quarta-feira, 11 de novembro de 2009
Jornalismo e cinema
O filme tem a assinatura de um antigo crítico de cinema que sonhava ser diretor. Após muito tentar, conseguiu. No fundo, todo crítico é um cineasta frustrado. Ele fez uma obra ousada, mas de baixo orçamento, toda ela filmada no corredor de uma redação de jornal. Os personagens interagem basicamente entre si e com uma máquina de café.
O passaralho, para quem não sabe, é o anúncio de corte de empregos. A chegada do passaralho cria um clima natural de tensão. Em meio ao desespero dos jornalistas que caminham para a lama surgem histórias pessoais belíssimas. A seguir, destaco uma das cenas que mais gosto do filme, a terceira, em que três jornalistas conversam ao lado da máquina de café. A partir deste momento toda uma história de angústia começa a se desenvolver.
CENA 3
Jornalista 1 (sujeito em pânico) encontra o jornalista 2 (mais calmo) ao lado da máquina de café. Eles conversam ao mesmo tempo em que preparam o café.
Jornalista 1: Você já está sabendo da última péssima notícia?
Jornalista 2: Cassaram nossa folga de fim de semana?
J-1: Antes fosse isso. Vão cassar os nossos empregos! Ouvi dizer que tem um passaralho novo vindo aí.
J-2: Pois é, eu também ouvi, mas parece que só vão mandar embora os jornalistas que ganham muito bem.
J-1: Pera aí: tem alguém que ganha muito bem nesta redação?
J-2: Ah, deve ter. Sabe os articulistas que ficam o dia inteiro sem fazer porra nenhuma interessante? Devem ganhar uma fortuna!
J-1: Será? Eu tô muito preocupado. Não posso perder meu emprego. Tô cheio de dívidas. Acabei de comprar um carro 1.0 em 72 vezes. (ele coloca um sachê de adoçante no café)
J-2: Café com adoçante? Você só come porcaria, tá gordo pra caralho e acha que este adoçante vai salvar a sua vida? Você já tá condenado, meu amigo. (sorriso sacana)
J-1: Acho que prefiro perder a vida ao emprego. (semblante ainda mais preocupado)
Neste momento, o jornalista 3 (sujeito alarmista) aproxima-se da máquina de café.
Jornalista 3: Caraca, fiquei sabendo que vão mandar 150 jornalistas embora aqui da redação!
J-2: Mas como vão mandar 150 se aqui só há 90 jornalistas?
J-3: Sei lá, é o que estão dizendo por aí...
J-1: Se estão dizendo, é melhor a gente ficar esperto! Ai, acho que tô com taquicardia...
É um filme realmente sensível e emocionante!
No post de sexta-feira, falarei de um outro filme da minha lista de preferidos: Lula e Mainardi na Terra Sem Sol, uma obra de inspiração glauberiana. Extremamente sutil e poético, o filme conta a história de Manuel, um retirante nordestino que chega a São Paulo após cometer um crime no sertão e, por acaso, passa a acompanhar o duelo entre um jornalista reacionário e um presidente populista. Trata-se naturalmente da velha metáfora da luta entre o Bem e o Mal, mas, neste caso, Bem e Mal se misturam, fazendo uma confusão da mulesta na cabeça do pobre sertanejo.
segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Os 12 trabalhos de Hércules
Ao recuperar a razão, estava sem rumo e sem emprego – não era mais aceito em nenhuma redação. Hércules, então, pediu ajuda a um recrutador de talentos, que lhe indicou uma agência de comunicação empresarial. Virou assessor de imprensa. Para reconquistar o prestígio profissional, precisou servir ao seu chefe em 12 árduas tarefas, com dedicação e coragem extremas, como um verdadeiro herói da mitologia grega.
1º Trabalho – Atendeu a seis contas de diferentes segmentos ao mesmo tempo, com a missão de não perder a sanidade mental.
