sexta-feira, 7 de maio de 2010

O teeeempo passa...


O moleque vivia na roça. O pai não tinha dinheiro para comprar sequer uma TV em preto-e-branco. Mas não foi essa relação íntima com a pobreza que o fez escolher, anos mais tarde, a profissão de jornalista. Foi o rádio velho e cheio de ruídos do pai. Ouviam juntos, nas tardes de domingo, o jogo do time de coração narrado pelo Fiori Giglioti. Toda vez que o locutor dizia “abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”, a imaginação do menino viajava até o estádio.

Um amigo da escola disse a ele que jogo de futebol de verdade era uma pasmaceira só, que não tinha toda aquela emoção que se ouvia no rádio. A bola estava bem longe da grande área, mas a sensação, no rádio, é que o gol estava prestes a sair.

- E como ele sabe disso?, retrucou o pai. Seu amigo nunca foi a um estádio. Nem ele, nem o mentiroso do pai dele.

O menino seguiu encantado pelo futebol no rádio e narrava tudo a seu redor. “Crepúsculo da janta, torcida brasileira. Lá vem a mamãe pela direita com a sobremesa, passou por um, driblou o papai e chegou até a mesa”.

- Pai, manda esse moleque calar a boca que eu não agüento mais, dizia o irmão mais velho.

De tanto ouvir o Fiori no rádio, ele decidiu que também seria locutor esportivo. Aos 15 anos, começou a trabalhar na emissora da cidade, na nobre função de entregador de correspondências. Mas era perseverante. No ano seguinte, já servia o cafezinho. Aos 22, foi trabalhar na rádio da cidade vizinha, maior e mais importante, que cobria todos os jogos do time local. Já era jornalista formado.

Um dia, o locutor titular da rádio ficou sem voz. Passou a noite xingando o cachorro do vizinho que não parava de latir. E ele teve a grande chance de fazer sua estréia. Seguiu para o estádio agitado. No caminho, se lembrou do Fiori e das tardes de domingo de sua infância ao lado do pai. O velho, com certeza, estaria ouvindo sua voz, onde quer que ele estivesse naquele momento.

O juiz apitou e ele colocou toda a emoção do mundo na sua narração. O dia mais feliz de sua vida. Mas não foi nada fácil o trabalho. O jogo foi uma pasmaceira só.

Leia também: “Outdoor ambulante”

6 comentários:

Derla disse...

Tadinho. Mas, que bom que ele conseguiu...

São Paulo - Brasil disse...

... bela descorta esse blog! senso de humor para narrar os reveses de nossa vidinha ordinário é tudo! Vou espiar os outros texto! Abraços, Elaine!
www.fulodecroche.blogspot.com

São Paulo - Brasil disse...

* textos rs...

Duda Rangel disse...

Oi, Derla, sempre em busca de um final feliz, hein??? rs
Elaine, seja bem-vinda! Espie os textos à vontade! Beijos.

Nina Lessa disse...

Como sempre, texto maravilhoso. Esse foi emocionante, hein?!

:)

Bjos de uma ex-repórter esportiva que largou porque pagava mal (claro).

Duda Rangel disse...

Valeu, Nina. Sucesso pra ti, no jornalismo ou fora dele. Beijos.