Fausto Matias, jornalista e blogueiro. Sua página, sobre cidadania, ética e um mundo menos injusto, traz informações exclusivas, denúncias, análises sérias. Um blog independente. Sem rabo preso com ninguém.
Cansados da imprensa tradicional deste País? Venham para o blog do Fausto, escreve aos leitores.
A audiência cresce lentamente. Embora tenha um público fiel, Fausto não é um blogueiro famosão. Adoraria alcançar mais gente, influenciar mais mentes.
E ganhar algum dinheiro com o blog.
Fausto tem contas a pagar. E tem uma ex-mulher para sustentar. E ex-mulher é sempre muito cara. E Fausto jamais acabará numa delegacia por causa de uma pensão, porque essa não é a conduta de um cidadão de bem.
No meio de um turbilhão financeiro, Fausto recebe um telefonema do senhor Mefistófeles Alcântara, dono de um portal. Ele elogia Fausto, sua credibilidade. Faz uma proposta: abrigar o blog em seu portal. Mais visibilidade e, principalmente, um salário.
– O meu diferencial é ser independente, senhor Mefistófeles.
– Mas quem disse que você perderá sua independência? Será tudo como antes. Teremos anunciantes em sua página, mas só anunciantes do bem, que não farão interferência no seu trabalho. E você ganhará dinheiro. Não há mal em ganhar dinheiro.
Fausto, lembrando-se da pensão da ex-mulher, aceita a proposta.
A audiência cresce cinco vezes, 20 vezes, 50 vezes. O pensamento de Fausto ganha relevância. Ele recebe dois prêmios e, o melhor, não perde sua liberdade. Troca o carro velho por um zero, menos poluente. Um carro do bem. Financia uma casinha.
Fausto é muito grato ao novo patrão.
Mas o senhor Mefistófeles só parece bonzinho. É danado e tinhoso. Começa, então, a cobrar a conta. Exige que Fausto publique uma notícia favorável a um amigo, acusado de promover trabalho escravo em empresas de seu grupo, no Pará.
– Me desculpe, senhor Mefistófeles, mas esse sujeito é picareta. Como falar bem dele?
– Mas é esse picareta que paga suas contas. Ou você acreditou nessa história de só anunciantes do bem? Velho e ainda ingênuo?
– E a minha liberdade?
– Não tá satisfeito com o salário e a fama? A vida é feita de trocas, meu caro.
Fausto se recusa a escrever a matéria positiva.
Perde o emprego, perde o status, perde até o direito sobre o nome do blog que criou. Perde seu carro do bem.
Mas Fausto não perde o principal: a sua alma.
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terça-feira, 9 de outubro de 2012
Fausto e a alma do bom jornalista
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quinta-feira, 3 de maio de 2012
Cadê a liberdade de ser jornalista?
Celebrar o dia da liberdade de imprensa é bom. Só quem viveu o perrengue de uma repressão política ou viu jornal ser fechado na porrada sabe que hoje os tempos são, felizmente, outros. Mas cadê a liberdade de ser jornalista? A mídia é livre. E nós?
Quantos jornalistas ainda são torturados pela tal linha editorial de seus veículos, espancados por publicações que mais parecem porta-voz de partido político? Tem também o anunciante, que é legal e paga o nosso salário, mas alguns são linha-dura, tipo delegado do DOPS. Experimenta só fazer propaganda contrária.
E onde está o interesse social? Será que ele morreu num pau-de-arara? Apagou depois de tanto choque elétrico? O interesse social é um exilado, um desaparecido? Em tempos de imprensa livre, os interesses que prevalecem são diversos. E nós, jornalistas, ficamos perdidos entre o que deve ser dito e o que convém ser dito. Esqueçam as receitas de bolo da ditadura. Hoje, temos os dossiês customizados, as matérias de encomenda.
Claro que existem empresas de comunicação sérias, que valorizam a liberdade conquistada e respeitam o jornalista. Sim, não dá para generalizar. Mas é triste constatar que os próprios jornalistas estão deixando de acreditar na imprensa. Ou sentindo vergonha dela. Não é fácil enfrentar o Sistema. Viramos reféns. Ou você aceita ou está fora. Como diria o capitão Nascimento, o Sistema é foda.
Celebrar o dia da liberdade de imprensa é bom, mas seria ainda melhor se esta imprensa livre fosse capaz de aprender o verdadeiro sentido de “ser livre”.
Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.
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Quantos jornalistas ainda são torturados pela tal linha editorial de seus veículos, espancados por publicações que mais parecem porta-voz de partido político? Tem também o anunciante, que é legal e paga o nosso salário, mas alguns são linha-dura, tipo delegado do DOPS. Experimenta só fazer propaganda contrária.
E onde está o interesse social? Será que ele morreu num pau-de-arara? Apagou depois de tanto choque elétrico? O interesse social é um exilado, um desaparecido? Em tempos de imprensa livre, os interesses que prevalecem são diversos. E nós, jornalistas, ficamos perdidos entre o que deve ser dito e o que convém ser dito. Esqueçam as receitas de bolo da ditadura. Hoje, temos os dossiês customizados, as matérias de encomenda.