2º Trabalho – Ficou dias inteiros ao telefone, fazendo follow up. Teve de vender pautas a jornalistas sem paciência de ouvi-lo. Resistiu a xingamentos ao ligar no horário do fechamento.
3º Trabalho – Acordou ao longo de meses de madrugada para fazer clipping de jornais e revistas. Privou-se de cafés da manhã.
4º Trabalho – Suportou uma reunião de briefing com o mais chato cliente da agência.
5º Trabalho – Passou quase um ano tentando emplacar um entrevistado que não tinha porra nenhuma de interessante para contar no programa do Jô Soares.
6º Trabalho – Enfrentou um almoço com jornalistas arrogantes, para estreitar relacionamento.
7º Trabalho – Travou uma luta com o gerente de uma conta para justificar por que apenas dois jornalistas tinham ido a uma coletiva de um cliente importante.
8º Trabalho – Convocou uma reunião de urgência com a imprensa, para que um cliente explicasse um escândalo de corrupção sem muita explicação.
9º Trabalho – Precisou convencer um executivo egocêntrico (cliente da agência) a não pedir ao jornalista que o entrevistara para ler a matéria antes de sua publicação.
10º Trabalho – Teve de comprovar o sucesso de uma campanha de imprensa por meio de um banal relatório de centimetragem.
11º Trabalho – Suportou o ataque selvagem de jornalistas ávidos por um jabá, ao desfilar por uma redação com uma sacola cheia de mimos de um de seus clientes.
12º Trabalho – Venceu a revolta de um grupo ensandecido de RPs, contrários à invasão de jornalistas na área deles.
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Não deixe a notícia morrer
“Suíte” é o desdobramento do fato, o que acontece no dia ou nos dias seguintes à notícia. Muitas histórias começam hoje e, infelizmente, morrem logo depois, porque o jornalista não se preocupou em ir além ou não teve tempo. Ao contrário dos filmes franceses, que têm começo, têm meio, mas não têm fim, a história jornalística precisa de um desfecho.
Muitas notícias acabam numa nota ou num pronunciamento oficial. Um exemplo: policiais torturam e matam um inocente qualquer numa favela qualquer. Então o comandante do batalhão dá uma resposta qualquer à imprensa, diz que vai abrir uma sindicância interna (qualquer) para investigar os fatos. E a história acaba por aí. O jornalista não apura mais nada, nem fica sabendo se a sindicância foi realmente aberta.
Acompanhei histórias que duraram meses. Buscava elementos novos, interessantes. Algumas dessas histórias pareciam os velhos folhetins de jornal. Mas confesso que demorei um pouco para entender a verdadeira importância da suíte no jornalismo.
Quanto às suítes de motel, desde muito jovem nunca tive dúvidas. Um amigo, mais velho, me ensinou em quais ocasiões devemos optar por uma suíte básica e em quais devemos optar por uma suíte top. Tudo depende sempre, dizia ele, da beleza da moça, a famosa relação custo-benefício. Puta canalha!
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Jogo rápido
Um sonho: Escrever a matéria da minha vida, digna de prêmio.
Uma alegria: Chegar em casa tarde e encontrar minha mulher sozinha na cama.
Um medo: Que o editor filho-da-puta cancele minha folga.
Não saberia viver sem: A máquina de café da redação.
Uma mania: Reescrever o título das matérias dez vezes.
O que mais te irrita: Ligação de assessor de imprensa na hora do fechamento.
Uma ambição: Pagar todas as contas até o final do mês.
Uma virtude: A paciência. Há anos espero pelo plano de carreira do jornal.
Um defeito: Às vezes escrevo demais.
Deus: O cara que criou o céu, a terra e as estagiárias.
Diabo: O cara que criou o pescoção.
Um filme: Corra que o passaralho vem aí 3.
Uma música: Forró do Diploma (Você não vale nada, mas eu gosto de você).
Um livro: A Imprensa Livre, do poeta maranhense José Sarney.
Um blog: Desilusões perdidas, do Duda Rangel.
Um ícone da imprensa: Tenho dois: Duda Rangel e Zé Bob.
