segunda-feira, 1 de junho de 2009

O plano B, o C, o D...


O jovem, confuso, às vésperas de prestar o vestibular, acaba de deixar o encontro de orientação vocacional do colégio. “Se nada der certo, eu viro hippie”, pensa. Na semana seguinte, após conversar com uma psicóloga sobre o mesmo assunto, faz nova reflexão: “Se nada der certo, inclusive ser hippie, eu viro jornalista”. Dias depois, já mais seguro de seu futuro, decide que quer mesmo um curso de jornalismo. Na vida, teremos sempre um plano B ou C ou D. Se nada der certo, inclusive ser hippie e jornalista, esse jovem, que já não será mais tão jovem, ainda poderá virar professor de jornalismo.

Ser professor de jornalismo hoje em dia tem sido a salvação para muita gente. Se faltam empregos nas redações, invadimos as assessorias de imprensa; se faltam empregos nas assessorias, invadimos as universidades. Ser professor de jornalismo é mais um campo profissional ou um complemento de renda. Alguns mais jovens terminam a graduação e já vão fazer um mestrado, porque, assim, terão mais chance em uma carreira docente.

Eu mesmo, jornalista desempregado, já pensei algumas vezes em dar aula. Seria um ótimo professor? Talvez sim. Ou prestaria um grande desserviço ao ensino superior brasileiro. Abaixo, transcrevo um cruel embate que rolou recentemente em minha consciência, entre um Duda que quer ser professor e um Duda que acha a idéia a maior roubada.

Duda que quer ser professor: O lance é dar aula, cara! Imagine a grande oportunidade que nós teremos de transmitir conhecimento aos jovens. Isso é o que vale a pena na vida!

Duda que não quer: Mas como? Numa sala de 80 alunos? Ninguém vai nos ouvir...

Duda que quer: Se metade ouvir já estará ótimo. Você não percebe a nobreza da missão?

Duda que não quer: Metade vai estar ouvindo música num Ipod durante a nossa aula! E a outra metade, sei lá...

Duda que quer: Tá bom. Então esqueça o lance nobre da coisa e sejamos práticos. Há quanto tempo estamos em atraso com as contas da luz e da água? E o aluguel?

Duda que não quer: Mas você acha que vamos ganhar muito dinheiro como professor? Pagam uma miséria! E, além disso, não temos nem mestrado.

Duda que quer: Tem um monte de faculdade que não exige mestrado. Até preferem, sabia?

Duda que não quer: Não vamos dar aula. A verdade é que não gostamos disso.

Duda que quer: Você não gosta. Fale apenas por você!

Duda que não quer: Tá bom, eu não gosto.

Alguns segundos de silêncio...

Duda que quer: E as menininhas? Nem pelas menininhas? Imagine quantas assistiriam às nossas aulas, ávidas por aprender jornalismo e algo mais...

Duda que não quer: (riso sarcástico) Estamos velhos, estamos velhos!

Duda que quer: Viado! E falo apenas de você, é claro!

12 comentários:

Erickblog disse...

Olha meu irmão, depois de 15 anos trabalhando no magistério - dei aula de primário a pré-vestibular - posso afirmar categoricamente: isso é pior do que qualquer redação de jornal!
Se for pensar em trabalhar no ensino privado, pode preparar o espírito, pois vai passar muita raiva. O salário pode ser razoável - no sentido de pagar as contas - mas você terá pelo menos 40 "patrõezinhos" que vão jogar na sua cara que estão pagando "essa porra" e no final tem que passar todos mesmo. A frase que sintetiza bem a lógica do ensino privado é: aluno é receita e o professor é despeza.
Em relação ao ensino público você ficará a mercê da turma do bolsa família,dos que estão cumprindo medida de ressocialização (aquele delinquente que matou, roubou, estuprou e foi parar numa sala de 5ª série). Sem falar naquelas colegas de trabalho que, sem perspectivas, quer que você fique igual a elas, ou seja, medíocre.
Não vou nem mencionar a questão salarial.
Quanto ao ensino universitário bom... a coisa não é muito diferente. Nas "privadas" a coisa é igual a escola particular e você terá que passar alunos que escrevem "situação pecuária" no lugar de situação precária, tal como aconteceu com um colega meu. Nas universidades públicas ainda há coisas boas como estabilidade e uma carga horária reduzida, mas o salário tá sempre defasado, sem falar na panelinha que são as seleções dos departamentos. Além disso estão chegando o pessoal das "cotas" e os cursos estão expandindo, o que pelo projeto do governo significa aulas de manhã, tarde e noite. A carga de trabalho tende a aumentar.
Quanto as menininhas, isso é ilusão. Pode ter certeza que elas irão preferir um jornalista de redação ou editor - que pode lhe garantir um estágio ou emprego - do que um professor que, na visão delas, é aquele cara que não deu certo na profissão.
Desculpe se te deixei mais desiludido mas é que eu demorei para sair disso e te aconselho a não entrar nisso porque para sair é foda.

