sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Os dias bons


Dia bom é dia de homicídio, parricídio, vizinhocídio. É a maldade humana que vende jornal. De atropelamento ninguém quer saber. Ainda mais se for de velhinha.

Alexandre já estava na terceira delegacia de sua ronda matutina e os boletins de ocorrência da noite e da madrugada só falavam do bêbado que bateu na mulher aqui, do carro roubado ali, da confusão no pagode acolá.

Dia bom é dia de chacina, carnificina e outras tristes sinas. É a história do menino trabalhador que estava no lugar errado e na hora errada quando o fuzilamento no bar começou que vende jornal. Ele só queria comprar um maço de cigarros pra mãe.

Alexandre ainda tinha esperança de salvar a página policial do dia seguinte nas duas delegacias que restavam. Essa busca o excitava. Quando encontrava "a notícia" em algum BO, burocrática e fria, anotava telefones e endereços dos parentes da vítima e voava para o carro de reportagem. Começava a melhor parte: a descoberta da história oculta, ainda mais sórdida, mais humana.

Dia bom é dia de velório com revolta, de desgraça sem volta.

É o que vende jornal.

12 comentários:

Paula Mestrinel disse...

Infelizmente são as manchetes trágicas que aumentam as vendas do jornal. Eu tento dar andamento à editoria de "boas notícias", mas, ó, é bem difícil encontrar coisa boa pra publicar viu!

A viajante disse...

As páginas policiais são de fato muito mais visitadas. Talvez, pela manchete principal sempre colocar, em letras imensas, chamadas macabras, do tipo: AVIÃO CAI E MATA 48 passageiros...
Tomara que um dia tenhamos títulos de dias melhores, do tipo: DUDA RANGEL LANÇA DESILUSÕES PERDIDAS, NA SÉTIMA EDIÇÃO! Bj

Juliana disse...

Jornalista é um urubu! Tem uma vida tão ruim que fica agourando a dos outros, ou, ao contrário, busca felicidade na dos outros porque a própria é péssima!

R@mon_Vitor disse...

Sua melhor postagem até agora. Ética jornalística é uma prática muito teórica infelizmente.

Mesmo assim, penso que tá melhorando. Posso está enganado.

Fabiana Farias disse...

Sempre foi assim e sempre será.
Não acho que seja uma verdade jornalística. É uma verdade geral.

Márcia Pilar disse...

de fato!
dias bons para uns, dias ruins para outros.

Duda Rangel disse...

Paula, viva a editoria das "boas notícias"!
Viajante, este dia vai chegar. Valeu.
Juliana, você já viu o filme A Montanha dos Sete Abutres? É mais ou menos por aí. Mas nem todos os jornalistas são urubus.
Ramon, você disse ética? Acho que já ouvi esta palavra na vida...rs Obrigado pelo comentário!
Fabiana e Márcia, e tem também o lado do leitor, que gosta de uma desgraça. E como gosta! Coisas de ser humano.
Abraços.

Décio Diniz disse...

Realmente. É como diz aquele comercial de margarina: "Aqui em casa tudo continua do mesmo jeito. Ainda bem!" Quando se sai da rotina geralmente é por algo ruim. E isto vira notícia!

@bovinenses disse...

Por isso nos chamam de URUBUS nos velórios, IMLs e cemitérios. Texto bacana, Duda. :*

dieguito de moraes disse...

"estão todos safisteitos
com o sucesso
do desastre"

Duda Rangel disse...

É o que vende jornal. Abraços.

Vanessa Bencz disse...

totalmente verdade...
http://garotadistraida.wordpress.com