segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Engarrafados


São oito horas. Em meu carro popular, sem ar-condicionado, sou mais uma vítima anônima dos engarrafamentos de São Paulo. É dia de chuva e de um frila que não posso perder. Ligo o rádio e sintonizo aquela famosa emissora especializada em trânsito. Já são mais de 100 quilômetros de lentidão na cidade. Que merda, penso. Vou chegar atrasado. Se chegar, é claro.

A rádio, embora preste um importante serviço jornalístico, me deixa deprimido toda vez que a escuto. É só desgraça. Caminhão quebrado na Bandeirantes, pontos de alagamento nas Marginais, acidente com curiosos na zona leste, algum protesto bloqueando a Paulista. Os ouvintes também participam, por gravações de voz ou torpedos. Competem para saber quem tem a pior história para contar. Isso que é jornalismo colaborativo.

Os repórteres da rádio dão dicas de rotas alternativas, mas nem sempre é possível escapar do caos. O negócio é ter paciência, uma virtude que desconheço. Nessas horas, não sei o que é pior: ouvir aquelas buzinas insuportáveis dos motoboys ou respirar o escapamento dos caminhões. Eu também detesto a sensação de ser observado pelos motoristas ao lado. Não se pode mais falar sozinho em voz alta ou retirar uma catota do nariz em paz.

O tempo passa, e minha ansiedade aumenta. Por que não fui de transporte público? Seria melhor? Olho o relógio e o marcador da temperatura de meu carro, que começa a subir. Só falta meu velho companheiro me deixar na mão agora! O apresentador da rádio tenta amenizar o sofrimento dos ouvintes com seu bom humor e curiosidades da metrópole.

– Vocês sabem por que o complexo do Cebolão, na ligação dos rios Tietê e Pinheiros, leva este nome? Porque suas várias pontes, umas sobre as outras, são como camadas de uma cebola.

Desligo o rádio. O que me resta é rezar. Do meu carro popular, sem ar-condicionado, surge uma fumaça estranha. Um cheirinho de churrasco. Acho que terei de atrasar o aluguel do meu apê de novo. Culpa do trânsito!

10 comentários:

André HP disse...

O transito de SP é feio, mesmo.
Bacana o post, Duda.

Abraço!

Derla Cardoso disse...

Nossa Sampa é triste!

Erickblog disse...

Esse ano fui participar de uma entrevista de emprego em São Paulo. Ao chegar, fui convencido por um conhecido a ir de ônibus ao local da seleção."Vai de ônibus que assim você conhece a cidade" disse ele. Ô idéia infeliz! Foi quase uma hora e meia para chegar num local que pelo metrô daria menos de uma hora. Quase perco a entrevista!
Vendo esse trânsito filho da puta de São Paulo só tenho uma coisa a dizer: I love Vitória!

Gleyci Pamplona disse...

legal que o maior dos engarrafamentos aqui Belém dura no maximo 30 minutos, e longe fica só a vinte minutos...
saúde pro seu carro.
Abraços...

Lene disse...

Bem que gostaria de morar em Sampa mas do jeito que voce a descreve, só quero visitar, Duda.

Duda Rangel disse...

Apesar do trânsito caótico e de outros probleminhas, São Paulo é uma cidade ótima...ótima para nos enlouquecer! Abraços a todos.

Ewerton Martins Ribeiro disse...

De carro velho eu também entendo... e, quanto ao trãnsito, aqui em BH não está muito diferente não...

Pabline Felix disse...

Faço coro com o Ewerton: BH tá copiando SP, e pelo lado ruim (se é que tem um lado bom em matéria de trãnsito).

Post massa, como sempre.

Cadu Cortez disse...

Boa Duda, acabei de entrar no seu blog. Eu era um desses ancoras da Rádio Sulamérica Trânsito, poxa não fique chateado, tentavamos fazer as pessoas se distraírem, ehehehe.
Grande abraço
Cadu Cortez
caducortez.blogspot.com.br

Wagner Hilário disse...

Olá, Duda.

Demorei, mas não falhei. E, prosseguindo com a pobre rima, adorei... o texto. É bem mais divertido que o meu e, diria, mais comum aos paulistanos.

O retrato que fez dessa sua manhã esfumaçada e zunidora (motoqueiro buzinando nos corredores parece marimbondo enfurecido) é o retrato da manhã de muitos, o meu inclusive.

Abraço.

Ah, postei novos textos em meu blog. Os recentes não são muito divertidos. Se quiser ler um mais divertido, sugiro http://soprodoverbo.blogspot.com/2009/02/o-possuido.html. É ficcção, mas baseada em fatos reais.