1) Ter que escrever um texto de 40 linhas em 5 minutos.
2) Escrever o texto de 40 linhas em 5 minutos com o bafo de café do editor no cangote.
3) Fazer duas ou três ou quatro matérias num único dia.
4) Ser obrigado a ter sacadas originais mesmo fazendo duas ou três ou quatro matérias num único dia.
5) Ver a hora do fechamento bem próxima sem ter o retorno telefônico de uma fonte importante.
6) Em seu plantão, temer que a qualquer momento uma desgraça (queda de avião, rebelião em presídio, enchente) pode acontecer.
7) Ser chamado pelo chefe do plantão para cobrir a desgraça que, enfim, aconteceu.
8) Estar sempre preocupado em dar e não tomar um furo da concorrência.
9) Levar vida de pediatra (24 horas por dia com o celular ligado para emergências) recebendo salário de repórter.
10) Precisar voar para uma pauta.
11) Precisar voar para uma pauta e pegar um puta trânsito no caminho.
12) Precisar voar para uma pauta, pegar um puta trânsito e perceber que esqueceu o gravador apenas ao chegar ao local.
13) Não chegar a tempo para a pauta depois de um vôo cheio de turbulências.
14) Mal ter tempo de almoçar, respirar, cagar.
15) Não ter hora para sair da redação à noite.
16) Perder a apresentação de balé da filha num sábado à tarde por estar trabalhando.
17) Suportar entrevistado que adora se estressar com jornalista.
18) Trabalhar em uma editoria que odeia.
19) Viver com medo de perder o emprego para um repórter mais jovem e (ainda) sem crises de estresse.
20) Saber que se errar será punido. E se acertar receberá, no máximo, um singelo tapinha nas costas.
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sexta-feira, 1 de julho de 2011
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Outros planos
- Onde eu fui parar? Me mandaram cobrir a guerra no Afeganistão?
(Um homem, com o rosto cheio de feridas, se aproxima)
- Tá falando comigo?
- Pode ser com você. Dá pra me dizer onde estou?
- Aqui é o umbral.
- Umbral?
Você tá morto, meu amigo! Não se ligou ainda?
- Morto?
- Morto e todo lascado. Aqui no umbral o bicho pega. Não viu o filme, não?
- Que filme?
- Nosso Lar.
- Ah, o dos espíritos? Putz, eu até queria assistir, mas fiquei esperando a cortesia da assessoria de imprensa. Mais fácil morrer do que conseguir um ingresso.
- O umbral só tem gente ferrada, barra-pesada. Suicida, político, advogado. Você é o quê?
- Sou jornalista. Repórter e crítico de TV. Ou melhor, eu era. Sei lá.
- Vixe, jornalista tá cheio aqui.
(Silêncio. Os dois sentam-se lado a lado)
- Mas por que o bicho pega?
- Maior dificuldade pra tudo: pra comer, pra dormir. Você nunca consegue ver sua família. Leva porrada da chefia o dia inteiro.
- Porra, com isso eu já tô acostumado. Vai trabalhar numa redação de hard news pra ver o que é bom! Lascado eu tava quando era vivo.
- Cê tá falando sério?
- Claro que eu tô. Esse umbral tá parecendo até bem tranqüilo.
(Silêncio longo)
- E você, o que fazia quando era vivo?
- Eu era ex-participante de reality show. Do Big Brother.
(O jornalista gargalha)
- Caraca, e você tava falando mal de jornalista.
- Peraí, eu não falei mal de jornalista. Só falei que tava cheio de jornalista aqui.
- Sei.
- E você, crítico de TV, nem me reconheceu, hein?
- Já viu quanta ferida tem aí na sua cara? Sem ferida, já seria difícil reconhecer.
- Sei.
(Mais um longo silêncio)
- Ô, ex-BBB, já que você manja tudo de umbral, me diz uma coisa: onde fica o boteco aqui? Tô começando a ficar com fome e sede.
- Boteco? Aqui não tem isso, não!
- Não brinca! Nem um vernissage, uma boquinha-livre?
- Que nada.
- Porra, aí complica.
(O jornalista abaixa a cabeça. Depois, a balança negativamente)
- Tô começando a achar que Afeganistão não seria tão ruim, viu?
- Oi?
(Um homem, com o rosto cheio de feridas, se aproxima)
- Tá falando comigo?
- Pode ser com você. Dá pra me dizer onde estou?
- Aqui é o umbral.
- Umbral?
Você tá morto, meu amigo! Não se ligou ainda?
- Morto?
- Morto e todo lascado. Aqui no umbral o bicho pega. Não viu o filme, não?
- Que filme?
- Nosso Lar.
- Ah, o dos espíritos? Putz, eu até queria assistir, mas fiquei esperando a cortesia da assessoria de imprensa. Mais fácil morrer do que conseguir um ingresso.
- O umbral só tem gente ferrada, barra-pesada. Suicida, político, advogado. Você é o quê?
- Sou jornalista. Repórter e crítico de TV. Ou melhor, eu era. Sei lá.
- Vixe, jornalista tá cheio aqui.
(Silêncio. Os dois sentam-se lado a lado)
- Mas por que o bicho pega?
- Maior dificuldade pra tudo: pra comer, pra dormir. Você nunca consegue ver sua família. Leva porrada da chefia o dia inteiro.
- Porra, com isso eu já tô acostumado. Vai trabalhar numa redação de hard news pra ver o que é bom! Lascado eu tava quando era vivo.
- Cê tá falando sério?
- Claro que eu tô. Esse umbral tá parecendo até bem tranqüilo.
(Silêncio longo)
- E você, o que fazia quando era vivo?
- Eu era ex-participante de reality show. Do Big Brother.
(O jornalista gargalha)
- Caraca, e você tava falando mal de jornalista.
- Peraí, eu não falei mal de jornalista. Só falei que tava cheio de jornalista aqui.
- Sei.
- E você, crítico de TV, nem me reconheceu, hein?
- Já viu quanta ferida tem aí na sua cara? Sem ferida, já seria difícil reconhecer.
- Sei.
(Mais um longo silêncio)
- Ô, ex-BBB, já que você manja tudo de umbral, me diz uma coisa: onde fica o boteco aqui? Tô começando a ficar com fome e sede.
- Boteco? Aqui não tem isso, não!
- Não brinca! Nem um vernissage, uma boquinha-livre?
- Que nada.
- Porra, aí complica.
(O jornalista abaixa a cabeça. Depois, a balança negativamente)
- Tô começando a achar que Afeganistão não seria tão ruim, viu?
- Oi?
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Divã
Pode parecer maluquice minha, doutor, ou melhor, é maluquice, sim, caso contrário eu não estaria aqui. Se não fossem as maluquices, aliás, imagino que nem o senhor estaria aqui. Como eu posso descrever o meu problema? Bem, eu não consigo folgar. Isso mesmo, eu não consigo aproveitar um dia de folga. Tenho um bloqueio, entro em pânico, sabe? Eu sou jornalista e um ser humano que é jornalista trabalha muito, quase não tem fim de semana, feriados, não viaja com os amigos, não comemora aniversário de ninguém. Até aí tudo muito normal. Acho que o meu trauma começou num dia específico. Eu estava trabalhando havia uns 40 dias sem folga quando o meu editor chegou para mim quase no fim da noite e disse: “Amanhã, você terá um dia de descanso. Sortudo, hein?”. Esse amanhã era uma quinta-feira. Foi uma coisa, assim, tão repentina que eu fiquei assustado, meio paralisado. Como aproveitar uma quinta-feira de folga quando se sabe disso numa quarta-feira às 11 horas da noite? Alguém estaria disposto a ir comigo a uma sessão de cinema às 2 da tarde de uma quinta-feira? Claro que não, porque nesse dia estão todos trabalhando. Você não tem companhia para fazer programa algum! Eu liguei para a assistência técnica para consertar a minha lavadora de roupas e sabe o que a menina me respondeu? “Nosso prazo para poder estar agendando uma visita é de 48 horas, senhor”. Mas na sexta-feira eu já voltei ao trabalho. Nem comer pastel na feira eu consegui, porque a feira no meu bairro é de quarta e sábado. Como meu carro estava quebrado e eu estava sem tempo de ir a um mecânico – que levaria umas 72 horas para "estar resolvendo" o problema –, não pude sequer sair pela cidade em busca de uma feira. Doutor, desde esse fatídico dia, minha vida mudou. Morro de medo de receber uma folga inesperada na véspera, sem a chance de me programar, de aproveitar o dia livre. Eu não consigo mais relaxar quando não estou trabalhando, mesmo quando o descanso é aos sábados ou domingos. O senhor acha isso normal? Claro que não! Doutor, o meu caso é grave? Me diga, por favor, o meu caso é grave? Doutor, o senhor não está dormindo, está? Doutor? Doutor?