Claro que existem empresas de comunicação sérias, que valorizam a liberdade conquistada e respeitam o jornalista. Sim, não dá para generalizar. Mas é triste constatar que os próprios jornalistas estão deixando de acreditar na imprensa. Ou sentindo vergonha dela. Não é fácil enfrentar o Sistema. Viramos reféns. Ou você aceita ou está fora. Como diria o capitão Nascimento, o Sistema é foda.
Celebrar o dia da liberdade de imprensa é bom, mas seria ainda melhor se esta imprensa livre fosse capaz de aprender o verdadeiro sentido de “ser livre”.
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sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Blog Desilusões perdidas sob ameaça de censura
Em novo atentado à liberdade de expressão, o blog Desilusões perdidas corre o risco de ser tirado do ar. A razão: uma ação impetrada na Justiça pelo Sindicato Nacional das Coletivas de Imprensa (Sindicolim). A entidade considerou ofensiva a frase “coletiva de imprensa é uma grande suruba”, publicada pelo blog em post do último dia 17 de outubro. “O senhor Duda Rangel, que se diz jornalista, ultrapassa os limites da ética e do bom gosto, e faz ofensa despropositada à coletiva de imprensa. É este o dito humor inteligente do Brasil?”, protestou o sindicato em nota.
A ministra Iriny Lopes, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, intrometeu-se no assunto e também divulgou uma nota, de apoio ao sindicato. “Repudiamos com veemência o caráter sexista do post. A coletiva, enquanto palavra feminina, é associada à libertinagem, à prática orgiástica. O senhor Duda faria a mesma associação caso fosse um substantivo masculino? Por que não o ‘fechamento é uma grande suruba’? ou ‘o plantão é uma grande suruba’?”
Ressalto que não é a primeira vez que tentam calar o Desilusões perdidas. No fim de 2010, uma ONG de defesa do filé mignon ao molho madeira ameaçou levar o blog aos tribunais, alegando que o prato é “sistematicamente ridicularizado nos posts, sempre ligado à boca-livre dos jornalistas”. A ONG chegou a falar em “bullying gastronômico”. A estratégia intimidadora não avançou.
Este ano, outro post foi motivo de repúdio de uma entidade civil, mas a tentativa de ferir a livre expressão também fracassou. No texto “Sete passos para um jornalista ambientalmente responsável”, de 11 de janeiro de 2011, a coluna do jornalista Diogo Mainardi foi comparada ao lixo que leva muito tempo para se decompor. O presidente da Associação Brasileira de Apoio ao Lixo que Leva Muito Tempo para se Decompor revoltou-se: “Tudo bem que a gente é lixo pesado, prejudica o planeta, mas ser comparado à coluna do Mainardi também já é um desrespeito”.
A ministra Iriny Lopes, da Secretaria de Políticas para as Mulheres, intrometeu-se no assunto e também divulgou uma nota, de apoio ao sindicato. “Repudiamos com veemência o caráter sexista do post. A coletiva, enquanto palavra feminina, é associada à libertinagem, à prática orgiástica. O senhor Duda faria a mesma associação caso fosse um substantivo masculino? Por que não o ‘fechamento é uma grande suruba’? ou ‘o plantão é uma grande suruba’?”
Ressalto que não é a primeira vez que tentam calar o Desilusões perdidas. No fim de 2010, uma ONG de defesa do filé mignon ao molho madeira ameaçou levar o blog aos tribunais, alegando que o prato é “sistematicamente ridicularizado nos posts, sempre ligado à boca-livre dos jornalistas”. A ONG chegou a falar em “bullying gastronômico”. A estratégia intimidadora não avançou.
Este ano, outro post foi motivo de repúdio de uma entidade civil, mas a tentativa de ferir a livre expressão também fracassou. No texto “Sete passos para um jornalista ambientalmente responsável”, de 11 de janeiro de 2011, a coluna do jornalista Diogo Mainardi foi comparada ao lixo que leva muito tempo para se decompor. O presidente da Associação Brasileira de Apoio ao Lixo que Leva Muito Tempo para se Decompor revoltou-se: “Tudo bem que a gente é lixo pesado, prejudica o planeta, mas ser comparado à coluna do Mainardi também já é um desrespeito”.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
Enquete: qual o tipo mais chato de jornalista?
Jornalista chato é uma praga que dá em todas as redações. Tem o que adora dar palpite no texto alheio. Tem o que chega atrasado à coletiva e quer saber tudo o que já rolou, tem o que vive pedindo contato telefônico de entrevistados. E tantos outros. Mas qual tipo é o mais chato? Está no ar a nova enquete do blog.
Vá até a coluna à direita e participe. O quê? Não quer votar? Está sem tempo? Não tem saco para enquetes em blogs? Deixa de ser chato, pô! Não custa nada dar uma votadinha.
Ser jornalista e ter liberdade é, mais ou menos, como trabalhar numa segunda-feira e ficar todo empolgado. Coisas que não combinam. A pesquisa encerrada – Você se considera um jornalista livre? – teve a vitória da alternativa “Só um instante: preciso de autorização do meu chefe para responder esta enquete”, com 30% dos votos.
