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quarta-feira, 5 de maio de 2010

O despertar de um jornalista


Fora as raras ocasiões em que ele me passava o aviso na véspera, meu pauteiro me ligava, todo dia e religiosamente, às 8 e meia da manhã. Era o momento de conhecer a minha matéria do dia. Podia ser coisa boa ou coisa ruim. Ou coisa nada a ver. Ou tudo ao mesmo tempo. Embora 8 e meia da manhã seja muito tarde para a maioria dos trabalhadores brasileiros, que às 5 já se espremem em algum trem ou ônibus, para mim era muito cedo. Nunca dormi antes das 2 da madrugada. Teve uma fase em que eu despertava às 7 para levar o cão para passear, mas foi só uma fase.

Meu celular/despertador tocava às 8. Era o tempo de receber uma lambida do Nestor, tomar banho, fazer a barba (ou não), engolir um café bem forte e esperar pelo pauteiro ligar. Mas, na prática, isso raramente acontecia. Nunca levantava às 8. O despertador tocava e eu seguia na cama, enrolando, dormindo e acordando, sonhando sonhos malucos, torcendo para que a pauta não exigisse fazer a barba. Sempre odiei fazer a barba todo dia. Porra, se existem vantagens de ser jornalista, esta é uma delas.

Quase sempre eu acordava mesmo às 8 e meia, com o meu celular tocando Living La Vida Loca para avisar que era o pauteiro. Eu tossia umas duas ou três vezes para tirar aquele maldito catarro da garganta e ter uma voz minimamente decente para falar com o cara que me daria uma boa ou uma má notícia. Ou tudo ao mesmo tempo. Odiava quando ele falava “puta voz de sono, Duda. Aposto que nem leu os jornais de hoje”. Mas a vida era assim.

O melhor dos mundos era quando a pauta era só à tarde e, claro, não exigia fazer a barba. Então eu relaxava. E enrolava ainda mais na cama, dormindo e acordando, sonhando mais sonhos malucos. Até que o Nestor pulava na cama com aquela cara de “preciso mijar urgentemente, seu vagabundo” e então meu dia começava. Mas esta fase também acabou.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

O netinho querido da vovó


O Nestor resolveu ficar doente justamente no nosso fim de semana. Começou a chorar de forma estranha no sábado à noite. Levei o pobrezinho a um hospital veterinário 24 horas e gastei lá o dinheiro do almoço do domingo. E o do resto da semana também. Na sala de espera, havia muitos cães, um cheirando o rabo do outro, na maior confraternização. Uma velhinha, com um chihuahua chato no colo, puxou assunto. Aliás, velhinhos adoram puxar assunto, assim como chihuahuas adoram ser chatos.

- Ah, então o senhor é jornalista? O meu netinho também é. O senhor trabalha onde?

- No momento, estou buscando novos caminhos, me reciclando, estudando muito, me redescobrindo como jornalista...enfim, estou desempregado, minha senhora!

- O meu neto também. Acabou de se formar e não consegue emprego de jeito nenhum. O menino é inteligente, fala Inglês fluentemente, mas não arranja nada. Dá para acreditar?

Não é a primeira vez que eu conheço alguém que tem parente jornalista. Até uma faxineira que trabalhou lá em casa tinha um sobrinho jornalista. Também era inteligente e não tinha emprego. Só não lembro se falava Inglês.

- Vou pedir para o meu neto mandar o currículo para o senhor. Talvez possa ajudá-lo. O menino é muito bom, inteligente...

Na semana seguinte, recebi um e-mail do moço, “o neto da velhinha do veterinário”, como ele mesmo se apresentou. Era um currículo enxuto demais, como também era o meu quando me formei. Mas o que mais me chamou a atenção – e me assustou – foi a “experiência profiCional”, com “c”. O netinho querido poderia até dominar o Inglês, mas o Português estava sendo duramente castigado. Mas avó é sempre avó, não é?

PS: Naquele sábado à noite, o veterinário disse que o Nestor estava ótimo. Era apenas manha canina. O danado me fez comer miojo por uma semana!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Nestor


Parece que foi ontem que o Nestor entrou em minha vida. Eu e minha mulher, hoje ex, queríamos cuidar de um ser vivo que não fosse tão complexo quanto um bebê humano. Descartamos também as plantas, porque sempre as achamos muito monótonas e chatas. O consenso era um cão, bicho brincalhão. E assim compramos o nosso boxer.

