quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Manual de adaptação para um jornalista velho


Você ficou um longo tempo afastado do mercado de trabalho e, agora, com 50 e muitos anos e hábitos jurássicos, resolveu voltar a uma redação jovem e diferente. Sobreviverá? Sucumbirá? O blog apresenta aqui dicas essenciais para você, jornalista velho.


Não banque o saudosista. Você corre o risco de ser visto como “o chato”. Nostalgia funciona bem num especial de fim de ano do Roberto Carlos, mas não no dia a dia de uma redação jovem. Nada de ficar repetindo que antigamente tudo era melhor, que era gostoso ouvir o barulho das máquinas de escrever, que se podia fumar tranquilamente enquanto se trabalhava, que se tinha mais tesão pela profissão. Valorize o presente com frases como “Irado este iPad!” ou “Que bom trabalhar 15 horas sem parar!”.

Atualize-se quanto aos termos jornalísticos. Copydesk é coisa do passado. Hoje, os jornalistas recorrem ao corretor ortográfico do Word. Se você não quiser ser chamado de repórter das cavernas, não ouse mencionar palavras do tipo paste-up, paica, calhau e drops. Os jovens vão pensar: “Que merda esse tiozinho tá falando?”. Aprenda termos do século 21, como jornalismo colaborativo e convergência de mídias. Seja um coroa antenado.

Renove seu jeito de vestir. Nada de usar camisa social de mangas curtas, calça tradicional e sem charme acima do umbigo ou aquela blusa de malha comprada há umas duas décadas em Jacutinga. Pochete na cintura, então, está proibidíssima. Compre roupas descoladas. Mas atenção: sem exagero. Se você ainda cultiva um barrigão de chope, evite usar aquelas camisetas justíssimas encontradas na Mundo Mix ou na Benedito Calixto.

O calor humano do passado e as brincadeiras são cada vez mais raras. Os jornalistas andam muito estressadinhos e individualistas. Preferem se isolar na baia de trabalho, sua pequena redação particular. Vivemos a ditadura do fone de ouvido. Nem pense em perguntar algo ou fazer uma piadinha com o seu colega ao lado quando ele estiver entretido com seu fone. Ele não vai te ouvir. Se tiver urgência, é mais fácil mandar uma mensagem instantânea.

Saiba que passar muito tempo dentro de uma redação, fazendo entrevistas por telefone e cozinhando releases, é a nova realidade. Não fique deprimido se não puder sair todos os dias para reportagens in loco. O antigo hábito de fazer uma parada estratégica no bar durante a pauta na rua, para uma cachacinha e uma partida de sinuca com o motorista do carro de reportagem, também não existe mais. Aprenda a jogar paciência no computador do jornal, embora seja muito difícil você ter um tempo ocioso para isso.

Seja politicamente correto. Vivemos hoje, inclusive nas redações, a era do politicamente correto! Ou seja, sufoque aquela vontade louca de dar uma cantada na estagiária gostosa. Sabia que só cantar – nem sonhe com sexo selvagem! – já pode ser considerado assédio sexual? Nem pense também em fazer piadinhas com os gays da redação, hein? Respeite as minorias. Hoje, é até bem provável que existam mais gays do que heterossexuais a seu lado.

Procure fazer parte das redes sociais. Isso é muito importante para ser aceito pelos jovens jornalistas da redação. Que tal criar uma conta no Facebook e no Twitter? Faça parte de comunidades virtuais como “Jornalismo 4.0” ou “Adoro ler notícias em portais”. Nada de “Eu amo minha máquina de escrever”, ok? Destaque preferências pessoais como “música eletrônica” e “livros sobre vampiros”. Assim como fazem os jovens, divulgar algumas fotos é uma boa ideia, mas, cuidado, nada de fotos em frente ao espelho, em poses sensuais.


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33 comentários:

Fernanda Oliveira disse...

hahahha...
Duda, já te disse isso, mas tenho que reforçar que seus textos são hilários e alegram meu dia

Derla disse...

