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terça-feira, 6 de agosto de 2013

Crônica de um jornalista bipolar


Agora estou feliz. A matéria rendeu, repercutiu, incomodou muita gente. Agora estou triste. Um vazio enorme na alma do tamanho do vazio desta página que vou ter que preencher sozinho com sei lá quantos textos. Agora estou feliz. Edição fechada. Hora de descer para o bar e rir e rir e rir de todas as merdas do dia. Agora estou triste. A reportagem que eu fiz com tanta dedicação caiu. Agora estou feliz. Finalmente pingou meu salário na conta. Agora estou triste. Porra, mas já acabou o salário? Agora estou feliz. O cara topou falar comigo, só comigo. Agora estou triste. O cara não soltou nada de interessante, cara chato, vaselina. Agora estou feliz. Pintaram uns frilas bons. Agora estou triste. Essa coisa de a gente estar sempre buscando ser feliz me deixa meio triste, sabe? Agora estou feliz. Além de sorrir para mim, a assessora de imprensa bonitinha elogiou a minha matéria. E eu aposto que ela nem leu. Agora estou triste. Ainda não me pagaram os tais frilas bons. Agora estou feliz. Manchete do jornal, porra! Tô pensando seriamente em não desistir mais do jornalismo. Agora estou triste. Novo corte. Mais 20 amigos sem emprego. Será que não é a hora de eu, sei lá, virar hippie? Agora estou feliz. O cara que desviava o dinheiro da merenda das criancinhas que eu denunciei foi preso. Ih, se fodeu. Agora estou triste. A assessora bonitinha tem namorado. Ih, me fodi. Agora estou feliz. Com um mês de atraso, pagaram os frilas, que, pensando bem, nem eram tão bons assim. Agora estou na dúvida se eu fico triste ou feliz. Agora estou triste. Por que jornalista é sempre cheio de dúvida? Agora estou feliz. Porque a dúvida nos faz pensar, buscar uma saída. Agora estou triste. O computador travou. Agora estou feliz. A assessora de imprensa bonitinha me contou que deu um pé no namorado e tá tristinha por não ter companhia para ver no cinema um filme que ela ama muito. Agora estou triste. Não me sobrou um puto para assistir ao filme que ela ama muito. Vai acabar namoro bem no fim do mês? Agora estou quase cortando os pulsos, mas a assessora bonitinha me liga e diz que descolou dois ingressos com outro assessor. Agora eu fico feliz pra caralho.


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quinta-feira, 1 de março de 2012

Quer uma coluna do Duda Rangel?


Quando nasci, Deus, com seu jeitão todo poderoso, foi logo exigindo de mim a primeira grande escolha: “Você quer ter talento para ganhar dinheiro ou quer ser jornalista?”. Eike Batista – soube que ele passou pela mesma situação – cravou, claro, letra A. Eu, ingênuo, respondi sem pensar. O resto da história vocês já conhecem.

Só agora, depois de velho, comecei a perceber que mesmo sem talento a gente pode arriscar e se dar bem, não pode? A Lady Gaga não ganha uma puta grana cantando? E aquele menino? Me fugiu o nome dele agora... Ah, sim, Kayky Brito. Gente, ele é ator! E o Mano Menezes que virou técnico da seleção?

Resolvi, então, arriscar. Com o objetivo de superar a linha da pobreza extrema, criei o projeto “Quer uma coluna do Duda Rangel?”. Se você curte meu blog e gostaria de contar com o humor dele em sua publicação, impressa ou digital, que tal me contratar? Pode ser uma crônica, um conto. Sobre diferentes assuntos.

Apesar de jornalista, sou limpinho. E não mexo na geladeira.

O blog Desilusões perdidas, há pouco mais de três anos no ar, é totalmente gratuito. Logo, preciso de uma grana. Para sobreviver. Para dar uma ração mais digna ao Nestor. Sobre briefing e valor do investimento, é só escrever para dudarangel2008@gmail.com.

Deus, com seu jeitão todo paternal, bem que podia dar uma força.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Crônica sobre a ingenuidade do repórter


Tem quem fale que repórter ingênuo devia nascer morto.

Sexta-feira à noite, véspera de minha folga, e o editor vem cheio de graça. Ô, Duda, você tem alguma coisa programada pro fim de semana? Só os ingênuos dizem “não, não tenho”. Se não tem, invente! Diga qualquer coisa. Diga que está rolando um ciclo de filmes romenos mudos imperdível, que você vai pegar um bronze numa praia qualquer – logo você que odeia sol. E praia.

É comum também, após um passaralho, o patrão reunir os repórteres sobreviventes e avisar que, por ora, as vagas estão congeladas e que todos deverão se esforçar mais, trabalhar pelos colegas demitidos. Mas é só por um tempo! Depois as vagas serão descongeladas. Tem repórter que acredita. Descongelam porra nenhuma! Tenho vontade é de congelar o patrão no freezer lá de casa. Em partes. Cabeça, mãos, vísceras, tudo embalado a vácuo.

Tem repórter que enche a boca para dizer que trabalha na grande imprensa, que é independente, sem o rabicó preso. Quanta ingenuidade! Alguns acreditam ser insubstituíveis numa redação. Quando eu sair, essa merda afunda. Mas merda não afunda, seu bobinho! Virão outros, ganhando um salário ainda menor. E o barco seguirá seu rumo.

Ingenuidade não combina com o trabalho de repórter. Desconfie de tudo e de todos, dos Malufs e Sarneys, da tal gente de bem, dos projetos artísticos de ex-BBB, dos releases infestados de superlativos. Desconfie até do que se vê com os próprios olhos.

Repórter tem que ser como puta velha, sabida das coisas da vida.