Família: É a base de tudo, para quem eu sempre peço dinheiro emprestado.
Filhos: Ainda não tive tempo de fazê-los.
A viagem dos sonhos: A que o caderno de Turismo me mandar.
Uma noite inesquecível de sexo: Não me lembro agora.
Uma frase: Em redação de jornalista PJ, quem tem carteira assinada é rei.
Jornalista é: Um louco, apaixonado pela profissão.
Em sua lápide estará escrito: Morreu na merda. Mas feliz.
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
Quem quer um livro do Duda?
Eu, que sou um sujeito democrático, resolvi ouvir a voz do povo. Esta é, portanto, a nova enquete, que já está no ar.
Confesso que, desde criança, sonho escrever um livro. Mas nunca me achei um cara capaz. Comecei a rever minha posição depois que a Bruna Surfistinha se tornou um sucesso editorial. Pensei: “Porra, se ela que é puta conseguiu lançar um monte de livros, eu que sou jornalista também consigo. Não acho que as putas sejam melhores ou mais capazes que os jornalistas”. Desde então, passei a confiar mais em meu potencial literário.
Se a idéia do livro vencer a enquete, prometo até fazer um lançamento minimamente decente da obra numa livraria. É claro que será um evento bem modesto, sem o furor e o glamour de um lançamento de livro do Chico Buarque. Não esqueçam que sou um jornalista bem pobre (desculpem a redundância). Mas garanto, ao menos, um prosecco ordinário e baconzitos genéricos. O Nestor poderá estar presente ao evento, desde que prometa, é claro, não fazer xixi na estante de livros de auto-ajuda. Votem em mim!
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Atire o primeiro bloquinho de anotações ou gravador o jornalista quem nunca deu uma carteirada na vida. Quem, em seu dia de folga, nunca disse “tô trabalhando, meu amigo, tô trabalhando” com aquela preciosidade plastificada da Fenaj nas mãos? A enquete que acabou de acabar – Qual a prática mais comum adotada por um jornalista para levar vantagem financeira? – teve a vitória da opção “Dar carteirada para entrar em algum evento sem pagar”, com 45% dos votos. A alternativa “Ir a uma boca-livre para economizar a grana do almoço (do jantar, café da manhã)” ficou em segundo, com 33%.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Jornalista, um caso clínico
Ricardite crônica ou Mal de Euclides da Cunha
Esta enfermidade afeta jornalistas que viajam muito, fazem plantões de fim de semana ou pescoção até a alta madrugada. As vítimas costumam reclamar de dores fortes na cabeça. Em estágios avançados da doença, alguns relatam casos de alucinações, sobretudo quando chegam em casa mais cedo. Um jornalista afirmou ter notado sapatos desconhecidos em seu quarto. Outro garantiu ter visto o vizinho em sua cama, ao lado de sua mulher. A desinformação aumenta os casos da doença, afinal a vítima é sempre a última a saber o que acontece em sua casa.
Estrelíase aguda ou Síndrome de Bozó
Este mal, de raiz egocêntrica, ataca jornalistas que trabalham em TV, em especial em grandes emissoras. São pessoas que passaram do anonimato à fama de forma rápida e ainda não conseguiram controlar as altas taxas de estrelismo no sangue. O nariz de quem é acometido pela patologia tende a ficar um pouco arrebitado. Mas o sintoma mais claro que o jornalista está doente é quando ele sai bradando a todos os cantos que é o fodão, que tem acesso a qualquer entrevistado, um puta salário e o escambau. Em casos mais graves, o paciente vive o dia inteiro com o crachá da emissora pendurado no pescoço.
