quarta-feira, 24 de março de 2010

Diário de um jornalista desempregado em Sampa


Uma vantagem de morar em Sampa, apesar de todos os problemas da cidade, é poder ter um dia cheio de atividades esportivas, culturais e gastronômicas com um gasto baixíssimo. Ou seja, um jornalista desempregado até consegue sobreviver por aqui. Para mostrar que isso é verdade, o blog acompanhou uma intensa sexta-feira na vida de um jornalista em Sampa. Sem trabalho há alguns meses, o profissional, de meia-idade, topou o desafio, mas pediu para não ser identificado e será chamado apenas de Jota.

7h: Após tomar um café da manhã rápido em casa (um pedaço de pizza que sobrou da noite anterior), Jota decide investir em um programa que fará bem a seu corpo e a sua mente, ambos já meio condenados pelas mazelas da vida. Vai a pé até um parque próximo e participa de uma aula de tai chi chuan. Gosta do ambiente acolhedor formado por muitos velhinhos aposentados e entrega-se aos movimentos da prática oriental. Sente-se mais relaxado. O único momento de tensão ocorre quando Jota resolve acender um cigarro durante os exercícios, sendo duramente repreendido pelo mestre. Gasto: nenhum.

9h: Jota decide fazer um passeio a pé pelo centro de São Paulo. Sente-se bem por saber que, enquanto aquele povo todo se estressa em um dia de trabalho, ele pode curtir seu ócio criativo. Quase cai na tentação de entrar em uma daquelas lojinhas de crédito fácil. Chega a uma praça famosa e acompanha o show de um artista mambembe, que faz diversas imitações, de Serginho Mallandro ao presidente Lula. Acha aquilo tudo patético, mas solta algumas gargalhadas sinceras. Gasto: 10 centavos (depositados no chapéu do artista).

12h: Almoço em um restaurante bem simples do centro. Pede o PF do dia e uma latinha de Kaiser (jornalistas adoram Original ou Serramalte, mas Jota está desempregado). Enquanto come aquele bife duro, ele se lembra do filé mignon ao molho madeira que devorava nas coletivas de imprensa e, emocionado, derrama uma lágrima sobre o prato. Gasto: R$ 6,00 (o café saiu de graça após uma negociação com o garçom).

14h: Como não pode ver um dos filmes do momento nas grandes redes de cinema dos shoppings, onde até a pipoca é absurdamente cara, Jota decide ir a um cineclube de cadeiras desconfortáveis. Mas é o que pode pagar. Tem de se contentar com um ciclo de filmes sobre o novo cinema croata. Percebe que sequer conhecia o antigo cinema croata, mas tudo bem, a experiência será, com certeza, valiosa. Assiste a um filme sobre a saga de imigrantes albaneses em Zagreb e, apesar de ter dormido 30% do tempo, sai impressionado da sala. Comenta com um casal de lésbicas ao seu lado que adorou o vigor da nova geração de cineastas sérvios (ops, fez uma confusão). Gasto: R$ 1,00 (pagou meia com uma carteirinha de estudante falsa).

18h: Contagiado pelo filme de arte, decide fazer um outro programa cabeça. Jota vai a pé (uma hora e vinte minutos de caminhada) até um centro cultural mantido por um banco para acompanhar o debate “Jornalismo e Contemporaneidade, o papel das novas mídias”. Sabe que precisa ficar por dentro do que os jovens estão fazendo. Após duas horas e meia de debate, Jota deixa o auditório empolgado com as idéias expostas no evento, mesmo tendo dormido 80% do tempo. Gasto: nenhum.

21h: Jota vai até uma barraquinha de sandubas perto do centro cultural e pede o principal combo do pedaço: um cachorro-quente com vinagrete e um refri. Gasto: R$ 1,70.

22h: Antes de voltar para casa, decide acabar a noite em grande estilo e permite uma extravagância. Vai a um puteiro. Precisa sujar um pouco o seu dia, que começou muito politicamente correto com a aula de tai chi chuan. O puteiro tem como clientela básica os motoboys. Na entrada, há várias CGs estacionadas. Jota apresenta-se como jornalista, sente-se importante. Promete autógrafos do William Bonner para as meninas e, por causa disso, tem direito a um drink e duas camisinhas de graça. Gasto: R$ 20,00 (tentou pagar meia com a carteirinha de estudante falsa, mas sua tentativa fracassou).

O gasto total de Jota foi de R$ 28,80. Se não considerarmos a puta, módicos RS 8,80.


