segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Crônica sobre o frila fixo


Ela não é a mulher oficial, não está presente no almoço da Páscoa, nem na ceia de Natal. Mas também não é uma avulsa qualquer. Mora no flat modesto do centro que ele paga, local em que se consome o sexo clandestino. E frenético. Ser a amante fixa não é o que ela esperava para sua vida, mas é melhor do que ser uma solteirona amarga, como as amigas.

No jornalismo, o frila fixo tem o papel da amante fixa. Ele não tem vínculo empregatício com a empresa de comunicação. Mas também não é um avulso qualquer. Está diariamente na redação, explorado como qualquer outro, apenas sem direitos trabalhistas. Não é o que ele esperava para sua vida, mas é melhor do que estar desempregado, como os amigos.

Assim como a amante fixa sonha um dia ser a patroa, com direito aos eventos familiares e a uma vida estável, o frila fixo também deseja o vínculo oficial, com direito aos benefícios da carteira assinada. E a uma vida estável.

Comecei no jornalismo como frila fixo. Cobertura de férias da Cidinha, repórter de Turismo, que naquele ano foi com o marido descansar em Ubatuba. Ou foi Peruíbe? Faltava pouco tempo para a Cidinha voltar, naturalmente toda picada por borrachudos, e eu já me imaginava de novo na sarjeta. Foi quando descobri que a Norma, repórter de Economia, sairia de licença-maternidade. Graças ao milagre da vida, no caso da vida do filho da Norma, eu alcancei o milagre de ficar mais quatro meses como frila fixo.

Tão logo o jornalista se torna um frila fixo, conhece algumas artimanhas, como o esquema da nota fiscal. O frila fixo só recebe a miséria de seu “salário” se apresentar uma nota. O Reinaldo era o rei da nota fiscal na redação. “Duda, o esquema é muito bom, firma em Carapicuíba. Conhece Carapicuíba? Lá se paga uma merreca de imposto”, explicava. Por muito tempo, o Reinaldo foi o meu fornecedor de notas fiscais de Carapicuíba.

Como ocorre com muita gente, fui pulando de cobertura de férias em cobertura de férias, de licença-maternidade em licença-maternidade, até um dia ser oficialmente contratado. A amante virou esposa. FGTS, 13º salário e a esperança de uma vida melhor.

No início, você até se empolga, mas logo se dá conta de que a tal estabilidade não é grande coisa. No caso das amantes, muitas percebem que ser a oficial é até pior. E ficam cheias de saudade do sexo clandestino e frenético no flat modesto do centro.

13 comentários:

Ana Luiza Ponciano disse...

Não sei qual parte é mais triste.

Maria Teresa disse...

Você brilhou na comparação!
Abraços

Ronise Vilela disse...

Quanto mais amarrado você fica "a ela", dai que a dita cuja te trai, com um estagiário! Humpft!

A viajante disse...

Olá Duda! Analogia perfeita. Serve também para a área de educação. A tal estabilidade da carreira pública, em nada se compara à instável vida em busca de novos campos de atuação pro pedagogo. Tô no risco, mas feliz pelo amante divertido e sem rotina, que é o meu trabalho como docente! Bj

Glauber Canovas disse...

Não tem o que dizer, a não ser falar que esse texto é perfeito!

Carol disse...

essa sou eu.

Duda Rangel disse...

Obrigado a todos pelas mensagens! Abraços.

Anônimo disse...

Somos nozes!
Ulisses

Rebelc disse...

Sensacional a analogia. Esse blog já está em meus favoritos. Parabéns!

Simone Costa disse...

Rs rs rs Adoreeeeeeeeeei a analogia. Perfeita. Só mesmo quem já foi um frila fixo...ou amante sabe como isso ai funciona.

Um abraço,

Simone Costa

Silvana Chaves disse...

Duda é triste isso, tô vivendo essa situação.
Mas, digo e repito: quero ser a oficial, de novo, e sem arrependimentos!

Beijo e ótimo fim de semana para você.

Silvana

Fabi M. disse...

É pra rir ou pra chorar? Sou frila fixa... E já fui amante tbm, haha. Não sei qual o pior!

Duda Rangel disse...

É, Ulisses, somos nozes!
Rebelc, valeu, rapaz.
Simone, prometo que não vou perguntar se você já foi frila ou amante. Ou as duas coisas.
Fabi, melhor rir. É difícil mesmo saber o que é pior.
Silvana, que você consiga voltar a ser a oficial. Sucesso!
Abraços a todos.