sexta-feira, 27 de março de 2009

O outro lado


Passo a manhã toda em uma favela. Ouço moradores e líderes comunitários que acusam a administração pública da cidade de omissão e negligência. Não são exatamente essas as palavras usadas, mas é exatamente isso que eles querem me dizer. Visito os pontos mais drásticos da favela, conheço de perto as promessas que não foram cumpridas. “Político é tudo safado”, diz, revoltada, uma moradora.

Almoço numa padoca qualquer (para variar um pouco) e volto à redação no início da tarde. Preciso ouvir o “outro lado”. O outro lado em questão é um secretário do governo municipal, sujeito com pouca disposição em falar com a imprensa, ainda mais nesta situação. A pedido do assessor de imprensa, ligo diretamente para ele, mas sua secretária me diz que “ele não vai poder estar me atendendo” neste momento por conta de uma reunião.

- Duda, já falou com o secretário? Podemos fechar a matéria?, pergunta meu editor, no meio da tarde.

Não, não falei. Já liguei algumas vezes. E nada. O sujeito nunca “vai poder estar me atendendo” simplesmente porque não quer me atender. É a reunião que não acaba, depois a audiência com alguém importante ou são os despachos do dia.

- Não podemos colocar que “procurado pela reportagem, o secretário não foi encontrado até o fechamento desta edição”?, sugiro a meu chefe. Mas a resposta é um duro “não”.

É sempre mais fácil dizer que “fulano não foi encontrado até o fechamento desta edição”, mas não podemos. Temos, sim, de ouvir o outro lado! Estou irritado com o passar das horas e nada de conseguir ouvir o outro lado. Quem foi o filho-da-puta que inventou essa coisa de ouvir o outro lado? Se o cara não quer falar, azar dele. O desgaste me faz questionar até os princípios éticos do bom jornalismo.

Ele fica de retornar minhas ligações e aguardo, sem qualquer paciência. “Ele vai estar ligando para o senhor”, promete a secretária do secretário. Tomo copos e mais copos de café. Não tiro os olhos do telefone, que não toca. Lembro aquela mulher apaixonada, que espera com uma ansiedade sem fim o telefonema de seu amado no dia seguinte ao primeiro encontro. Será que ele gostou de mim? Do meu papo inteligente? Da minha escova marroquina? Será que vai querer me comer de novo?

O secretário não me ligou.

- Duda, fecha esta matéria sem o outro lado mesmo, porque já acabou o seu tempo, grita meu editor. Coloca aí que “procurado pela reportagem, o secretário não foi encontrado até o fechamento desta edição”.

4 comentários:

Diógenes de Souza disse...

Tá pra nascer clichê melhor do que o tal "procurado pela repotagem...". Mesmo impedindo o fechamento da matéria, é estritamente necessário ouvir o outro lado. No entanto, não relutaria em usá-la para fazer uma fonte falar. Às vezes, até na assessoria da universidade enfrentamos esses problemas. E é uma pena não usar a tal frase.

rCarvalho disse...

eu acho esse trem engraçado.
tipo, já estagiei como assessor e sei que quando ouvimos um "ele vai estar entrando em contato" é basicamente um "nó, que cara chato. fala pra ele que não vou responder isso. mas fulano, isso não é bom pra sua imagem. ah, então diz que eu tô numa reunião."
isso é paia. se a pessoa não quer responder, por que não colocamos isso? fulano foi procurado mas não quis comentar sobre o assunto devido a outros compromissos? só gravarmos a conversa como prova disso. duvido que depois de uma matéria sobre infra estrutura em que prova a falta de compromisso com o povo e uma resposta dessa, nunca mais eles deixarão de responder a qualquer periódico.

Rosemeri Sirnes disse...

Literalmente é estar entre a cruz e a caldeirinha, de um lado o editor de outro o danado do cara que não quer dar sua declaração ou enrola pra dar, e o prazo no laço.
Ele poderia estar roubando,e outras cositas mais, mas ele só quer é concluir a matéria.

Paulo Henrique de Moura - Jornalista disse...

Adorei Duda!
Estou aqui gargalhando!
Quem foi esse filho da puta?
hehe