segunda-feira, 5 de abril de 2010

Existe pauta após a morte?


O jornalista chegou à entrada do Céu com pressa, a mesma pressa que sempre teve quando era vivo – aliás, se não fosse por ela, teria, ao menos, olhado para os lados antes de atravessar a rua no fatídico dia. Mas isso não vem mais ao caso. Tentou avançar rapidamente pela porta do Céu, mas foi barrado por São Pedro.

- O que você quer aqui, filho de Deus?

- Bom dia, São Pedro. Então, tô com uma matéria urgente. Preciso apurar se existe vida após a morte! E, aproveitando que você falou em Deus, também quero uma exclusiva com Ele.

São Pedro franziu a testa. Disse que, para entrar no Céu, era preciso estar credenciado. Aquela carteirinha da Fenaj que o jornalista segurava nas mãos não tinha o menor valor lá. E, para conseguir a tal credencial celestial, o jornalista deveria preencher um formulário, pagar uma taxa e apresentar uma ficha de antecedentes criminais jornalísticos.

- É para saber se você, em vida, não aceitou nenhum suborno para deixar de publicar uma matéria ou se difamou um pobre inocente, explicou São Pedro.

Sobre a exclusiva com Deus, o santo disse que era necessário entrar em contato com o assessor de imprensa d'Ele e tentar uma vaga na disputada agenda. Muitos jornalistas estavam na fila. O jornalista, muito vivo, apesar de morto, deu sua última cartada.

- São Pedro, façamos um trato: você me libera a entrada já e eu prometo que, quando escrever o texto, te encaixo na matéria. Falo bem de você, desse trabalho bacana que você desenvolve aqui na portaria. Aliás, que barba a sua, hein? Bem moderna!


Na pesquisa que acabou de ser encerrada – Qual dos epitáfios de jornalista é o mais espirituoso? –, a alternativa “Enfim vou poder apurar se existe vida após a morte” ganhou com 43% dos votos. A nova enquete, já no ar, quer saber qual a editoria mais chata para um jornalista trabalhar. Não deixe de votar!

6 comentários:

Renato Souza disse...

Poxa Duda, assim você me desanima. Nem depois de morrer vou ter a merecida paz?
Já me falaram que quando terminar a faculdade de JO será apenas o começo do fim da minha vida, mas isso já é demais.
Bom, se for assim, os anos em que fui coroinha deve me dar uns bonus lá com o Homem, rs.

Derla disse...

Vou te contar em Duda... Cada coisa que você inventa...

Laís disse...

se fosse pelo tanto que frequentei a igreja tava ferrada, com saldo de bonus negativo :)

jornalista não deixa de ser jornalista nem quando morre hehehe

AC. disse...

Além de ateu, serei jornalista, certamente acabarei sendo assessor de imprensa do diabo.

André HP disse...

Os editores da contemporaneidade querem o "jornalista-deus" - onisciente, onipotente e onipresente.

Ótimo conto, duda!

Duda Rangel disse...

Sim, carregaremos a sina de trabalhar sem descanso mesmo após a morte.
A idéia de ser assessor de imprensa do Capeta é boa, hein? Alguém tem o contato do RH do Inferno? Abraços do Duda