Distúrbio da Sociabilidade Reprimida
Espécie de fobia social, atinge jornalistas que, por trabalharem muito, só conseguem se relacionar com outros jornalistas. Eles não têm tempo livre para interagir com seres humanos de outras profissões. Vivem em guetos. São neuróticos. Andam com o celular ligado 24 horas por dia. Só pensam em trabalho. Nos raros momentos de folga, entram em pânico quando se encontram fora de seu hábitat natural de lazer, o bar próximo à redação onde trabalham. Há relatos de um jornalista que, na cama de um motel com uma dentista gostosa pra cacete, teve uma crise de choro na hora H, pois precisava acabar uma matéria para o dia seguinte.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Mardita calabresa!
Jornalistas, em sua maioria, preferem atividades intelectuais, como o debate de idéias num boteco, com cigarro, cerveja e uma porção de calabresa acebolada. Tudo muito saudável. Eu faço parte desta turma de malhação. Sempre tive uma vida desregrada e detestei academia - jornalista está acostumado a levar ferro e não a puxar ferro. Hoje, tenho o corpo todo definido. Defini que é esta merda mesmo e ponto final.
Não tomo Herbalife, nem sou adepto de nenhuma dieta de chá colorido. Sigo a Dieta do Desempregado. Como não tenho dinheiro para ir ao mercado, minha geladeira vive vazia. Logo, estou comendo menos. Quando trabalhava, eu seguia a Dieta da Coxinha, minha companheira de muitos almoços.
Existem, porém, alguns poucos jornalistas preocupados com o corpo e, principalmente, com a saúde. Conheci um novato em Esportes, que, de tão hipocondríaco, decidiu procurar um especialista em distúrbios do sono depois de uma noite em claro em seu primeiro pescoção. Tinha um outro, repórter de Cultura, que fazia exame da próstata desde os 20 anos, quando o ideal é começar só depois dos 40. Ele dizia que era um cara prevenido, que se sentia protegido ao lado de um urologista de confiança e coisa e tal. Me engana que eu gosto.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
O jornalista PJ
Assim como os velhinhos desaprenderam a trepar, os jornalistas desaprenderam a ter FGTS, 13º salário, férias remuneradas. Vivemos a ditadura da “pessoa jurídica”. FGTS virou um artigo de luxo. E o pior de tudo é que, com um índice de desemprego tão alto, feliz é o jornalista que consegue, ao menos, emitir uma nota fiscal no fim do mês.
Eu só lembro que existe o tal direito trabalhista em tempos de eleição. Ligo a televisão e, no horário eleitoral gratuito, vejo o Campos Machado (ai, credo) e outras figuras nada agradáveis do PTB evocando Getúlio Vargas e todas as conquistas trabalhistas de décadas passadas. “Se você, meu caro eleitor, tem hoje um 13º salário, é graças ao PTB”, explica o Campos Machado. E quem disse, seu desgraçado, que eu tenho 13º salário?
Há redações e agências inteiras dominadas pelas pessoas jurídicas. Se você ainda não é um jornalista PJ, meu amigo, tudo é uma questão de tempo. Uma dica para estes felizardos que ainda têm carteira assinada é jamais pedir um aumento salarial ao chefe. Se o chefe for o dono da empresa, pior ainda. É grande a chance de ele lhe responder: “Eu até posso aumentar o seu salário, mas você terá de emitir nota. Aliás, ótima idéia! Você terá seu aumento merecido e, a partir de agora, trabalhará como PJ. Estes encargos trabalhistas ainda levarão a empresa à falência. Neste país ninguém tem compaixão pelos empresários.”
Então, só lhe restará procurar um contador de sua confiança.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
O post dos porquês
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
A mala do Comercial
– Edgar?
– Sim.
– Oi, querido. É Vandinha, da Sexo & Saúde.
– Sim.
– Tenho uma proposta irrecusável.
– Sei.
– Vamos lançar uma edição especial dos 20 anos das Camisinhas Long Dong.
– E?
– E vocês, como parceiros de negócios, têm de fazer um anúncio de homenagem.
– Não tenho verba.
– Vocês vão ganhar uma matéria na página ao lado. É só enviar um release pra gente. Vai ser uma edição show.
– Meu orçamento já estourou.
– Meu amor, todos os grandes fornecedores da Long Dong já anunciaram. Vocês não podem ficar de fora.