segunda-feira, 19 de julho de 2010
Aos 45 do segundo tempo
Naquele dia, o repórter chegou cedo ao trabalho, antes mesmo dos pauteiros. A única TV ligada exibia o Bom Dia Brasil, com os empolgantes comentários de Miriam Leitão. Viu a redação acordar. Os colegas aparecendo, um a um. Os computadores sendo ligados. O silêncio indo embora, a cada nova conversa, com o barulho dos telefones, ao som dos teclados. Precisava escrever uma matéria especial para o fim de semana, além da pauta do dia. Trabalhou pra cacete. Mal teve tempo de fofocar no fumódromo.
Seu único consolo era que, naquela noite, sairia com a mulher para celebrar o primeiro aniversário de casamento. Tinha até reservado uma suíte chique de motel, do tipo que tem piscina aquecida com cascata, puff erótico e teto solar, ideal para destruir as finanças de um jornalista. Amava a mulher. Mas, no final da tarde, quando já se aprontava para escapar da redação, ouviu uma terrível conversa entre o editor e a subeditora do caderno.
- A polícia pegou o Paulinho Bigorna.
- O maníaco que só ataca gordinhas?
- Esse mesmo. Tá no DP de Capão Redondo. Precisamos mandar alguém pra lá agora.
- Vou ver qual jornalista está livre da pauta.
A subeditora caminhou então em direção à equipe de reportagem. O repórter ficou tenso. Pensou na mulher. Na piscina aquecida com cascata. No puff erótico. No teto solar. No futuro do seu casamento. Não sabia como agir. Só não queria acabar a noite ao lado de Paulinho Bigorna.
O que fazer quando rolar uma pauta inesperada aos 45 do segundo tempo, na exata hora de ir embora? Este é o tema da nova enquete do blog. Simular uma caganeira e fugir para o banheiro? Fingir que vai amarrar o cadarço do sapato e se esconder embaixo da mesa? Jogar um colega desavisado na fogueira? Dizer que precisa visitar um parente que está morrendo no hospital? Ou tocar um “foda-se” e enfrentar a situação sem medo? A votação está aberta.
A pesquisa que acabou de acabar – Que hashtag no Twitter melhor definiria a vida de um jornalista? – foi bastante equilibrada, com um empate no primeiro lugar. As opções “#CadeOMeuAumento” e “#PrecisoDeUmCafeUrgente” ficaram com 31% dos votos cada. As alternativas “#PlantaoDeMerda”, “#RIPMeuDiploma” e “#SouMasoquistaMesmo” também foram bastante lembradas, prova de que é difícil definir, em apenas uma frase, a vida deste bicho complexo que é o jornalista.
Seu único consolo era que, naquela noite, sairia com a mulher para celebrar o primeiro aniversário de casamento. Tinha até reservado uma suíte chique de motel, do tipo que tem piscina aquecida com cascata, puff erótico e teto solar, ideal para destruir as finanças de um jornalista. Amava a mulher. Mas, no final da tarde, quando já se aprontava para escapar da redação, ouviu uma terrível conversa entre o editor e a subeditora do caderno.
- A polícia pegou o Paulinho Bigorna.
- O maníaco que só ataca gordinhas?
- Esse mesmo. Tá no DP de Capão Redondo. Precisamos mandar alguém pra lá agora.
- Vou ver qual jornalista está livre da pauta.
A subeditora caminhou então em direção à equipe de reportagem. O repórter ficou tenso. Pensou na mulher. Na piscina aquecida com cascata. No puff erótico. No teto solar. No futuro do seu casamento. Não sabia como agir. Só não queria acabar a noite ao lado de Paulinho Bigorna.
O que fazer quando rolar uma pauta inesperada aos 45 do segundo tempo, na exata hora de ir embora? Este é o tema da nova enquete do blog. Simular uma caganeira e fugir para o banheiro? Fingir que vai amarrar o cadarço do sapato e se esconder embaixo da mesa? Jogar um colega desavisado na fogueira? Dizer que precisa visitar um parente que está morrendo no hospital? Ou tocar um “foda-se” e enfrentar a situação sem medo? A votação está aberta.
A pesquisa que acabou de acabar – Que hashtag no Twitter melhor definiria a vida de um jornalista? – foi bastante equilibrada, com um empate no primeiro lugar. As opções “#CadeOMeuAumento” e “#PrecisoDeUmCafeUrgente” ficaram com 31% dos votos cada. As alternativas “#PlantaoDeMerda”, “#RIPMeuDiploma” e “#SouMasoquistaMesmo” também foram bastante lembradas, prova de que é difícil definir, em apenas uma frase, a vida deste bicho complexo que é o jornalista.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
O poder de adaptação do jornalista
Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter feliz. Fazia parte de uma equipe de 15 jornalistas em seu caderno. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo viu a direção do jornal baixar um passaralho para reduzir custos e cortar a cabeça de 10 colegas. Alfredo sobreviveu e precisou se adaptar à nova rotina, em uma redação bem mais enxuta.
Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter que não se matava de tanto escrever, apesar de estar em hard news. No máximo, uma matéria por dia, com tempo para uma boa apuração. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo sentiu o peso de uma equipe menor. Começou a fazer em média três reportagens diárias. No início, foi difícil, não conseguia respirar, mas hoje já se acostumou ao duro processo industrial.
Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter que trabalhava 7 horas por dia, de acordo com o que determinava seu contrato de emprego. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo passou a trabalhar 12 horas diárias, afinal a equipe estava reduzida e ele tinha matérias pra cacete para escrever. Deixou de ter vida social. Mulher e amigos lamentaram. Aos poucos, porém, pôde se enquadrar nesta nova realidade.
Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter que adorava sair para a rua. Descobriu grandes pautas em suas andanças. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo teve de ficar, com o tempo, preso em sua mesa na redação, numa equipe de cinco repórteres, escrevendo em média três matérias por dia, trabalhando 12 horas, sem vida social e tendo de apurar suas reportagens por telefone e e-mail. Sentiu-se um passarinho na gaiola, mas resistiu a mais uma mudança.
Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter com carteira assinada. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo foi demitido e recontratado pelo jornal como pessoa jurídica. Agora, trabalha numa equipe de cinco repórteres, escreve em média três matérias por dia, em 12 horas de trabalho, sem vida social, apura suas reportagens por telefone e e-mail, preso numa redação, sem férias, 13º salário e outros benefícios. Ficou puto da vida, mas precisava muito do emprego. Hoje, nem reclama mais de ter perdido os direitos trabalhistas.
Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter que não se matava de tanto escrever, apesar de estar em hard news. No máximo, uma matéria por dia, com tempo para uma boa apuração. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo sentiu o peso de uma equipe menor. Começou a fazer em média três reportagens diárias. No início, foi difícil, não conseguia respirar, mas hoje já se acostumou ao duro processo industrial.
Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter que trabalhava 7 horas por dia, de acordo com o que determinava seu contrato de emprego. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo passou a trabalhar 12 horas diárias, afinal a equipe estava reduzida e ele tinha matérias pra cacete para escrever. Deixou de ter vida social. Mulher e amigos lamentaram. Aos poucos, porém, pôde se enquadrar nesta nova realidade.
Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter que adorava sair para a rua. Descobriu grandes pautas em suas andanças. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo teve de ficar, com o tempo, preso em sua mesa na redação, numa equipe de cinco repórteres, escrevendo em média três matérias por dia, trabalhando 12 horas, sem vida social e tendo de apurar suas reportagens por telefone e e-mail. Sentiu-se um passarinho na gaiola, mas resistiu a mais uma mudança.
