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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Essa edição é pra casar


Às vezes, acho que estou velho para tantos casos. Efêmeros. Estou velho, mas ainda gosto do imprevisível, dos riscos. Não que eu seja volúvel, longe disso, é que elas me seduzem. Parece que não sei viver sem elas, sem a variedade delas. Tem gente que vai ao McDonald´s e pede sempre o número 1. Eu sempre gostei de variar, sabe?

Mas quando o homem fica velho começa a pensar se não é hora de sossegar esse fogo, buscar uma relação mais estável, mais fiel. Um amigo meu, também jornalista, vive me dizendo: “as reportagens são excitantes – quem não gosta delas? –, mas já não é tempo de você pensar em trabalhar na edição? A edição é pra casar”.

A edição é o próprio casamento. Uma vida com roteiro pronto a que você se acostuma com o tempo, uma vida mais tranqüila, mais caseira. O grande risco é você engordar, porque se come muito mais. Na reportagem, chego a passar o dia com meia dúzia de cream cracker no estômago.

As reportagens exigem pique, fôlego, preparo físico, mental, espiritual, transcendental. Você não pode falhar. Não que eu falhe, longe disso – aliás, nunca falhei, eu juro –, é que eu sinto que as reportagens se ligam mais nos garotões, nos caras que estão começando. Será que não estou fazendo o papel do tiozão bobo que ainda acha que apavora?

O tal meu amigo me disse também que, quando eu quiser, me arruma rapidinho um esquema com a edição. Mas é esquema sério, papel passado e tal. Edição decente, de família.

Mas enquanto eu não me decido, sigo com as minhas reportagens. Aliás, daqui a pouco vou para uma nova, lá no centro da cidade. O pauteiro ainda não me disse do que se trata, por isso, eu fico aqui imaginando, fantasiando. Será que é uma reportagem bem gostosa, daquelas de deixar o jornalista a tarde toda eufórico, extasiado? Só não pense que sou tarado, por favor. Longe disso.

Leia também: Separação

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Vai que vai


Repórter vai pra onde vai a sua curiosidade.

Ou pra onde o chefe manda mesmo.

Vai pra delegacia. Vai pra guerra no morro. Vai pra guerra no campo. Vai pra enchente. Vai pra hospital. Vai pra velório. Vai pra enterro. Vai pra protesto na rua. Vai pro Congresso. Vai pro fim do mundo, pra onde Judas perdeu as pautas.

Mas vai.

Vai de carro da reportagem. Vai de avião. Vai de táxi. Vai de busão. Vai com pressa. Vai com a língua de fora. Vai com a orelha de pé. Vai pela sombra. Vai pelo sol. Vai pela chuva. Vai ao cair da noite. Vai ao cair da cama. Vai com remela nos olhos.

Mas vai.

Vai com bloquinho. Vai com gravador. Vai com máquina fotográfica. Vai com Bic quase seca. Vai com perguntas na cabeça. Vai sem nada na cabeça. Vai com o coração na boca. Vai com o cu na mão.

Mas vai.

Vai com frio. Vai com calor. Vai com sede. Vai com vontade de mijar. Vai com vontade de cagar. Vai sem vontade nenhuma. Vai de barriga vazia. Vai de saco cheio. Vai reclamando. Vai molengando. Vai aos trancos. Vai aos barrancos.

Repórter vai que vai.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Crônica sobre a ingenuidade do repórter


Tem quem fale que repórter ingênuo devia nascer morto.

Sexta-feira à noite, véspera de minha folga, e o editor vem cheio de graça. Ô, Duda, você tem alguma coisa programada pro fim de semana? Só os ingênuos dizem “não, não tenho”. Se não tem, invente! Diga qualquer coisa. Diga que está rolando um ciclo de filmes romenos mudos imperdível, que você vai pegar um bronze numa praia qualquer – logo você que odeia sol. E praia.

É comum também, após um passaralho, o patrão reunir os repórteres sobreviventes e avisar que, por ora, as vagas estão congeladas e que todos deverão se esforçar mais, trabalhar pelos colegas demitidos. Mas é só por um tempo! Depois as vagas serão descongeladas. Tem repórter que acredita. Descongelam porra nenhuma! Tenho vontade é de congelar o patrão no freezer lá de casa. Em partes. Cabeça, mãos, vísceras, tudo embalado a vácuo.

Tem repórter que enche a boca para dizer que trabalha na grande imprensa, que é independente, sem o rabicó preso. Quanta ingenuidade! Alguns acreditam ser insubstituíveis numa redação. Quando eu sair, essa merda afunda. Mas merda não afunda, seu bobinho! Virão outros, ganhando um salário ainda menor. E o barco seguirá seu rumo.

Ingenuidade não combina com o trabalho de repórter. Desconfie de tudo e de todos, dos Malufs e Sarneys, da tal gente de bem, dos projetos artísticos de ex-BBB, dos releases infestados de superlativos. Desconfie até do que se vê com os próprios olhos.

Repórter tem que ser como puta velha, sabida das coisas da vida.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Quem?