– Anunciamos em outras publicações.
– Mas há quatros meses não fecham nada com a gente.
– Há muito tempo não sai nada de nós na revista.
– Ah, querido, é que nosso jornalista é um garoto novo, que acabou de entrar na editora. Vou dar um puxão de orelhas nele (riso sarcástico).
– Bom, de qualquer forma, agora não tenho como anunciar.
– Estamos com uma tabela promocional. São só 10 mil reais pela página inteira.
– 10 mil reais???
– É uma edição especial.
– Impossível!
– Vocês merecem um espaço de destaque.
– Não dá!
– OK, lindo, pra você eu fecho por 2 mil e quinhentos.
Alguns segundos de silêncio.
– Tá bom, tá bom, eu fecho o anúncio (de saco cheio).
– Que ótimo! Eu sabia que você ia aceitar...
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
A boa vida do vestibulando de jornalismo
1) Você, que quer estudar jornalismo, não vai encontrar um monte de japonês debruçado sobre as folhas da prova, comum nos cursos de Medicina e Mecatrônica. Você não terá a desagradável sensação de ser devorado por um CDF que passou o ano inteiro estudando enquanto você estava bebendo com os amigos ou no Orkut. No dia da prova, nada pior do que ver um cara respondendo a todas as questões freneticamente enquanto você luta para vencer aquele “branco” que te deixou imóvel, com o olhar perdido no teto e a caneta na mão.
2) Para os homens, além de não topar com um CDF, há uma grande chance de você encontrar ao seu lado "a gostosa", tipo modelo e atriz, que sonha fazer jornalismo para ser apresentadora de TV e ficar famosa. São meninas que, no dia do vestibular, costumam se vestir de forma bem confortável, com shortinho e um top que deixa à mostra a barriguinha sarada com um piercing no umbigo. Só de imaginar que essa moça pode ser sua companheira de classe fará você relaxar (mas sem gozar). Alerta: cuidado para não perder muito a concentração e fazer um monte de merda no teste.
3) Com o fim da obrigatoriedade do diploma, a tendência é por um menor interesse pela carreira de jornalista. Na USP, por exemplo, jornalismo é hoje o sexto curso mais procurado; em 2008, era o primeiro. Ou seja, “com menas concorrência”, como diria o presidente Lula, você tem mais chances de entrar em uma universidade do Estado. Não precisaria, assim, vender rifas ou pedaços de bolo para pagar uma faculdade privada. Pra que gastar grana para comprar um diploma que não tem mais valor se você pode fazer o mesmo com o dinheiro público?
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Mainardi x Galvão: briga de cachorro grande
Bem, amigos do Desilusões perdidas. Diogo Mainardi, com seu estilo pitbull egocêntrico, superou Galvão Bueno no quesito "figura mais insuportável da imprensa brasileira". Na última enquete deste blog, o colunista da revista Veja ficou com 31% da escolha dos leitores contra 27% do narrador global, famoso por falar tantas abobrinhas. Vale lembrar que, além da dupla, havia mais seis concorrentes na disputa.
A briga foi acirradíssima, voto a voto, praticamente um empate técnico, afinal Galvão Bueno, o homem que comparou o cérebro humano a uma caixa de catupiry, é quase imbatível em chatice. Mas Mainardi, jornalista obstinado em derrubar o presidente e satanizar seus rivais, venceu, não escapando dos clicks furiosos de muitos internautas.
Da chatice passamos para questões de sobrevivência. A próxima pesquisa deseja saber qual é a prática mais comum adotada pelo jornalista para levar algum tipo de vantagem financeira. Nessas horas, vale tudo, de carteirada à decisão de se filiar ao sindicato da categoria para conseguir um plano de saúde de graça. O negócio é se dar bem! Vamos aos votos.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Bloquinho ou gravador?