Quando entrou no jornal, há mais de 10 anos, Alfredo era um repórter com carteira assinada. Mas como a vida de repórter é sofrida, Alfredo foi demitido e recontratado pelo jornal como pessoa jurídica. Agora, trabalha numa equipe de cinco repórteres, escreve em média três matérias por dia, em 12 horas de trabalho, sem vida social, apura suas reportagens por telefone e e-mail, preso numa redação, sem férias, 13º salário e outros benefícios. Ficou puto da vida, mas precisava muito do emprego. Hoje, nem reclama mais de ter perdido os direitos trabalhistas.
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segunda-feira, 31 de maio de 2010
Como estragar um caso amor
Logo depois de formado, ainda sem emprego, me vi diante de uma escolha: aceitar o convite de uma garota interessante que me chamara para sair ou aceitar um frila? Compromissos de um mesmo sábado à noite. Difícil decisão para um libriano indeciso, excitado com a proposta da moça e com míseros trocados no bolso. A menina não era jornalista. Será que entenderia a minha situação? Pensei em alternativas.
Se eu inventasse uma desculpa qualquer para não sair, tipo encontro familiar de última hora, ela não aceitaria. “Festa de família? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Se eu falasse a verdade para não sair, ela também não aceitaria. “Trabalho no sábado à noite? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Então, decidi conciliar as duas coisas e a convenci a ir para a pauta comigo. Um puta programa de índio.
Minha missão era conhecer um novo reduto de bares gays em São Paulo. Ela ficou ao meu lado o tempo todo, silenciosa. Não reclamou de nada. Admirei sua compreensão e seu respeito à diversidade. Naquela noite, como retribuição, a levei a um restaurante bacaninha que ela tanto queria conhecer e paguei a conta sozinho, com a última folha de cheque do talão. Uma facada. Metade do frila que eu acabara de apurar (e nem tinha recebido ainda) ficou naquele pedaço de papel.
Dois sábados depois, também à noite, a arrastei para outro trabalho: um bailão da terceira idade. Não podia recusar frilas. A vida de jornalista apaixonado me dava muita despesa. Nesta pauta, ela até me ajudou. Escolheu personagens, fez fotos e auxiliou um senhor com uma doença crônica a tomar seu remédio enquanto eu o entrevistava. Admirei seu companheirismo. Naquela noite, como retribuição, tomei coragem e disse a ela um “eu te amo”.
No dia seguinte, ela me acompanhou a uma reunião de trekkers, aqueles fãs da série Jornada nas Estrelas que se fantasiam com roupas ridículas. Admirei sua paciência e seu nível de tolerância a nerds. Na noite daquele domingo, como retribuição, deixei de ver os gols da rodada para levá-la a um filme da Meg Ryan no cinema. Era o que eu podia lhe oferecer.
No outro sábado, mais um frila. Desta vez, porém, fui sozinho. Já não tinha namorada. Antes de dar uma bicuda em minha bunda, um dia antes, ela me disse que não suportava mais sair com jornalista, raça complicada. Admirei sua sinceridade. Naquela noite, ao menos, não precisei me esforçar para ser romântico.
Se eu inventasse uma desculpa qualquer para não sair, tipo encontro familiar de última hora, ela não aceitaria. “Festa de família? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Se eu falasse a verdade para não sair, ela também não aceitaria. “Trabalho no sábado à noite? Você vai encher a cara com os amigos e depois pegar alguma vagabunda por aí”, diria. Então, decidi conciliar as duas coisas e a convenci a ir para a pauta comigo. Um puta programa de índio.
Minha missão era conhecer um novo reduto de bares gays em São Paulo. Ela ficou ao meu lado o tempo todo, silenciosa. Não reclamou de nada. Admirei sua compreensão e seu respeito à diversidade. Naquela noite, como retribuição, a levei a um restaurante bacaninha que ela tanto queria conhecer e paguei a conta sozinho, com a última folha de cheque do talão. Uma facada. Metade do frila que eu acabara de apurar (e nem tinha recebido ainda) ficou naquele pedaço de papel.
Dois sábados depois, também à noite, a arrastei para outro trabalho: um bailão da terceira idade. Não podia recusar frilas. A vida de jornalista apaixonado me dava muita despesa. Nesta pauta, ela até me ajudou. Escolheu personagens, fez fotos e auxiliou um senhor com uma doença crônica a tomar seu remédio enquanto eu o entrevistava. Admirei seu companheirismo. Naquela noite, como retribuição, tomei coragem e disse a ela um “eu te amo”.
No dia seguinte, ela me acompanhou a uma reunião de trekkers, aqueles fãs da série Jornada nas Estrelas que se fantasiam com roupas ridículas. Admirei sua paciência e seu nível de tolerância a nerds. Na noite daquele domingo, como retribuição, deixei de ver os gols da rodada para levá-la a um filme da Meg Ryan no cinema. Era o que eu podia lhe oferecer.
No outro sábado, mais um frila. Desta vez, porém, fui sozinho. Já não tinha namorada. Antes de dar uma bicuda em minha bunda, um dia antes, ela me disse que não suportava mais sair com jornalista, raça complicada. Admirei sua sinceridade. Naquela noite, ao menos, não precisei me esforçar para ser romântico.
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quarta-feira, 19 de maio de 2010
Fechamento
Bar ao lado da redação, 19h15
Pedro, o editor-assistente, pede a primeira rodada de cerveja. Tem esquema com o garçom, velho conhecido. Abraça Carlos, o repórter, que ajeita as mesas para os demais colegas de trabalho. Silas, o editor-chefe, fala com a mulher, ao celular, entre baforadas de cigarro. Avisa que vai chegar mais tarde em casa. Não pode abandonar a equipe. Chefe também é filho de Deus. Todos sorriem, alegres. Falam besteiras, como grandes amigos.
Redação, 18h45 (15 minutos antes do fechamento)
O clima está pesado. Ainda faltam duas páginas. O tempo é curto. Cadê a imagem do abre do caderno? Silas, o editor-chefe, liga para o setor de fotografia, aos berros. Faz cara de decepção. E o texto do correspondente do interior? Sempre atrasado. Pedro, o editor-assistente, lê a matéria de Carlos, o repórter. Única pendência da página 2. Muitas palavras, pouco espaço. Lá vem o facão. Pedro, o editor-assistente, reclama com Carlos, o repórter. Não sabia do tamanho da matéria? Por que não é mais conciso? Carlos, o repórter, fecha a cara. Babaca. Cachaceiro do caralho, pensa. Não gosta da bronca em público. Só espera que Pedro, o editor-assistente, não corte o texto pelo pé. É sempre mais fácil.
Redação, 18h50
A imagem da capa não chega. Silas, o editor-chefe, fica mais impaciente. Está louco para fumar. Não pode. O tempo avança. Barulho na redação. Repórteres à toa enchem o saco. Esporro geral. O som alto da televisão, ligado num telejornal, tira a concentração de Pedro, o editor-assistente, que ainda lê o texto de Carlos, o repórter. Não entende uma frase específica. Chama o repórter. Explicações. Diálogo ríspido. O telefone toca. Será o correspondente? Silas, o editor-chefe, atende. É um assessor de imprensa. Sumariamente despachado. Isso é hora de vender pauta? Vá à merda. A imagem, enfim, chega.
Redação, 18h55
Pedro, o editor-assistente, finaliza a leitura do texto. Tudo certo? Não. Se esquece da legenda da foto da matéria de Carlos, o repórter. Por que esse cara não me ajuda?, pensa Pedro, o editor-assistente. Que correria! O pessoal da gráfica não tolera atrasos. A temperatura na redação aumenta. Chega a matéria do correspondente. Silas, o editor-chefe, começa a editá-la. Por sorte, o filho-da-puta tem um texto redondo. Legenda pronta. Página 2 está fechada. Pedro, o editor-assistente, dá o aval. Liberada. Só falta o abre. Todos parecem exaustos. Pela pressão do horário. Não podem falhar. Silas, o editor-chefe, então, se desdobra e arremata a página 1.
Redação, 19h00
Fim do sufoco. Respiram, aliviados. Fechamento é sempre assim. Chega o momento de relaxar. No bar ao lado.
