quinta-feira, 18 de junho de 2009

Diploma, ascensão e queda


Ontem fui dormir meio angustiado. O que farei com o meu pobre diploma de jornalista? Será que devo usá-lo para forrar e proteger o chão das mijadas noturnas do Nestor? Será que devo juntá-lo aos diplomas de alguns amigos, plastificar tudo e formar um incrível jogo americano para refeições rápidas? Será que devo fazer um aviãozinho de papel, como fazia o Silvio Santos com dinheiro, e jogá-lo pela janela do meu apê? Será que devo devolvê-lo à faculdade e pedir reembolso? Será que devo guardá-lo em meu banheiro para o dia em que faltar papel higiênico? Ou será que devo apenas sepultá-lo em um lixo qualquer?

A única certeza que tenho é que, a partir de hoje, serei cozinheiro profissional, inspirado nas sábias palavras do Gilmar Mendes. Sem diploma, é claro. Aliás, alguém pode me ensinar aquela técnica de cortar legumes de uma forma bem rapidinha?

12 comentários:

Ricardo Muza disse...

Inacreditável sermos comparados a cozinheiros, quando, na verdade, a exigência do diploma era para o exercício em tempo integral da profissão e não para simplesmente trabalhar - escrever - em veículo de comunicação.
MAs, o que esperar do maior cancro que o sistema jurídico brasileiro já produziu? Do cara que em 48 hs mandou soltar duas vezes o banqueiro-bandido Daniel Dantas?

Vanessa Paiva disse...

Duda,

Ontem, quando soube da notícia sobre o fim da exigência do diploma em Jornalismo, senti um frio na boca do estômago. Sempre tive um posicionamento discreto (e até liberal, eu diria) em relação ao tema. No meu racionício existia a seguinte analogia: sou jornalista formada pela PUC-Rio, tenho Mestrado em Comunicação Social obtido na UERJ e sou professora de Jornalismo. Apesar da titulação que me credencia para ser pesquisadora e ministrar aulas, sempre senti um ligeiro desconforto com o fato de lecionar sem, no entanto, nunca ter me preparado academicamente para exercer tal função. Não tenho Licenciatura, não cursei Pedagogia, conheço Paulo Freire muito superficialmente e ignoro outras tantas linhas pedagógicas que seguramente devem ser estudadas nas faculdades de Educação. Apesar disto, a graduação em Jornalismo e a pós-graducação stricto sensu em Comunicação me autorizam a entrar em sala de aula e desempenhar o papel de educadora. Intimamente, sempre questionei isto, pois meu desempenho como professora construiu-se no instinto, na observação e no bom senso. Honestamente, estas não são ferramentas de trabalho. São, isto sim, atalhos. Por tudo isto, eu costumava pensar que talvez não fosse assim tão grave permitir a existência de jornalistas sem formação em Jornalismo, já que eu sou uma educadora sem formação em Educação.

Todo este meu ponto de vista foi radicalmente transformado ontem, quando eu soube da notícia. A informação foi um choque pra mim. E este choque não tem nada a ver com os discursos corporativos de profissionais que tentam proteger o diploma pela ameaça de perder seus empregos. Tenho medo disto também: medo de ter perdido meu tempo, meu dinheiro, minha saúde (física e mental) em um investimento acadêmico que, agora, não tem mais valor legal. Também tenho medo de não ser mais reconhecida no mercado de trabalho e de ver os cursos de Jornalismo implodirem. A consequência drástica disto será a implosão da minha vida profissional tal qual ela é hoje (tudo isto, é claro, está sendo visto aqui sob uma perspectiva sombria, alarmista e exagerada. Me conforta, por exemplo, saber que nossos colegas da Publicidade jamais precisaram de diploma para exercer suas funções profissionais e que, apesar disto, as faculdades e o próprio mercado estão perpetuamente inchados).

Apesar das previsões nada animadoras para nossa "classe", "corporação" ou outro nome que queiram dar, meu medo não tem nada a ver com a perda do emprego ou com o possível declínio de alunos que pagam o meu salário. Tenho medo como cidadã. Antes de ser jornalista, professora, mestre em Comunicação e outros que tais, sou uma pessoa que vive em sociedade e que, por isso, precisa consumir informação para manter-se ativa e correta nas trocas da vida em coletividade. Talvez meu medo seja infundado, baseado apenas no susto inicial de ver esta função ser exercitada de modo inconsequente e impensado. Informar corretamente, eticamente, criticamente é uma tarefa árdua, arriscada e cheia de armadilhas. Tal tarefa requer responsabilidade, maturidade e critério. Tenho medo que, por tudo isto, quatro anos façam diferença sim.

Tenho muito mais a dizer, mas ainda estou confusa e tentando colocar as ideias em ordem. Foi só um desabafo e uma necessidade de dividir com vocês, colegas de profissão, minha angústia e meu desconforto.

Abraços,
Vanessa Paiva

AoxomoxoA disse...

"O STF derrubou ontem por 8 votos a 1 a obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão. O Supremo julgou que o decreto-lei 972 de 1969, que exige o documento, é incompatível com a Constituição de 1988, que garante a liberdade de expressão e de comunicação.

Encômios aos ministros da Corte, que perceberam a estultice que se criou no país com a simplíssima questão jornalística. De fato, achar que pelo fato de cursar quatro anos uma faculdade a pessoa se transforma em jornalista, é ridículo. Jornalista é o curioso, o estudioso, o talhado naturalmente para ver e informar."