Era a tão esperada e temida véspera. Na manhã seguinte, eu, um pobre estudante de jornalismo, faria a minha primeira reportagem, para o modesto jornal da faculdade. As vésperas sempre me deixavam ansioso. Era assim desde os tempos de criança, quando eu assistia à missa do galo na tevê esperando o Natal chegar. Naquela noite, além de ansioso, eu estava tenso, com um medo danado de fazer merda. Minha mente viajava...
Não posso esquecer de pegar mais de uma caneta! Na hora H, a caneta sempre falha e a gente fica com cara de bobo. Então o entrevistado dá risada do foca atrapalhado. Isso não pode acontecer! E será que eu levo só um bloquinho de anotações ou um gravador também? Um jornalista experiente me disse, certa vez, que o bloquinho é melhor, porque faz a gente prestar mais atenção nas palavras do entrevistado, consegue captar a essência da matéria. É isso, vou levar só o bloquinho. E se eu não entender a minha letra no bloquinho? Minha caligrafia é péssima! Está decidido: vou levar o gravador. Mas peraí: será que não vou acabar dependente de uma máquina, de um gravador? Meu Deus, tenho de aprender a fazer uma letra mais decente. É, vou levar só o bloquinho. Mas, e se o entrevistado disser que eu escrevi várias mentiras, que ele não disse nada daquilo que está no texto e resolver me processar? Com o gravador, posso provar que ele disse tudo aquilo, sim! E agora?
Resolvi levar o bloquinho e o gravador. Só para garantir. A minha única (e grande) mancada foi esquecer de verificar se as pilhas estavam no gravador. Na hora H, o negócio não funcionou. O entrevistado caiu na gargalhada. Puta sacanagem com um foca atrapalhado. Então eu usei só o bloquinho. Minha letra ficou, naturalmente, horrível, mas aprendi que é bem melhor mesmo prestar atenção nas palavras, captar a tal essência.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
As lambanças do caso Letterman
A história ainda está muito estranha. O acusado da chantagem é o jornalista Robert Halderman, um produtor de 51 anos, 27 deles dedicados à emissora de TV. Halderman teria pedido um cheque de US$ 2 milhões a Letterman, que é casado, para não tornar público um caso do apresentador com Stephanie Birkitt, de 34 anos, sua ex-mulher e antiga colega de trabalho de Letterman. Como um cidadão exige o pagamento por um crime em cheque? Nem os chantagistas portugueses cometeriam tal deslize.
Halderman teria usado o diário de Stephanie como “prova do crime”. Não entendo também por que uma mulher casada, de mais de 30 anos, escreve todas suas traquinagens extraconjugais num diário, como uma adolescente apaixonada. Se não estava mal-intencionada, deve ser muito burra.
A lambança final foi de Letterman, que, durante seu programa, confessou ser vítima de extorsão e de já ter tido algumas aventuras sexuais com moçoilas de sua equipe, sem citar nomes. Por mais nobre que tenha sido o ato, em tom de arrependimento, a confissão causou desconforto entre as jovens, algumas delas casadas. Todos querem saber agora quem foram as outras amantes do velhinho tarado.
No meu caso, a vantagem de ser apenas um jornalista latino-americano sem dinheiro no banco é talvez nunca correr o risco de sofrer este tipo de extorsão. Até porque nenhuma jovem ambiciosa vai se interessar por um cara sem pistolão.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
O netinho querido da vovó
- Ah, então o senhor é jornalista? O meu netinho também é. O senhor trabalha onde?
- No momento, estou buscando novos caminhos, me reciclando, estudando muito, me redescobrindo como jornalista...enfim, estou desempregado, minha senhora!
- O meu neto também. Acabou de se formar e não consegue emprego de jeito nenhum. O menino é inteligente, fala Inglês fluentemente, mas não arranja nada. Dá para acreditar?
Não é a primeira vez que eu conheço alguém que tem parente jornalista. Até uma faxineira que trabalhou lá em casa tinha um sobrinho jornalista. Também era inteligente e não tinha emprego. Só não lembro se falava Inglês.