O jornalista desinformado chega ao bolo de repórteres em volta do entrevistado. Atrasado. Não fala nada. Apenas estica a mão com o gravador. Finge escutar as respostas. Franze a testa. Faz cara de conteúdo. Cochicha no ouvido do colega ao lado: “qual o nome dele mesmo?”. Volta a ouvir as palavras do entrevistado, que apenas passeiam por sua mente, flutuam. Ameaça fazer uma pergunta: “mas, senador, senador...” quando é interrompido por um repórter mais rápido, que faz a pergunta, para a alegria do jornalista desinformado. Troca o gravador de mão. Mantém a cara de conteúdo. Cochicha no ouvido de outro colega: “de que partido ele é mesmo?”. Pensa na festa de logo mais, pensa que vai encontrar a Mariana, do suplemento cultural. Um fotógrafo pisa no seu pé. Ele nem percebe. Esboça nova intenção de fazer uma pergunta, pergunta importante, claro, de impressionar a todos, mas outro repórter o interrompe. Simula ficar nervoso, como se a ele não fosse concedido o democrático direito de expressão. Troca o gravador de mão novamente. Olha para o relógio. Pensa que a Mariana está solteira. Sorri. Sorri ainda mais com o fim da entrevista. Recolhe o gravador. Suspira. Aproxima-se de outro repórter: “o senador falou de reforma política ou tributária?”. Fica assustado com a resposta grosseira, aperta as sobrancelhas, mas insiste na busca da informação: “reforma agrária?”.

segunda-feira, 14 de março de 2011

dessintonia fina


o fotógrafo senta no banco da frente do carro o repórter se ajeita na parte de trás o motorista pergunta onde é a pauta o fotógrafo abre a boca de sono o repórter explica o caminho da pauta o motorista começa a correr o fotógrafo sorri o repórter pede cuidado pro motorista o motorista não respeita as leis de trânsito o fotógrafo acende o cigarro o repórter não gosta de cigarro o motorista reclama da fumaça o fotógrafo reclama do trânsito o repórter manda o fotógrafo apagar o cigarro o fotógrafo chama o repórter de viado o motorista começa a fazer fofocas da redação o repórter gosta das fofocas da redação o motorista diz que a maria da fotografia dá pro joão da diagramação o fotógrafo não gosta de saber que a maria da fotografia dá pro joão da diagramação o repórter pergunta se a maria da fotografia não dá pro leal da geral o fotógrafo apaga o cigarro o motorista responde que o leal da geral pega a lia da economia o fotógrafo não gosta das fofocas da redação o motorista liga o rádio o motorista gosta de pagode o fotógrafo gosta de blues o repórter não gosta de pagode nem de blues o fotógrafo desliga o rádio o repórter pede pro motorista ligar o ar-condicionado o fotógrafo não gosta de ar-condicionado o motorista levanta os vidros escuros o fotógrafo não gosta dos vidros escuros o repórter manda o fotógrafo pra merda o fotógrafo abaixa os vidros escuros o motorista desliga o ar-condicionado o fotógrafo gosta de flagrar as cenas da cidade o motorista gosta de flagrar o vaivém das moças o repórter reclama do calor o motorista reclama da falta do pagode o fotógrafo reclama da falta do cigarro o motorista pergunta se a pauta é rápida o repórter diz que a pauta não é rápida o motorista diz que vai aproveitar para visitar uma amiga o repórter diz que o motorista não vai visitar porra nenhuma de amiga o fotógrafo lembra que vai ter almoço na pauta o motorista pede então pro repórter pra ficar no almoço o repórter não gosta que o motorista fique no almoço o fotógrafo diz que uma boca a mais não vai fazer diferença o repórter promete falar com o assessor sobre o almoço do motorista o motorista fica todo satisfeito o motorista gosta de boca-livre o fotógrafo também gosta de boca-livre o repórter gosta de boca-livre mais do que o motorista e o fotógrafo juntos

sexta-feira, 11 de março de 2011

Repórter que é repórter


Repórter que é repórter é um curioso.

Observa, desconfia, questiona, pesquisa, investiga, apura, vasculha, sonda, estuda, fuça, persegue, bisbilhota, sabatina, faz lucubrações. Abelhudices.

Repórter que é repórter tem coragem de ir pra Líbia, Egito, Afeganistão. Repórter que é repórter tem boas fontes. Tem sorte.

Repórter que é repórter faz malabarismos pra sobreviver. É artista de circo, respeitável leitor. Doma entrevistados ferozes. Tira leads da cartola. Anda na corda bamba do emprego. Repórter que é repórter é o palhaço que ri de si mesmo.

Repórter que é repórter sabe que não muda o país. Repórter muda de país. Vira correspondente ou vai se reciclar em Londres. Repórter adora se reciclar em Londres. Repórter que é repórter sabe que não salva o mundo. Repórter salva, no máximo e quando não esquece, o texto que está escrevendo.

Repórter que é repórter tem o olhar apurado. É o menino que espia o banho da prima pelo buraco da fechadura.

Tem o ouvido apurado. É o vira-lata que levanta a orelha a qualquer zunzunzum.

Tem o olfato e o tato apurados. Mete o nariz onde não é chamado. As mãos, os braços, as pernas. Mete o corpo inteiro.

Tem o paladar apurado. Assessor, jamais ouse servir a um repórter coxão duro como se fosse filé mignon ao molho madeira numa coletiva de imprensa!

Repórter que é repórter tem um sexto sentido do caralho.


