sexta-feira, 25 de maio de 2012

Chororô na fila do seguro-desemprego


A repórter, toda metida a superior, toda metida a engraçada, sonhava com um vídeo seu bombando no YouTube, nas redes sociais. Viral jornalístico! Um dia rolou. Entrevista na delegacia. Mas que tragédia! Ficou famosa no Brasil todo por humilhar um joão-ninguém sem a menor noção do que é um exame de próstata. Um joão-ninguém que sequer sabia pronunciar a palavra próstata.

Sua atitude foi execrada pelos colegas de profissão. Pegou mal. Mas ela não é a única culpada, é? Não importa. No mundinho jornalístico, a corda sempre estoura para o lado do mais fraco. E vejam a ironia: a repórter, que parecia tão forte, também é fraca.

Na fila do seguro-desemprego, ela é abordada por outro repórter de TV, que por coincidência também cursou a escola dateniana de jornalismo com requintes de crueldade.

– Você humilhou aquele menino na delegacia!
– Não humilhei, não. Eu só entrevistei!
– Não humilhou, mas quis humilhar.
– Fiz isso, não!
– Mas a gente tem um vídeo que mostra você humilhando o coitado.
– Este vídeo é falso. Foi uma montagem.
– Ah, é falso?
– Eu gostaria, inclusive, de pedir a ajuda daquele perito, o Semolina, para provar que o vídeo é falso!
– Qual o nome do perito?
– Semolina.
– Qual o nome?
– Semolina.
– Semolina? (o repórter se segura todo para não gargalhar)
– Não é?
– Semolina?
– É, aquele perito gordinho, com uma barbona branca, que tá sempre aparecendo na televisão.
– Qual o nome dele mesmo? Semolina? (rindo)
– Moço, eu não sei pronunciar o nome dele.
– Agora, ó, só para resumir a situação: semolina é um negócio que tem no pão, sei lá, um cereal. O nome do perito é Molina. Perito Molina!
– Molina?
– Molina! O gordinho que tá sempre aparecendo na televisão, com barba de Papai-Noel, é Molina. Não é Semolina! Entendeu, porra?

O sistema é bruto para a repórter toda metida a superior, toda metida a engraçada.

O vídeo da tal repórter na delegacia aqui.

19 comentários:

Andre Batista disse...

Como queríamos que realmente acontecesse!...

Priscila disse...

OI né?? me admira todo mundo defender um cara que assumiu ter praticado vários crimes. Vcs iam apoiar essa rebeldia se o assaltado fossem vcs? Agora detonar com a reporter, todos fazem

Anônimo disse...

Priscila, voce entao deve ser do tipo que chega numa delegacia e faz a mesma coisa. Se cometeu um crime, pode tudo, né? E triste perceber que sim, há muita gente que pensa como vc.

Lívia Dutra disse...

Melhor texto de todos os tempos.

Yago Sales disse...

Concordo Lívia! Concordo mesmo!!!

Abidias Martins disse...

Acredito que a intenção do Duda Rangel foi mostrar que quem age com superioridade e soberba nunca agrada a sociedade, independentemente de ser com um cidadão íntegro ou com um bandido. A atitude da jornalista foi anti-profissional, sem ética. Ela poderia ter abordado o assunto sem aquele sensacionalismo todo. Ótimo texto Duda.

Duda Rangel disse...

Priscila, você está misturando as estações. São duas coisas bem diferentes. Criticar a postura de uma repórter/programa não significa dizer que o entrevistado é inocente ou culpado. Entendeu? Este blog discute jornalismo. Abraço.

Bruno Nascimento disse...

QUAL A FUNÇÃO DO JORNALISMO MESMO?

