ou não teve tempo. Ao contrário dos filmes franceses, que têm começo, têm meio, mas não têm fim, a história jornalística precisa de um desfecho.

Muitas notícias acabam numa nota ou num pronunciamento oficial. Um exemplo: policiais torturam e matam um inocente qualquer numa favela qualquer. Então o comandante do batalhão dá uma resposta qualquer à imprensa, diz que vai abrir uma sindicância interna (qualquer) para investigar os fatos. E a história acaba por aí. O jornalista não apura mais nada, nem fica sabendo se a sindicância foi realmente aberta.

Acompanhei histórias que duraram meses. Buscava elementos novos, interessantes. Algumas dessas histórias pareciam os velhos folhetins de jornal. Mas confesso que demorei um pouco para entender a verdadeira importância da suíte no jornalismo.

Quanto às suítes de motel, desde muito jovem nunca tive dúvidas. Um amigo, mais velho, me ensinou em quais ocasiões devemos optar por uma suíte básica e em quais devemos optar por uma suíte top. Tudo depende sempre, dizia ele, da beleza da moça, a famosa relação custo-benefício. Puta canalha!

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Jogo rápido

Um pingue-pongue sobre vida profissional e pessoal com um colega do jornalismo diário.

Um sonho: Escrever a matéria da minha vida, digna de prêmio.
Uma alegria: Chegar em casa tarde e encontrar minha mulher sozinha na cama.
Um medo: Que o editor filho-da-puta cancele minha folga.
Não saberia viver sem: A máquina de café da redação.
Uma mania: Reescrever o título das matérias dez vezes.
O que mais te irrita: Ligação de assessor de imprensa na hora do fechamento.
Uma ambição: Pagar todas as contas até o final do mês.
Uma virtude: A paciência. Há anos espero pelo plano de carreira do jornal.
Um defeito: Às vezes escrevo demais.
Deus: O cara que criou o céu, a terra e as estagiárias.
Diabo: O cara que criou o pescoção.
Um filme: Corra que o passaralho vem aí 3.
Uma música: Forró do Diploma (Você não vale nada, mas eu gosto de você).
Um livro: A Imprensa Livre, do poeta maranhense José Sarney.
Um blog: Desilusões perdidas, do Duda Rangel.
Um ícone da imprensa: Tenho dois: Duda Rangel e Zé Bob.
Família: É a base de tudo, para quem eu sempre peço dinheiro emprestado.
Filhos: Ainda não tive tempo de fazê-los.
A viagem dos sonhos: A que o caderno de Turismo me mandar.
Uma noite inesquecível de sexo: Não me lembro agora.
Uma frase: Em redação de jornalista PJ, quem tem carteira assinada é rei.
Jornalista é: Um louco, apaixonado pela profissão.
Em sua lápide estará escrito: Morreu na merda. Mas feliz.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Quem quer um livro do Duda?

Você compraria um livro com as histórias do Duda Rangel? Sim, você mesmo! Compraria um livro com as histórias deste humilde jornalista? Já há algum tempo, diversos leitores do blog têm sugerido a compilação dos posts do Desilusões perdidas em um livro impresso. Haveria ainda textos inéditos e talvez algum sensacionalismo barato para aumentar as chances de venda.

Eu, que sou um sujeito democrático, resolvi ouvir a voz do povo. Esta é, portanto, a nova enquete, que já está no ar.

Confesso que, desde criança, sonho escrever um livro. Mas nunca me achei um cara capaz. Comecei a rever minha posição depois que a Bruna Surfistinha se tornou um sucesso editorial. Pensei: “Porra, se ela que é puta conseguiu lançar um monte de livros, eu que sou jornalista também consigo. Não acho que as putas sejam melhores ou mais capazes que os jornalistas”. Desde então, passei a confiar mais em meu potencial literário.

Se a idéia do livro vencer a enquete, prometo até fazer um lançamento minimamente decente da obra numa livraria. É claro que será um evento bem modesto, sem o furor e o glamour de um lançamento de livro do Chico Buarque. Não esqueçam que sou um jornalista bem pobre (desculpem a redundância). Mas garanto, ao menos, um prosecco ordinário e baconzitos genéricos. O Nestor poderá estar presente ao evento, desde que prometa, é claro, não fazer xixi na estante de livros de auto-ajuda. Votem em mim!