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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

10 dicas para uma boa cobertura de carnaval


1. Seja na avenida, num baile de salão ou atrás de um trio elétrico, tente fugir das perguntas óbvias quando for entrevistar um folião. Pelo amor de Deus, nada de “muita emoção?” ou “curtindo o carnaval?” ou ainda “e essa energia tem hora pra acabar?”.

2. Evite os personagens manjados, como o gari que samba feliz; o rapaz que sofre para empurrar o carro alegórico, mas faz isso pelo amor à escola de samba; ou a tiazinha gorda na arquibancada do sambódromo que não perde o pique apesar da chuva.

3. Entrevistar um carnavalesco não é missão fácil. Para se ter uma dimensão da encrenca, esse povo tem o ego maior do que o de nós, jornalistas. Seja cauteloso nas perguntas para não magoá-lo e correr o risco de presenciar um dos maiores pitis de sua vida.

4. Se for entrevistar (sub)celebridades em bailes, na concentração ou em camarotes de cervejaria, cheque o nome da pessoa antes de entrar ao vivo na TV. E fale apenas com gente interessante. Não caia naquela lorota dos “projetos artísticos sigilosos”.

5. Não se revolte se esbarrar numa Carla Perez trabalhando como repórter ao seu lado. Pensamentos ruins, como “nosso diploma não vale nada mesmo” ou “poderia ter gastado a grana da faculdade numa lipo”, vão atrapalhar a sua concentração.

6. É fundamental ter cuidados com a voz. Fazer perguntas gritando, em meio ao barulho, deixa qualquer um rouco. Neste caso, não é considerada prática antiética levar a boca para bem perto da orelha do entrevistado. Mas sem enfiar a língua, ok?

7. Prepare-se para todo tipo de adversidade – chuva, sol, altos decibéis de música sem parar, cheiro insuportável de mijo nas ruas, cantadas de baixo nível e, claro, piadinhas como “aí, jornalista, trabalhando no carnaval! Se fodeu, hein?”.

8. No dia da apuração do bloco especial, é conveniente trabalhar com protetores de cabeça e maxilar (como os de pugilistas). Apuração é sempre aquela briga e tumulto de repórteres querendo falar com o presidente da escola campeã ou rebaixada.

9. Se você odeia samba ou axé, cobrir o carnaval ouvindo rock no MP3 player é uma ótima dica. Só não esqueça de tirar os fones do ouvido na hora de uma entrevista. Uma desintoxicação pós-festa (não ouvir Ivete Sangalo durante a quaresma) também é uma boa.

10. Se você é casado e terá de trabalhar os quatro dias, nada de ficar ligando pra casa a todo o momento pra saber se sua mulher ou seu marido está se comportando. Relaxe! E por que não prestar atenção naquela diabinha safada ou no bombeiro musculoso? Afinal é carnaval.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

A matéria da sua vida


A repórter buscou ajuda até de Mãe Samantha, a cartomante. Não queria saber nada de futuros namorados, das coisas do coração. Só perguntava sobre a tal grande reportagem da sua vida. Qual seria? Quando seria?

Jornalista não nasceu só para cobrir o buraco na rua.

O jornalista persegue a matéria da sua vida assim como os Cavaleiros da Távola Redonda buscavam o Santo Graal. É o nosso cálice sagrado. Perfeição, prestígio, ascensão.

Há quem nunca consiga encontrar a matéria da sua vida. Sensação de morrer virgem.

A matéria da sua vida é diferenciada. Impactante. Dá notoriedade ao jornalista. Muitas vezes, é apenas fama passageira. Em outros casos, pode abrir portas, janelas, horizontes.

A matéria da sua vida pode ser uma denúncia de derrubar presidente. Ou o chefão da Polícia. Ou o padre pedófilo. Pode ser uma entrevista exclusiva, com o Fidel, ou com o serial killer da zona sul foragido há meses.

A busca pela matéria da sua vida exige reuniões de pauta mentais. Uma viagem interna. Longas reflexões, grandes sacadas. Exige também bom relacionamento com delegados, promotores, políticos e outras fontes influentes. As nada influentes são ainda melhores, como o tiozinho que faz a limpeza no Congresso e conhece histórias que ninguém conhece.

Tem gente que faz de tudo pela matéria da sua vida. Até consultar uma cartomante.

Mãe Samantha segurou as mãos suadas da repórter e, antes de decretar o destino da moça, pigarreou. A grande reportagem da sua vida, minha filha, ainda vai demorar um pouco. Você vai ter que ter paciência. Mas eu vejo um loiro alto e bonito em seu caminho. Serve?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Fotógrafo, o Terrível