Já comprou o livro do Duda Rangel? Conheça a loja aqui, curta, compartilhe. Frete grátis para todo o Brasil.

24 comentários:

João disse...

Enquanto come aquele bife duro, ele se lembra do filé mignon ao molho madeira que devorava nas coletivas de imprensa e, emocionado, derrama uma lágrima sobre o prato.
MUITO BOM!

Mário Bentes disse...

Quando fui a São Paulo, em 2008, como jornalista para cobrir um evento do Partido Comunista Brasileiro (PCB), não pude aproveitar muito do que aquela cidade tem a oferecer. Mas agora, Duda, saberei exatamente o que fazer.

Parabéns pelo texto!

Mário Bentes.

Talita Cruz disse...

Por isso essa profissão é especial. Mesmo sem dinheiro, sem pespectiva, o jornalista sempre busca agregar algo na sua cultura..rs parabéns pelo texto..bjss

Bangalô Cult disse...

Duda, espero não ficar desempregada tão cedo, mas independente disso, quando for a Sampa, novamente,seguirei algumas das dicas do JOTA.
Valeu!!!

Suyene

Duda Rangel disse...

Mário e Suyene, o blog tem também um lance de prestação de serviço e pode funcionar como guia cultural-gastronômico-esportivo-sexual.

João, que bom que você curtiu o momento de emoção do Jota ao lembrar do filé mignon.

Talita, o jornalista é um ser que se adapta a tudo. Também tenho orgulho disso.

Beijos e abraços do Duda

Andrea Machado disse...

Muito boa a reportagem. Parabéns.

Mariana Campos disse...

Super me identifiquei com o cineclube de cadeiras desconfortáveis!kkkkk
#achoválido

Mariana Campos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fábio disse...

Também estou desempregado e não tinha pensando em todas essas incríveis possibilidades. Agora terei uma ideia melhor de como aproveitar o tempo de forma produtiva. Obrigado!

Duda Rangel disse...

E o melhor, Fábio, todas estas dicas incríveis foram de graça. Bom passeio! Abração.

Anônimo disse...

Pô, gente, agora nem precisamos mais pedir PF no pé-sujo da esquina ou traçar um espetinho de gato na frente da estação de trem. Afinal, para quê existem os Restaurantes Populares? Foram projetados pensando também na nossa classe. E Viva o Fome Zero!! hahaha

Duda Rangel disse...

Caro Anônimo, e ainda tem gente que acha que ninguém pensa na miséria dos jornalistas! Abraço.

Leo disse...

Você é simplesmente genial... Texto muito foda!

Duda Rangel disse...

Valeu, Leo. Abração.

Thiago Quirino disse...

Me consiga o endereço de cada um dos pontos que quero fazer o mesmo percurso. Vai saber se a inflação já não aumentou o valor dos "serviços"

Ana F. disse...

vai que uma playboy em um sebo ficava mais barato que o puteiro. Tem que ver isso aí.

Duda Rangel disse...

Thiago, a inflação é cruel, mas jornalista sempre dá um jeitinho de pagar menos.
Ana, o problema da Playboy comprada em sebos é que muitas de suas páginas vêm coladas.
Abraços.

Anna Paula Brito disse...

Eu ainda estou no 6º período de Jornalismo e hoje fico lembrando dos meus professores dizendo que deveria fazer vestibular pra Medicina...Mas me diz, quando que fazendo medicina eu poderia viver todas essas emoções? rsrsrs

Duda Rangel disse...

Boa, Anna Paula. Muito bem lembrado.

Jornalisticamente falando... disse...

Muito bom o seu blog. Gosto destes textos descontraídos sobre nossa atarefada profissão.
Abraços

rubens disse...

TExto genial. Blog com respiração e emoção. Fui apresentado ao blog por uma aluna do curso de jornalismo. Parabenizo pelos textos inteligentes e espirituosos. Virou leitura obrigatória do dia. Abração

Duda Rangel disse...

Olá, Rubens. Muito obrigado pelas palavras. É um prazer ter você como leitor. Abraços.

Thiago Oliveira disse...

Por acaso o filme em cartaz era "Anão vestido de palhaço mata 8"?

Gostava muito da pegada dessa antigo cinema croata.

Anônimo disse...

Esse texto também se adapta bem a quem já teve uma vida de jornalista bem paga e a cada ano fica mais pobre, até voltar ao salário de estagiária na condição de pejotinha... #qbarra