---------------------------------------------------------------------------------

Atire o primeiro bloquinho de anotações ou gravador o jornalista quem nunca deu uma carteirada na vida. Quem, em seu dia de folga, nunca disse “tô trabalhando, meu amigo, tô trabalhando” com aquela preciosidade plastificada da Fenaj nas mãos? A enquete que acabou de acabar – Qual a prática mais comum adotada por um jornalista para levar vantagem financeira? – teve a vitória da opção “Dar carteirada para entrar em algum evento sem pagar”, com 45% dos votos. A alternativa “Ir a uma boca-livre para economizar a grana do almoço (do jantar, café da manhã)” ficou em segundo, com 33%.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Jornalista, um caso clínico

Por não ter uma vida saudável, o jornalista fica mais vulnerável a doenças. Algumas são típicas da profissão. Patologias que derrubam, principalmente, os colegas de hard news, incapazes de criar anticorpos para combater a rotina maluca de trabalho.

Ricardite crônica ou Mal de Euclides da Cunha

Esta enfermidade afeta jornalistas que viajam muito, fazem plantões de fim de semana ou pescoção até a alta madrugada. As vítimas costumam reclamar de dores fortes na cabeça. Em estágios avançados da doença, alguns relatam casos de alucinações, sobretudo quando chegam em casa mais cedo. Um jornalista afirmou ter notado sapatos desconhecidos em seu quarto. Outro garantiu ter visto o vizinho em sua cama, ao lado de sua mulher. A desinformação aumenta os casos da doença, afinal a vítima é sempre a última a saber o que acontece em sua casa.

Estrelíase aguda ou Síndrome de Bozó

Este mal, de raiz egocêntrica, ataca jornalistas que trabalham em TV, em especial em grandes emissoras. São pessoas que passaram do anonimato à fama de forma rápida e ainda não conseguiram controlar as altas taxas de estrelismo no sangue. O nariz de quem é acometido pela patologia tende a ficar um pouco arrebitado. Mas o sintoma mais claro que o jornalista está doente é quando ele sai bradando a todos os cantos que é o fodão, que tem acesso a qualquer entrevistado, um puta salário e o escambau. Em casos mais graves, o paciente vive o dia inteiro com o crachá da emissora pendurado no pescoço.

Distúrbio da Sociabilidade Reprimida

Espécie de fobia social, atinge jornalistas que, por trabalharem muito, só conseguem se relacionar com outros jornalistas. Eles não têm tempo livre para interagir com seres humanos de outras profissões. Vivem em guetos. São neuróticos. Andam com o celular ligado 24 horas por dia. Só pensam em trabalho. Nos raros momentos de folga, entram em pânico quando se encontram fora de seu hábitat natural de lazer, o bar próximo à redação onde trabalham. Há relatos de um jornalista que, na cama de um motel com uma dentista gostosa pra cacete, teve uma crise de choro na hora H, pois precisava acabar uma matéria para o dia seguinte.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Mardita calabresa!

Um esporte bastante praticado pelos jornalistas é a "corrida atrás de emprego". Para quem trabalha, é o "triatlo de redação", modalidade de resistência em que o repórter apura a matéria pela manhã, vira redator à tarde e ajuda no fechamento à noite. Mas, no geral, nossa vidinha é bem sedentária. Recente pesquisa nacional do Comunique-se mostrou que apenas 3 em cada 10 profissionais da área cuidam do corpo de forma adequada.

Jornalistas, em sua maioria, preferem atividades intelectuais, como o debate de idéias num boteco, com cigarro, cerveja e uma porção de calabresa acebolada. Tudo muito saudável. Eu faço parte desta turma de malhação. Sempre tive uma vida desregrada e detestei academia - jornalista está acostumado a levar ferro e não a puxar ferro. Hoje, tenho o corpo todo definido. Defini que é esta merda mesmo e ponto final.

Não tomo Herbalife, nem sou adepto de nenhuma dieta de chá colorido. Sigo a Dieta do Desempregado. Como não tenho dinheiro para ir ao mercado, minha geladeira vive vazia. Logo, estou comendo menos. Quando trabalhava, eu seguia a Dieta da Coxinha, minha companheira de muitos almoços.