Antes da foto, deixa só eu anotar o seu nome, por favor. Só um instante. Cadê a minha caneta? Cadê a mi-nha ca-ne-ta? Só um instante. Opa. Aceito, sim. Obrigado. Bonita, hein? Esta caneta deve custar uma fortuna, né? (risos) Também você é o presidente da empresa. Brincadeira. Ah, não é o presidente? Desculpa. Vice-presidente de Finanças? Sim, sim. Bom, é o cara da grana! (risos) Deixa eu anotar então tudo aqui. Nome? Jo-ão Fran-cis-co A-qui-no. Ok. Vice-presidente de Finanças. Certo. Vamos pra foto então? Olha, eu queria fazer com aquele fundo ali. Tudo bem? Pode ser? Assessor? Tá jóia? Vamos lá então. Beleza. Mais pra lá, por favor. Pra direita. Isso. Fecha o paletó, por gentileza. Isso. Obrigado. Assim fica mais bonito. Ok, ok. Maravilha. Vamos fazer aquela clássica foto soquinho no queixo. Pode ser? Ótima. Isso. Mais uma. Mais uma. Peraí. Opa. Ótimo. Agora, aquela com os braços cruzados. Isso. Cara de executivo do ano. Isso. Cara de futuro presidente da empresa. (risos) Mais uma. Ficou boa, ficou boa. Essa aqui é de capa de revista, hein? Boa, boa. Agora, com aquele outro fundo ali. Pode ser? Vamos lá. Assim. Mais de lado. Um pouco mais pra lá. Tá muito sério. Parece até que a empresa tá quebrando. (risos) Isso. Assim ficou melhor. Mais outra ali na mesa. Ok? É, a gente tem que fazer várias fotos pra escolher depois. No passado? A gente também fazia várias fotos, mesmo sem câmera digital. Fazia, sim. Mais pra lá. Isso. Só que a gente ficava escolhendo foto no negativo. Pois é. Agora tá mais fácil. A última. Maravilha. É isso aí. Zé Fini. Obrigadão. Ufa. Tudo certo então. Vou nessa que ainda tenho outra pauta agora. Oi? A caneta? Meu Deus, onde eu tô com a cabeça pra colocar a sua caneta no meu bolso? Meu Deus, me desculpa, me desculpa. Até mais. Obrigado. Desculpa, viu? Até logo. (...) Assessor, obrigado pela força. Pode deixar que a gente vai escolher uma bem bonita. Sim, sim. É, mas se vai ser capa ou não, só com o editor. Você sabe, né? Ah, me fala só mais uma coisinha: sabe aquele sanduba que você me ofereceu na chegada? Tem mais algum aí?

Leia também: Uma riquíssima fauna humana – parte 2

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Os dias bons


Dia bom é dia de homicídio, parricídio, vizinhocídio. É a maldade humana que vende jornal. De atropelamento ninguém quer saber. Ainda mais se for de velhinha.

Alexandre já estava na terceira delegacia de sua ronda matutina e os boletins de ocorrência da noite e da madrugada só falavam do bêbado que bateu na mulher aqui, do carro roubado ali, da confusão no pagode acolá.

Dia bom é dia de chacina, carnificina e outras tristes sinas. É a história do menino trabalhador que estava no lugar errado e na hora errada quando o fuzilamento no bar começou que vende jornal. Ele só queria comprar um maço de cigarros pra mãe.

Alexandre ainda tinha esperança de salvar a página policial do dia seguinte nas duas delegacias que restavam. Essa busca o excitava. Quando encontrava "a notícia" em algum BO, burocrática e fria, anotava telefones e endereços dos parentes da vítima e voava para o carro de reportagem. Começava a melhor parte: a descoberta da história oculta, ainda mais sórdida, mais humana.

Dia bom é dia de velório com revolta, de desgraça sem volta.

É o que vende jornal.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Me dá uma pauta aí


Ele até conseguia suportar a rejeição da menina que amava, do pai, que queria um filho médico, mas não a rejeição do pauteiro. Tem dor maior para a alma de um jovem repórter do que a dor de ficar sem pauta? Enquanto os outros repórteres estavam na rua, apurando, investigando, vivendo, o jovem repórter sem pauta estava condenado à melancolia da redação, lendo o horóscopo do dia, fazendo pesquisas no arquivo, fingindo viver.

Nas reuniões de pauta semanais, que definiam as matérias das edições seguintes, o jovem repórter ficava no seu canto, diminuído, invisível. Para passar o tempo e enganar o constrangimento, rabiscava, dezenas de vezes, o seu nome numa folha de papel. Quando estava muito irritado com a situação – quase sempre –, costumava rabiscar “pauteiro filho-da-puta”.

Todos já estavam deixando a sala de reunião e ele, tímido, esboçou uma reação.

- Oi, senhor... senhor pauteiro? Olha, eu fiquei sem pauta de novo esta semana. Não tem nada que eu possa fazer, ajudar em alguma matéria especial?

O pauteiro sugeriu a ele redigir mais um daqueles perfis de gaveta, que são publicados na ocasião da morte de pessoas famosas.

- Mas, senhor, a trajetória pessoal e profissional da Hebe Camargo eu já escrevi na semana passada. Passei dois dias no arquivo só fazendo pesquisa, o senhor não lembra? Não tem pelo menos alguém diferente pra gente matar esta semana?

Foi pra isso que eu estudei quatro anos?, refletia, no ônibus, na volta para casa. Quando a gente está na faculdade, não vê a hora de começar a trabalhar de verdade. Então eu chego à redação e é esse o meu destino, o ceifador de vidas de celebridades?

Já pensava em estudar Medicina – por que não ouvi o meu pai? – quando um repórter mais velho e gente boa lhe deu uma dica.

- Rapaz, não fique esperando pela pauta! Você é quem tem que sugerir a pauta. Pare de reclamar e coloque essa cabeça pra funcionar. Cadê a porra da pró-atividade?