Em segundo lugar, com 23%, ficaram as opções “Não. Liberdade de imprensa é como disco voador; dizem que existe, mas eu nunca vi” e “Muito livre, principalmente agora que estou desempregado”.
Vá até a coluna à direita e participe. O quê? Não quer votar? Está sem tempo? Não tem saco para enquetes em blogs? Deixa de ser chato, pô! Não custa nada dar uma votadinha.
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Ser jornalista e ter liberdade é, mais ou menos, como trabalhar numa segunda-feira e ficar todo empolgado. Coisas que não combinam. A pesquisa encerrada – Você se considera um jornalista livre? – teve a vitória da alternativa “Só um instante: preciso de autorização do meu chefe para responder esta enquete”, com 30% dos votos.
Em segundo lugar, com 23%, ficaram as opções “Não. Liberdade de imprensa é como disco voador; dizem que existe, mas eu nunca vi” e “Muito livre, principalmente agora que estou desempregado”.
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sexta-feira, 20 de maio de 2011
A luta continua
Três amigos, três estudantes de jornalismo, os líderes da chapa vencedora da eleição do diretório acadêmico.
João: A gente precisa ver essa parada de gestão revolucionária que prometeu pra galera. Logo vão cobrar. Ganhamos por causa da porra da revolução.
Paulo: É, as pessoas vão querer saber da revolução!
Diego: Mas que revolução a gente vai fazer mesmo?
João: Então, cara, é isso que a gente precisa pensar agora.
Paulo: Tem que ser algo que mude a vida dos estudantes!
(Silêncio)
Diego: Já sei, véio! Vamos lutar contra o abuso do valor das mensalidades!
João: Porra, Diego, tá louco? A gente estuda numa universidade pública. Esqueceu que você não tá mais num colégio de playboy?
Paulo: Que merda de revolucionário você é, hein?
Diego: Pô, galera, confundi. Foi mal.
(Silêncio)
Paulo: Se vocês quiserem, posso falar com um tio jornalista. O cara é velho, lutou contra a ditadura, apanhou, foi preso, essas paradas todas. Ele deve entender alguma coisa de revolução.
João: A gente tem que pensar no que os jovens de hoje querem.
Paulo: Mas os jovens de hoje querem alguma coisa?
João: Devem querer, sei lá.
Paulo: Diego, cê tá muito quieto, cara. Tá com medo de falar outra merda?
Diego: Véio, tô pensando numa revolução maneira!
João: Já sei! Vamos lutar por liberdade!
Paulo: Liberdade? Você não consegue nem se libertar dos seus pais! Disse que iria morar sozinho, fazer festa todo dia. Que moral você tem pra lutar por liberdade?
João: Porra, cara, é que eu ainda não tenho grana. Mas quando rolar um trampo, me liberto dos velhos.
(Silêncio)
Diego: Na boa, véio, essa parada de revolução é chata pra caralho! A gente precisa mesmo definir isso agora?
João: Agora, agora, não. Mas a gente não pode esquecer. Lembrem-se: somos futuros jornalistas. Se a gente não fizer as próximas revoluções, quem vai fazer?
Paulo: Verdade.
Diego: Tá certo.
(Silêncio)
Diego: Bom, já que não vai rolar revolução agora, que tal a gente jogar um playstation? Tô com o Pro Evolution Soccer 2011 aqui.
Paulo: Sério? Caraca! Champions League?
Diego: Champions League, véio. Liga a TV aí.
Paulo: Eu vou ser o Manchester!
João: Sou o Barcelona!
Diego: Tá maluco, João? Eu sou o Barça!
João: Mas nem fodendo. Eu sou o Barça!
João: A gente precisa ver essa parada de gestão revolucionária que prometeu pra galera. Logo vão cobrar. Ganhamos por causa da porra da revolução.
Paulo: É, as pessoas vão querer saber da revolução!
Diego: Mas que revolução a gente vai fazer mesmo?
João: Então, cara, é isso que a gente precisa pensar agora.
Paulo: Tem que ser algo que mude a vida dos estudantes!
(Silêncio)
Diego: Já sei, véio! Vamos lutar contra o abuso do valor das mensalidades!
João: Porra, Diego, tá louco? A gente estuda numa universidade pública. Esqueceu que você não tá mais num colégio de playboy?
Paulo: Que merda de revolucionário você é, hein?
Diego: Pô, galera, confundi. Foi mal.
(Silêncio)
Paulo: Se vocês quiserem, posso falar com um tio jornalista. O cara é velho, lutou contra a ditadura, apanhou, foi preso, essas paradas todas. Ele deve entender alguma coisa de revolução.
João: A gente tem que pensar no que os jovens de hoje querem.
Paulo: Mas os jovens de hoje querem alguma coisa?
João: Devem querer, sei lá.
Paulo: Diego, cê tá muito quieto, cara. Tá com medo de falar outra merda?
Diego: Véio, tô pensando numa revolução maneira!
João: Já sei! Vamos lutar por liberdade!
