quarta-feira, 1 de julho de 2009

Do outro lado da mureta


Em meu primeiro emprego decente depois de formado, quando eu ainda era um reles repórter que cobria buracos na rua, almoçava diariamente no bandejão do jornal. Era o que o meu dinheiro podia bancar. De lá, via de longe o restaurante self service, freqüentado pelos jornalistas que eu julgava mais importantes na empresa. Apenas uma pequena mureta, com arranjos florais em cima, separava aqueles dois mundos.

Do meu lado, os pobres tinham de se contentar com a comida que depositavam sobre a bandeja. Não havia muita escolha. O pior era ter de dividir a mesa com os peões da gráfica, que viviam com as unhas sujas de tinta e adoravam falar alto enquanto comiam. Não gostava daquela gente sem classe. Eles também me olhavam com desdém. “Só porque tem um diplominha de bosta, se acha melhor do que nós”, deviam pensar de mim.

De minha mesa, ficava contemplando a vida dos abastados no self service. Às vezes, eu sentava bem perto da mureta para descobrir o que estavam comendo ou sentir algum aroma diferente. Muitos dos jornalistas mais importantes da empresa nem olhavam para nós do bandejão. Outros adoravam me sacanear. “Você já provou a bavaroise de papaia ao creme de iogurte e mel? Que delícia!”

Tempos mais tarde, após alguns dissídios e um salário um pouco melhor, decidi conhecer, enfim, o mundo dos ricos. Era uma questão de status perante os amigos, uma forma de provar a mim mesmo que estava tendo, de alguma forma, ascensão profissional. Triste dia em que descobri que a comida de lá era a mesma do bandejão, apenas com o direito de servir-se.

Para a sobremesa, tive de optar entre um potinho de plástico de gelatina, uma laranja já descascada ou uma fatia de melancia. Nunca havia existido porra nenhuma de bavaroise de papaia por lá. Olhei para o lado dos pobres e vi, ao longe, os peões da gráfica. “Come a mesma merda que nós e paga cinco vezes mais caro por isso. Trouxa”, pareciam estar pensando. Esqueci o passado e, com ar superior, voltei à minha mesa. Não via a hora de devorar aquele potinho de gelatina.

2 comentários:

The Ideas of a Vintage Doll disse...

Tenho horror de bandejão!

Ewerton Martins Ribeiro disse...

A porra da grama do vizinho é sempre mais verde, diria o filósofo.