segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Tudo poderia ser tão diferente


Sexta-feira, ou melhor, já é sábado, quase uma hora da manhã na redação. Estou duplamente feliz. Meu pescoção acabou mais cedo e terei um fim de semana de folga, após trabalhar 21 dias seguidos. O celular toca. É meu chefe. Difícil ouvir sua voz por conta do barulho do ambiente. O desgraçado deve estar numa festa. Então vem o golpe, cruel.

- Duda, eu sei que você tem trabalhado pra caralho, que está precisando descansar, mas vou ter de cassar sua folga novamente neste fim de semana. Tô precisando reforçar a equipe e você é o meu cara de confiança. Depois, a gente dá um jeito de você folgar.

Por que eu nunca consegui ser sincero e explosivo nessas horas? Tudo poderia ser tão diferente:

- O quê? Cassar a minha folga novamente? Bebeu? Pirou? Você sabe, meu caro chefinho, quantos dias eu não trepo decentemente com a minha mulher? Sabe? Quer que eu seja mais um corno no jornalismo brasileiro? É isso o que você quer? Porque, do jeito que anda a minha rotina, daqui a pouco minha mulher vai sair com o diretor de Novos Negócios da empresa dela. Esses diretores de Novos Negócios adoram novos negócios, principalmente os novos negócios dos otários que trabalham sem folgar, como eu, sabia? E o meu sobrinho e afilhado? Você sabe há quanto tempo eu prometi levar o moleque ao teatro para assistir à peça O cachorrinho vagabundo e seu amigo hamster? Não, você não sabe. Você não sabe como é difícil dizer ao seu afilhado pela enésima vez “Não, meu querido, de novo não poderemos ver O cachorrinho vagabundo e seu amigo hamster. Fica pra outro dia, tá bom?” E os reparos na minha casa? É você quem vai consertar a porra da privada que tá vazando e fica pingando na porra da cabeça do meu vizinho do andar de baixo? Resumindo, meu caro chefe: não vou ter merda nenhuma de folga cassada! Entendeu? Mer-da ne-nhu-ma! Se quiser, casse a folga de algum outro idiota desta redação!

Mas nunca consegui ser sincero e explosivo nessas horas:

- Amanhã? Reforçar a equipe? Claro, entendo. Depois a gente acerta essa coisa de folga!

E tudo foi sempre tão igual.


Releia também o post “Pescoção”, este incompreendido

6 comentários:

Júlio Castellain disse...

...
Eita coisa!!!
Abraço
...

Derla disse...

agora vocÊ já sabe! No seu próximo trabalho nada de ouvir calado! hauhauha Ô dó!

Lita Cruz disse...

Ás vezes eu tenho medo de estar lendo o meu futuro no seu blog Duda...rsrs..mas o amor pela profissão supera...estou aguardando o "pescoção"...rsrs

Duda Rangel disse...

Derla,
Depois do "vivendo e aprendendo", nada como um "levando chifre e aprendendo"!
Lita, não sofra por antecedência! Deixe o sofrimento para a hora certa...rs
Júlio, obrigado pelos comentários constantes.
Abraços do Duda

Maria Fernanda Ribeiro disse...

Ai ai, sei bem o que é isso. Mas sabe que um amigo já fez isso né? E para não sair perdendo ainda chutou a mesa e pediu demissão na sequência... virou bancário!

Ben Oliveira disse...

Engraçadérrimo. Seus textos são ótimos...
É se você não dizer não pro próximo chefe ou perde o emprego ou ele monta em você.
O que fazer?