Paulo: Liberdade? Você não consegue nem se libertar dos seus pais! Disse que iria morar sozinho, fazer festa todo dia. Que moral você tem pra lutar por liberdade?
João: Porra, cara, é que eu ainda não tenho grana. Mas quando rolar um trampo, me liberto dos velhos.
(Silêncio)
Diego: Na boa, véio, essa parada de revolução é chata pra caralho! A gente precisa mesmo definir isso agora?
João: Agora, agora, não. Mas a gente não pode esquecer. Lembrem-se: somos futuros jornalistas. Se a gente não fizer as próximas revoluções, quem vai fazer?
Paulo: Verdade.
Diego: Tá certo.
(Silêncio)
Diego: Bom, já que não vai rolar revolução agora, que tal a gente jogar um playstation? Tô com o Pro Evolution Soccer 2011 aqui.
Paulo: Sério? Caraca! Champions League?
Diego: Champions League, véio. Liga a TV aí.
Paulo: Eu vou ser o Manchester!
João: Sou o Barcelona!
Diego: Tá maluco, João? Eu sou o Barça!
João: Mas nem fodendo. Eu sou o Barça!
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Olha a enquete do blog de volta aí, gente
Depois de um longo e tenebroso inverno, as enquetes do blog estão de volta. E, ao contrário daquelas pesquisas de satisfação safadas que existem aos montes por aí, aqui sua opinião é muito importante. Quero dizer, acho que é, sei lá.
Na semana em que se comemora a libertação dos escravos, vamos falar sobre a liberdade de ser jornalista. Você se considera um jornalista livre? Questão complicada, não? Para responder, basta ir à coluna que fica à direita do blog. Conto com o seu voto.
Na semana em que se comemora a libertação dos escravos, vamos falar sobre a liberdade de ser jornalista. Você se considera um jornalista livre? Questão complicada, não? Para responder, basta ir à coluna que fica à direita do blog. Conto com o seu voto.
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segunda-feira, 25 de abril de 2011
Manual do guerrilheiro da redação
A liberdade de imprensa avançou muito com a democracia, mas a liberdade do jornalista numa empresa de comunicação ainda é desrespeitada. Abaixo, companheiros, um guia de sobrevivência e de como enfrentar o inimigo, também chamado de patrão.
Se publicar algum comentário crítico ao seu próprio jornal no Twitter ou em outras redes, jamais revele sua identidade. Utilize disfarces. Mostrar a cara significa ser demitido.
Se for agitar uma greve por mais liberdade ou melhores salários, evite reuniões pelos corredores da redação ou na máquina de café. Opte pela clandestinidade dos bares.
Para ninguém desconfiar de seu envolvimento com o movimento, diga “sim” aos mimos do patrão, como festinhas de fim de ano. Recusar jabás do sistema é cair na armadilha.
Para ninguém desconfiar que você está verdadeiramente lutando pelos jornalistas, torne-se líder do sindicato da categoria. No sindicato, o patrão não irá vê-lo como uma ameaça.
Nos plantões intermináveis em hospitais e delegacias, dissemine as idéias subversivas a outros jornalistas, mas com cautela. Cuidado com os motoristas fofoqueiros e traíras.
Suporte com dignidade a tortura, como ser obrigado a fazer matérias institucionais só falando bem do jornal, e jamais seja um delator dos demais companheiros do movimento.
Num interrogatório, se o patrão disser que está pegando sua mulher, releve. É terrorismo psicológico. Pense que, mesmo se for verdade, ele é apenas mais um pegando a sua mulher.
Não descarte a ação violenta. Seqüestrar o patrão pode ser uma boa estratégia. Só liberte o desgraçado se ele se comprometer a não mais publicar matéria chapa-branca em favor deste ou daquele governo, a pagar as horas extras, e a trocar a máquina de café da redação por uma mais moderna, com pelo menos dois tipos de capuccino mais chocolate quente.
Se publicar algum comentário crítico ao seu próprio jornal no Twitter ou em outras redes, jamais revele sua identidade. Utilize disfarces. Mostrar a cara significa ser demitido.
Se for agitar uma greve por mais liberdade ou melhores salários, evite reuniões pelos corredores da redação ou na máquina de café. Opte pela clandestinidade dos bares.
Para ninguém desconfiar de seu envolvimento com o movimento, diga “sim” aos mimos do patrão, como festinhas de fim de ano. Recusar jabás do sistema é cair na armadilha.
Para ninguém desconfiar que você está verdadeiramente lutando pelos jornalistas, torne-se líder do sindicato da categoria. No sindicato, o patrão não irá vê-lo como uma ameaça.
Nos plantões intermináveis em hospitais e delegacias, dissemine as idéias subversivas a outros jornalistas, mas com cautela. Cuidado com os motoristas fofoqueiros e traíras.
Suporte com dignidade a tortura, como ser obrigado a fazer matérias institucionais só falando bem do jornal, e jamais seja um delator dos demais companheiros do movimento.
Num interrogatório, se o patrão disser que está pegando sua mulher, releve. É terrorismo psicológico. Pense que, mesmo se for verdade, ele é apenas mais um pegando a sua mulher.
