sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Confissões de um jornalista


Estava na igreja para se confessar. Junqueira era um repórter de Política, usava terno e gravata, o cabelo e a barba bem aparados e óculos, com ar de seriedade. Nem parecia jornalista. Era um homem de princípios, que tinha medo de queimar no inferno.

– Padre, fiz uma matéria que acabou com a reputação de um homem. Só porque ele é contrário ao partido apoiado pelo jornal em que trabalho. Não concordei, mas fui obrigado pelo meu chefe.

– Engolimos sapos para manter o emprego, meu filho. Você só cumpriu ordens e sente culpa por isso. Reze dez ave-marias.

– Padre, tem uma outra coisa. Numa recente viagem de trabalho, todos os meus colegas falsificaram umas notas fiscais para ter um reembolso melhor. Eu não podia furar com eles. Colocamos tudo na conta do táxi. Ganho um salário de fome, sem hora extra...

– A vida está dura, meu filho. Reze mais dez ave-marias.

– Obrigado, padre, me sinto mais aliviado agora.

– Vá com Deus, meu filho. Mas não se esqueça de pagar sua contribuição para a manutenção da igreja, que anda meio atrasada.

Com todas as contas acertadas, Junqueira seguiu para a redação, onde teria um dia de muito trabalho. Encontraria também a estagiária do caderno de Economia, uma daquelas jovens ambiciosas que adoram homens de terno e gravata. Casado, o repórter sentia-se culpado pela idéia de ceder às provocações da garota, que o estava deixando maluco. Será que queimaria mesmo no inferno? Bem que o padre alertou: a vida está dura.

2 comentários:

The Ideas of a Vintage Doll disse...

Engraçado, eu sempre preferi os jornalistas de economia...

Derla disse...

Dudaaaaaaaaa seu blog é muito bom! Ri muito mewwww

Jovens ambiciosas hauhauhauha