Pedro, o editor-assistente, pede a primeira rodada de cerveja. Tem esquema com o garçom, velho conhecido. Abraça Carlos, o repórter, que ajeita as mesas para os demais colegas de trabalho. Silas, o editor-chefe, fala com a mulher, ao celular, entre baforadas de cigarro. Avisa que vai chegar mais tarde em casa. Não pode abandonar a equipe. Chefe também é filho de Deus. Todos sorriem, alegres. Falam besteiras, como grandes amigos.
Redação, 18h45 (15 minutos antes do fechamento)
O clima está pesado. Ainda faltam duas páginas. O tempo é curto. Cadê a imagem do abre do caderno? Silas, o editor-chefe, liga para o setor de fotografia, aos berros. Faz cara de decepção. E o texto do correspondente do interior? Sempre atrasado. Pedro, o editor-assistente, lê a matéria de Carlos, o repórter. Única pendência da página 2. Muitas palavras, pouco espaço. Lá vem o facão. Pedro, o editor-assistente, reclama com Carlos, o repórter. Não sabia do tamanho da matéria? Por que não é mais conciso? Carlos, o repórter, fecha a cara. Babaca. Cachaceiro do caralho, pensa. Não gosta da bronca em público. Só espera que Pedro, o editor-assistente, não corte o texto pelo pé. É sempre mais fácil.
Redação, 18h50
A imagem da capa não chega. Silas, o editor-chefe, fica mais impaciente. Está louco para fumar. Não pode. O tempo avança. Barulho na redação. Repórteres à toa enchem o saco. Esporro geral. O som alto da televisão, ligado num telejornal, tira a concentração de Pedro, o editor-assistente, que ainda lê o texto de Carlos, o repórter. Não entende uma frase específica. Chama o repórter. Explicações. Diálogo ríspido. O telefone toca. Será o correspondente? Silas, o editor-chefe, atende. É um assessor de imprensa. Sumariamente despachado. Isso é hora de vender pauta? Vá à merda. A imagem, enfim, chega.
Redação, 18h55
Pedro, o editor-assistente, finaliza a leitura do texto. Tudo certo? Não. Se esquece da legenda da foto da matéria de Carlos, o repórter. Por que esse cara não me ajuda?, pensa Pedro, o editor-assistente. Que correria! O pessoal da gráfica não tolera atrasos. A temperatura na redação aumenta. Chega a matéria do correspondente. Silas, o editor-chefe, começa a editá-la. Por sorte, o filho-da-puta tem um texto redondo. Legenda pronta. Página 2 está fechada. Pedro, o editor-assistente, dá o aval. Liberada. Só falta o abre. Todos parecem exaustos. Pela pressão do horário. Não podem falhar. Silas, o editor-chefe, então, se desdobra e arremata a página 1.
Redação, 19h00
Fim do sufoco. Respiram, aliviados. Fechamento é sempre assim. Chega o momento de relaxar. No bar ao lado.
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quarta-feira, 5 de maio de 2010
O despertar de um jornalista
Fora as raras ocasiões em que ele me passava o aviso na véspera, meu pauteiro me ligava, todo dia e religiosamente, às 8 e meia da manhã. Era o momento de conhecer a minha matéria do dia. Podia ser coisa boa ou coisa ruim. Ou coisa nada a ver. Ou tudo ao mesmo tempo. Embora 8 e meia da manhã seja muito tarde para a maioria dos trabalhadores brasileiros, que às 5 já se espremem em algum trem ou ônibus, para mim era muito cedo. Nunca dormi antes das 2 da madrugada. Teve uma fase em que eu despertava às 7 para levar o cão para passear, mas foi só uma fase.
Meu celular/despertador tocava às 8. Era o tempo de receber uma lambida do Nestor, tomar banho, fazer a barba (ou não), engolir um café bem forte e esperar pelo pauteiro ligar. Mas, na prática, isso raramente acontecia. Nunca levantava às 8. O despertador tocava e eu seguia na cama, enrolando, dormindo e acordando, sonhando sonhos malucos, torcendo para que a pauta não exigisse fazer a barba. Sempre odiei fazer a barba todo dia. Porra, se existem vantagens de ser jornalista, esta é uma delas.
Quase sempre eu acordava mesmo às 8 e meia, com o meu celular tocando Living La Vida Loca para avisar que era o pauteiro. Eu tossia umas duas ou três vezes para tirar aquele maldito catarro da garganta e ter uma voz minimamente decente para falar com o cara que me daria uma boa ou uma má notícia. Ou tudo ao mesmo tempo. Odiava quando ele falava “puta voz de sono, Duda. Aposto que nem leu os jornais de hoje”. Mas a vida era assim.
O melhor dos mundos era quando a pauta era só à tarde e, claro, não exigia fazer a barba. Então eu relaxava. E enrolava ainda mais na cama, dormindo e acordando, sonhando mais sonhos malucos. Até que o Nestor pulava na cama com aquela cara de “preciso mijar urgentemente, seu vagabundo” e então meu dia começava. Mas esta fase também acabou.
Meu celular/despertador tocava às 8. Era o tempo de receber uma lambida do Nestor, tomar banho, fazer a barba (ou não), engolir um café bem forte e esperar pelo pauteiro ligar. Mas, na prática, isso raramente acontecia. Nunca levantava às 8. O despertador tocava e eu seguia na cama, enrolando, dormindo e acordando, sonhando sonhos malucos, torcendo para que a pauta não exigisse fazer a barba. Sempre odiei fazer a barba todo dia. Porra, se existem vantagens de ser jornalista, esta é uma delas.
Quase sempre eu acordava mesmo às 8 e meia, com o meu celular tocando Living La Vida Loca para avisar que era o pauteiro. Eu tossia umas duas ou três vezes para tirar aquele maldito catarro da garganta e ter uma voz minimamente decente para falar com o cara que me daria uma boa ou uma má notícia. Ou tudo ao mesmo tempo. Odiava quando ele falava “puta voz de sono, Duda. Aposto que nem leu os jornais de hoje”. Mas a vida era assim.
O melhor dos mundos era quando a pauta era só à tarde e, claro, não exigia fazer a barba. Então eu relaxava. E enrolava ainda mais na cama, dormindo e acordando, sonhando mais sonhos malucos. Até que o Nestor pulava na cama com aquela cara de “preciso mijar urgentemente, seu vagabundo” e então meu dia começava. Mas esta fase também acabou.
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segunda-feira, 12 de abril de 2010
Bola na trave não altera o placar
Um olho no campo, o outro na tela do notebook. Era assim que eu cobria um jogo de futebol da tribuna de imprensa do estádio, principalmente nas noites de quarta-feira. O jogo acabava quase à meia-noite e o deadline era apertadíssimo. O juiz apitava o fim e eu tinha uns cinco minutos para enviar o texto para a redação. E, se por um atraso meu a matéria do jogo ficasse de fora da edição, no dia seguinte, meu editor e a torcida dos dois times me xingariam muito, mas muito mesmo. Não dava para bobear. O jeito, então, era assistir à partida e, ao mesmo tempo, escrever o seu relato.
Numa dessas noites de quarta-feira, estava eu num estádio, passando um frio do caralho – a tribuna não era uma sala fechada –, apertando os olhos para driblar minha miopia e enxergar algo naquele campo mal-iluminado e tendo de suportar um joguinho horrível. Vida de repórter esportivo não é fácil. No intervalo do jogo, já havia escrito uns 80% do texto. Vocês já repararam que nos relatos de jogos o primeiro tempo tem sempre mais espaço? Mesmo que todos os gols tenham acontecido no segundo.
A estratégia de deixar o texto quase pronto ainda no intervalo tem lá seus riscos também. O lead naquela noite fria dizia que o empate sem gols resumia bem a mediocridade da partida, sem qualquer emoção. A matéria estava fechada aos 35 minutos do segundo tempo e eu torcia para que nenhum dos times marcasse um gol no tempo que restava. Teria de reconstruir todo o texto.
Acho que, na história do futebol mundial, nunca alguém torceu tanto por um zero a zero como eu naquela noite. A tensão era tão grande que eu até esqueci o frio. Para piorar, o filho-da-puta do juiz ainda decidiu dar uns cinco minutos de acréscimo. Aos 49, a bola foi cruzada na área, o centroavante cabeceou para o chão, com força, no canto do goleiro. Tremi. A bola bateu na trave e saiu. Na tribuna, eu gritei, aliviado, como se comemorasse um gol. Quem disse que repórter esportivo não pode torcer?
