terça-feira, 28 de julho de 2009

Nestor


Parece que foi ontem que o Nestor entrou em minha vida. Eu e minha mulher, hoje ex, queríamos cuidar de um ser vivo que não fosse tão complexo quanto um bebê humano. Descartamos também as plantas, porque sempre as achamos muito monótonas e chatas. O consenso era um cão, bicho brincalhão. E assim compramos o nosso boxer.

Minha mulher queria chamá-lo de Karenin, o cachorro de um livro que ela tinha amado ler. Eu queria Nestor, porque, para mim, nomes humanos davam a sensação de uma maior interação intelectual dono-cão. Achava que, algum dia, ele tomaria cerveja comigo e discutiria política, futebol e filosofia. Naquela época, como eu ainda mandava alguma coisa no relacionamento, o cão passou a se chamar Nestor.

Apesar de deixar o sofá todo babado e roer os móveis, Nestor foi uma coisa maravilhosa que me aconteceu. Muitas vezes, chegava em casa de madrugada, depois dos pescoções, e encontrava o bicho acordado, à minha espera. Pulava em cima, me lambia. Sua alegria era inspiração para eu escrever, correr atrás de grandes pautas. Para quem não leu, vale conferir o post Farejadores.

Mas o Nestor envelheceu, como eu. Está mais sóbrio, mais resignado com algumas coisas da vida. Dia desses, lendo o jornal, notei que ele estava sentado à minha frente, compenetrado em mim. Parecia querer conversar. Achei que a tal maior interação intelectual dono-cão finalmente havia chegado. Perguntei ao Nestor então o que ele achava da crise do Senado, da gestão do Obama até agora, do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Ele deu um bocejo ruidoso, circulou algumas vezes sobre sua cama, deitou e dormiu. Deve ter pensado: “Que puta papo chato tem esse cara.”

7 comentários:

rCarvalho disse...

nossa, o treco do nestor é serio mesmo.

no começo do post pensei que ele tinha morrido. ufa, ainda bem que nao.

ow, já viu o filme marley e eu?

André HP disse...

Eu ainda acho que eles não se comunicam conosco por puro desdém. Deve ser uma vida mais inteligente, com algum tipo de linguagem telepática.

E tenha certeza: eles não tem um lugar onde um monte de vira-latas decidem quem pode derrubar o lixo e quem não pode - isso só rola no STF.

Abraço!

Ricardo Muza disse...

Você não sabe falar com o cão.

Duda Rangel disse...

rCarvalho, ainda não vi o filme do Marley; pra falar a verdade, temo não controlar as lágrimas no final. André, sorte a deles não depender das decisões do STF. Ricardo, um dia ainda vou aprender a falar com o Nestor. Acredite!

The Ideas of a Vintage Doll disse...

Uma vez, fazendo um trabalho da faculdade a minha cachorra, Lola, ficou deitada no meu colo me observando e quase morreu de tédio ao observar meu texto. Foi nesse dia que eu percebi que eu decididamente não sabia escrever...

Ewerton Martins Ribeiro disse...

Percebe-se claramente que Karenin (você devia tê-la ouvido) é um ótimo interlocutor.

Elisângela Valença disse...

O boxer tem este poder. Meu Hank que o diga!