quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Jornalismo e cinema


Existem certas obras do cinema a que todo jornalista deveria assistir, como Todos os Homens do Presidente, O Quarto Poder, entre muitas outras. Elas dispensam comentários. Há ainda filmes que, embora não tão famosos quanto os citados, estão na minha lista de preferidos. Um dos mais marcantes é, sem dúvida alguma, Corra que o Passaralho Vem Aí 3, um filme de suspense, com toques de drama.

O filme tem a assinatura de um antigo crítico de cinema que sonhava ser diretor. Após muito tentar, conseguiu. No fundo, todo crítico é um cineasta frustrado. Ele fez uma obra ousada, mas de baixo orçamento, toda ela filmada no corredor de uma redação de jornal. Os personagens interagem basicamente entre si e com uma máquina de café.

O passaralho, para quem não sabe, é o anúncio de corte de empregos. A chegada do passaralho cria um clima natural de tensão. Em meio ao desespero dos jornalistas que caminham para a lama surgem histórias pessoais belíssimas. A seguir, destaco uma das cenas que mais gosto do filme, a terceira, em que três jornalistas conversam ao lado da máquina de café. A partir deste momento toda uma história de angústia começa a se desenvolver.

CENA 3

Jornalista 1 (sujeito em pânico) encontra o jornalista 2 (mais calmo) ao lado da máquina de café. Eles conversam ao mesmo tempo em que preparam o café.

Jornalista 1: Você já está sabendo da última péssima notícia?

Jornalista 2: Cassaram nossa folga de fim de semana?

J-1: Antes fosse isso. Vão cassar os nossos empregos! Ouvi dizer que tem um passaralho novo vindo aí.

J-2: Pois é, eu também ouvi, mas parece que só vão mandar embora os jornalistas que ganham muito bem.

J-1: Pera aí: tem alguém que ganha muito bem nesta redação?

J-2: Ah, deve ter. Sabe os articulistas que ficam o dia inteiro sem fazer porra nenhuma interessante? Devem ganhar uma fortuna!

J-1: Será? Eu tô muito preocupado. Não posso perder meu emprego. Tô cheio de dívidas. Acabei de comprar um carro 1.0 em 72 vezes. (ele coloca um sachê de adoçante no café)

J-2: Café com adoçante? Você só come porcaria, tá gordo pra caralho e acha que este adoçante vai salvar a sua vida? Você já tá condenado, meu amigo. (sorriso sacana)

J-1: Acho que prefiro perder a vida ao emprego. (semblante ainda mais preocupado)

Neste momento, o jornalista 3 (sujeito alarmista) aproxima-se da máquina de café.

Jornalista 3: Caraca, fiquei sabendo que vão mandar 150 jornalistas embora aqui da redação!

J-2: Mas como vão mandar 150 se aqui só há 90 jornalistas?

J-3: Sei lá, é o que estão dizendo por aí...

J-1: Se estão dizendo, é melhor a gente ficar esperto! Ai, acho que tô com taquicardia...

É um filme realmente sensível e emocionante!


No post de sexta-feira, falarei de um outro filme da minha lista de preferidos: Lula e Mainardi na Terra Sem Sol, uma obra de inspiração glauberiana. Extremamente sutil e poético, o filme conta a história de Manuel, um retirante nordestino que chega a São Paulo após cometer um crime no sertão e, por acaso, passa a acompanhar o duelo entre um jornalista reacionário e um presidente populista. Trata-se naturalmente da velha metáfora da luta entre o Bem e o Mal, mas, neste caso, Bem e Mal se misturam, fazendo uma confusão da mulesta na cabeça do pobre sertanejo.

2 comentários:

Ayne Regina Gonçalves Salviano disse...

E não é que eu já assisti a este filme!!!!

Erickblog disse...

Jornalista reacionário é muita bondade sua Duda! Aquilo não anda, simplesmente rasteja.