Numa dessas noites de quarta-feira, estava eu num estádio, passando um frio do caralho – a tribuna não era uma sala fechada –, apertando os olhos para driblar minha miopia e enxergar algo naquele campo mal-iluminado e tendo de suportar um joguinho horrível. Vida de repórter esportivo não é fácil. No intervalo do jogo, já havia escrito uns 80% do texto. Vocês já repararam que nos relatos de jogos o primeiro tempo tem sempre mais espaço? Mesmo que todos os gols tenham acontecido no segundo.
A estratégia de deixar o texto quase pronto ainda no intervalo tem lá seus riscos também. O lead naquela noite fria dizia que o empate sem gols resumia bem a mediocridade da partida, sem qualquer emoção. A matéria estava fechada aos 35 minutos do segundo tempo e eu torcia para que nenhum dos times marcasse um gol no tempo que restava. Teria de reconstruir todo o texto.
Acho que, na história do futebol mundial, nunca alguém torceu tanto por um zero a zero como eu naquela noite. A tensão era tão grande que eu até esqueci o frio. Para piorar, o filho-da-puta do juiz ainda decidiu dar uns cinco minutos de acréscimo. Aos 49, a bola foi cruzada na área, o centroavante cabeceou para o chão, com força, no canto do goleiro. Tremi. A bola bateu na trave e saiu. Na tribuna, eu gritei, aliviado, como se comemorasse um gol. Quem disse que repórter esportivo não pode torcer?
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Moça com botas de borracha
A jovem jornalista já havia traçado um plano para sua carreira antes mesmo de se formar: queria trabalhar com moda, sua grande paixão. Gostava daquela vida de desfiles, badalação, coquetéis, gente famosa, além de entender bem de roupas, tecidos, tendências. Era também elegante, bonita, magra. Estava decidida a ser uma nova Erika Palomino.
Mas a vida é quase sempre ingrata com os jovens jornalistas, e seu primeiro emprego foi o de repórter no caderno geral de um jornal impresso. Pensou em desistir logo no dia de estréia, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade. Melhor isso do que nada. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação de gás natural que explodiu, uma passeata de garis no centro da cidade em protesto ao Boris Casoy. Brincadeira, eles só queriam melhores salários.
Um dia, estava de bobeira na redação, quando foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu uma inglória missão: visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa, retrucou.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Melhor isso do que nada. Já estava se acostumando a este tipo de resignação. Deixou a redação já com as botas enormes nos pés e ainda ouviu alguém cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Muito lixo, lama, cheiro forte. Meio desajeitada com tudo, caminhou pelo lugar, observou cada detalhe com atenção, a expressão no rosto de cada pessoa que trabalhava para salvar o que restou. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza, uma velha muito simpática.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
O café no barraco da dona Elza, feito num fogo improvisado, foi longo. A jornalista teve oportunidade de conhecer toda a família que ali morava, inclusive o caçula que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata bem sujo, escorregar na lama e sujar a bunda.
Naquela noite, antes de dormir, estava feliz, ao contrário dos primeiros dias no jornal. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
Mas a vida é quase sempre ingrata com os jovens jornalistas, e seu primeiro emprego foi o de repórter no caderno geral de um jornal impresso. Pensou em desistir logo no dia de estréia, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade. Melhor isso do que nada. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação de gás natural que explodiu, uma passeata de garis no centro da cidade em protesto ao Boris Casoy. Brincadeira, eles só queriam melhores salários.
Um dia, estava de bobeira na redação, quando foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu uma inglória missão: visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa, retrucou.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Melhor isso do que nada. Já estava se acostumando a este tipo de resignação. Deixou a redação já com as botas enormes nos pés e ainda ouviu alguém cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Muito lixo, lama, cheiro forte. Meio desajeitada com tudo, caminhou pelo lugar, observou cada detalhe com atenção, a expressão no rosto de cada pessoa que trabalhava para salvar o que restou. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza, uma velha muito simpática.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
O café no barraco da dona Elza, feito num fogo improvisado, foi longo. A jornalista teve oportunidade de conhecer toda a família que ali morava, inclusive o caçula que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata bem sujo, escorregar na lama e sujar a bunda.
Naquela noite, antes de dormir, estava feliz, ao contrário dos primeiros dias no jornal. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
Pequenas histórias de carnaval
História 1: Baile gay, 4 horas da manhã, jornalista de TV batalha entrevista no meio do salão com um folião (ou foliã) ao som de “Cabeleira do Zezé” em altíssimos decibéis.
- Tá curtindo o baile?
- Não entendi (voz de traveco bem afetada).
- Tá curtindo o baile? (quase gritando)
- Se eu tô curtindo o baile?
- Isso. Carnaval tá muito quente?
- Loucura!
- E qual o seu nome, querida?
- Milão.
- Miltão?
- Milão, moro em Milão.
- Não, perguntei qual o seu nome!
- Ah, o meu nome?
- Sim!
- Sharon Cristina (voz ainda mais afetada).
- Primeira vez?
- Minha primeira vez? Foi com 15 anos.
História 2: Sambódromo, 7 horas da manhã, intervalo da transmissão da TV, narrador conversa com o produtor.
- Pelo amor de Deus, mais um café bem forte! Rápido!
- Calma, ainda faltam duas escolas de samba...
História 3: Camarote na avenida, 3 horas da manhã, jornalista de TV desinformado aborda atriz ao vivo.
- Primeira vez que você acompanha os desfiles?
- Não, não, já é a décima vez.
- Curtiu a Portela? É sua escola de coração, né?
- Querido, sou Mangueira desde criança.
- E a novela na Globo, como está?
- (Risos debochados) Gente, tô na Record há um ano!
História 4: Praça da Apoteose, Quarta-feira de Cinzas, fim da apuração, repórter, em meio a outros 32 jornalistas, tenta entrevistar o presidente da escola campeã.
- Uma palavrinha, presidente... Presidente?... Emoção?... Calma aí, gente, sem empurrar! Mão na bunda, não, mão na bunda, não...
Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.
- Tá curtindo o baile?
- Não entendi (voz de traveco bem afetada).
- Tá curtindo o baile? (quase gritando)
- Se eu tô curtindo o baile?
- Isso. Carnaval tá muito quente?
- Loucura!
- E qual o seu nome, querida?
- Milão.
- Miltão?
- Milão, moro em Milão.
- Não, perguntei qual o seu nome!
- Ah, o meu nome?
- Sim!
- Sharon Cristina (voz ainda mais afetada).
- Primeira vez?
- Minha primeira vez? Foi com 15 anos.
História 2: Sambódromo, 7 horas da manhã, intervalo da transmissão da TV, narrador conversa com o produtor.
- Pelo amor de Deus, mais um café bem forte! Rápido!
- Calma, ainda faltam duas escolas de samba...
História 3: Camarote na avenida, 3 horas da manhã, jornalista de TV desinformado aborda atriz ao vivo.
- Primeira vez que você acompanha os desfiles?
- Não, não, já é a décima vez.
- Curtiu a Portela? É sua escola de coração, né?
- Querido, sou Mangueira desde criança.
- E a novela na Globo, como está?
- (Risos debochados) Gente, tô na Record há um ano!
História 4: Praça da Apoteose, Quarta-feira de Cinzas, fim da apuração, repórter, em meio a outros 32 jornalistas, tenta entrevistar o presidente da escola campeã.
- Uma palavrinha, presidente... Presidente?... Emoção?... Calma aí, gente, sem empurrar! Mão na bunda, não, mão na bunda, não...
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Tudo poderia ser tão diferente
Sexta-feira, ou melhor, já é sábado, quase uma hora da manhã na redação. Estou duplamente feliz. Meu pescoção acabou mais cedo e terei um fim de semana de folga, após trabalhar 21 dias seguidos. O celular toca. É meu chefe. Difícil ouvir sua voz por conta do barulho do ambiente. O desgraçado deve estar numa festa. Então vem o golpe, cruel.