Não descarte a ação violenta. Seqüestrar o patrão pode ser uma boa estratégia. Só liberte o desgraçado se ele se comprometer a não mais publicar matéria chapa-branca em favor deste ou daquele governo, a pagar as horas extras, e a trocar a máquina de café da redação por uma mais moderna, com pelo menos dois tipos de capuccino mais chocolate quente.
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segunda-feira, 26 de julho de 2010
O deputado, a sogra e a cabeça do repórter
Deputado influente fala com seu assessor
Entendeu o que eu te pedi? Quero que você ligue agora para o editor do jornal e peça para ele demitir aquele repórter irresponsável. Onde se viu escrever que minha sogra tá empregada lá no gabinete, recebe salário e não aparece para trabalhar? Tudo bem que é verdade, mas que direito esse reporterzinho de merda tem de publicar isso? Deixa a velha sossegada, porra! Cadê o respeito com a terceira idade? Mas esse repórter, que é um moleque, vai se dar mal. Vai aprender a não se meter mais comigo! E, outra coisa: não esquece de lembrar o editor que o dono da bosta daquele jornal é meu amigo há muitos anos, que tomamos uísque juntos. E fala grosso, viu? Diz assim: “O deputado tá muito puto com a safadeza desse repórter”.
Assessor fala com o editor do jornal
Tudo bem? Então, é sobre a matéria que saiu sobre a sogra do deputado. Na verdade, o deputado ficou um pouco magoado com o que o seu repórter escreveu. Todos sabem que o deputado sempre foi preocupado com a ética, sempre combateu o nepotismo e agora esse rapaz escreve isso, você entende? E, além de tudo, envolveu a sogra do deputado, que é uma senhora. Eu sei que pode ter sido uma infelicidade do repórter, que ainda é muito jovem, mas o deputado gostaria muito que você desligasse esse jornalista da empresa. Parece que o deputado é amigo do dono do seu jornal, acho que até tomam uísque juntos. É mais para não ferir a amizade que eles têm. Acho que você me entende, não?
FINAL FELIZ
Editor do jornal fala com o repórter
Sabe quem me ligou agora há pouco? O assessor do deputado da sogra. Acredita que o desgraçado do deputado pediu a tua cabeça? Filho-da-puta! Ele acha que é só ligar, dizer que não gostou da matéria e a gente vai mandando pra rua. Queria que você soubesse desta história. Pode ficar tranqüilo que você continua em nossa equipe. Confio no seu trabalho e no seu potencial. Ah, e o assessor veio até com um papinho furado de que o deputado e o dono do jornal são amigos, que tomam uísque juntos. Babacas.
FINAL INFELIZ
Editor do jornal fala com o repórter
Opa, tudo bom? Sabe aquela matéria que você escreveu sobre o deputado que emprega a sogra no gabinete e que a sogra não aparece para trabalhar? Então, parece que você cometeu um equívoco na apuração e desagradou a muita gente. O deputado não gostou, o dono do jornal também. A sogra, que é velha, passou mal. Meu caro, jornalismo é coisa séria. Tem de ter muito cuidado com o que se escreve para não prejudicar ninguém. Mas você é muito jovem ainda, tem muito tempo para aprender... Bom, o departamento pessoal fica no segundo andar, ok? Passa lá. Ah, e não se esqueça de esvaziar a sua gaveta.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
São tantas emoções
Tenho a lembrança de duas grandes mentiras ditas por um professor de ética na faculdade: “o jornalista tem a obrigação de ser absolutamente racional” e “vou colocar apenas a cabecinha” (no caso, para algumas inocentes alunas que embarcavam com ele em aventuras extracurriculares). Neste post, vou abordar apenas a primeira grande mentira. Será que o jornalista precisa ter a frieza de uma boneca inflável para contar uma história sem distorcer a realidade?
A questão me voltou à mente ao ver o Jornal Nacional da última sexta-feira, quando os apresentadores, imbuídos de um sensacionalismo dateniano, anunciaram por todo o telejornal uma matéria sobre o resgate de uma haitiana presa sob os escombros, três dias após o terremoto em Porto Príncipe. O que me chamou a atenção foi a postura da repórter, que mesmo visivelmente emocionada, no local da tragédia, conseguiu relatar o trabalho de resgate feito por militares brasileiros.
Carlos Alberto Di Franco, um crítico da imprensa brasileira, escreveu certa vez: “Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística.” Concordo com ele. Em certas coberturas é muito difícil ficar indiferente a situações de extrema penúria humana, como acompanhar flagelados de uma catástrofe natural, sobreviventes de uma guerra ou fãs ensandecidos em um show da banda Calypso.
Um professor dizer que um jornalista não tem o direito de se emocionar – que precisa fazer o tipo durão – é o mesmo que um pai dizer para o filho que homem não chora, que isso é coisa de menininha. Tudo bem que não precisamos nos tornar uma Helena do Manoel Carlos diante de uma cena de terror. Mas um pouco de coração mole não faz mal à isenção jornalística de ninguém.
