quarta-feira, 2 de junho de 2010

Crônica sobre o bloquinho de anotações


O bloquinho de anotações está para o jornalista assim como o estetoscópio está para o médico, o cassetete está para o policial, a bolsinha está para a puta e o gel para os cabelos está para o advogado. Por mais que a tecnologia avance, com seus palmtops e celulares de última geração, jornalista que é jornalista tem um bloquinho tosco, de preferência aqueles com espiral, papel de quinta categoria e o nome da empresa na capa.

Os jornalistas deveriam tratar com carinho o seu bloquinho, como o jogador de futebol que beija a bola antes de bater o pênalti, mas muitos são extremamente desleixados. Deixam o coitado tomar chuva, cair na lama, ser lambuzado por gordura de comida. Há também alguns jornalistas, do sexo masculino naturalmente, que costumam carregar os bloquinhos no bolso de trás da calça jeans. Além de oprimir a bunda gorda, aquela calça apertada faz o bloquinho perder todo seu charme. Não sei o que é pior: isso ou a velha pochete na cintura.

A caneta, companheira do bloquinho nas reportagens, nunca despertou em mim admiração. Ela é promíscua, passa de mão em mão e, na maioria das vezes, perde-se no mundo. E, quando quer, adora sacanear o jornalista. Já repararam que a caneta sempre falha no momento em que você precisa anotar uma declaração bombástica de alguém? Isso é coisa pensada, premeditada, trairagem das grandes. Nunca criei uma relação afetiva com as canetas. Quando os bloquinhos terminam, costumo guardá-los como lembrança. As canetas secas vão para o lixo.

No meu apê, ainda tenho bloquinhos de anotações velhos em caixas de sapato. Em suas páginas estão telefones de fontes que deveriam ter sido passados para a agenda. Mas eu nunca passei. Quando preciso de um destes números tenho de folhear os bloquinhos até encontrá-lo. Os garranchos escritos de forma apressada nos bloquinhos velhos contam um pouco de minha história como jornalista e são a prova de quão rápida, intensa e louca é essa vida. Aliás, como será que um jornalista consegue compreender uma caligrafia tão incompreensível?

23 comentários:

Ana Lima disse...

Adorei!
Eu NUNCA passo os telefones do bloco para a agenda, nunca. Sempre tenho de procurar... O bom é que, pelo menos, anoto o nome da pessoa.

Eu gosto de canetas. Nem que seja uma bic. São valiosas para mim. Já aconteceu de esquecer a caneta, ou ela falhar no meio da entrevista. Aí o entrevistado fica com dó e me empresta a Mont Blanc. È bonito e me deixaria emocionada se não fosse uma Mont Blanc da loja de 1,99.

Laís disse...

eu também tenho relação afetiva com as canetas...carrego sempre mais de uma, além dos lápis, mas sempre tenho alguma caneta favorita, que escreve macio. meus bloquinhos, além de abrigarem anotações, abrigam poemas e até desenhos que faço enquanto espero algum entrevistado. o bloquinho para mim é um verdadeiro companheiro.

Claudia Varella disse...

Duda,
adorei este post. Sensacional. Jornalista que é jornalista tem um bloquinho na bolsa. É isso mesmo. Bloquinho e caneta são como carne-e-unha para o jornalista. Vivem grudados, esperando a próxima anotação.
Parabéns por valorizar este companheiro tão presente (e relegado à segundo plano) que é o bloquinho.

Ewerton Martins disse...

Bloquinhos são mesmo inspiradores. Lá pelos idos de 2008 também fiz uma homenagem aos danados. A minha, um pouco mais gay. Segue.


Gosto muito de bloquinhos. Os de anotações. Bloquinhos coloridos, bloquinhos de papel-rascunho encadernados para serem usados em lembretes no serviço. Bloquinhos que fazem propaganda política, bloquinhos de papel reciclável. Bloquinhos de peças publicitárias. Eu adoro bloquinhos.
Nem sei se é por eu ser jornalista ou por eu ter uma memória nula — e por isso precisar da memória do papel para guardar meus pensamentos, decisões e as “coisas a fazer”. Acho que é mais por eu ser escritor, apaixonado pela palavra escrita, a idéia sacramentada à tinta e papel. Para mim, bloquinhos são tudo.
Aí surgiu o problema. Eu os adoro tanto, e com tanta intensidade, que não me permito usá-los. Tenho em casa uma coleção de bloquinhos de todo tipo, de microcadernos àqueles aglomerados de folhas presas por grude vermelho, coisa de gráfica rápida, mas tudo intocado.
São tantos que na estante não sobra espaço para meus livros. Na mesa o computador não encontra mais lugar, tantos são os bloquinhos amontoados. Nas gavetas, nada de cuecas, meias ou camisas: bloquinhos. E não me permitindo usá-los, continuo sem ter onde anotar meus pensamentos e compromissos — com a desvantagem de agora também não ter mais onde guardar meus livros, cuecas e camisas.