- Duda, eu sei que você tem trabalhado pra caralho, que está precisando descansar, mas vou ter de cassar sua folga novamente neste fim de semana. Tô precisando reforçar a equipe e você é o meu cara de confiança. Depois, a gente dá um jeito de você folgar.
Por que eu nunca consegui ser sincero e explosivo nessas horas? Tudo poderia ser tão diferente:
- O quê? Cassar a minha folga novamente? Bebeu? Pirou? Você sabe, meu caro chefinho, quantos dias eu não trepo decentemente com a minha mulher? Sabe? Quer que eu seja mais um corno no jornalismo brasileiro? É isso o que você quer? Porque, do jeito que anda a minha rotina, daqui a pouco minha mulher vai sair com o diretor de Novos Negócios da empresa dela. Esses diretores de Novos Negócios adoram novos negócios, principalmente os novos negócios dos otários que trabalham sem folgar, como eu, sabia? E o meu sobrinho e afilhado? Você sabe há quanto tempo eu prometi levar o moleque ao teatro para assistir à peça O cachorrinho vagabundo e seu amigo hamster? Não, você não sabe. Você não sabe como é difícil dizer ao seu afilhado pela enésima vez “Não, meu querido, de novo não poderemos ver O cachorrinho vagabundo e seu amigo hamster. Fica pra outro dia, tá bom?” E os reparos na minha casa? É você quem vai consertar a porra da privada que tá vazando e fica pingando na porra da cabeça do meu vizinho do andar de baixo? Resumindo, meu caro chefe: não vou ter merda nenhuma de folga cassada! Entendeu? Mer-da ne-nhu-ma! Se quiser, casse a folga de algum outro idiota desta redação!
Mas nunca consegui ser sincero e explosivo nessas horas:
- Amanhã? Reforçar a equipe? Claro, entendo. Depois a gente acerta essa coisa de folga!
E tudo foi sempre tão igual.
Releia também o post “Pescoção”, este incompreendido
- Duda, eu sei que você tem trabalhado pra caralho, que está precisando descansar, mas vou ter de cassar sua folga novamente neste fim de semana. Tô precisando reforçar a equipe e você é o meu cara de confiança. Depois, a gente dá um jeito de você folgar.
Por que eu nunca consegui ser sincero e explosivo nessas horas? Tudo poderia ser tão diferente:
- O quê? Cassar a minha folga novamente? Bebeu? Pirou? Você sabe, meu caro chefinho, quantos dias eu não trepo decentemente com a minha mulher? Sabe? Quer que eu seja mais um corno no jornalismo brasileiro? É isso o que você quer? Porque, do jeito que anda a minha rotina, daqui a pouco minha mulher vai sair com o diretor de Novos Negócios da empresa dela. Esses diretores de Novos Negócios adoram novos negócios, principalmente os novos negócios dos otários que trabalham sem folgar, como eu, sabia? E o meu sobrinho e afilhado? Você sabe há quanto tempo eu prometi levar o moleque ao teatro para assistir à peça O cachorrinho vagabundo e seu amigo hamster? Não, você não sabe. Você não sabe como é difícil dizer ao seu afilhado pela enésima vez “Não, meu querido, de novo não poderemos ver O cachorrinho vagabundo e seu amigo hamster. Fica pra outro dia, tá bom?” E os reparos na minha casa? É você quem vai consertar a porra da privada que tá vazando e fica pingando na porra da cabeça do meu vizinho do andar de baixo? Resumindo, meu caro chefe: não vou ter merda nenhuma de folga cassada! Entendeu? Mer-da ne-nhu-ma! Se quiser, casse a folga de algum outro idiota desta redação!
Mas nunca consegui ser sincero e explosivo nessas horas:
- Amanhã? Reforçar a equipe? Claro, entendo. Depois a gente acerta essa coisa de folga!
E tudo foi sempre tão igual.
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Experiência única
Dias atrás, uma amiga, sabendo que tenho vivido de frilas, encaminhou à minha caixa de e-mails um anúncio de trabalho, cuja fonte é o blog http://mktcomunicacao.blogspot.com. Não sei se ela esqueceu que fiquei velho ou se quis me sacanear mesmo. Já não tenho mais a disposição dos jovens, embora conserve o bom humor para enfrentar a dureza de nossa profissão.
Reproduzo abaixo o anúncio, inclusive com os erros de Português, com os meus comentários em negrito. Em alguns trechos, o anúncio parece piada pronta e mostra que ser jornalista é viver, muitas vezes, grandes aventuras.
São Paulo/SP - Requisitos:
O lema do evento, para atletas e staff, é: "durma quando puder, coma quando puder, tome banho quando puder". (Como o lema dos jornalistas é “viva quando puder”, temos tudo a ver com este evento. Aliás, adorei a sinceridade do anúncio! Comer pra quê? Dormir pra quê?) Portanto, aceitamos CVs de profissionais que realmente queiram fazer a narração de 10 dias de competição (com bases móveis, estilo Rally dos Sertões), onde os atletas têm apenas 4 horas de sono obrigatório durante todo o evento. Experiência única. (Realmente tem de querer muito! Adorei também as “4 horas de sono obrigatório”!)
Reproduzo abaixo o anúncio, inclusive com os erros de Português, com os meus comentários em negrito. Em alguns trechos, o anúncio parece piada pronta e mostra que ser jornalista é viver, muitas vezes, grandes aventuras.
São Paulo/SP - Requisitos:
- Graduação em jornalismo
- Experiência em apuração de fatos e redação para web
- Experiência em cobertura de eventos
- Inglês fluente
- Disponibilidade para viajar do dia 16 a 29 de novembro (SP-MG-SP)
- Ter notebook é imprescindível (Todos os jornalistas, principalmente os mais jovens, têm notebook, com internet wireless.)
- Espírito aventureiro, disposição, bom humor e gostar de esportes de aventura são diferenciais (Bom humor é diferencial, sim. Só rindo!)
- Jornalista jovem e com muita disposição para auxiliar na cobertura jornalística online de um evento esportivo de grande porte no cenário internacional.
O lema do evento, para atletas e staff, é: "durma quando puder, coma quando puder, tome banho quando puder". (Como o lema dos jornalistas é “viva quando puder”, temos tudo a ver com este evento. Aliás, adorei a sinceridade do anúncio! Comer pra quê? Dormir pra quê?) Portanto, aceitamos CVs de profissionais que realmente queiram fazer a narração de 10 dias de competição (com bases móveis, estilo Rally dos Sertões), onde os atletas têm apenas 4 horas de sono obrigatório durante todo o evento. Experiência única. (Realmente tem de querer muito! Adorei também as “4 horas de sono obrigatório”!)
O trabalho é freelancer e oferece:
- Verba de alimentação (Mas conseguiremos nos alimentar?)
- Hospedagem durante a viagem para o evento (Mas conseguiremos dormir?)
- Transporte de ida e volta para o local do evento (cidades históricas de Minas Gerais) (O que não vai faltar é igrejinha para rezarmos por dias melhores.)
- Valor para 10 dias de cobertura online: R$ 750,00 (Ou R$ 75,00 por dia, o valor de uma boa faxina em São Paulo, com direito a almoço e dispensa às 17 horas para ver as novelas da Globo. Haja bom humor!)
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Jornalista, um caso clínico
Por não ter uma vida saudável, o jornalista fica mais vulnerável a doenças. Algumas são típicas da profissão. Patologias que derrubam, principalmente, os colegas de hard news, incapazes de criar anticorpos para combater a rotina maluca de trabalho.
Ricardite crônica ou Mal de Euclides da Cunha
Esta enfermidade afeta jornalistas que viajam muito, fazem plantões de fim de semana ou pescoção até a alta madrugada. As vítimas costumam reclamar de dores fortes na cabeça. Em estágios avançados da doença, alguns relatam casos de alucinações, sobretudo quando chegam em casa mais cedo. Um jornalista afirmou ter notado sapatos desconhecidos em seu quarto. Outro garantiu ter visto o vizinho em sua cama, ao lado de sua mulher. A desinformação aumenta os casos da doença, afinal a vítima é sempre a última a saber o que acontece em sua casa.