Muitooooooo bom! Já disse que amo esse blog?

thayspetters disse...

hauahauaha Morri com essa do fone de ouvido. Me identifiquei absolutamente.

Alfredo Costa disse...

Como jornalista cinquentenário me identifiquei com o texto. Permita-me, portanto, "Duda", reblogar para os meus alunos entenderem o meu esforço para me manter "up-to-date".
abs,
Alfredo

Duda Rangel disse...

Fernanda e Derla, vocês são uns amores, assim como a Thays, a moça que não escuta ninguém porque não larga os fones de ouvido. :)
Alfredo, meu caro, reblogue, sim. E obrigado pelo prestígio.
Abraços do Duda

Natalia disse...

Ei, lá no jornal a gente ainda fala calhau. Acho tão old school.

Joyce disse...

Os dinossauros do jornalismo ainda são bem prestigiados aqui em Teresina/PI.. Na redação da tv em que trabalho tem um expert em assuntos políticos, ele 'dá bizu' para os focas e é antes de mais nada um sobrevivente dos maus hábitos jornalísticos de antigamente(beber por exemplo).

Ainda bem que não tem essa de fone de ouvido.. a interação é boa apesar das 'cobras' e dos indolentes. kkkkk

Beijos da Joy

Sucesso Duda!

Filipe disse...

Teu blog virou minha parada obrigatória. Sou jornalista formado com 23 anos de idade e não peguei essa época "ouro" que viveram os mais velhos.

Mas o q vc disse é digno de um quadro nas redações e leitura obrigatória para quem está há mais de 25 anos na profissão =]

Duda Rangel disse...

Natalia, o calhau deve sobreviver ainda em outros lugares, creio.
Joyce, esse dinossauro de sua tv merece uma estátua na redação, principalmente por manter os maus hábitos. :)
Filipe, obrigado pela mensagem, meu caro. Fico muito feliz.
Abraços do Duda

Ana Magal disse...

Duuuu o que seria do meu dia sem seus textos para alegrar minha semana?

OMG... estou quase beirando os 40 e ficando com pânico da síndrome do 'jornalista velho' e não comecei a ser nem uma jornalista nova...

beijocas!

Duda Rangel disse...

Oi, Ana, o que seria do meu blog sem leitores tão fiéis como você? Eu também estou chegando aos 40 e com medo. Mas não de sofrer mais com o jornalismo. É com o exame da próstata mesmo...rs Beijão.

Anônimo disse...

Duda, você aceita como leitores jornalistas que fazem 58 anos (de idade) em exatamente seis dias e que trabalharam na "boa e velha" redação do Globo? Maravilha de blog, o teu, parabéns e obrigado! Abraços, Vitor.

Vitor Sznejder disse...

Em tempo: faço questão de me identificar: Vitor Sznejder, a seu serviço.:-)

Luizg. disse...

"Nada de usar camisa social de mangas curtas, calça tradicional e sem charme acima do umbigo". A menos que você seja o Clint Eastwood, acrescentaria.

Americo Teixeira Jr. disse...

Quer dizer que eu, numa situação dessas, não seria bem aceito se manifestasse a minha condição apaixonada pelas interpretações de Cauby Peixoto? hehehehe

Abração!

Duda Rangel disse...

Olá, Vitor, seja muito bem-vindo. Peço desculpas pela demora na resposta.
Luizg, imagino que nem o Clint Eastwood ficaria bem!
Acho que não, Americo. E nem ouse falar no nome da Angela Maria.
Abraços.

Marcela Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcela Rodrigues disse...

Ótimo texto!
Bem a realidade de como o jornalista foi mudando seus hábitos para se adequar ao que a juventude julga certo!

Guilherme disse...

Esse trecho é o melhor: "O antigo hábito de fazer uma parada estratégica no bar durante a pauta na rua, para uma cachacinha e uma partida de sinuca com o motorista do carro de reportagem, também não existe mais". Tô chorando de rir.

