quarta-feira, 25 de março de 2009

Uma riquíssima fauna humana


Lá no jornal, a salinha dos motoristas era o hábitat de ilustres personagens:

Juraci era um negão sacudido, do tipo segurança. Não abria mão de seus óculos escuros de pagodeiro na testa e da camisa aberta no peito. Era daqueles que dirigiam com um braço para fora da janela, sempre de olho em alguma “princesinha” na rua. Nem preciso falar qual era a trilha sonora de seu rádio.

Ricardinho era o fanático torcedor do Corinthians. Só falava em futebol. Que mala! O pior era quando seu time iria jogar contra o meu. “E aí, truta, ceis tão cagando de medo, hein? Só porque a gente temos a maior torcida, mano.” E ria, sozinho.

Ernesto, com seu ar debochado e sorriso malicioso, derrubava a tese de que a fofoca é uma arte exclusivamente feminina. “Sabe a Glorinha, de Economia? Tá dando pro Zé Carlos, o diagramador; pegaram os dois na escada de emergência do quarto andar.” Pela boca de Ernesto, descobri também que a ninfetinha do caderno de Cultura, que eu peguei logo que entrei no jornal, já havia “conhecido” metade da redação antes de mim.

Messias, um ex-policial truculento que passou alguns anos na prisão, virou o bom moço, um cara religioso e pai de família. Enquanto o repórter estava na pauta, ele ficava no carro, lendo a Bíblia. Messias me fazia acreditar na esperança de cura dos degenerados.

E Durval era o motorista que queria vender de tudo, de carro usado – como um “Voyaginho Oito Dois” com quilometragem adulterada – a rifa com nome de mulher. De tão inconveniente, era difícil dizer "não" para aquele sujeito. “Pô, seu Duda, compra só um número, vai, tá 5 real. Ainda tenho Dulcinéia e Marilene.”

Todos estes homens tinham, pelo menos, uma coisa em comum. Faziam de tudo para eu chegar ao meu destino no horário correto, nem que para isso precisassem transgredir algumas leis de trânsito. Chegar inteiro já ficava por conta da proteção divina. Em nossas aventuras nas ruas, não perdiam o rastro da notícia. Foram meus parceiros de muitas pautas. Cada figura!

5 comentários:

Fernando disse...

Mas é verdade mesmo... por mais que evitamos tachar os esteriótipos, eles existem e PERSISTEM!

The Ideas of a Vintage Doll disse...

Imagina só, tem um Joraci na editora também rsrsrsrs

Day Pinheiro disse...

Hahaha...esses inconvenientes das rifas, conheço bem. Os "fifis" então...só com engov pra digerir tanta porcaria! Rá.

Margarete disse...

Duda,
vc deveria usar esses textos pra fazer um roteiro de filme. Pense nisso.
Bjo!

Andrea Catão disse...

Eu sempre gostei dos motoras. O banco do carro, muitas vezes, funcionou como um divã. E, sim, me ajudaram nas reportagens e tal. Mas não me esqueço do quanto eles te amam ou te odeiam dependendo de onde você vai e o quanto demora na pauta. Se os caras ganham salário fixo e o carro é do jornal, sem problema. Mas se ganham por quilometragem, são uns verdadeiros canalhas. Consideram você bacana se for para terras distantes e fizer a pauta em dez minutos. Agora, se você vai a um lugar próximo e leva quatro horas na apuração, quando volta para o carro encontra o sujeito de cara feia. Na Folha, tinha o inconveniente de os caras receberem menos pela quilometragem quando esta ultrapassa 250 quilômetros no dia. Certa vez, comecei o dia sendo a repórter preferida do motorista porque iria para Campinas e terminei o dia incluída na lista negra do sujeito. Tudo isso em função de, no meio da pauta, o meu editor ter me mandado para um pouco mais longe e a quilometragem ultrapassaria os 250. Maldição.