A questão me voltou à mente ao ver o Jornal Nacional da última sexta-feira, quando os apresentadores, imbuídos de um sensacionalismo dateniano, anunciaram por todo o telejornal uma matéria sobre o resgate de uma haitiana presa sob os escombros, três dias após o terremoto em Porto Príncipe. O que me chamou a atenção foi a postura da repórter, que mesmo visivelmente emocionada, no local da tragédia, conseguiu relatar o trabalho de resgate feito por militares brasileiros.
Carlos Alberto Di Franco, um crítico da imprensa brasileira, escreveu certa vez: “Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística.” Concordo com ele. Em certas coberturas é muito difícil ficar indiferente a situações de extrema penúria humana, como acompanhar flagelados de uma catástrofe natural, sobreviventes de uma guerra ou fãs ensandecidos em um show da banda Calypso.
Um professor dizer que um jornalista não tem o direito de se emocionar – que precisa fazer o tipo durão – é o mesmo que um pai dizer para o filho que homem não chora, que isso é coisa de menininha. Tudo bem que não precisamos nos tornar uma Helena do Manoel Carlos diante de uma cena de terror. Mas um pouco de coração mole não faz mal à isenção jornalística de ninguém.
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Eu, ranzinza
Tomando uma cerveja com um amigo, conversávamos sobre o meu blog. Quanto mais álcool entra em nosso sangue, mais sinceridade escapa de nossa boca. “Duda, você sempre foi um cara otimista, mas, lendo alguns de seus posts, notei que você está muito ranzinza, com a nossa profissão, com a vida. Cara, você ficou mais chato que taxista”, disse-me ele. Como ele estava pagando a cerveja, ouvi a crítica e não reclamei. No fundo, estava certo. Estou ficando um velho ranzinza. Mas será que um pouco de insatisfação é tão ruim assim?
A conversa de bar fez lembrar-me de um ensaio do escritor peruano Mario Vargas Llosa, publicado na edição de outubro da revista Piauí, uma defesa do romance, da literatura. Entre outras coisas, Llosa fala do poder que a insatisfação humana, muitas vezes despertada pelos livros, tem de transformar o mundo. Talvez eu nem faça literatura – muitos dizem que blog não é literatura –, mas, ainda assim, acredito que posso, com as minhas palavras, desenvolver nos leitores “uma sensibilidade inconformista em relação à vida”, como escreve Llosa.
A seguir, destaco um trecho do ensaio que achei interessante:
“Viver insatisfeito, em luta contra a existência, significa empenhar-se, como dom Quixote, bater-se contra os moinhos de vento, condenar-se, de certa forma, a viver as batalhas travadas pelo coronel Aureliano Buendía, em Cem Anos de Solidão, sabendo que as perderia todas. Isso é provavelmente verdadeiro; mas também é verdadeiro que, sem a revolta contra a mediocridade e a sordidez da vida, nós, seres humanos, ainda viveríamos em condições primitivas, a história teria acabado, não teria nascido o indivíduo, a ciência e a tecnologia não se teriam desenvolvido, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos, a liberdade não existiria, porque tudo isso nasceu de atos de insubmissão contra uma vida percebida como insuficiente e intolerável.”
Estou decidido: em 2010, continuarei um cara ranzinza, insuportavelmente ranzinza.
A conversa de bar fez lembrar-me de um ensaio do escritor peruano Mario Vargas Llosa, publicado na edição de outubro da revista Piauí, uma defesa do romance, da literatura. Entre outras coisas, Llosa fala do poder que a insatisfação humana, muitas vezes despertada pelos livros, tem de transformar o mundo. Talvez eu nem faça literatura – muitos dizem que blog não é literatura –, mas, ainda assim, acredito que posso, com as minhas palavras, desenvolver nos leitores “uma sensibilidade inconformista em relação à vida”, como escreve Llosa.
A seguir, destaco um trecho do ensaio que achei interessante:
“Viver insatisfeito, em luta contra a existência, significa empenhar-se, como dom Quixote, bater-se contra os moinhos de vento, condenar-se, de certa forma, a viver as batalhas travadas pelo coronel Aureliano Buendía, em Cem Anos de Solidão, sabendo que as perderia todas. Isso é provavelmente verdadeiro; mas também é verdadeiro que, sem a revolta contra a mediocridade e a sordidez da vida, nós, seres humanos, ainda viveríamos em condições primitivas, a história teria acabado, não teria nascido o indivíduo, a ciência e a tecnologia não se teriam desenvolvido, os direitos humanos não teriam sido reconhecidos, a liberdade não existiria, porque tudo isso nasceu de atos de insubmissão contra uma vida percebida como insuficiente e intolerável.”
Estou decidido: em 2010, continuarei um cara ranzinza, insuportavelmente ranzinza.
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quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Imprensa livre. Pero no mucho
De seu gabinete no Palácio Miraflores, Hugo Chávez liga para o amigo Fidel Castro, em Havana. Chávez está revoltado com as críticas da SIP à Argentina.
– Mestre, você tem acompanhado a pressão daqueles dinossauros da SIP contra nossos irmãos argentinos?