Existem, porém, alguns poucos jornalistas preocupados com o corpo e, principalmente, com a saúde. Conheci um novato em Esportes, que, de tão hipocondríaco, decidiu procurar um especialista em distúrbios do sono depois de uma noite em claro em seu primeiro pescoção. Tinha um outro, repórter de Cultura, que fazia exame da próstata desde os 20 anos, quando o ideal é começar só depois dos 40. Ele dizia que era um cara prevenido, que se sentia protegido ao lado de um urologista de confiança e coisa e tal. Me engana que eu gosto.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O jornalista PJ

Direito trabalhista é uma coisa que todo jornalista já ouviu falar, mas não lembra exatamente o que é. É algo distante, que escapa à memória. É como um velhinho de 90 anos tentando resgatar o significado da palavra “sexo”. Ele só sabe que era bom.

Assim como os velhinhos desaprenderam a trepar, os jornalistas desaprenderam a ter FGTS, 13º salário, férias remuneradas. Vivemos a ditadura da “pessoa jurídica”. FGTS virou um artigo de luxo. E o pior de tudo é que, com um índice de desemprego tão alto, feliz é o jornalista que consegue, ao menos, emitir uma nota fiscal no fim do mês.

Eu só lembro que existe o tal direito trabalhista em tempos de eleição. Ligo a televisão e, no horário eleitoral gratuito, vejo o Campos Machado (ai, credo) e outras figuras nada agradáveis do PTB evocando Getúlio Vargas e todas as conquistas trabalhistas de décadas passadas. “Se você, meu caro eleitor, tem hoje um 13º salário, é graças ao PTB”, explica o Campos Machado. E quem disse, seu desgraçado, que eu tenho 13º salário?

Há redações e agências inteiras dominadas pelas pessoas jurídicas. Se você ainda não é um jornalista PJ, meu amigo, tudo é uma questão de tempo. Uma dica para estes felizardos que ainda têm carteira assinada é jamais pedir um aumento salarial ao chefe. Se o chefe for o dono da empresa, pior ainda. É grande a chance de ele lhe responder: “Eu até posso aumentar o seu salário, mas você terá de emitir nota. Aliás, ótima idéia! Você terá seu aumento merecido e, a partir de agora, trabalhará como PJ. Estes encargos trabalhistas ainda levarão a empresa à falência. Neste país ninguém tem compaixão pelos empresários.

Então, só lhe restará procurar um contador de sua confiança.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O post dos porquês

Por que o Globo Repórter só fala de bicho e de cuidados com a saúde? Por que a Camila Morgado não estudou mais para fazer uma jornalista mais convincente na novela das oito? Por que o piso salarial do jornalista é muito mais piso do que o piso de várias outras profissões? Por que o jornal de domingo tem mais anúncio de empreendimento imobiliário do que notícia interessante? Por que pauteiros e assessores de imprensa nunca se entendem direito? Por que a cobertura da Semana Santa, do Natal, do Dias das Mães é todo ano igual? Por que as faculdades de jornalismo são, em sua maioria, tão ruins? Por que o Diogo Mainardi não vira correspondente no Afeganistão? Por que só existem as “moças do tempo” e nunca “os moços do tempo” nos telejornais? Por que o César Tralli chega sempre antes? Por que o faro jornalístico e a investigação sucumbiram ao Google? Por que o jornal de ontem causa tanta repugnância? Por que o Márcio Canuto berra no microfone? Por que grande parte dos jovens jornalistas odeia ler jornais e revistas? Por que as legendas das fotos da Folha de S.Paulo são tão óbvias? Por que o Amaury Jr. cobra tão caro por uma entrevista? Por que quando a pessoa nasce Deus tem de perguntar se ela quer ser jornalista ou ganhar muito dinheiro na vida? Por que os jornalistas têm tantas ilusões? Por que os jornalistas não sabem lidar com as suas desilusões?

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A mala do Comercial

Edgar é gerente de Comunicação de uma empresa de aromatizantes, também utilizados em preservativos masculinos. Ele detesta os “contatos publicitários” de revistas segmentadas, "predadores que adoram marcar um cafezinho e fazer ligações inconvenientes", segundo ele.

– Edgar?

– Sim.

– Oi, querido. É Vandinha, da Sexo & Saúde.

– Sim.

– Tenho uma proposta irrecusável.

– Sei.

– Vamos lançar uma edição especial dos 20 anos das Camisinhas Long Dong.

– E?

– E vocês, como parceiros de negócios, têm de fazer um anúncio de homenagem.

– Não tenho verba.