Na reunião de pauta seguinte, chegou cheio de idéias. A excitação era tanta que nem se lembrou dos rabiscos. Mas a reunião foi mais breve e ele não conseguiu apresentar as sugestões ao pauteiro. Mesmo assim, estava empolgado. Sabia que a grande oportunidade chegaria. E só dependia dele. Naquela tarde, enquanto pesquisava a vida e a obra de Elza Soares no arquivo, até sorriu. Seus dias de jornalismo mórbido estavam perto do fim.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Crônica sobre o bloquinho de anotações


O bloquinho de anotações está para o jornalista assim como o estetoscópio está para o médico, o cassetete está para o policial, a bolsinha está para a puta e o gel para os cabelos está para o advogado. Por mais que a tecnologia avance, com seus palmtops e celulares de última geração, jornalista que é jornalista tem um bloquinho tosco, de preferência aqueles com espiral, papel de quinta categoria e o nome da empresa na capa.

Os jornalistas deveriam tratar com carinho o seu bloquinho, como o jogador de futebol que beija a bola antes de bater o pênalti, mas muitos são extremamente desleixados. Deixam o coitado tomar chuva, cair na lama, ser lambuzado por gordura de comida. Há também alguns jornalistas, do sexo masculino naturalmente, que costumam carregar os bloquinhos no bolso de trás da calça jeans. Além de oprimir a bunda gorda, aquela calça apertada faz o bloquinho perder todo seu charme. Não sei o que é pior: isso ou a velha pochete na cintura.

A caneta, companheira do bloquinho nas reportagens, nunca despertou em mim admiração. Ela é promíscua, passa de mão em mão e, na maioria das vezes, perde-se no mundo. E, quando quer, adora sacanear o jornalista. Já repararam que a caneta sempre falha no momento em que você precisa anotar uma declaração bombástica de alguém? Isso é coisa pensada, premeditada, trairagem das grandes. Nunca criei uma relação afetiva com as canetas. Quando os bloquinhos terminam, costumo guardá-los como lembrança. As canetas secas vão para o lixo.

No meu apê, ainda tenho bloquinhos de anotações velhos em caixas de sapato. Em suas páginas estão telefones de fontes que deveriam ter sido passados para a agenda. Mas eu nunca passei. Quando preciso de um destes números tenho de folhear os bloquinhos até encontrá-lo. Os garranchos escritos de forma apressada nos bloquinhos velhos contam um pouco de minha história como jornalista e são a prova de quão rápida, intensa e louca é essa vida. Aliás, como será que um jornalista consegue compreender uma caligrafia tão incompreensível?

quarta-feira, 26 de maio de 2010

A mentira que a vaidade do jornalista quer


Era um Gol simples, sem qualquer charme e com alguns amassados na lataria, mas os adesivos nas portas e no vidro traseiro conferiam ao carro um outro status. Aliás, não eram exatamente os adesivos, mas aquela palavra de dez letras que estava nos adesivos: REPORTAGEM.

A primeira vez que entrei no carro do jornal e segui para uma pauta pelas ruas da cidade, me senti subitamente importante, nobre, cheio de deliciosas ilusões. Em nada eu lembrava o foca ainda sem contrato de trabalho que chegara à redação de trem.

O carro de reportagem desperta a vaidade do jornalista. O repórter senta-se no banco ao lado do motorista, coloca os óculos escuros – mesmo nos dias chuvosos e cinzentos –, faz um esforço danado para driblar a cifose e conseguir deixar a coluna ereta, abaixa o vidro e fuma com desenvoltura. Quando o carro pára no farol, ele começa a investigar as pessoas comuns a seu redor e tem a certeza de que elas estão olhando para ele e pensando: “Nossa, o cara é jornalista, deve ser importante. Será que é da Globo? Queria levar a vida que ele leva”.

Sempre atrasado para a pauta, o jornalista sugere ao motorista que desrespeite algumas leis de trânsito, como avançar o sinal vermelho ou os limites de velocidade, afinal está num carro de reportagem, que tudo pode. As leis valem apenas para as pessoas comuns, as mesmas que olham para o jornalista com inveja e encantamento. O motorista, que também se sente importante com seus óculos escuros – mesmo nos dias chuvosos e cinzentos –, concorda com o jornalista e pisa fundo no acelerador.

O carro de reportagem é amigo dos carros da polícia, que também são diferenciados. A rua está interditada por causa de um protesto de moradores um pouco mais à frente, mas o policial dá sinal verde para o carro de reportagem furar o bloqueio. Para chegar com mais facilidade à sua pauta, o carro do jornalista tem o privilégio de subir na calçada e ir além dos limites estabelecidos às pessoas comuns. O carro estaciona e o repórter desce com a empáfia escrota de um anônimo que se sente uma estrela pop.

Naquela minha primeira viagem no carro de reportagem do jornal, voltei à redação com a sensação de ser “o cara” e, mesmo após algum tempo em terra firme, continuei extasiado pelo poder mentiroso dos adesivos. Só me dei conta do quão ordinário eu era quando, voltando para casa naquele mesmo dia, olhei fixamente para um outro adesivo na porta de um outro carro: “Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma”.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Guia de sobrevivência para repórteres em situações de saia-justa


1) Quando você esquecer o nome de um entrevistado, chame-o pelo cargo, como deputado ou professor. Se o cara não tiver cargo algum, mande um “senhor” mesmo. É melhor do que chutar qualquer nome. Se arriscar e errar, peça perdão pela confusão. Se tentar de novo e errar de novo, acabe a pauta rapidinho para não fazer mais cagada.