Flávia Romanelli disse...

Minha letra ficou horrível depois que me tornei repórter! Só eu mesma pra entender!
Eu tenho carinho pelos bloquinhos, mas odeio os gravadores. Sempre travam e depois é um saco ouvir toda a entrevista de novo!

Aline Viana disse...

Nossa, é muito isso! Tenho vários caderninhos, alguns desde que fui estagiária. Uns mais maltratados, outros menos.
Qto à letra ilegível deve ser nosso inconsciente protestando: "tem letra de médico, tá vendo? E tá aqui desperdiçando o talento!"
rsrs

Beijos

Maira Giosa disse...

Ipad? Notebook? Iphone?

Nada! Bom mesmo é aquele bloquinho todo amassado, de páginas amarelas e letras garranchadas!

Pq o bom da reportagem feita assim é isso: você só entende a caligrafia por uma semana...depois, ela passa a ser um borrão que te trás boas memórias.

Lucas Vettorazzo disse...

Minha letra no bloquinho de anotações é extremamente perecível. Se não a leio no dia da coletiva, nunca mais a entendo. Valeu, Duda.

Isa. disse...

Duda, preciso de um grande favor seu!
vc pode ajudar essa aspirante à foca a realizar uma matéria?
hahahaha
a minha pauta é sobre blogs, quero entrevistar vc com seu blog, se ele é um aforma de trabalho, qual a frequência qu evc posta, qtos leitores mais ou menos...
vc pode me ajudar?
me passa seu e-mail te mando tudo certinho.

isabela_nicastro@yahoo.com.br
beijos

Eloy Vieira disse...

eu n sou muito de anotar não, aposto muito na minha memoria auditiva, mas confesso que carrego 4 bloquinhos na minha mochila, cada um de um tamanho e em um bolso diferente. claro, sempre com canetas espalhadas por bolsos diferetes tb.

Larissa Veloso disse...

O texto ficou muito legal.
Mas cara, quando a gente começa a escrever sobre nossa relação subjetiva com objetos inanimados, tá na hora de parar.
Vai por mim...

Duda Rangel disse...

Amigos, valeu por compartilharem comigo as lembranças que os bloquinhos de anotações nos trazem. Jornalista que é jornalista não vive sem eles. Abraços!

Scheyla Joanne Horst disse...

E eis que um bloquinho sem a memória posterior do jornalista torna-se um algo meio "diário secreto escrito em códigos".

Lis Lemos disse...

Que bom saber que não sou a única que guarda os bloquinhos. Com a exceção de passo os telefones para a minha agenda, tão velha qto o primeiro bloco!

Flávia Reis disse...

Passar os telefones para a agenda é uma promessa que faço todo fim de ano!

Robson Custódio disse...

Pois é...Eu guardo meus bloquinhos...

às vezes, quando saio para cobrir algo, o coloco no bolso de trás da calça jeans..hehehe...

Sem bloquinho, nossas vidas não seriam as mesmas!!!

carlos homci disse...

É bicho,são atenuantes promíscuo de um caprichoso bloquinho.

Duda Rangel disse...

Para mim, passar os telefones do bloquinho para a agenda é um grande desafio. Abraços.

nanynhamagalhaes disse...

Muito bom! hahahaha Minha letra também ficou super feia depois que me tornei repórter e meus blocos ficam tão acabados de andar no mundo, que acabo jogando fora quando terminam as folhas. Não dá para entender nada mesmo. E as canetas, essas pilantras, sempre aprontam! hahahahaha! Adorei o texto!

Bárbara disse...

Como sempre, ótimo texto! Amooo meus bloquinhos! Também tenho todos guardados...

Anônimo disse...

Texto Genial. Bem, eu confesso que tenho uma espécie de afeto pelo meu bloquinho de anotações. Além disso, toda vez que entro em uma papelaria tenho que comprar um novo.
@livialessa_l3

Golby Pullig disse...

Derramar café em cima e ficar com parte das folhas grudadas pode?

Golby Pullig disse...

Ah Duda, preciso fazer um curso pra conseguir me desapegar dos blocos só pq me iludo de que vou passar os telefones pra agenda. Com isso tenho blocos com quatro anos mofando por aí...