sexta-feira, 17 de julho de 2009

Conflito de gerações


A máquina de escrever está quieta, num canto da mesa, quando é provocada pelo notebook.

– Hoje, serei levado a um importante evento, com políticos, artistas, intelectuais. E você?
– Saco, não vê que estou descansando?
– Deve ser triste a solidão deste escritório.
– Quem disse que estou sozinha? Veja aquela estante repleta de livros.
– Seu tempo já passou. O que vale agora é a alta tecnologia.
– É verdade, mas não se gabe só por ter uns recursos diferentes.
– Carrego softwares de todos os tipos, aplicativos, drivers. Tô conectado com a internet. Sabe o que é isso?
– Mas você é passageiro. Eu sou para sempre.
– Uma aposentada que só serve de enfeite.
– Tenho história, meu filho, experiência de vida.
– Em mim, nascem grandes matérias.
– Que morrem no dia seguinte.
– E daí? Pelo menos me sinto vivo.
– Em mim, nasceram grandes obras literárias, que vão durar décadas e décadas.
– Mas é a mim que ele procura todos os dias.
– Por obrigação de um trabalho rotineiro.
– Invejosa!
– É a mim que ele sempre jurou amor verdadeiro.
– É um velho saudosista.

O jornalista entra no escritório, apressado. Pega a bolsa, o celular e o notebook, que, antes de ir embora, olha com desprezo para a máquina de escrever.

– Pobrezinha, que vidinha sem graça ela leva – pensa o notebook.
– Coitado, nem imagina que logo será trocado por um modelo mais compacto, com webcam e bluetooth – pensa a máquina.

4 comentários:

fernando disse...

É... A pós-modernidade tem imposto um tempo rápido com coisas descartáveis, as quais fingem conseguir superar as ferramentas antigas. mas o que vale mesmo é a criatividade de quem manuseia etas ferramentas, afinal os textos nascem na cabeça do ser humano.
Vi o link do seu blog, no pisandoemflores, da Rose.
Gostei!
Publico textos uma vez por semana no blog: www.neuroticoautonomo.zip.net

Fernando disse...

ótimo! ótimo! ótimo! Parabéns...

André HP disse...

Beeeem legal!
Criativo garoto!

Abraço!

Gleyci Pamplona disse...

haaaaaaaaa que texto bacana, eu tenho um máquina de escrever, ganhei do meu pai quando tinha uns 10 ou 9 anos. Se tenho habilidade com teclas a culpa foi da velha máquina.
Abraço...