2) Se você chegar todo suado a uma entrevista, com gigantescas pizzas no sovaco, após enfrentar um trânsito caótico no carro do jornal que mais parecia um forno de microondas, permaneça por alguns minutos em um ambiente com ar-condicionado para se secar. Reze para o seu desodorante Rexona não estar vencido.

3) Se na hora de apertar a tecla “REC”, você perceber que o gravador está sem pilha, guarde-o rapidamente e disfarce. Se o entrevistado perceber que a porra do gravador está sem a porra da pilha, ponha a culpa pelo descuido no rapaz que cuida dos recursos audiovisuais da redação.

4) Se uma fonte lhe acusar, em público, de alguma cafajestada jornalística, adote a tática da negação, muito utilizada por Paulo Maluf: “Você distorceu o que eu disse; Eu nego”, “Você é um caluniador; Eu nego”, "Você é um mentiroso; Eu nego”. Fale com firmeza. Gaguejar é um sinal de fraqueza e autocondenação.

5) Se você for um repórter de TV e, numa entrada ao vivo, um entrevistado começar a fazer gracinhas e falar palavrões no microfone, mantenha a sobriedade, corte a conversa e chame o apresentador no estúdio. Fora do ar, controle-se para não encher o desgraçado de porrada.

6) Se você fizer piadinhas em frente ao seu cinegrafista – sem perceber que ele está com a câmera ligada – e o cara colocar as imagens no YouTube só para te sacanear, aprenda que este é um dos grandes micos dos tempos modernos. Quando encontrá-lo desprevenido na redação, encha o desgraçado de porrada.

7) Quando você cair de pára-quedas numa pauta, de última hora, não entre em pânico. Tente fazer uma pesquisa rápida no Google ou se informar com alguém que entenda do assunto no local da entrevista. A pior coisa é ficar falando abobrinhas ou não abrir a boca enquanto a fonte faz o seu monólogo.

8) Se num jantar chique, tipo boca-livre-baba-ovo-de-bacana, você ficar indeciso sobre qual talher usar primeiro, olhe para a pessoa mais rica e sofisticada da mesa e copie suas ações. Nunca olhe para outro jornalista e, muito menos, para o motorista do jornal que entrou de bicão, que também estarão perdidaços.

9) Se no meio de uma coletiva importante, daquelas que você não pode perder nada, bater uma puta diarréia (o maldito filé mignon ao molho madeira não caiu bem), tente segurar o rojão o quanto puder. O suor frio é normal. A dor estomacal que sobe pelo peito também. Se sentir que irá perder o controle da situação, evacue do local imediatamente.

10) Se você estiver entrevistando um importante presidente de multinacional e o teu celular começar a tocar com a música Dança da Manivela, há duas saídas. A primeira é se desculpar e dizer que pegou por engano o telefone da faxineira; a segunda é fingir que o som não vem do teu celular e perguntar, surpreso: “Tá rolando alguma micareta por perto?”.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Confissões de uma repórter


No rosto assimétrico, uma barba recortada por falhas. Nos cabelos sem brilho, um enrosco de fios rebeldes. Ele nem é tão bonito. Usa pochete na cintura. Mas ao seu lado sinto um negócio diferente. O conheci há quatro meses, três semanas, dois dias e 11 horas, numa passeata de professores em greve. Encontros casuais, sempre nas pautas. Descobri o seu nome por colegas. O nome e a redação onde trabalha. Um portal de internet. Assim como eu. Um sinal? Na prisão de um traficante, perguntei a ele as horas. No incêndio de uma favela, lhe pedi uma caneta emprestada. Na inauguração de um viaduto, tropecei em cabos de microfone e esbarrei em seu braço. Nosso contato mais íntimo e selvagem em todo esse tempo! Às vezes, acho que ele não nota a minha presença. Nem dá atenção para mim. Mas ao seu lado sinto um negócio diferente. Quando o vejo, meu dia fica musical. Esqueço as neuras da redação. Meu editor parece menos ranzinza. Sonho acordada nas coletivas de imprensa. Quando não o encontro, me contento com a leitura de suas matérias. Nada brilhante. Tem sérias dificuldades com regência verbal. Apanha feio das regras de crase. Nem é um grande repórter. Mas ao seu lado... Bem, vocês já sabem. O problema é que, ultimamente, ele só tem aparecido na tela do meu computador. Há três semanas, dois dias e nove horas. As coberturas já não são mais as mesmas. Tenho saudade do seu jeito desleixado, de seu olhar desatento. Sentir aquele negócio diferente me faz uma falta danada.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Bola na trave não altera o placar


Um olho no campo, o outro na tela do notebook. Era assim que eu cobria um jogo de futebol da tribuna de imprensa do estádio, principalmente nas noites de quarta-feira. O jogo acabava quase à meia-noite e o deadline era apertadíssimo. O juiz apitava o fim e eu tinha uns cinco minutos para enviar o texto para a redação. E, se por um atraso meu a matéria do jogo ficasse de fora da edição, no dia seguinte, meu editor e a torcida dos dois times me xingariam muito, mas muito mesmo. Não dava para bobear. O jeito, então, era assistir à partida e, ao mesmo tempo, escrever o seu relato.