– Aquilo é uma vergonha, Huguito! Só porque Cristina e Néstor criaram uma lei para controlar a mídia.
– Pobre Kirchner! Logo ele, um defensor da democracia, da liberdade de expressão. Enfim, um partidário de nossas idéias.
– Esta SIP só serve aos interesses dos yankees.
– Hoje em dia, os líderes não têm autonomia pra nada. Não se pode mais intervir numa emissora de TV, censurar um jornal, fechar umas rádios...
– Huguito, está cada vez mais difícil atender aos desejos do povo.
– Somos oprimidos pela imprensa do denuncismo! Cagam de medo da revolução bolivariana.
– A coisa tá feia na Bolívia e no Equador também.
– E essa praga de redes sociais? Blog, Twitter e sei lá mais o quê. Pra que tanta informação se já temos a imprensa oficial?
– Coisa de vagabundo, Huguito. Em Havana, tá cheio disso. Não posso nem mais jogar meu dominó em paz!
– São idiotas com mania de liberdade. Não respeitam nem os aposentados!
– E você, Huguito, anda sumido, hein? Venha pra cá tirar outras fotos comigo. Preciso mostrar ao mundo que ainda estou vivo.
– Vou, sim. Ainda nem conheço teu novo agasalho da Puma.
– Mestre, você tem acompanhado a pressão daqueles dinossauros da SIP contra nossos irmãos argentinos?
– Aquilo é uma vergonha, Huguito! Só porque Cristina e Néstor criaram uma lei para controlar a mídia.
– Pobre Kirchner! Logo ele, um defensor da democracia, da liberdade de expressão. Enfim, um partidário de nossas idéias.
– Esta SIP só serve aos interesses dos yankees.
– Hoje em dia, os líderes não têm autonomia pra nada. Não se pode mais intervir numa emissora de TV, censurar um jornal, fechar umas rádios...
– Huguito, está cada vez mais difícil atender aos desejos do povo.
– Somos oprimidos pela imprensa do denuncismo! Cagam de medo da revolução bolivariana.
– A coisa tá feia na Bolívia e no Equador também.
– E essa praga de redes sociais? Blog, Twitter e sei lá mais o quê. Pra que tanta informação se já temos a imprensa oficial?
– Coisa de vagabundo, Huguito. Em Havana, tá cheio disso. Não posso nem mais jogar meu dominó em paz!
– São idiotas com mania de liberdade. Não respeitam nem os aposentados!
– E você, Huguito, anda sumido, hein? Venha pra cá tirar outras fotos comigo. Preciso mostrar ao mundo que ainda estou vivo.
– Vou, sim. Ainda nem conheço teu novo agasalho da Puma.
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segunda-feira, 13 de julho de 2009
A pequena imprensa
Quem é que nunca conheceu o jornal de uma pequena cidade do interior?
No jornal de uma pequena cidade do interior, o diploma de jornalista é, há muitos anos, algo dispensável, e isso bem antes mesmo de qualquer decisão do STF. A coluna social, por exemplo, que mostra as festas bregas do clube freqüentado por uma elite local ainda mais brega, é de responsabilidade da filha do dono do jornal, uma jovenzinha sem qualquer formação, caipira, mas extremamente hype para os padrões da cidade.
Outras colunas existem aos montes, como a do psicólogo amigo do dono do jornal. É ele quem escreve sobre a bipolaridade, esse mal da atualidade, ou sobre a importância de homens e mulheres não medirem esforços para manter um casamento feliz. A cunhada do dono do jornal, que sempre foi uma mulher excêntrica com aqueles seus cabelos loiros esverdeados (para não dizer “esquisita”), comanda a coluna esotérica.
A qualidade editorial é um conceito muito vago. O Português, pobrezinho, é desrespeitado página após página. É bastante comum encontrar uma vírgula se metendo, sem o menor escrúpulo, entre o sujeito e o predicado de um título ou no lead de uma matéria.
O jornal de uma pequena cidade do interior está comprometido com os anunciantes. Se o veterinário comprar um quarto de página da edição da semana ganhará uma matéria bastante elogiosa na edição seguinte, mesmo que ele seja o maior carniceiro da cidade. O dono do jornal é, ao mesmo tempo, o diretor comercial e o diretor de redação, um homem que jamais teve um diploma, mas um faro invejável para os negócios.
Um dia, a jovem que cuida da coluna social herdará o jornal de seu pai, que, por sua vez, já havia herdado do avô da moça. Com alguma sorte e o apoio do comércio local, e se as mídias digitais deixarem, esta história perdurará por mais algumas gerações.
PS: Rabo preso não é exclusividade da pequena imprensa. Que isso fique bem claro!
No jornal de uma pequena cidade do interior, o diploma de jornalista é, há muitos anos, algo dispensável, e isso bem antes mesmo de qualquer decisão do STF. A coluna social, por exemplo, que mostra as festas bregas do clube freqüentado por uma elite local ainda mais brega, é de responsabilidade da filha do dono do jornal, uma jovenzinha sem qualquer formação, caipira, mas extremamente hype para os padrões da cidade.
