segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Sobre a cobertura de uma tragédia


Para um jornalista, cobrir uma tragédia é trabalhar no limite. O limite entre o interesse público e a simples exploração da desgraça.

Cobrir uma tragédia é monitorar os próprios passos, perceber até onde se pode avançar.

É apelar para o bom gosto em meio a gosto tão amargo.

Cobrir uma tragédia é prestar serviço. E auxílio, se for preciso.

É ficar bem próximo da dor do outro, da histeria, da anestesia. E saber respeitá-las. É lembrar que o Jornalismo pertence à tal área de Humanas, por mais que a Matemática, com seus balanços de mortos e feridos e índices de audiência, insista em se intrometer.

Cobrir uma tragédia é parar com a bobagem de achar que frieza é sinônimo de profissionalismo. Jornalista pode se emocionar, pode se solidarizar. Pode se sentir pequeno. Nós, jornalistas, não somos máquinas. Pertencemos também à área de Humanas.


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7 comentários:

Unknown disse...

é isso mesmo, Duda, não tem como não se emocionar...realmente é uma situação muito difícil...só quem já participou da cobertura de alguma tragédia sabe o que é trabalhar sempre no limite...

Mônica Figueiredo disse...

Ao longo dos meus últimos anos em redação, coberturas de tragédias sempre estiveram presentes. A última, por exemplo, foi um incêncio que destrui mais de 300 casas de uma comunidade aqui em Manaus. Fomos a primeira equipe a chegar no local pelo fato da redação ser bem próxima da comunidade. Acompanhei o desespero de quem pensava que o fogo atingiria apenas duas casas, para em minutos ver o fogo se alastrando para 10,50, 100 e em pouco mais de uma hora 300 casas. Vi o desespero de pessoas pensando primeiramente em salvar suas coisas (compradas na maioria das vezes com tanto sacríficio) para depois tentar salvar a vida. Vi crianças e cadeirantes tentando fugir do fogo. Vi homens e mulheres carregando botijas de gás, sofás, ármarios e bebês. O que eu e o fotógrafo fizemos??? Guardamos nosso equipamento e fomos carregar botijás de gás, sofás, armários e tirar as crianças que estavam nas casas que em alguns segundos seriam atingidas pelas chamas dificil de ser controladas até pelos bombeiros. Não tinha como não fazer nada e o que fizessemos ainda seria pouco. Hora depois, me vejo sentada na redação pronta para escrver o material com aquela triste imagem na cabeça e ainda fedendo a fumaça. O jornal do dia seguinte estampou uma página dupla de uma tragédia.

Anônimo disse...

Pena que tantos oonfundam não serem máquinas com serem artificialmente emocionais. A falsa empatia é tão ou mais ofensiva às vítimas e aos leitores/ouvintes/telespectadores/internautas que a frieza.

Duda Rangel disse...

Mônica, obrigado por compartilhar sua história com os leitores do blog.
Anônimo, concordo que a emoção artificial é péssima também.
Abraços.

Ricardo RicBrSp disse...

É na tecla q venho batendo no facebook sobre a cobertura da última tragédia brasileira, sobre o sensacionalismo exacerbado, q eu chamo de vampirismo no sangue dos mortos na busca por Ibope. Os corpos ainda quentes, e o repoter questionando quem são os culpados, em plena tragédia, induzindo a opinião popular como órgão de formação de opinião, afastando-se por completo do jornalismo.
Como leitor inteligente achei de muito mal gosto a forma com que a imprensa continua cobrindo o caso, só culpando os mais fracos pessoas físicas, agora a culpa dos bombeiros, e da Prefeitura, são sempre extremamente discretos e complacentes, enquanto o lado fraco, exigem a prisão deles como únicos culpados, tá loco, q absurdo, vampirismo descarado.
Como bem exemplificou a Mônica Figueiredo, o repórter faz a cobertura, passa por tudo isto, ae chega na redação e vai tc uma matéria capenga destas, não é fácil, não.

Ricardo RicBrSp disse...

Em tempo, ao final quis dizer em vez de "capenga destas", eu queria dizer "capenga daquela".

Amabile disse...

Concordo!!!! Somos pessoas trabalhando com pessoas e para pessoas!!!!