Numa dessas noites de quarta-feira, estava eu num estádio, passando um frio do caralho – a tribuna não era uma sala fechada –, apertando os olhos para driblar minha miopia e enxergar algo naquele campo mal-iluminado e tendo de suportar um joguinho horrível. Vida de repórter esportivo não é fácil. No intervalo do jogo, já havia escrito uns 80% do texto. Vocês já repararam que nos relatos de jogos o primeiro tempo tem sempre mais espaço? Mesmo que todos os gols tenham acontecido no segundo.

A estratégia de deixar o texto quase pronto ainda no intervalo tem lá seus riscos também. O lead naquela noite fria dizia que o empate sem gols resumia bem a mediocridade da partida, sem qualquer emoção. A matéria estava fechada aos 35 minutos do segundo tempo e eu torcia para que nenhum dos times marcasse um gol no tempo que restava. Teria de reconstruir todo o texto.

Acho que, na história do futebol mundial, nunca alguém torceu tanto por um zero a zero como eu naquela noite. A tensão era tão grande que eu até esqueci o frio. Para piorar, o filho-da-puta do juiz ainda decidiu dar uns cinco minutos de acréscimo. Aos 49, a bola foi cruzada na área, o centroavante cabeceou para o chão, com força, no canto do goleiro. Tremi. A bola bateu na trave e saiu. Na tribuna, eu gritei, aliviado, como se comemorasse um gol. Quem disse que repórter esportivo não pode torcer?

quarta-feira, 17 de março de 2010

Que porra é essa?


Na manhã daquela sexta-feira, eu, ainda um jovem Duda, cheguei à redação tranqüilo. Não estava na pauta do dia, tinha apenas uns textos para escrever para o fim de semana. Daria para almoçar com calma, fazer algumas pesquisas e paquerar a menina do arquivo. Mas como eu sempre me dou mal neste blog, a história deste post não poderia ser diferente. O pauteiro, que me via de longe, apesar de minha discrição, aproximou-se rapidamente.

- Oi, Duda, que bom que você chegou. O Roberto, que não pôde vir hoje por causa de suas cólicas renais, tem uma entrevista marcada para as 11 horas com o embaixador brasileiro nos Estados Unidos, lá no prédio da Bolsa. Você vai ter de segurar essa.

- Mas olha a minha roupa. Não vim preparado para entrevistar um embaixador.

- Você está ótimo, Duda, e agora não dá para ficar preocupado com isso. A pauta é sobre aquela polêmica da propriedade intelectual, da quebra de patentes e tal.

- Eu preciso pesquisar algo no arquivo antes de ir.

- Duda, voa para a Bolsa porque a entrevista é daqui a meia hora!

Voei. Aliás, um vôo cheio de turbulência no carro de reportagem. Estava desesperado, inseguro. Comecei a ter dor de barriga, as mãos suavam. Não tinha qualquer idéia do que seria a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Que porra era aquela? Naquele tempo, não havia BlackBerry, internet móvel, Google ou Wikipedia para me socorrer. Éramos apenas eu e minha ignorância no carro. Ou melhor, ao meu lado também estava o seu Péricles, motorista do jornal, cantarolando uma música sertaneja que tocava na rádio.

- Ô, seu Péricles, o senhor sabe alguma coisa sobre esse caso de propriedade intelectual, da polêmica com os Estados Unidos?

- Olha, seu Duda, a única polêmica com propriedade que eu tô sabendo é a questão da regularização das casas lá onde eu moro.

E começou a contar que morava num terreno invadido havia anos, que era área de manancial, mas que a prefeitura estava querendo dar o título de propriedade aos moradores. A minha cabeça viajava, não ouvia mais nada da história do motorista. Pensei em fazer a mesma consulta ao rapaz que vendia Suflair no farol, mas logo percebi que esta tentativa seria pior do que a primeira. E não era só o meu desconhecimento sobre o assunto que me perturbava. O que eram aquelas roupas? Calça velha, tênis velhos, camisa amarrotada. Ainda tinha a barba cerrada. O embaixador, com certeza, me olharia com cara de nojo.

Enfim cheguei ao prédio da Bolsa, com um ligeiro atraso e uma dor de barriga ainda maior. Subi, me apresentei e, minutos depois, fui recebido pelo embaixador. Com cara de nojo, é claro. Só fiquei mais aliviado quando apelei para a sinceridade. Contei das pedras no rim do meu colega de trabalho, que eu havia sido pego de surpresa pela pauta e que desconhecia o assunto. O embaixador riu e o que era para ser uma entrevista transformou-se num monólogo, ou uma aula sobre a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Entendi tudo e perfeitamente, e tive material abundante para, naquela tarde, escrever uma incrível notinha de sete linhas.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Medo de quê?


De cabeça baixa e com a silhueta curvada, estava estático na plataforma de bungee jump, como que hipnotizado por seus 40 metros de altura. Ariosvaldo – ou simplesmente Ari – era um jornalista de 70 anos que nunca admitiu se aposentar para ficar enterrado em casa. Sempre viveu a profissão intensamente. Detestava ficar preso na redação. Era um homem da rua, que não se contentava em relatar os fatos. Precisava viver os fatos. “As matérias ficam mais verdadeiras”, dizia.

Certa vez, quando jovem, virou garoto de programa para contar a dura vida dos michês. Em outra, morou embaixo de um viaduto por um mês, em companhia de mendigos, para escrever sobre a rotina violenta dos moradores de rua. Foram muitas aventuras. Para alguns colegas de profissão, Ari adorava chamar a atenção dos outros. Queria ser mais importante do que a notícia. Para outros, era simplesmente um louco apaixonado pelo jornalismo.

