segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Quem disse que jornalista não anda de Ferrari?


Jorge Henrique era um renomado jornalista automotivo, inteligente, bem-humorado, amigo de todos. Mas tinha um defeito: de tão apaixonado por carros, só falava de carros. Um martírio para quem não entendia do assunto. “Vocês viram que a BMW lançou um conceito de sedã com desenho de cupê no estilo do Mercedes-Benz CLS?”, bradou, recentemente, ao encontrar os colegas do futebol no bar, quando todos discutiam se o Alex Escobar era ou não era um cagão.

Noutra ocasião, no velório de um vizinho, chegou cantando os pneus de um utilitário que acabara de pegar no jornal para testar e escrever uma matéria. “Este modelo tá demais, com novo sistema de sensores eletrônicos na suspensão. E o câmbio? Automático de seis velocidades!”, cochichava no ouvido das pessoas, indiferente ao climão de chororô.

Nos encontros familiares, nunca perdia a oportunidade de exibir seus conhecimentos automotivos, mesmo que ninguém entendesse o que ele falava. Quando descobria que alguém estava interessado em comprar um carro novo, sempre se prontificava a dar conselhos. “É bonitinho, mas ordinário. Tem um motor de merda. Fiz até uma matéria sobre isso. Você não leu?”

A paixão de Jorge Henrique por carros era antiga. Na infância, não brincava de esconde-esconde ou de médico com as primas. Brincava de autorama. Na adolescência, trocava o cineminha com a namorada para jogar Enduro no Atari ou ajudar o pai a encerar o Escort XR3 da família. Já adulto, nos salões de automóveis, nem dava bola para as belas modelos nos estandes. Só tinha olhos para os carros. Um dia, dirigiria uma daquelas máquinas.

Formado em Jornalismo, arranjou emprego na seção de Automóveis. Se a redação não lhe dava dinheiro, pelo menos lhe deu a chance de realizar o velho sonho. Como adorava desfilar com os carrões emprestados pelo jornal! Enchia o Orkut de fotos de seus brinquedinhos. Revelava aos amigos detalhes de cada manobra. Quem disse que jornalista não anda de Ferrari? Nessas horas, até esquecia que, na garagem de sua casa, jazia seu 1.0 caindo aos pedaços, com a lataria toda enferrujada. Mas isso ele não contava pra ninguém.

6 comentários:

Mariana Serafini disse...

hahahaha é isso aí!

"ser jornalista é conhecer o mundo com o dinheiro do patrão", ou andar de Ferrari, neh?


valeu Duda!

seus textos animam o dia!

Aline Viana disse...

Nossa, tive um chefe, ainda nos meus tempos de estágio, que era exatamente assim! rsrsrs

Duda Rangel disse...

Mariana, o jornalismo, pelo menos, tem um lado bom.
Aline, imagino que você aprendeu tudo sobre carros. Ou não?
Beijos.

Thales Willian disse...

Ah, mas ele é feliz, rs
ótima crônica!

Dá um pulo na minha janela depois, abraços!

A viajante disse...

Duda..creio que a psicanálise ajuda a desvendar essa fixação por carrões, nos meninos...deve ser a tal fase fálica mal resolvida..rs...mas falando mais sério, tenho um primo jornalista, que trabalha numa dessas revistas especializadas em carro, que escreve super bem...além de carro, futebol, ama mulheres, em igual medida!! Bj

Duda Rangel disse...

Oi, Thales, darei um pulo na tua janela, sim. Abração.
Viajante, ainda bem que existem jornalistas automotivos que não sofrem deste mal, principalmente quando eles fazem parte da nossa família. Beijos.