segunda-feira, 10 de maio de 2010

O crítico de cinema


Com o jornal do dia nas mãos, o jovem cineasta entra no café e senta-se a uma mesa ao fundo. Pega logo o caderno de Cultura. Quer ler a crítica de seu filme que acabou de estrear. O que aquele crítico escreve faz toda a diferença. Pode tanto arruinar uma carreira como levar um jovem cineasta como ele à condição de grande revelação do ano.


“É um filme de grandes pretensões, e merecedor de elogios por se tratar de um diretor e também roteirista que está apenas começando sua carreira. Sua ousadia deu muito certo. O resultado é um filme denso, instigante e que não foge de temas polêmicos. Engana-se quem acredita que as cenas de sexo têm apenas o objetivo de chocar. É o sexo metafórico, que busca discutir grandes questões filosóficas de forma crua, por vezes árida, mas também tocante (...) O apreciador do cinema vai logo perceber que a cena em que a protagonista faz sexo com três policiais ao mesmo tempo em uma praça pública não tem nada de machista e humilhante. Pelo contrário. É, na verdade, simbologia sem pudor da libertação feminina, uma forma que o diretor encontrou, com seu olhar subjetivo, de mostrar que a mulher de hoje faz o que lhe dá prazer, sem se preocupar em ser julgada pela sociedade conservadora. Outra cena emblemática é quando a velhinha que vende cachorro-quente na rua pergunta ao garoto de programa que trabalha ali perto se ele toparia ir à sua casa naquela noite, uma bem-sucedida arma do diretor de evidenciar que o ser humano é livre para amar em qualquer idade e sob qualquer circunstância. Corajoso e inquietante, o filme deve projetar o diretor à grande revelação do ano”.


O jovem cineasta termina a leitura e dobra o jornal. Sorri, balança a cabeça, sorri de novo. Está naturalmente feliz com a crítica positiva, mas, ao mesmo tempo, surpreso.

Sexo metafórico? Simbologia sem pudor da libertação feminina? Questões filosóficas? Nada a ver o que esse cara escreveu! Viajou total! Eu só fiz um filme de sacanagem, assim, simples, um filme de sacanagem. Não quis discutir porra nenhuma. Mas uma coisa eu não posso negar: esse jornalista escreve bonito pra caralho...

- Amigo, um café, por favor. Puro.

7 comentários:

A viajante disse...

"De médico e louco todo mundo tem um pouco". Creio que essa máxima deveria servir também para os que se acham (muito bons) críticos de cultura de um modo geral. Os intelectualóides de plantão irritam demasiadamente...mas um filme, sob a ótica de quem o assiste, carrega sim, a capacidade de provocar inúmeras interpretações...e o bonequinho indica, faz cara de paisagem, aplaude, chora e até esperneia nos jornais mais populares...

Laís disse...

muito bom! adorei quando o jovem cineasta se surpreende com a viagem filosofica do crítico, já que ele fez pura e simples sacanagem rs. Concordo com A viajante: os intelectualóides são um nojo.

Duda Rangel disse...

É verdade. Um basta à ditadura do bonequinho, com suas caras e bocas! Beijos.

Mariana Serafini disse...

hahahaha!
existe uma teoria de que críticos de cinema são cieastas que não deram certo!
por isso eles sempre viajam!

hsushushsushsush

muito bom, Duda!

Margarida etc disse...

Críticos de cinema também podem estragar um filme. Exemplo: Li que "Um homem sério" se tratava de humor negro. Beleza, fiquei afinzaça. Esperei até o final do filme o tal 'humor negro'. Gosto dos Coens, mas naquela ocasião queria matar um deles. Demorei para dormir porque eu precisava xingar um pouco e azucrinar a cabeça do meu ex pq diabos ele resolveu baixar aquele filme. Se eu não tivesse lido aquela resenha, com certeza eu teria assistido, não digo que teria gostado, mas não teria me decepcionado tanto.

Igor Patrick Silva disse...

Discordo um pouco. Cinema é arte, amigos e qualquer arte é cabível de interpretações.

Fosse assim, que sentido veríamos em ficar de frente a telas modernistas durante horas? Se fosse apenas para tentar entender "o que disse o pintor", isso decerto não faria qualquer sentido. Ficamos porque estamos interessados em entender a reação que determinada imagem causa na gente e o que aquilo pode representar para você. Eu posso ver uma tela azul com um ponto vermelho, você pode ver o oceano da dor humana e um ponto de sangue como representação.

Da mesma forma, certas imagens no cinema são abertas à interpretação. Afinal, filmes são feitos para os espectadores e não para seu diretor. São eles os responsáveis por depurar o que está na tela e fazer o julgo de valores e conceitos. Se isso não acontecesse, obras muito bem realizadas, como o Anticristo do Lars von Trier, jamais conheceriam as telonas: até porque, nunca chegaremos a um consenso exato sobre o escopo do filme.

Assim, o uso da palavra "intelectualóide", além de preconceituoso (e um neologismo horrível, visto que o mais comum seria pseudo-intelectual) é incorreto. Tentar entender o que se passava na cabeça do diretor quando filmou um take está longe de ser coisa de gente pedante: é reação natural e esperada não só de um crítico de cinema, como de todo o público de modo geral.

Duda Rangel disse...

Igor, fica registrado aqui teu ponto de vista. Abraços.