segunda-feira, 1 de março de 2010

Medo de quê?


De cabeça baixa e com a silhueta curvada, estava estático na plataforma de bungee jump, como que hipnotizado por seus 40 metros de altura. Ariosvaldo – ou simplesmente Ari – era um jornalista de 70 anos que nunca admitiu se aposentar para ficar enterrado em casa. Sempre viveu a profissão intensamente. Detestava ficar preso na redação. Era um homem da rua, que não se contentava em relatar os fatos. Precisava viver os fatos. “As matérias ficam mais verdadeiras”, dizia.

Certa vez, quando jovem, virou garoto de programa para contar a dura vida dos michês. Em outra, morou embaixo de um viaduto por um mês, em companhia de mendigos, para escrever sobre a rotina violenta dos moradores de rua. Foram muitas aventuras. Para alguns colegas de profissão, Ari adorava chamar a atenção dos outros. Queria ser mais importante do que a notícia. Para outros, era simplesmente um louco apaixonado pelo jornalismo.

Com a aposentadoria, passou a viver de frilas. Seu trabalho atual era mostrar o interesse do pessoal da terceira idade pelos esportes radicais. “Ari, a pauta é a tua cara, coisa de maluco mesmo”, lhe afirmou o editor da revista. Estava animado com a empreitada. A empolgação, porém, contrastava com sua imobilidade fúnebre, instantes antes de saltar. O velhinho não se mexia. Seguia quieto, lá nas alturas. Ninguém entendia nada. Nem parentes, nem os curiosos que foram acompanhar o surpreendente espetáculo.

– É o que dá querer fazer o que não pode. Deveria estar em casa, escrevendo suas crônicas, de pijama – murmurou o fotógrafo da revista que o acompanhava na pauta.

O velho jornalista nunca dera atenção às fofocas. Não desejava provar nada a ninguém. Só queria trabalhar, sentir-se vivo, mas, naquela tarde, algo estava errado. Ari seguia imóvel, curvado. Parecia com medo. Logo ele, tão corajoso em suas aventuras jornalísticas! Teria se arrependido do desafio? Sentia-se mal?

Aflito, o fotógrafo decidiu que precisava tomar alguma iniciativa. Não agüentava mais ver aquela cena insólita. Correu até a plataforma e avançou com rapidez pela escada que levava ao topo. Como era alto lá de cima! Chamou pelo velhinho, que se virou para o rapaz. Estava pálido, coitado.

– Ari, o que aconteceu? Estão todos apreensivos lá embaixo.

– Não imaginei que esta hora pudesse chegar. Estou com muito medo.

– Medo de quê, Ari?

– De pular e perder uma das coisas mais preciosas que tenho.

– Sua linda vida?

– Não, meu amigo... a dentadura.

4 comentários:

Bangalô Cult disse...

Hilário, esse Ari.
Muito boa Duda...como sempre.
Bjs

Juliana Tavares disse...

Sempre tem alguém que duvida do nosso potencial de manter o espírito de aventura até o fim.

Mto bom o texto!

Bjos!

Derla disse...

hahahaha seu bobo! Duda tira essa trema do aguentava pelo amor de Deus! rsrs

Duda Rangel disse...

Suyene, valeu pelo comentário! Juliana, para ser jornalista, precisamos ter espírito de aventura sempre. Derla, ainda estou com preguiça de adotar a nova ortografia. Mas até 2012 eu acabo com todas as tremas do meu texto. Prometo! Beijos a todas.