Minha mulher queria chamá-lo de Karenin, o cachorro de um livro que ela tinha amado ler. Eu queria Nestor, porque, para mim, nomes humanos davam a sensação de uma maior interação intelectual dono-cão. Achava que, algum dia, ele tomaria cerveja comigo e discutiria política, futebol e filosofia. Naquela época, como eu ainda mandava alguma coisa no relacionamento, o cão passou a se chamar Nestor.

Apesar de deixar o sofá todo babado e roer os móveis, Nestor foi uma coisa maravilhosa que me aconteceu. Muitas vezes, chegava em casa de madrugada, depois dos pescoções, e encontrava o bicho acordado, à minha espera. Pulava em cima, me lambia. Sua alegria era inspiração para eu escrever, correr atrás de grandes pautas. Para quem não leu, vale conferir o post Farejadores.

Mas o Nestor envelheceu, como eu. Está mais sóbrio, mais resignado com algumas coisas da vida. Dia desses, lendo o jornal, notei que ele estava sentado à minha frente, compenetrado em mim. Parecia querer conversar. Achei que a tal maior interação intelectual dono-cão finalmente havia chegado. Perguntei ao Nestor então o que ele achava da crise do Senado, da gestão do Obama até agora, do fim da obrigatoriedade do diploma de jornalista. Ele deu um bocejo ruidoso, circulou algumas vezes sobre sua cama, deitou e dormiu. Deve ter pensado: “Que puta papo chato tem esse cara.”

terça-feira, 21 de julho de 2009

Vamos respeitar, minha gente


Uma pesquisa recente da empresa GfK mostrou o nível de confiança das pessoas em relação a 20 profissionais, tanto no Brasil como no mundo. Nos dois rankings, os bombeiros são os que estão melhor na fita e os políticos são os que inspiram menos confiança. Ou seja, nada de novo. Está mais do que provado que essa coisa de salvar gatinhos em árvores e posar pelado para calendários pega super bem com a opinião pública, principalmente a feminina. E roubar dinheiro público (ou viver de atos secretos) não está com nada.

Mas o que mais chamou a atenção no ranking brasileiro – alerta feito por um velho amigo – é que os jornalistas aparecem na honrosa quinta colocação (com um nível de confiança de 79%), atrás apenas dos campeões bombeiros (98%), carteiros (90%), médicos (82%) e professores do ensino fundamental e médio (81%). Ainda não garantimos um lugar no pódio ou uma vaga para a Libertadores, mas estamos bem perto. O mais importante é que a pesquisa é um alento para a nossa tão combalida auto-estima.

Com o respeito reconquistado, podemos voltar a preencher o cadastro do crediário das Casas Bahia com o nome de nossa verdadeira profissão e negociar um empréstimo com juros menores com o gerente do banco. Eu, particularmente, já poderei falar para o juiz que trata do litígio com minha ex-mulher que sou, sim, jornalista, e que tenho todas as condições de dar uma vida digna ao Nestor, nosso cão. Agora, ele pode confiar!

Um fato curioso é que, no ranking mundial, os jornalistas aparecem na modesta 12ª colocação, com um nível de confiança de apenas 41%, a metade do índice dos jornalistas brasileiros. Por que será que nós temos um desempenho tão superior ao dos nossos colegas pelo resto do mundo? Será que foi a titia Monique Evans que ajudou a melhorar a nossa imagem?

PS: Os publicitários, nossos primos ricos da comunicação, só inspiram mais confiança do que os políticos no ranking mundial. Estão na zona do rebaixamento moral.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Tô rico, tô rico!


Hoje eu estou feliz. E estou feliz apesar de nem ter dormido direito por três noites seguidas, fato que normalmente me deixaria de mau humor. A última madrugada passei em frente ao computador, embriagado de tanto café e escrevendo um frila inesperado. E o melhor: por uma boa grana, coisa rara, mas que vez ou outra acontece. É como comer picanha na churrascaria barata que eu freqüento. O garçom raramente passa com uma no espeto pela minha mesa, mas vez ou outra acontece.