– Vocês vão ganhar uma matéria na página ao lado. É só enviar um release pra gente. Vai ser uma edição show.

– Meu orçamento já estourou.

– Meu amor, todos os grandes fornecedores da Long Dong já anunciaram. Vocês não podem ficar de fora.

– Anunciamos em outras publicações.

– Mas há quatros meses não fecham nada com a gente.

– Há muito tempo não sai nada de nós na revista.

– Ah, querido, é que nosso jornalista é um garoto novo, que acabou de entrar na editora. Vou dar um puxão de orelhas nele (riso sarcástico).

– Bom, de qualquer forma, agora não tenho como anunciar.

– Estamos com uma tabela promocional. São só 10 mil reais pela página inteira.

– 10 mil reais???

– É uma edição especial.

– Impossível!

– Vocês merecem um espaço de destaque.

– Não dá!

– OK, lindo, pra você eu fecho por 2 mil e quinhentos.

Alguns segundos de silêncio.

– Tá bom, tá bom, eu fecho o anúncio (de saco cheio).

– Que ótimo! Eu sabia que você ia aceitar...

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

A boa vida do vestibulando de jornalismo

Dia de vestibular é um martírio para muitos estudantes. Jovens enfrentam momentos de angústia. São acometidos por um mal-estar de grandes proporções, o tal cagaço. Estão cheios de dúvidas. Será que deixei de estudar alguma coisa? A que horas devo chegar ao local da prova? Já vou comido? Uso roupas leves? Será que não esqueci nada? Documentos? Caneta? O amuleto da sorte? A cola? Em comparação com estudantes de outras áreas, o vestibulando de jornalismo tem até algumas vantagens. Abaixo, veja três bons motivos para fazer uma prova tranqüila:

1) Você, que quer estudar jornalismo, não vai encontrar um monte de japonês debruçado sobre as folhas da prova, comum nos cursos de Medicina e Mecatrônica. Você não terá a desagradável sensação de ser devorado por um CDF que passou o ano inteiro estudando enquanto você estava bebendo com os amigos ou no Orkut. No dia da prova, nada pior do que ver um cara respondendo a todas as questões freneticamente enquanto você luta para vencer aquele “branco” que te deixou imóvel, com o olhar perdido no teto e a caneta na mão.

2) Para os homens, além de não topar com um CDF, há uma grande chance de você encontrar ao seu lado "a gostosa", tipo modelo e atriz, que sonha fazer jornalismo para ser apresentadora de TV e ficar famosa. São meninas que, no dia do vestibular, costumam se vestir de forma bem confortável, com shortinho e um top que deixa à mostra a barriguinha sarada com um piercing no umbigo. Só de imaginar que essa moça pode ser sua companheira de classe fará você relaxar (mas sem gozar). Alerta: cuidado para não perder muito a concentração e fazer um monte de merda no teste.

3) Com o fim da obrigatoriedade do diploma, a tendência é por um menor interesse pela carreira de jornalista. Na USP, por exemplo, jornalismo é hoje o sexto curso mais procurado; em 2008, era o primeiro. Ou seja, “com menas concorrência”, como diria o presidente Lula, você tem mais chances de entrar em uma universidade do Estado. Não precisaria, assim, vender rifas ou pedaços de bolo para pagar uma faculdade privada. Pra que gastar grana para comprar um diploma que não tem mais valor se você pode fazer o mesmo com o dinheiro público?

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Mainardi x Galvão: briga de cachorro grande

Bem, amigos do Desilusões perdidas. Diogo Mainardi, com seu estilo pitbull egocêntrico, superou Galvão Bueno no quesito "figura mais insuportável da imprensa brasileira". Na última enquete deste blog, o colunista da revista Veja ficou com 31% da escolha dos leitores contra 27% do narrador global, famoso por falar tantas abobrinhas. Vale lembrar que, além da dupla, havia mais seis concorrentes na disputa.

A briga foi acirradíssima, voto a voto, praticamente um empate técnico, afinal Galvão Bueno, o homem que comparou o cérebro humano a uma caixa de catupiry, é quase imbatível em chatice. Mas Mainardi, jornalista obstinado em derrubar o presidente e satanizar seus rivais, venceu, não escapando dos clicks furiosos de muitos internautas.

