terça-feira, 8 de setembro de 2009

O sanatório – parte 1


Quando soube que um velho amigo estava em um sanatório numa cidade do interior, em uma ala específica para jornalistas, decidi visitá-lo. Sim, havia uma ala específica para jornalistas. A viagem de trem, que subiu uma serra para chegar à clínica, foi lenta. O sanatório ficava nas montanhas, perdido no meio do nada. E era triste, como não poderia deixar de ser. Meu amigo dormia e tive a permissão para esperá-lo no pátio, onde outros jornalistas loucos estavam, tomando um resto de sol, caminhando, falando sozinho.

Notei um homem de barba e cabelos longos sentado no chão. Embora devesse receber cuidados, estava em um estado deplorável. Lembrava um mendigo. Pegava sujeira dos cabelos e colocava na boca. Me olhava de um jeito agressivo. Foi então que um outro maluco, com uma aparência até elegante, aproximou-se. Sorriu, sentou-se ao meu lado e puxou assunto. Logo de cara disse que não era louco, que não deveria estar ali.

- Fui um dos jornalistas mais premiados de minha geração, sabia? Ganhei prêmios Esso e outros mais. Pode perguntar a qualquer um aqui. Sou o mais respeitado dessa espelunca.

Meu amigo ainda dormia. Será que recebeu uma dose cavalar de sedativo? O premiado jornalista, que se apresentou como Ernesto, não parava de falar, de contar suas glórias, sua trajetória de sucesso. Um enfermeiro me chamou para entrar. Finalmente.

- Nossa, o Ernesto fala demais, brinquei com o enfermeiro. Me contou todos os seus prêmios, falou das cerimônias de entrega, dos discursos de agradecimento...

- O Ernesto nunca ganhou prêmio, doutor, respondeu o enfermeiro. Aqui, tem um monte de ex-jornalista que nunca ganhou nada, mas fala que ganhou. Eram obcecados por isso.

Ri, meio sem graça.

- O único que ganhou um Esso aqui foi aquele sentado no chão – e apontou para o louco com a aparência deplorável, o que parecia um mendigo. Foi um fotógrafo e tanto, mas a cocaína acabou com ele. Perdeu família, dinheiro, o juízo, e acabou aqui, abandonado.

Suspirei. E voltei o meu olhar novamente ao homem que comia sujeiras do cabelo.

- Vamos lá, doutor, prosseguiu o enfermeiro. Seu amigo já acordou.

Continua no próximo post...

9 comentários:

Derla disse...
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Derla disse...

Duda pelo amor de Deus neh??? CadÊ o nome do cara? Ve se põe o nome do louco que ganhou o Esso no próximo post...

Flávia Romanelli disse...

Credo Duda, que sinistro rs
Cuidado que te prendem lá igual naquele conta do Garcia Marques, Só Vim Telefonar!

enilbap disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pabline Felix disse...

Esses aí são os que estão seguros! Pior são os que tão insanos por aí produzindo CADA reportagem... nem precisamos comentar, né?

Abração, Duda!

Gleyci Pamplona disse...

Coloca a mulher do "todinho" nesse sanatorio.

BitterSweet disse...

Todo Jornalista é louco, fato.

Julio Castellain disse...

Ótimo espaço camarada...
Entrarás na minha lista de preferidos...
Abraços

Duda Rangel disse...

É, meus caros, jornalismo é coisa para doido. Derla, o maluco do prêmio Esso pediu anonimato, mas não perca a segunda parte do post, nesta quinta. Julio, seja bem-vindo. Abraços a todos.