Porque será que esses programas policialescos fazem tanto sucesso? Não sei, mas de jornalísticos não têm nada. Infelizmente no país afora nos deparamos com esse tipo de aberração, presente em vários canais de televisão e o que é pior: eles têm audiência. Tenho, sim, minhas ressalvas com os programas locais também, que não vejo e não gosto. Será que a função do j...ornalista é zombar das pessoas, humilhar, mesmo que seja um acusado de crime? Que tipo de contribuição essa “repórter” (com aspas mesmo) dá às notícias que ela veicula, humilhando esse rapaz? Será que é porque ele é pobre e, certamente, não haverá nenhum advogado de grosso calibre para representá-lo? Porque seja analfabeto, criado num lar desestruturado e sem estudo, incapaz do que é saber o que é um exame de próstata? (Não há aqui a defesa do acusado, ok?). Ao zombar desse rapaz, essa medíocre jornalista zomba também de um grave problema do Brasil. O analfabetismo.

Esse episódio me lembrou a cobertura de apresentação de um homem acusado de estuprar uma garota, aqui na Delegacia de Proteção a Criança e ao Adolescente. O homem havia sido preso no dia do aniversário e, quando ele chegou algemado para ser entrevistado, os repórteres cantaram “parabéns pra você”, sob as risadas de alguns agentes da própria polícia. Tive nojo daquilo (e a combinação foi antes de eu chegar). Engoli seco, para não criar indisposição com os colegas que assim procederam (e não foram todos, claro, mas alguns). E um repórter pergunta ao acusado: “Como é ser preso no dia do aniversário”, em tom de gozação. Pergunto novamente: o que isso acrescenta à matéria, à informação? Algema e cercado de policiais, qualquer repórter tem coragem de zombar de bandido.

Anônimo disse...

disse tudo Bruno Nascimento. É com isso que nos deparamos quando vamos fazer cobertura policial.Dá vergonha e medo de nos tornarmos assim pela banalidade com que isso acontece na profissão. Texto maravilhoso Duda, parabéns, como sempre.
Vanessa

celso muniz disse...

se ética houvesse no jornalismo de tv, os programas policiais não existiriam. mas sangue é o colorau da audiência. e a humilhação, o sal. e nós, a carne pra canhão.

Duda Rangel disse...

Bruno, a tua história ilustra bem essa triste situação.
A todos, obrigado pelos comentários.

Anônimo disse...

Boa! Adorei! Como sempre, beijo
Eliane Santos

Duda Rangel disse...

Valeu, Eliane, beijos.

Amabile disse...

Gostei muito do texto e concordo que o fato dele ser ACUSADO de um crime não dá a ninguém o direito de zombá-lo...

Infelizmente, vemos muito deste tipo de "jornalistas" por aí... não só na tv, mas em todos os veículos da imprensa!

Infelizmente, isto dá audiência, por uma série de fatores que todos os jornalistas devem ter estudado nas universidades. (Ops, esqueci q para ser jornalista não precisa diploma...)

Duda Rangel disse...

Verdade verdadeira, Amabile.

Gabriela disse...

o que prevalece, acima de tudo, não é o fator "crime cometido" pelo cidadão, mas a atitude da "repórter". não importa se o cara estuprou, roubou ou qualquer coisa que o valha; ele continua sendo culpado/acusado. o que conta aqui é a forma esdruxula como foi tratado pela querida jornalista. vários pontos vem `a tona, como a ética, neutralidade e, principalmente, humanismo, na hora de captar uma historia, independente do cunho que tiver. o editor chefe da menina deve ter vomitado as tripas ao ver isso.

Duda Rangel disse...

Gabriela, em muitos casos, o chefe é conivente com isso e o repórter, um mero cumpridor de ordens.

André Lima Gonzaga disse...

Duda, seus textos, todos eles, são ótimos! Muito bom ver que você tem essa pegada do humor e também a responsabilidade de um profissional da área. Um grande abraço de um colega seu, de profissão, do Acre e vida longa ao blog. Sempre leio, mas confesso que essa é a primeira vez que comento. Parabéns e um grande abraço!

Duda Rangel disse...

Oi, André, caro colega do Acre. Muito obrigado pelo comentário. Bom saber que você gosta dos meus textos. Abração e sucesso pra ti.