segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Crônica sobre o óbvio


Quer coisa mais óbvia do que uma noite num pronto-socorro qualquer após sentir uma indisposição? A espera longa e angustiante para ser atendido é óbvia, o diagnóstico “certeiro” do médico de que o problema é uma virose é ainda mais óbvio e a condenação a ficar horas tomando remedinho no soro é o tratamento menos surpreendente do mundo. Assim foi meu último sábado.

Tanta obviedade junta me fez lembrar, enquanto tomava o meu soro, as legendas das fotos da Folha de S.Paulo e do UOL, que se limitam a explicar o que todos já estão vendo. Na cobertura do recente debate presidencial promovido por ambos, o portal publicou uma foto de Flávio Florido, reproduzida neste post, com a sensacional legenda: “Microfone utilizado por um dos candidatos à Presidência”. Além da obviedade, cabe outro questionamento: será que o microfone teve desempenho tão decisivo no debate para ganhar um retrato especial?

O jornalismo, na verdade, está cheio de coisas óbvias. Cadê a preocupação com os tais fatos relevantes? Político beijando criancinha, andando de metrô e comendo pastel na feira em período eleitoral é a coisa mais óbvia do mundo. O fato relevante é ele fazer tudo isso depois de eleito. Noticiar que uma participante do Big Brother revelou que fará uma lipoaspiração após o programa para poder posar para a Playboy é a coisa mais normal, esperada e sem graça. Fato relevante é ela anunciar que vai fazer um curso de Filosofia.

Como aquela noite de sábado me deixou mal-humorado!

- Ô, meu amigo, não dá para liberar mais soro aí?, questionei o enfermeiro. Do jeito que esse negócio pinga devagar eu vou ficar aqui até amanhã de manhã.

Quer coisa mais óbvia do que um soro que pinga devagar numa noite interminável num pronto-socorro qualquer?

10 comentários:

Mariana Serafini disse...

Fiquei imaginando um ex-BBB ingressando em um curso de Filosofia!
hsushushsushsussushus

se a história do médico é verdade: melhoras!

beijos, Duda!

Eliane disse...

O problema é que achei essa foto do microfone meio esquisita, então até precisava da legenda para ficar mais inteligível. Por outro lado, se a foto não se explica por si só (aliás, não dizem que vale mais do que mil palavras?) então não bota a foto, né? Melhor prescindir de uma imagem ruim do que usar uma legenda pior ainda. Legal você tocar nesse assunto, para a gente se tocar um pouco mais quanto às obviedades, clichês e inutilidades de tantas notícias.

A viajante disse...

Olha Duda. Eu acho que a previsilibidade é marca dos medíocres e da mediocridade das empresas, hospitais, jornais, TVs, a cabo ou sem cabo, escolas, faculdades, supermarcados e lojas com promoções super falsas (SALE 50%)...tudo beira a mediocridade...vivemos num mundo de medíocres, e aqui me incluo, embora por ter consciência, tento não ser tão previsível no que faço ou sonho...bj

A viajante disse...

supermercados...de nada super tem nos mercados,'por lá, o óbvio, como degustação insossa de sucos de caixinha, com validades quase vencidas...é que tô de TPM, e escrevo mais rápido...rs

Talita Cruz disse...

O legal é entrar naqueles sites tipo "ego", e ver as manchetes sensacionais, tipo "Cléo Pires coça o seu dedo do pé na praia do Leblon" rsrs. Eu não gosto de obviedades, e ás vezes prefiro deixar de escrever sobre um assunto no meu blog, mesmo que esse assunto esteja bombando, do que escrever a mesma coisa que todo mundo está escrevendo. Busco olhar o que ninguém vê. Melhoras Duda!!..bjss.

Ariane Barbará Ferreira disse...

Imagine, um ex-bbb fazendo filosofia, inacreditável.
É verdade que tudo é, ou está cada vez mais completamente óbvio.
É interessante escrever sobre obviedade das coisas, assim, podemos parar e prestar um pouco mais de atenção, na quantidade de coisas obvias e inuteis quais costumamos dar atenção no cotidiano.

pat disse...

Duda, às vezes tudo no jornalismo é tão óbvio que não dá vontade nem de se "atualizar".
Por isso cada vez mais tenho me atualizado através da net (não dos "jornais" da net - todos iguais - é só olhar as agências de notícias - mas através de algumas vozes críticas e de pessoas comuns.
Um abraço: e os médicos são mesmos banais.

Alexandre disse...

muito bom, camarada!

gosto bastante do seu blog. É meio idealista, mas eu talvez seja aquele que quer ser o foca que vai mudar tudo isso aí, hahaha.

abraços

Aline Viana disse...

Nossa, esse problema das legendas é crônico e imagino que seja intríseco à formação de jornalista. Digo isso pq já no meu TCC, uma revista, alguns colegas colocaram algumas pérolas do óbvio sob as fotos, tipo "Fulano sua sua biblioteca", enquanto ao fundo vê-se uma estante de livros - afffffe! rsrsrs Pois é, os jornalistas andam com uma preguiça mental que dá dó.

Bjs,
Aline

Duda Rangel disse...

Gostaria de agradecer, OBVIAMENTE, a manifestação de todos neste espaço. Muito legais os comentários. Como bem disse a Talita, o bacana é buscar olhar o que ninguém vê. Ah, já estou bem melhor, obrigado. Fui até liberado para tomar uma cachacinha. Abraços.