Ailime Kamaia disse...

Pois é... sou uma jovem isaolada na minha baia com fone de ouvido!

Ri demais no trecho q abomina a adesão a comunidades do tipo "Amo minha máquina de escrever".

Um texto melhor que o outro aqui no desilusões perdidas!!!

Duda Rangel disse...

É, Guilherme, bons tempos os da sinuca e da cachaça no bar!
Marcela e Ailime, valeu pelas mensagens!
Abraços.

Mari Baldissera disse...

Duda, ate eu, que sou da 'nova geracao' (ok, nem tao nova assim haha!), sinto saudades do jornalismo de antigamente... Adoro teu blog, obrigada pelo humor sempre contagiante. E desculpe pela grafia, estou em Belgrado num teclado servio hehe! Abracos

Duda Rangel disse...

Oi, Mari. Legal descobrir que tenho uma leitora na Sérvia. Obrigado pela mensagem e por acompanhar o blog. Beijos.

Arnaldo Moreira disse...

Cara, é isso mesmo! Essa Redação do passado bem recente foi enterrada pelos gigabits, pela velocidade da luz na troca de notícias pelo Planeta. Quem não se modernizou, dançou. Máquinas embutidas nas mesas, como na Redação do Globo, hoje peças de museu, foram trocadas por monitores LED e breve nem teremos teclados para digitar. Essa evolução é ótima. Como era horrível ter de passar matéria por telex, quando chegava na hora de fechamento, à Redação da sucursal do Fluminense, no Rio, para escrever e enviar o texto para o jornal, em Niterói. Era um horror. Hoje faria isso do local e exatamente pelo IPhone. Esse tempo não me deixou saudades. Prefiro o hoje, desejo o amanhã. O passado é como jornal diário...

Duda Rangel disse...

Grande Arnaldo, obrigado pelo comentário. Abração!

Jornalista Arlei Zimmermann disse...

Adorei, confesso que ri também, e muito. Não sou uma jornalista tão velha assim mas usei a máquina de escrever (não tenho saudade,toda vez que errava tinha que colocar "X" ou então trocar a "lauda", hehee, que sufuco! Também não tenho saudade dos colegas fumando na minha volta (quer ver quando eu ia de cabelo molhado, ficava aquele cheiroo, nossa!!! Ainda bem que existe evolução, que bom que hoje tempos os computadores, a internet, tudo de bom!! Vc tá certa, não devemos nunca retroceder, jamais!! Parabéns pelo manual, adorei!!!

dalila abelha disse...

Curioso é perceber que a realidade que alguns de nós julgavámos restrita àquele jornal em que trabalhamos era universal. O texto é muito interessante e retrata de fato a contraposição da realidade de pelo duas gerações de jornalistas. Aqui prá nós, que saudade!

Duda Rangel disse...

Arlei e Dalila, também sou do tempo da máquina de escrever. É verdade que o passado deixa saudade, sim, mas a evolução é realmente necessária.
Abraços e obrigado pelos comentários.

Bruno Nascimento disse...

hahahaha...
Ótimo blog que acabo de descobrir. Já está na pasta de preferidos.

Duda Rangel disse...

Legal, Bruno. Volte sempre.

Daniel disse...

Duda, demais o texto! Ótimo o blog.
Particularmente, confesso que fico meio perdido, porque estou com 40 e pouquinhos e comecei como profissional justamente numa época da transição entre as Olivettis e os computadores. Então, não me enquadro totalmente na velha guarda, nem sou dos mais "jovens".
Ou será que estou sendo muito otimista e a gurizada me vê como um dinossauro?
Grande abraço!

Casa de Mãe joana disse...

O pior é que precisarei destas dicas. Sou Jurássica, sim senhor! Muito bom!

Duda Rangel disse...

Daniel, somos da mesma época, da turma da transição. Entendo perfeitamente o teu drama...rs
Abração.