Estrelíase aguda ou Síndrome de Bozó
Este mal, de raiz egocêntrica, ataca jornalistas que trabalham em TV, em especial em grandes emissoras. São pessoas que passaram do anonimato à fama de forma rápida e ainda não conseguiram controlar as altas taxas de estrelismo no sangue. O nariz de quem é acometido pela patologia tende a ficar um pouco arrebitado. Mas o sintoma mais claro que o jornalista está doente é quando ele sai bradando a todos os cantos que é o fodão, que tem acesso a qualquer entrevistado, um puta salário e o escambau. Em casos mais graves, o paciente vive o dia inteiro com o crachá da emissora pendurado no pescoço.
Distúrbio da Sociabilidade Reprimida
Espécie de fobia social, atinge jornalistas que, por trabalharem muito, só conseguem se relacionar com outros jornalistas. Eles não têm tempo livre para interagir com seres humanos de outras profissões. Vivem em guetos. São neuróticos. Andam com o celular ligado 24 horas por dia. Só pensam em trabalho. Nos raros momentos de folga, entram em pânico quando se encontram fora de seu hábitat natural de lazer, o bar próximo à redação onde trabalham. Há relatos de um jornalista que, na cama de um motel com uma dentista gostosa pra cacete, teve uma crise de choro na hora H, pois precisava acabar uma matéria para o dia seguinte.
Ricardite crônica ou Mal de Euclides da Cunha
Esta enfermidade afeta jornalistas que viajam muito, fazem plantões de fim de semana ou pescoção até a alta madrugada. As vítimas costumam reclamar de dores fortes na cabeça. Em estágios avançados da doença, alguns relatam casos de alucinações, sobretudo quando chegam em casa mais cedo. Um jornalista afirmou ter notado sapatos desconhecidos em seu quarto. Outro garantiu ter visto o vizinho em sua cama, ao lado de sua mulher. A desinformação aumenta os casos da doença, afinal a vítima é sempre a última a saber o que acontece em sua casa.
Estrelíase aguda ou Síndrome de Bozó
Este mal, de raiz egocêntrica, ataca jornalistas que trabalham em TV, em especial em grandes emissoras. São pessoas que passaram do anonimato à fama de forma rápida e ainda não conseguiram controlar as altas taxas de estrelismo no sangue. O nariz de quem é acometido pela patologia tende a ficar um pouco arrebitado. Mas o sintoma mais claro que o jornalista está doente é quando ele sai bradando a todos os cantos que é o fodão, que tem acesso a qualquer entrevistado, um puta salário e o escambau. Em casos mais graves, o paciente vive o dia inteiro com o crachá da emissora pendurado no pescoço.
Distúrbio da Sociabilidade Reprimida
Espécie de fobia social, atinge jornalistas que, por trabalharem muito, só conseguem se relacionar com outros jornalistas. Eles não têm tempo livre para interagir com seres humanos de outras profissões. Vivem em guetos. São neuróticos. Andam com o celular ligado 24 horas por dia. Só pensam em trabalho. Nos raros momentos de folga, entram em pânico quando se encontram fora de seu hábitat natural de lazer, o bar próximo à redação onde trabalham. Há relatos de um jornalista que, na cama de um motel com uma dentista gostosa pra cacete, teve uma crise de choro na hora H, pois precisava acabar uma matéria para o dia seguinte.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Mardita calabresa!
Um esporte bastante praticado pelos jornalistas é a "corrida atrás de emprego". Para quem trabalha, é o "triatlo de redação", modalidade de resistência em que o repórter apura a matéria pela manhã, vira redator à tarde e ajuda no fechamento à noite. Mas, no geral, nossa vidinha é bem sedentária. Uma pesquisa nacional do Comunique-se mostrou que apenas 3 em cada 10 profissionais da área cuidam do corpo de forma adequada.
Jornalistas, em sua maioria, preferem atividades intelectuais, como o debate de idéias num boteco, com cigarro, cerveja e uma porção de calabresa acebolada. Tudo muito saudável. Eu faço parte desta turma de malhação. Sempre tive uma vida desregrada e detestei academia - jornalista está acostumado a levar ferro e não a puxar ferro.
Não tomo Herbalife, nem sou adepto de nenhuma dieta de chá colorido. Sigo a Dieta do Desempregado. Como não tenho dinheiro para ir ao mercado, minha geladeira vive vazia. Logo, estou comendo menos. Quando trabalhava, eu seguia a Dieta da Coxinha, minha companheira de muitos almoços.
Existem, porém, alguns poucos jornalistas preocupados com o corpo e, principalmente, com a saúde. Conheci um novato em Esportes, que, de tão hipocondríaco, decidiu procurar um especialista em distúrbios do sono depois de uma noite em claro em seu primeiro pescoção. Tinha um outro, repórter de Cultura, que fazia exame da próstata desde os 20 anos. Ele dizia que era um cara prevenido, que se sentia protegido ao lado de um urologista de confiança e coisa e tal.
Jornalistas, em sua maioria, preferem atividades intelectuais, como o debate de idéias num boteco, com cigarro, cerveja e uma porção de calabresa acebolada. Tudo muito saudável. Eu faço parte desta turma de malhação. Sempre tive uma vida desregrada e detestei academia - jornalista está acostumado a levar ferro e não a puxar ferro.
Não tomo Herbalife, nem sou adepto de nenhuma dieta de chá colorido. Sigo a Dieta do Desempregado. Como não tenho dinheiro para ir ao mercado, minha geladeira vive vazia. Logo, estou comendo menos. Quando trabalhava, eu seguia a Dieta da Coxinha, minha companheira de muitos almoços.
Existem, porém, alguns poucos jornalistas preocupados com o corpo e, principalmente, com a saúde. Conheci um novato em Esportes, que, de tão hipocondríaco, decidiu procurar um especialista em distúrbios do sono depois de uma noite em claro em seu primeiro pescoção. Tinha um outro, repórter de Cultura, que fazia exame da próstata desde os 20 anos. Ele dizia que era um cara prevenido, que se sentia protegido ao lado de um urologista de confiança e coisa e tal.
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segunda-feira, 28 de setembro de 2009
Procura-se um personagem desesperadamente
Depois de encontrar dinheiro para pagar o aluguel em dia, uma das maiores dificuldades enfrentadas por um jornalista é encontrar bons personagens para ilustrar uma matéria. Se falta a pessoa certa para dar o tempero para a história, o texto fica desinteressante. Uma matéria sem bons personagens é como uma mulher divorciada sem um bom advogado.
Uma prática comum para encontrar bons personagens é o famoso e-mail para a lista de amigos. “Caros, vocês conhecem alguém que tenha alguma coleção exótica, tipo VHS pornô ou animais peçonhentos empalhados?” O e-mail, às vezes, tem um tom de suplício. “Preciso de alguém que já tenha tentado o suicídio! Me ajudem, pelo amor de Deus, tô fechando a matéria. Se não encontrar alguém bacana, acho que eu corto os meus pulsos.”
O melhor dos mundos é quando o jornalista já conhece o personagem. Basta pegar o telefone e ligar para tal pessoa. Ainda assim, em algumas situações, a tarefa pode ser árdua.
Produtor de TV: Paulo, tudo bem, meu amigo? É o Sérgio.
Potencial personagem (PP): E aí, Sergião, o que manda?
Produtor de TV: Cara, é o seguinte: tô desesperado atrás de um personagem para uma matéria e eu preciso de um depoimento urgente seu!
PP: Sobre?
Produtor de TV: Sobre homens que têm casamentos heterossexuais, mas que já mantiveram um caso extraconjugal homossexual.
PP: Porra, cara, e você quer que eu exponha isso na televisão?
Produtor de TV: Você é a única pessoa que eu conheço que já passou por essa situação.
PP: Mas a minha mulher nunca soube! Quer acabar com o meu casamento?
Produtor de TV: Cara, você não precisa se identificar. A gente muda o seu nome, coloca você sentado de ladinho, na penumbra, altera a sua voz.
PP: Sergião, você é meu amigo, mas não vai rolar.
Produtor de TV: Caralho, vai me deixar na mão? Quando você pedia o meu apartamento emprestado para encontrar o seu namoradinho, eu nunca te neguei! Lembra disso?
Pausa para reflexão...