(extraído do rotativo virtual Migalhas de hoje - www.migalhas.com.br)

Rosangela Florêncio disse...

Lastimável!! Muito oportuno para toda a 'banda podre' cada vez menos jornalistas preparados, menos críticos, menos tudo!
E, não bastasse jogar a nossa profissão na lama, de lambuja 'eles' ainda fazem uma comparação absurda com a profissão de chefe de cozinha! De onde é que saiu a ideia de que, tanto prá um, como prá outro, não há técnica?? Será que de uma história pessoal??

Erickblog disse...

A desqualificação foi total pela máfia de toga. Agora é juntar os cacos e ver o que dá para fazer. Na minha opinião as entidades que representam a categoria tem que se articular ainda mais para qualificar a porrada a ser dada daqui para frente.
No ES, diante da inércia da categoria, o sindicato tá querendo fazer uma campanha para divulgar as condições de salário e trabalho da categoria a fim de desmistificar a idéia de que jornalista ganha "rios de dinheiro". A idéia é fazer passar vergonha.
PS: Duda, sei que está em ruinas mas peço que seja forte e se apegue ao Nestor.

Flávia Romanelli disse...

Você ganhou um Meme. Passe no Entre Telas para saber mais detalhes.

Bjo

Ricardo Muza disse...

Interessante:
http://acozinhadogilmar.blogspot.com

The Ideas of a Vintage Doll disse...

É que eu tô jogando dinheiro pela janela, sabe? Acho que você deveria fazer o mesmo com o seu diploma...
Quanto aos legumes, eu fiz dois semestres de gastronomia. Se quiser te ensino. Jornalismo e cozinheiro são praticamente a mesma coisa... você nem vai sentir a diferença... (Se fuder, viu!)

Loliveira disse...

Caro Duda, a notícia pareceu-me surreal!
È lamentável, sentir a desvalorização da profissão de uma forma duplamente revoltante - a não obrigatoriedade do diploma e a infeliz comparação!
Desvalorizaram o que conquistaste, porém o que ganhaste, é conhecimento teu, e isto não tem preço - muito menos - um decreto.
Cumprimentos

AoxomoxoA disse...

Cara Duda:
lendo cada comentário aqui (acima) consignado, além de outras notícias, blogs e afins sobre o assunto e principalmente a repulsa – legítima – dos diplomados jornalistas acerca da famigerada decisão do STF, creio que valha uma meditação maior sobre o assunto que apenas se agarrar à infeliz comparação do Ministro Gilmar Mendes em seu voto condutor.
Vocês jornalistas (ao que tudo indica todos nesses comentários são) não podem esquecer, a despeito da infeliz comparação, que a obrigatoriedade do diploma de jornalista foi determinada no auge do período mais sombrio da ditadura militar que assolava esse país (cujos reflexos até hoje repercutem na sociedade e em muitas leis ainda vigentes) como forma de controlar (às avessas) a censura jornalística, como se os diplomados fosse cartas marcadas no caso de um "deslize" contra o governo. Deveras, o controle ficaria mais fácil ainda na graduação e a censura da “promiscuidade” das notícias, denúncias e verdades “comunistas e socialistas” seria mais fácil de ser exercida pela ditadura.
A meu ver, o que tem que ficar claro no debate acalorado sobre o tema, é que o fundamento principal da decisão do Min. Gilmar Mendes é a aplicação direta e reta da liberdade de expressão que deve ser exercida por todos aqueles que acreditam na verdade, que buscam a verdadeira notícia, sem represálias, repressões ou enquadramentos estapafúrdios. A liberdade de expressão é a mais basilar das garantias fundamentais da Constituição Federal e, portanto, do Estado Democrático de Direito. E isso não está sendo considerado nesses debates. A infelicidade de comparação - que não é raro em se tratando do dito Ministro - não deve ser tomado como único trampolim de repulsa acerca da decisão que baniu a exigência de diploma para os jornalistas, mas uma séria discussão sobre a forma como o jornalismo passará, depois de décadas de obrigatoriedade de diploma, a ser exercido. A grande provocação que fica é justamente essa: decisão tomada, como o jornalismo será exercido daqui pra frente? Isso, meus caros, caberá a vocês, jornalistas diplomados, responderem em ação e atitude.

Duda Rangel disse...

Caros amigos e leitores,
Agradeço a manifestação de todos sobre este assunto tão polêmico. A situação não é confortável, mas agora temos de olhar para frente, é o que nos resta fazer. Tudo vai depender do mercado. Se as empresas continuarem exigindo gente que estudou para exercer a profissão, nada mudará. E acredito que o mais importante é o que destacou a Loriveira em seu comentário. Conhecimento é conquista nossa, isso ninguém vai tirar nunca. Beijos e abraços.

PS: Ricardo, boa a cozinha do Gilmar

Lays Rodrigues disse...

Ótimo post!
Sinceramente, eu não sei qual é a do Gilmar Mendes. Quem não tem responsabilidade nenhuma é ele, sempre tomando decisões erradas.
Estou fazendo Jornalismo agora pela UFPB, e me sinto completamente sem perspectiva.
Uma profissão que visa comunicar, conscientizar, estimular o senso crítico da população, deveria ser bem mais valorizada!