segunda-feira, 21 de junho de 2010

O poder de adaptação do jornalista


Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter feliz. Fazia parte de uma equipe de 15 jornalistas em seu caderno. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo viu a direção do jornal baixar um passaralho para reduzir custos e cortar a cabeça de 10 colegas. Alfredo sobreviveu e precisou se adaptar à nova rotina, em uma redação bem mais enxuta.

Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter que não se matava de tanto escrever, apesar de estar em hard news. No máximo, uma matéria por dia, com tempo para uma boa apuração. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo sentiu o peso de uma equipe menor. Começou a fazer em média três reportagens diárias. No início, foi difícil, não conseguia respirar, mas hoje já se acostumou ao duro processo industrial.

Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter que trabalhava 7 horas por dia, de acordo com o que determinava seu contrato de emprego. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo passou a trabalhar 12 horas diárias, afinal a equipe estava reduzida e ele tinha matérias pra cacete para escrever. Deixou de ter vida social. Mulher e amigos lamentaram. Aos poucos, porém, pôde se enquadrar nesta nova realidade.

Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter que adorava sair para a rua. Descobriu grandes pautas em suas andanças. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo teve de ficar, com o tempo, preso em sua mesa na redação, numa equipe de cinco repórteres, escrevendo em média três matérias por dia, trabalhando 12 horas, sem vida social e tendo de apurar suas reportagens por telefone e e-mail. Sentiu-se um passarinho na gaiola, mas resistiu a mais uma mudança.

Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter com carteira assinada. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo foi demitido e recontratado pelo jornal como pessoa jurídica. Agora, trabalha numa equipe de cinco repórteres, escreve em média três matérias por dia, em 12 horas de trabalho, sem vida social, apura suas reportagens por telefone e e-mail, preso numa redação, sem férias, 13º salário e outros benefícios. Ficou puto da vida, mas precisava muito do emprego. Hoje, nem reclama mais de ter perdido os direitos trabalhistas.

8 comentários:

Érico San Juan disse...

É pra rir ou chorar?

Derla disse...

Aí Duda! Entrei no seu blgo hoje para rir não para me jogar da janela... =(

Duda Rangel disse...

Caros, hoje estou realmente cruel, mas prometo aos que visitam este blog para rir que, após um banho quase gelado (são assim os banhos em meu apê), essa coisa hardcore que está em mim passa. Abraços do Duda

Laís disse...

aff...nessas horas que levanto as mãos pros céus e agradeço que sou funcionária pública :(

Juliana Tavares disse...

Mesmo sabendo da vida sofrida de um repórter, como você enfatizou muito bem, eu ainda quero viver disso. Será que eu sou uma louca apaixonada por jornalismo ou só uma masoquista?


Beijos!

Gabi disse...

me sinto assim!

Anônimo disse...

Pensei que ia terminar assim : Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era normal. Hoje vive em um manicômio próximo à redação que trabalhava...rsrs

Duda Rangel disse...

Juliana, acho que você é as duas coisas ao mesmo tempo: uma louca apaixonada pelo jornalismo e uma masoquista. :)
Gabi, não se deprima, não se deprima!
Anônimo, o manicômio não fica próximo à redação. Fica na própria redação.
Beijos e abraços do Duda