PP: Tá bom, tá bom, eu falo. Não precisava pegar tão pesado!
Produtor de TV: Só me diga o local da entrevista que o repórter voa para lá.
PP: Pode ser no parque.
Produtor de TV: Grande garoto!
PP: Ah, e vê se não esquece de colocar aquela voz de pato em mim, hein?
Uma prática comum para encontrar bons personagens é o famoso e-mail para a lista de amigos. “Caros, vocês conhecem alguém que tenha alguma coleção exótica, tipo VHS pornô ou animais peçonhentos empalhados?” O e-mail, às vezes, tem um tom de suplício. “Preciso de alguém que já tenha tentado o suicídio! Me ajudem, pelo amor de Deus, tô fechando a matéria. Se não encontrar alguém bacana, acho que eu corto os meus pulsos.”
O melhor dos mundos é quando o jornalista já conhece o personagem. Basta pegar o telefone e ligar para tal pessoa. Ainda assim, em algumas situações, a tarefa pode ser árdua.
Produtor de TV: Paulo, tudo bem, meu amigo? É o Sérgio.
Potencial personagem (PP): E aí, Sergião, o que manda?
Produtor de TV: Cara, é o seguinte: tô desesperado atrás de um personagem para uma matéria e eu preciso de um depoimento urgente seu!
PP: Sobre?
Produtor de TV: Sobre homens que têm casamentos heterossexuais, mas que já mantiveram um caso extraconjugal homossexual.
PP: Porra, cara, e você quer que eu exponha isso na televisão?
Produtor de TV: Você é a única pessoa que eu conheço que já passou por essa situação.
PP: Mas a minha mulher nunca soube! Quer acabar com o meu casamento?
Produtor de TV: Cara, você não precisa se identificar. A gente muda o seu nome, coloca você sentado de ladinho, na penumbra, altera a sua voz.
PP: Sergião, você é meu amigo, mas não vai rolar.
Produtor de TV: Caralho, vai me deixar na mão? Quando você pedia o meu apartamento emprestado para encontrar o seu namoradinho, eu nunca te neguei! Lembra disso?
Pausa para reflexão...
PP: Tá bom, tá bom, eu falo. Não precisava pegar tão pesado!
Produtor de TV: Só me diga o local da entrevista que o repórter voa para lá.
PP: Pode ser no parque.
Produtor de TV: Grande garoto!
PP: Ah, e vê se não esquece de colocar aquela voz de pato em mim, hein?
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sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Fantasmas
Antes de entrar para a grande imprensa, mais precisamente em hard news, sentia um frio na barriga só de pensar no tal calhau. Ficava imaginando o que aconteceria comigo se um dia eu não entregasse uma matéria a tempo para o fechamento e, em seu lugar, entrasse um anúncio publicitário. Seria chicoteado em plena redação pelo meu atraso, sob o olhar de sadismo de meus colegas? Demitido por justa causa? Teria meu mísero salário reduzido pela metade?
O fantasma do calhau foi para o início de minha carreira de jornalista o mesmo que o monstro embaixo da cama e a loira do banheiro foram para a minha infância. No caso da loira do banheiro, eu até torcia para ela aparecer de vez em quando, coisa que nunca aconteceu.
Descobri, com o tempo, que anúncio publicitário é até bom. Garante a sobrevivência das empresas de comunicação e, por tabela, a dos jornalistas. O problema para nós, escribas, é quando o espaço dos anúncios começa a invadir o do editorial. Quantas vezes cheguei à redação e vi minha matéria de 50 linhas ser reduzida a uma de 20. Como bem filosofou Beaverbrook, antigo barão da imprensa: “Jornalismo é tudo aquilo que consigo enfiar entre um anúncio e outro”.
Assim como na redação, o departamento comercial dos jornais deve ter o seu “calhau”. Imagino o chefe da área gritando para seus subordinados: “Quem não conseguir fechar sua cota de anúncios até as 14 horas vai se dar mal. Os editores terão de colocar alguma matéria no lugar”. Pobres vendedores de anúncios. Eles também padecem com seus fantasmas.
O fantasma do calhau foi para o início de minha carreira de jornalista o mesmo que o monstro embaixo da cama e a loira do banheiro foram para a minha infância. No caso da loira do banheiro, eu até torcia para ela aparecer de vez em quando, coisa que nunca aconteceu.
Descobri, com o tempo, que anúncio publicitário é até bom. Garante a sobrevivência das empresas de comunicação e, por tabela, a dos jornalistas. O problema para nós, escribas, é quando o espaço dos anúncios começa a invadir o do editorial. Quantas vezes cheguei à redação e vi minha matéria de 50 linhas ser reduzida a uma de 20. Como bem filosofou Beaverbrook, antigo barão da imprensa: “Jornalismo é tudo aquilo que consigo enfiar entre um anúncio e outro”.
Assim como na redação, o departamento comercial dos jornais deve ter o seu “calhau”. Imagino o chefe da área gritando para seus subordinados: “Quem não conseguir fechar sua cota de anúncios até as 14 horas vai se dar mal. Os editores terão de colocar alguma matéria no lugar”. Pobres vendedores de anúncios. Eles também padecem com seus fantasmas.
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quinta-feira, 23 de julho de 2009
24 horas
Onde estou? Em minha cama? No quarto de um hotel? Estou sozinho? Cadê todo mundo? Que horas são? O galo está cantando? Ou é o telefone que toca? Ele vai me ligar? Preciso ouvir o outro lado? Devo publicar a denúncia? Ou não? Posso esperar? Por que estou tão confuso? Estou vivendo tudo isso? Ou é apenas um sonho? Ou um pesadelo?
Desperto, enfim. No meio da noite. Estou ansioso. Preocupado com a matéria do dia seguinte. Essas pautas malucas acabam com o meu sono.
Desperto, enfim. No meio da noite. Estou ansioso. Preocupado com a matéria do dia seguinte. Essas pautas malucas acabam com o meu sono.
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segunda-feira, 30 de março de 2009
Uma riquíssima fauna humana - parte 2

Quem acha que são os corintianos o verdadeiro bando de loucos não conhece, com certeza, os fotógrafos de hard news. Ou repórteres fotográficos, como preferem alguns. Fotógrafo que se preza tem cabelos desgrenhados, barba por fazer e cara de quem passou a noite toda sem dormir. Não podemos esquecer também os olhos vez ou outra vermelhos e marejados, pelas mais diversas razões. Se você conhecer um fotógrafo muito certinho, desconfie, meu amigo. Deve ser daqueles que cobrem casamentos ou batizados.
Quando saía pelas ruas de Sampa para alguma reportagem, sentava-me, naturalmente, no banco de trás do carro do jornal. O fotógrafo sempre estava na frente, ao lado do motorista. Fotógrafos e motoristas são seres semelhantes, meio donos da situação. Onipotentes. As duas espécies gabam-se de conhecer o melhor caminho, o atalho perfeito para chegar ao destino final. Cantam as menininhas na rua com a mesma desenvoltura e adoram comprar uma briga com algum segurança ou policial que abuse de seu poder.
Mas os fotógrafos, assim como os motoristas, também sabem ter uma simplicidade ímpar. Não têm frescura, topam almoçar em qualquer restaurante, mesmo naqueles de péssima reputação.
Viajar e dividir o quarto do hotel com um fotógrafo demandava estômago. Na época em que não existiam as máquinas digitais e os filmes tinham de ser revelados, o banheiro do quarto era transformado em um laboratório: toalhas nas janelas para garantir a escuridão, a banheira cheia de água e aqueles produtos químicos fedorentos. E, como o quarto só tinha um banheiro, privei-me muitas vezes de um banho. Ou de ter uma diarréia.
Mas eu sempre admirei esses loucos, principalmente os que tinham sacadas maravilhosas de fotos, os que conseguiam captar o instante de forma magistral. Admirava também o tesão de alguns em buscar sempre a excelência, o melhor ângulo, a melhor expressão das pessoas, mesmo que, para isso, fosse preciso repetir e repetir o trabalho. Sempre curti o trabalho dos fotógrafos, porque o resultado final era fiel à realidade. As palavras mentem, mas as imagens, não. Quer dizer, isso até o dia em que inventaram o Photoshop...
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