Outras colunas existem aos montes, como a do psicólogo amigo do dono do jornal. É ele quem escreve sobre a bipolaridade, esse mal da atualidade, ou sobre a importância de homens e mulheres não medirem esforços para manter um casamento feliz. A cunhada do dono do jornal, que sempre foi uma mulher excêntrica com aqueles seus cabelos loiros esverdeados (para não dizer “esquisita”), comanda a coluna esotérica.
A qualidade editorial é um conceito muito vago. O Português, pobrezinho, é desrespeitado página após página. É bastante comum encontrar uma vírgula se metendo, sem o menor escrúpulo, entre o sujeito e o predicado de um título ou no lead de uma matéria.
O jornal de uma pequena cidade do interior está comprometido com os anunciantes. Se o veterinário comprar um quarto de página da edição da semana ganhará uma matéria bastante elogiosa na edição seguinte, mesmo que ele seja o maior carniceiro da cidade. O dono do jornal é, ao mesmo tempo, o diretor comercial e o diretor de redação, um homem que jamais teve um diploma, mas um faro invejável para os negócios.
Um dia, a jovem que cuida da coluna social herdará o jornal de seu pai, que, por sua vez, já havia herdado do avô da moça. Com alguma sorte e o apoio do comércio local, e se as mídias digitais deixarem, esta história perdurará por mais algumas gerações.
PS: Rabo preso não é exclusividade da pequena imprensa. Que isso fique bem claro!
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segunda-feira, 11 de maio de 2009
Condenados à liberdade
Depois de ler A Idade da Razão, do Sartre, alguns anos atrás, passei a conviver com a certeza de que essa coisa de ser livre é muito complicada. É irônico dizer isso, mas a liberdade, se não se sabe dela gozar, pode ser também opressora e sufocante. Como é difícil ser dono da própria vida, das próprias decisões. O jornalista, esse ser meio esquisito de quem sempre falo, é um dos que penam para aprender a ser livre.
Já conheci jornalistas – e sou um deles – que passam a vida blasfemando contra a dureza das redações, o trabalho insalubre, o chefe chato. Até o dia em que, por vontade própria ou não, libertam-se. Vão traçar seus próprios caminhos, bem longe da empresa que os explorava. Mas muitos jamais saberão ser, simplesmente, livres, assim como os ex-escravos negros de Manderlay. Ficam loucos para voltar à redação, aos antigos senhores, como se fosse impossível viver sem eles. Agarram-se aos antigos hábitos da dominação.
Há um outro tipo de jornalista, mais jovem, que adoraria ter vivido a época da ditadura. Bons tempos, pensam esses ingênuos, eram aqueles do chumbo grosso. Deveria ser irado protestar, subverter, ser preso ou criar um grupo revolucionário com aqueles nomes cheios de siglas. Veio a democracia, suspendeu-se a censura e a graça acabou. Com a liberdade política, este jovem é um acomodado. E nem se dá conta de que neste mundo de hoje ainda há espaço para muitas lutas, contra racismos, morais religiosas e outros tantos males.
Até a liberdade pós-casamento é de uma estranheza só. Quando, tempos atrás, minha mulher me trocou por um garotão, sofri a dor dos seres desprezados. Meu tormento, contudo, durou pouco. Pensei: “Duda, você está livre de um casamento: não precisará mais assistir àqueles filmes chatérrimos da Meg Ryan! Poderá comer todas sem culpa”. Mas logo minha euforia também acabou. A solteirice, às vezes, não faz o menor sentido para mim. Eu, definitivamente, sou um ser meio esquisito.
Já conheci jornalistas – e sou um deles – que passam a vida blasfemando contra a dureza das redações, o trabalho insalubre, o chefe chato. Até o dia em que, por vontade própria ou não, libertam-se. Vão traçar seus próprios caminhos, bem longe da empresa que os explorava. Mas muitos jamais saberão ser, simplesmente, livres, assim como os ex-escravos negros de Manderlay. Ficam loucos para voltar à redação, aos antigos senhores, como se fosse impossível viver sem eles. Agarram-se aos antigos hábitos da dominação.
Há um outro tipo de jornalista, mais jovem, que adoraria ter vivido a época da ditadura. Bons tempos, pensam esses ingênuos, eram aqueles do chumbo grosso. Deveria ser irado protestar, subverter, ser preso ou criar um grupo revolucionário com aqueles nomes cheios de siglas. Veio a democracia, suspendeu-se a censura e a graça acabou. Com a liberdade política, este jovem é um acomodado. E nem se dá conta de que neste mundo de hoje ainda há espaço para muitas lutas, contra racismos, morais religiosas e outros tantos males.
Até a liberdade pós-casamento é de uma estranheza só. Quando, tempos atrás, minha mulher me trocou por um garotão, sofri a dor dos seres desprezados. Meu tormento, contudo, durou pouco. Pensei: “Duda, você está livre de um casamento: não precisará mais assistir àqueles filmes chatérrimos da Meg Ryan! Poderá comer todas sem culpa”. Mas logo minha euforia também acabou. A solteirice, às vezes, não faz o menor sentido para mim. Eu, definitivamente, sou um ser meio esquisito.
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