Flávia Romanelli disse...

Duda, acho que vc teria muito pra ensinar. E tem sempre as menininhas que suspiram pelos professores mais velhos rsrs

Bjo

Giovana Damaceno disse...

Duda, gostei tanto do texto que pretendo reproduzi-lo em meu blog -http://giovanadamaceno.blogspot.comMe autoriza?
meu email: gidamaceno@gmail.com.
Adorei o blog e estou favoritando. Abraço.

Fernando disse...

Duda, eu já estou indo para o plano D. Final do ano, estou prestando vestibular pra Medicina. Se Deus quiser, jornalismo, só até dezembro. CHEGA de bater cabeça!

Equipe Ao Vivo disse...

Sem sombra de dúvida a carreira de jornalista, é uma das mais complicadas. Você se ferra para poder começar e depois continua se ferrando para se manter. E concordo com vc, nos sentido que muitos jornalistas correm para as salas de aula apenas para não ficarem desempregados e acabam deseducando seus alunos.

Mônica Pinheiro disse...

Falo nada. Fiquei ainda mais desiludida e arrasada. Não com o texto, claro. Como sempre, muito criativo...
abraços

Ricardo Muza disse...

Pôrra, Duda, não exagera. Eu fui professor antes mesmo de ser assessor.
Concordo que alguns têm essa visão de "prêmio de consololação". MAs, não dá prá generalizar, né?
Inclusive pprque não é nada fácil aguentar a molecada...
Acho até que vc deveria experimentar...e tira os olhos das menininhas, seu safado!rs

Duda Rangel disse...

Obrigado a todos pelos comentários.

Ricardo, não quis generalizar! Se dei essa impressão, me desculpe. Nada contra os professores, nem contra os que começam cedo, nem contra os que começam mais tarde. Foi só mesmo uma constatação de que a carreira docente, que já foi vocação, hoje virou alternativa para fugir do desemprego. E quis mostrar também as dificuldades dessa carreira, com exceção das menininhas, é claro... rs Abraços do Duda

Ewerton Martins Ribeiro disse...

Agora você se superou. Ótimo!
As menininhas são sempre um chamariz a mais!

Derla disse...

Eu tenho um monte de professor que não deu para coisa e resolveu dar aula, ou seja, ensinar o que nem ele aprendeu... Muitos devem estar lá apenas pelas menininhas mesmo...

Renato Souza disse...

Cara, tenho e tive alguns professores assim. Alguns usavam mesmo como complemento de renda. Nem ligavam muito para o que estavam passando. Outros iam por que acreditvam que poderiam trasmitir algo novo para seus alunos, e conseguiram. Teve alguns que me fizeram gostar ainda mais dessa profissão, mas nunca nos iludiram. Aula é só pra ganhar uma grana a mais, jornalismo de verdade é outra coisa. Mas teve aqueles que iam só por causa das menininhas mesmo.

É sempre bomum Plano B, C, D... Z. Sei lá, mas não saberia encarar uma sala, nem mesmo as meninas.

Parabéns pelo texto.

Silvana Chaves disse...

Eu tenho que dizer que eu gostaria de ser professora de jornalismo, sim.

Não pela grana, mas por ser uma idealista que ainda acredita que pode contribuir para tornar o mundo melhor.

É, idealismo, eu sei, mas é um dos meus objetivos. Não agora, preciso ter bem mais experiências, mas, é um alvo que eu estabeleci para o meu futuro.

Bjão!