quarta-feira, 7 de julho de 2010

Pequenos casos de amor


Alessandro trabalhava na redação como office-boy. Cuidava do papel da impressora, do papel do fax, comprava cigarro na padoca para os repórteres mais folgados. Era preto, pobre e nunca tinha grandes oportunidades na vida. Era também curioso. Ficava observando o trabalho dos jornalistas e começou a se encantar pela coisa. Um dia pediu ao editor de Cultura que lesse um texto que ele havia escrito sobre uma peça teatral. “Então, você gosta de teatro?”, perguntou o editor. “Sempre que tem peça de graça eu vou.” O editor corrigiu um problema de ortografia aqui, uma crase errada ali, deslizes que até jornalista profissional comete. No geral, gostou bastante do que leu. Texto enxuto, bem sacado, sem afetação. A partir daquele dia, Alessandro começou a colaborar na produção do roteiro cultural da semana. Era uma espécie de assistente do estagiário, cargo que, convenhamos, é nada interessante. Mas Alessandro achou o máximo. Os jornalistas, empolgados com o tesão que o menino mostrava, resolveram fazer uma vaquinha para bancar a faculdade de jornalismo para ele. Alguns repórteres mal tinham dinheiro para pagar o aluguel do apê em que moravam, mas colaboraram mesmo assim. Alessandro estudou jornalismo e conseguiu o diploma que, naquela época, ainda valia alguma coisa. Hoje, é repórter do caderno de Cultura e faz matérias sobre teatro, sobre cinema, música. Ah, e sabe tudo de crase também.


Motorista do jornal, Teixeira vivia nas ruas e criou uma grande intimidade com as cenas inesperadas. Enquanto seus colegas de profissão dedicavam-se à arte de jogar conversa fora, difamar a vida alheia e paquerar “princesas” por todos os cantos da cidade, Teixeira atentava-se a fatos, a imagens. Um dia comprou uma máquina fotográfica simples e de segunda mão e a deixou guardada no porta-luvas de seu carro. Em casa, a patroa protestou. “Mas o que deu na sua cabeça, homem, de querer virar fotógrafo? Deu para gastar dinheiro com essas besteiras agora?” Sempre que podia, Teixeira registrava uma cena. Começou com coisas banais. Os fotógrafos do jornal, camaradas, faziam a revelação de seus filmes no estúdio da redação. Um dia, o editor de Arte viu uma fotografia perdida sobre uma mesa. Pivetes tomando banho no chafariz de uma praça. Achou a imagem poética. “Porra, a foto é de quem? Que Teixeira? O motorista?” Tempos depois, Teixeira, o motorista, foi o único a conseguir registrar o exato momento da execução de um sem-teto em confronto com a polícia. Ganhou a capa do jornal. Os fotógrafos, empolgados com seu talento, resolveram fazer uma vaquinha para comprar uma máquina profissional para ele. Alguns mal tinham dinheiro para pagar a conta da luz, mas colaboraram mesmo assim. Hoje, Teixeira faz até exposição de fotos. A patroa ficou toda orgulhosa. “Que talento tem esse homem!”

21 comentários:

Derla disse...

Se fosse de verdade seria tão lindo!

Hidaiana Rosa disse...

Ahh, gostei! Vou caprichar nas minhas fotos para me tornar um "Teixeira" ;)

Gui disse...

Imagina que eu articulei para um contínuo da redação uma vaga num cursinho que eu ensinei. Hoje ele é jornalista também. SÉRIO.

Anônimo disse...

Duda cada vez melhor. Os últimos posts estão incríveis, passou o mau humor..haha
beijão

Duda Rangel disse...

Derla, é vero! Há alguns Alessandros e Teixeiras por aí. Veja o depoimento do Gui.
Hidaiana, capricha mesmo, hein?
Anônimo, daqui a pouco o meu mau humor volta. Não tem jeito :)
Beijos e abraços do Duda

Dani disse...

No jornal que eu trabalhava um motorista virou fotógrafo, do mesmo jeito que o Teixeira. E tem outro que acabou de se apaixonar pelas imagens.

thayspetters.blogspot.com disse...

Gostei Duda! muito poético!