Da chatice passamos para questões de sobrevivência. A próxima pesquisa deseja saber qual é a prática mais comum adotada pelo jornalista para levar algum tipo de vantagem financeira. Nessas horas, vale tudo, de carteirada à decisão de se filiar ao sindicato da categoria para conseguir um plano de saúde de graça. O negócio é se dar bem! Vamos aos votos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Bloquinho ou gravador?

Quando a gente fica velho, vez ou outra se pergunta como pôde ter sentido, na juventude, tanto medo idiota por coisas banais. Simplesmente porque, na ocasião, certas coisas não eram tão banais assim. Hoje, eu rio disso tudo. Talvez esta seja uma das vantagens de ficar velho: rir dos medos idiotas da juventude.

Era a tão esperada e temida véspera. Na manhã seguinte, eu, um pobre estudante de jornalismo, faria a minha primeira reportagem, para o modesto jornal da faculdade. As vésperas sempre me deixavam ansioso. Era assim desde os tempos de criança, quando eu assistia à missa do galo na tevê esperando o Natal chegar. Naquela noite, além de ansioso, eu estava tenso, com um medo danado de fazer merda. Minha mente viajava...

Não posso esquecer de pegar mais de uma caneta! Na hora H, a caneta sempre falha e a gente fica com cara de bobo. Então o entrevistado dá risada do foca atrapalhado. Isso não pode acontecer! E será que eu levo só um bloquinho de anotações ou um gravador também? Um jornalista experiente me disse, certa vez, que o bloquinho é melhor, porque faz a gente prestar mais atenção nas palavras do entrevistado, consegue captar a essência da matéria. É isso, vou levar só o bloquinho. E se eu não entender a minha letra no bloquinho? Minha caligrafia é péssima! Está decidido: vou levar o gravador. Mas peraí: será que não vou acabar dependente de uma máquina, de um gravador? Meu Deus, tenho de aprender a fazer uma letra mais decente. É, vou levar só o bloquinho. Mas, e se o entrevistado disser que eu escrevi várias mentiras, que ele não disse nada daquilo que está no texto e resolver me processar? Com o gravador, posso provar que ele disse tudo aquilo, sim! E agora?

Resolvi levar o bloquinho e o gravador. Só para garantir. A minha única (e grande) mancada foi esquecer de verificar se as pilhas estavam no gravador. Na hora H, o negócio não funcionou. O entrevistado caiu na gargalhada. Puta sacanagem com um foca atrapalhado. Então eu usei só o bloquinho. Minha letra ficou, naturalmente, horrível, mas aprendi que é bem melhor mesmo prestar atenção nas palavras, captar a tal essência.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

As lambanças do caso Letterman

Já imaginaram se nos meios de comunicação do Brasil funcionários descontentes com o trabalho ou atolados em dívidas decidissem chantagear os figurões da empresa com a ameaça de revelar suas peripécias sexuais fora do casamento? Haveria muita gente borrando as calças de medo. Nos Estados Unidos, um caso ganhou repercussão mundial: a extorsão a David Letterman, apresentador do programa de entrevistas “Late Show”, da CBS.

A história ainda está muito estranha. O acusado da chantagem é o jornalista Robert Halderman, um produtor de 51 anos, 27 deles dedicados à emissora de TV. Halderman teria pedido um cheque de US$ 2 milhões a Letterman, que é casado, para não tornar público um caso do apresentador com Stephanie Birkitt, de 34 anos, sua ex-mulher e antiga colega de trabalho de Letterman. Como um cidadão exige o pagamento por um crime em cheque? Nem os chantagistas portugueses cometeriam tal deslize.

Halderman teria usado o diário de Stephanie como “prova do crime”. Não entendo também por que uma mulher casada, de mais de 30 anos, escreve todas suas traquinagens extraconjugais num diário, como uma adolescente apaixonada. Se não estava mal-intencionada, deve ser muito burra.

A lambança final foi de Letterman, que, durante seu programa, confessou ser vítima de extorsão e de já ter tido algumas aventuras sexuais com moçoilas de sua equipe, sem citar nomes. Por mais nobre que tenha sido o ato, em tom de arrependimento, a confissão causou desconforto entre as jovens, algumas delas casadas. Todos querem saber agora quem foram as outras amantes do velhinho tarado.

No meu caso, a vantagem de ser apenas um jornalista latino-americano sem dinheiro no banco é talvez nunca correr o risco de sofrer este tipo de extorsão. Até porque nenhuma jovem ambiciosa vai se interessar por um cara sem pistolão.