sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Entrevista com o Doutor – parte final


Para quem ainda não leu a primeira parte, é só clicar aqui.

A Felizarda seguiu com o Doutor para uma sala da redação reservada a entrevistas, reuniões de pauta e eventuais barracos a portas fechadas. O problema é que a sala era toda de vidro e ficava fácil para as mulheres do lado de fora bisbilhotarem a dupla. Mal havia começado a entrevista e a Invejosa já havia tomado uns três cafés ali perto do vidro. O que mais irritou a Felizarda, contudo, foram as invasões da sala. A Recepcionista ("que vadia!") interrompeu a entrevista por duas vezes, a primeira para oferecer água e a segunda para oferecer chá ao Doutor. A Casada entrou outras duas vezes, a primeira para saber se estava tudo bem por lá e a segunda também para saber se estava tudo bem por lá.

Fora estes pequenos aborrecimentos, a entrevista transcorreu sem grandes problemas. A Felizarda ligou o gravador e o deixou bem pertinho do Doutor. Queria qualidade máxima naquela voz. A noite na banheira prometia. Como a Felizarda acumulou um vasto conhecimento sobre o tema (ah, quantas horas de pesquisa!), fez perguntas interessantes. A conversa teve fluidez e impressionou o Doutor, que elogiou o nível de informação da Felizarda. Ela fingiu um sorriso encabulado e convenceu-se de que a estratégia adotada (decote sem pudor + conhecimento) estava dando certo.

Era quase início da noite da sexta-feira quando a entrevista acabou. A Felizarda acreditava que a redação já estivesse vazia, mas ninguém havia arredado o pé de lá até o momento, principalmente a Invejosa, colada ao vidro e com seu oitavo ou novo copo de café nas mãos. O Doutor levantou-se, deixou seu cartão com a Felizarda e preparou a despedida.

- Ficou alguma dúvida?, perguntou ele.

- Nenhuma! Tudo compreendido!, respondeu a Felizarda.

- Que pena! Eu iria me colocar à sua disposição para solucionar qualquer dúvida. Se quisesse ligar depois para checar alguma informação...

- Bom, a gente sempre tem dúvida, né? Quem não tem dúvida? Posso não ter dúvida agora, mas com certeza vou ter dúvida depois, quando eu estiver ouvindo a fita na minha ban..., na minha bancada do escritório!

- Então, vou esperar você ter sua dúvida. Pode ligar mesmo no sábado, viu? Estarei em São Paulo neste fim de semana, sozinho.

A Felizarda acompanhou o Doutor até a saída da redação com um andar triunfante. Cruzou o ambiente sem medo, desprezando aquela mulherada que parecia fazer um corredor polonês. Tinha agora outra certeza: perguntas inteligentes numa entrevista podem não render uma promoção ou um aumento de salário; elas podem render muito mais!

4 comentários:

Derla disse...

hauhauhauha a redação está em peso rindo! Muito bom, muito bom...

Brunna Duarte disse...

Cada eu vez eu gosto mais de suas postagens... gosto de sua escrita, de seu senso de humor apurado... eu me diverti muito com essa postagem! Nunca trabalhei em redação, mas consegui imaginar cada detalhe das cenas por ti descritas! kkk

Muito bom!

Muitos beijos pra ti!

Talita disse...

Muito bom Duda...imagino cada história engraçada que deve ter em um redação...apesar do trabalhão, dever ser divertido..sinceramente não vejo a hora de começar a estagiar!..aguardando seu próximo post..bjss

Duda Rangel disse...

Derla, Brunna e Talita,
Vocês podem ver que jornalistas se dão bem de vez em quando, não? Obrigado pelas mensangens!!!
Beijos