- Vou pedir para o meu neto mandar o currículo para o senhor. Talvez possa ajudá-lo. O menino é muito bom, inteligente...
Na semana seguinte, recebi um e-mail do moço, “o neto da velhinha do veterinário”, como ele mesmo se apresentou. Era um currículo enxuto demais, como também era o meu quando me formei. Mas o que mais me chamou a atenção – e me assustou – foi a “experiência profiCional”, com “c”. O netinho querido poderia até dominar o Inglês, mas o Português estava sendo duramente castigado. Mas avó é sempre avó, não é?
PS: Naquele sábado à noite, o veterinário disse que o Nestor estava ótimo. Era apenas manha canina. O danado me fez comer miojo por uma semana!
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Sapato neles
No Brasil, ainda nenhum jornalista-arremessador de sapatos em personalidades desagradáveis despontou. Somos sempre carentes de ídolos. Dirão que é por falta de incentivo do poder público, mas eu duvido. O que não falta é gente do poder público pedindo para levar um sapato na orelha. O Gilmar Mendes, por exemplo, vive dando bobeira nas sessões do Supremo. E cadê o nosso jornalista-arremessador para fazer o serviço? Acredito que o Maluf até gostaria de receber uma sapatada, mas desde que fosse, é claro, um clássico 752 da Vulcabras, com sola de borracha.
Eu, que na escola fui campeão de arremesso de bolinhas de papel nas costas do CDF da classe, até poderia me arriscar nesta nova carreira, mas, diante de minha precária situação financeira, a idéia seria uma grande loucura. Só tenho um par de sapatos. Torço, contudo, para que algum outro jornalista brasileiro tome a iniciativa e faça bonito no cenário mundial. Brasileiro é um povo talentoso. Acertaríamos o alvo em cheio e seríamos responsáveis pela criação do “arremesso de sapato-arte”. Alguém se habilita?
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
O fanático jornalista esportivo
Na adolescência, os colegas diziam que, quando ia ao banheiro, preferia carregar uma revista Placar a uma Playboy. Sempre sonhou ser um jornalista de Esportes. Tornou-se um estudioso da área. Foi o primeiro cara que conheci que assistia aos jogos do Campeonato Holandês. Está por dentro de todas as regras, analisa esquemas táticos, organiza estatísticas de competições pelo Brasil, do Sul até o Acre. E o pior: adora ficar demonstrando todo o seu conhecimento. "Vocês sabiam que quem marcou o primeiro gol do Brasil em Copas do Mundo foi o Preguinho, em 1930?" Chato pra caralho!
O futebol para o Pedro Augusto não é apenas o seu trabalho. É a sua vida. Num plantão de domingo, após fazer a matéria de uma partida no estádio e voltar para a redação para ver os gols da rodada com os amigos, chegou em casa e foi assistir ao VT de Vasco x Fluminense, um zero a zero de dar medo. Não sei como a mulher do Pedro o agüenta. Aliás, não sei como ele consegue conciliar tanto fanatismo pelo futebol com seu casamento. Eu, por muito menos, fui trocado por um office-boy.
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Procura-se um personagem desesperadamente
Uma prática comum para encontrar bons personagens é o famoso e-mail para a lista de amigos. “Caros, vocês conhecem alguém que tenha alguma coleção exótica, tipo VHS pornô ou animais peçonhentos empalhados?” O e-mail, às vezes, tem um tom de suplício. “Preciso de alguém que já tenha tentado o suicídio! Me ajudem, pelo amor de Deus, tô fechando a matéria. Se não encontrar alguém bacana, acho que eu corto os meus pulsos.”
O melhor dos mundos é quando o jornalista já conhece o personagem. Basta pegar o telefone e ligar para tal pessoa. Ainda assim, em algumas situações, a tarefa pode ser árdua.
Produtor de TV: Paulo, tudo bem, meu amigo? É o Sérgio.
Potencial personagem (PP): E aí, Sergião, o que manda?
Produtor de TV: Cara, é o seguinte: tô desesperado atrás de um personagem para uma matéria e eu preciso de um depoimento urgente seu!