E por que será que esses frilas pintam aos 40 minutos do segundo tempo? São sempre para ontem. Deadline apertadíssimo, alerta o editor. Nos fazem parar tudo, sacrificar horas de sono, mas valem a pena. Tudo pela sobrevivência.

Quem também ficará feliz com essa grana extra é o Nestor. Ele vai ganhar até uma cama nova, ou melhor, vai ganhar a primeira cama dele aqui no meu apê, com direito a um cobertor zero bala e sem pulgas, para enfrentar as noites de inverno.

Seu Vitório, o velhinho que aluga o apê de 49 metros quadrados para mim, é outro que vai comemorar. Para minha desgraça, ele mora no mesmo prédio. “Já arrumou um trabalho, meu filho?”, me pergunta sempre, em nossos encontros casuais no elevador. Acho que ele andou remexendo o roteiro da minha vida e roubou essa fala do meu pai, dita tantas vezes em minha juventude.

O frila não valeu apenas pela grana boa. Era uma reportagem instigante para uma conceituada revista feminina, se é que isso existe. O tema? As mulheres que comandam o mercado de sexo nas ruas de São Paulo. A arte de proxenetar não é mais uma exclusividade daqueles cafetões truculentos e insensíveis. Conheci mulheres que começaram por baixo, literalmente, e hoje são verdadeiras executivas. Me deu até inveja dessa ascensão profissional toda.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Canino, demasiado canino


Se esse papo de reencarnação for realmente verdadeiro – preciso checar tal informação com fontes confiáveis do além –, quero voltar cachorro na próxima vida. Invejo o Nestor. Tudo bem que ele passou por uma fase difícil nos últimos tempos com a separação dos pais, mas, no geral, sua vida é boa. Essa coisa de ficar o dia inteiro dormindo, comendo, cagando e brincando me seduz. E o melhor: ser irracional nos dias de hoje é uma grande vantagem. Pensar e querer entender o mundo cansa demais.

Uma amiga iniciada na questão de outras vidas contou-me certa vez que sempre evoluímos. Ou seja, voltamos cada vez melhores na vida seguinte. Considerando que ser jornalista é o atual último estágio de minha evolução, tenho até medo de saber o que fui em minhas vidas anteriores.

Tive a oportunidade de passar o último fim de semana com o Nestor. Sua vida canina é demasiadamente simples. No parque, percebi que sua angústia máxima era levantar a perna pela décima vez em menos de cinco minutos e não ter mais o que mijar. Enquanto isso, eu pensava no aluguel a ser pago, no porre de ter de ir ao supermercado e no frila que precisava escrever (uma empolgante entrevista médica sobre o aumento da incidência das hemorróidas em países tropicais).

O domingo acabou e, com o coração apertado, deixei o Nestor na casa de minha ex. Ainda tive de ver a scooter amarela do outro estacionada lá. À noite, voltei ao meu apê de 49 metros quadrados e, antes de escrever a matéria, fiquei imaginando minhas prováveis vidas passadas. Será que eu era o cara que mandava os cristãos para os leões? Um cafetão na Belle Époque? Será que já fui argentino? Meu Deus, será que eu já fui argentino?

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Coisinha de mulher


Luana, sempre muito dada aos homens e às idas ao mar, bem que se esforça, mas o trânsito caótico de São Paulo é realmente imbatível! Na enquete que acabou de acabar – Qual é a manchete mais manjada do jornalismo brasileiro? –, a alternativa “Congestionamento em São Paulo bate novo recorde” venceu com 43% dos votos, superando a opção “Luana Piovani vai à praia com novo namorado”, com distantes 28%.

A próxima enquete tem como ingrediente o amor entre os jornalistas, sejam de sexos opostos ou não. Ficou com cara de revista Nova, “coisinha de mulher”, como dirão alguns amigos, mas, tudo bem, fazer o quê, né? Votem e digam por que é muito mais fácil e comum os jornalistas se apaixonarem entre si.

E uma ótima notícia. Um bondoso juiz acaba de me conceder o direito de, a cada 15 dias, passar um fim de semana com o meu cão Nestor. Iremos ao parque, passear no shopping Higienópolis e comer muitas guloseimas por aí. Enfim, fazer todas aquelas coisas que só pais e filhos separados fazem! O meu até breve.