Com a aposentadoria, passou a viver de frilas. Seu trabalho atual era mostrar o interesse do pessoal da terceira idade pelos esportes radicais. “Ari, a pauta é a tua cara, coisa de maluco mesmo”, lhe afirmou o editor da revista. Estava animado com a empreitada. A empolgação, porém, contrastava com sua imobilidade fúnebre, instantes antes de saltar. O velhinho não se mexia. Seguia quieto, lá nas alturas. Ninguém entendia nada. Nem parentes, nem os curiosos que foram acompanhar o surpreendente espetáculo.

– É o que dá querer fazer o que não pode. Deveria estar em casa, escrevendo suas crônicas, de pijama – murmurou o fotógrafo da revista que o acompanhava na pauta.

O velho jornalista nunca dera atenção às fofocas. Não desejava provar nada a ninguém. Só queria trabalhar, sentir-se vivo, mas, naquela tarde, algo estava errado. Ari seguia imóvel, curvado. Parecia com medo. Logo ele, tão corajoso em suas aventuras jornalísticas! Teria se arrependido do desafio? Sentia-se mal?

Aflito, o fotógrafo decidiu que precisava tomar alguma iniciativa. Não agüentava mais ver aquela cena insólita. Correu até a plataforma e avançou com rapidez pela escada que levava ao topo. Como era alto lá de cima! Chamou pelo velhinho, que se virou para o rapaz. Estava pálido, coitado.

– Ari, o que aconteceu? Estão todos apreensivos lá embaixo.

– Não imaginei que esta hora pudesse chegar. Estou com muito medo.

– Medo de quê, Ari?

– De pular e perder uma das coisas mais preciosas que tenho.

– Sua linda vida?

– Não, meu amigo... a dentadura.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

São tantas emoções


Tenho a lembrança de duas grandes mentiras ditas por um professor de ética na faculdade: “o jornalista tem a obrigação de ser absolutamente racional” e “vou colocar apenas a cabecinha” (no caso, para algumas inocentes alunas que embarcavam com ele em aventuras extracurriculares). Neste post, vou abordar apenas a primeira grande mentira. Será que o jornalista precisa ter a frieza de uma boneca inflável para contar uma história sem distorcer a realidade?

A questão me voltou à mente ao ver o Jornal Nacional da última sexta-feira, quando os apresentadores, imbuídos de um sensacionalismo dateniano, anunciaram por todo o telejornal uma matéria sobre o resgate de uma haitiana presa sob os escombros, três dias após o terremoto em Porto Príncipe. O que me chamou a atenção foi a postura da repórter, que mesmo visivelmente emocionada, no local da tragédia, conseguiu relatar o trabalho de resgate feito por militares brasileiros.

Carlos Alberto Di Franco, um crítico da imprensa brasileira, escreveu certa vez: “Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística.” Concordo com ele. Em certas coberturas é muito difícil ficar indiferente a situações de extrema penúria humana, como acompanhar flagelados de uma catástrofe natural, sobreviventes de uma guerra ou fãs ensandecidos em um show da banda Calypso.

Um professor dizer que um jornalista não tem o direito de se emocionar – que precisa fazer o tipo durão – é o mesmo que um pai dizer para o filho que homem não chora, que isso é coisa de menininha. Tudo bem que não precisamos nos tornar uma Helena do Manoel Carlos diante de uma cena de terror. Mas um pouco de coração mole não faz mal à isenção jornalística de ninguém.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Não deixe a notícia morrer


Um jovem jornalista tem poucas dúvidas em relação à palavra “suíte”. Ele sabe muito bem que se trata do local em que pretende abater alguma moça. Seu único dilema é decidir por uma suíte mais básica ou por uma suíte mais top, com hidromassagem e pista de dança. No jornalismo, “suíte” é algo bem diferente, é muito mais do que um quartinho de motel.

“Suíte” é o desdobramento do fato, o que acontece no dia ou nos dias seguintes à notícia. Muitas histórias começam hoje e, infelizmente, morrem logo depois, porque o jornalista não se preocupou em ir além ou não teve tempo. Ao contrário dos filmes franceses, que têm começo, têm meio, mas não têm fim, a história jornalística precisa de um desfecho.

Muitas notícias acabam numa nota ou num pronunciamento oficial. Um exemplo: policiais torturam e matam um inocente qualquer numa favela qualquer. Então o comandante do batalhão dá uma resposta qualquer à imprensa, diz que vai abrir uma sindicância interna (qualquer) para investigar os fatos. E a história acaba por aí. O jornalista não apura mais nada, nem fica sabendo se a sindicância foi realmente aberta.

Acompanhei histórias que duraram meses. Buscava elementos novos, interessantes. Algumas dessas histórias pareciam os velhos folhetins de jornal. Mas confesso que demorei um pouco para entender a verdadeira importância da suíte no jornalismo.

Quanto às suítes de motel, desde muito jovem nunca tive dúvidas. Um amigo, mais velho, me ensinou em quais ocasiões devemos optar por uma suíte básica e em quais devemos optar por uma suíte top. Tudo depende sempre, dizia ele, da beleza da moça, a famosa relação custo-benefício. Puta canalha!