Laís Fernanda Borges disse...

eu gosto de fotografar. vou criar vergonha na cara e comprar uma camera que preste, pra ver se viro uma Teixeira. às vezes, qnd vejo certas coisas qnd tow na rua, fico pensando na boa foto q aquilo daria....

Duda Rangel disse...

É Dani, exemplos de Teixeira sempre existem.
Thays, às vezes, consigo escrever algo poético. Mas só às vezes.
Laís, é isso aí. Invista nas coisas que dão prazer. Não precisamos esperar a velhice chegar para fazer isso.
Beijos a todas.

Anônimo disse...

Vc é muito engraçado, cara kkkkkkk
Estou aqui na produção da TV e morrendo de rir. Vc bem podia falar um pouco mais sobre os jornalistas de tv. Te garanto que é a classe mais sofrida.

Anônimo disse...

Aliás, deixa eu fazer uma participação especial no seu blog e mandar um texto de um jornalista televisivo indignado? kkkkkkk

jefhcardoso disse...

É uma pena que no dia a dia não se vê tanta poesia.
Jefhcardoso do http://jefhcardoso.blogspot.com

Duda Rangel disse...

Caro Anônimo, fique à vontade para aproveitar este espaço democrático do blog para contar suas histórias de jornalistas de TV, com bastante sofrimento e requintes de crueldade. Afinal, a realidade não é só feita de poesia, como bem lembrou o Jefhcardoso. Abraços.

Patrícia Gonçalves disse...

Você é simplesmente ótimo e nunca deixo de visitar. E por muitas vezes me identificar. Parabéns e muito sucesso. Sempre.

Lívia Inácio disse...

Ai,gente!

Que le-gal! huahauahau

Duda Rangel disse...

Patrícia e Lívia, brigadão pelo carinho. Beijos!

Flavia disse...

Tudo depende da garra que se tem...

O importante é ter um ideal, e traçar uma trilha.

Alguns nascem com o dom outros, só fazem faculdade, como eu =(...

Gustavo Linhares disse...

Tem coisas que só acontecem no ambiente jornalístico. Há pouco tempo atrás, quando ainda estava na faculdade, comecei a estagiar no jornal O Tempo em BH. Lá tinha um motorista, Edésio, que tirava as suas fotos e sempre conseguia emplacar uma no jornal. Ele acabou virando calouro na faculdade que eu estudava. Hoje deve estar próximo de terminar o curso de jornalismo.

Anônimo disse...

Amor...
(Venha cá ANJO DE LUZ eu te INVOCO para que Desenterrec de onde estiver ou com quem estiver e faça ele ME telefonar ainda hoje, Apaixonado e Arrependido, desenterre tudo que esta impedindo que c venha para MIM , afaste todas aquelas que tem contribuído para o nosso afastamento e que ele c não pense mais nas outras… mas somente em MIM. Que ele ME telefone e ME AME. Agradeço por este seu misterioso poder que sempre dá certo. Amém…). Publique esta simpatia por três vezes , basta copiar e colar por três vezes em in forum diferente esta simpatia abaixo e logo em 48hs você terá uma linda surpresa, beijos Ainda esta noite de madrugada o TEU amor dará conta de que TE ama, algo assim acontecerá entre 1 e 4 horas da manhã esteja preparada para o maior choque de sua vida! Se romper esta corrente terá má sorte no amor. Deus vai lhe abençoárá e sua vida não será mais a mesma LEIA SOZINHO porque no passado eu também não acreditava que ia dar certo, mas… funciona mesmo!!! Entrei neste site e fiz esta prece. Fiz para ver se ia dar certo e deu, assim que acabei meu amor ligou. A pessoa que eu copiei também não acreditava mas para ela também funcionou! . .

espero que funcione

Duda Rangel disse...

Caro Anônimo, não rola simpatia pra conseguir emprego de jornalista com carteira assinada?

Anônimo disse...

O ''TEIXEIRA'' me lembrou a história de um personagem do Filme brasileiro CIDADE DE DEUS. Q conta a história de um fotógrafo q vive na favela e consegue vender uma foto q fez com os traficantes do morro.E q só ele tinha conseguir essa imagem. a PARTIR DESSA FOTO FOI CONTRATADO PELO JORNAL.