PP: Sobre?
Produtor de TV: Sobre homens que têm casamentos heterossexuais, mas que já mantiveram um caso extraconjugal homossexual.
PP: Porra, cara, e você quer que eu exponha isso na televisão?
Produtor de TV: Você é a única pessoa que eu conheço que já passou por essa situação.
PP: Mas a minha mulher nunca soube! Quer acabar com o meu casamento?
Produtor de TV: Cara, você não precisa se identificar. A gente muda o seu nome, coloca você sentado de ladinho, na penumbra, altera a sua voz.
PP: Sergião, você é meu amigo, mas não vai rolar.
Produtor de TV: Caralho, vai me deixar na mão? Quando você pedia o meu apartamento emprestado para encontrar o seu namoradinho, eu nunca te neguei! Lembra disso?
Pausa para reflexão...
PP: Tá bom, tá bom, eu falo. Não precisava pegar tão pesado!
Produtor de TV: Só me diga o local da entrevista que o repórter voa para lá.
PP: Pode ser no parque.
Produtor de TV: Grande garoto!
PP: Ah, e vê se não esquece de colocar aquela voz de pato em mim, hein?
PS: Este é o centésimo post do Desilusões perdidas. Agradeço aos meus leitores a paciência e o prestígio. Vocês são a minha motivação para continuar escrevendo. Caraca, me emocionei!
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Os mais insuportáveis
Você só “suporta” ler ou ouvir um jornalista insuportável quando está a fim de ficar um pouco indignado, num clássico caso de autopunição premeditada. A lista de candidatos poderia ser, naturalmente, mais longa, mas decidi pegar os tipos mais representativos da categoria.
A pesquisa que acabou de ser encerrada – Qual a saia-justa mais cruel para um apresentador de telejornal? – teve vitória tranqüila da alternativa “Sofrer uma crise de tosse ou de riso no meio do programa”, com 59% dos votos. Nesta opção ainda poderia ser incluído o mico de comer bolacha no ar, ao vivo. Na TV Globo, isso costuma dar demissão.
Em tempo: na próxima segunda-feira, estará no ar o 100º post deste blog. Nunca imaginei que chegaria tão longe. Mas cheguei. Agora, mais valente, já começo a acreditar que posso alcançar o milésimo post, assim como Pelé alcançou o milésimo gol e o José Mayer alcançou a milésima mulher a pegar numa novela.
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Curso rápido de jornalismo para idiotas
O texto acima é a abertura de uma matéria do Comunique-se, publicada dias atrás e assinada por Sérgio Matsuura. Como sou um sujeito curioso, resolvi buscar mais detalhes do curso na página da empresa na web e me deparei com os tópicos principais das aulas (que são mais de 20). Há um pouco de tudo, desde “Criando uma Agenda de Fontes” a “Ganhando dinheiro no ramo de Jornalismo On-Line”. Os pré-requisitos para o curso: NENHUM. Acho que até o Nestor poderia fazer a sua matrícula.
Sempre acreditei que um curso de quatro anos é muito tempo para estudar jornalismo. Eu, por exemplo, passei metade do meu curso no boteco ou tentando comer as gostosas que estudavam Publicidade. Mas um curso de 45 horas também é uma piada. E de mau gosto. Daqui a pouco, vai ter escola divulgando o método Sleeping Learning. Aprenda jornalismo dormindo! Será que dá para sonhar com um lead perfeito ou um texto redondinho?
Outro aspecto pitoresco desta história do curso em 45 horas é a capacidade do brasileiro de se adaptar às novas regras para ganhar dinheiro fácil. É tudo uma questão de oportunidade. Não duvido que vai ter um monte de mané pagando quarenta paus para se tornar um “cyber repórter de sucesso”. E a empresa vai se dar bem. Por que eu nunca tenho essas sacadas geniais de negócio? Definitivamente, não sei ganhar dinheiro. Ou seja, sou um autêntico jornalista!
