quarta-feira, 26 de maio de 2010

A mentira que a vaidade do jornalista quer


Era um Gol simples, sem qualquer charme e com alguns amassados na lataria, mas os adesivos nas portas e no vidro traseiro conferiam ao carro um outro status. Aliás, não eram exatamente os adesivos, mas aquela palavra de dez letras que estava nos adesivos: REPORTAGEM.

A primeira vez que entrei no carro do jornal e segui para uma pauta pelas ruas da cidade, me senti subitamente importante, nobre, cheio de deliciosas ilusões. Em nada eu lembrava o foca ainda sem contrato de trabalho que chegara à redação de trem.

O carro de reportagem desperta a vaidade do jornalista. O repórter senta-se no banco ao lado do motorista, coloca os óculos escuros – mesmo nos dias chuvosos e cinzentos –, faz um esforço danado para driblar a cifose e conseguir deixar a coluna ereta, abaixa o vidro e fuma com desenvoltura. Quando o carro pára no farol, ele começa a investigar as pessoas comuns a seu redor e tem a certeza de que elas estão olhando para ele e pensando: “Nossa, o cara é jornalista, deve ser importante. Será que é da Globo? Queria levar a vida que ele leva”.

Sempre atrasado para a pauta, o jornalista sugere ao motorista que desrespeite algumas leis de trânsito, como avançar o sinal vermelho ou os limites de velocidade, afinal está num carro de reportagem, que tudo pode. As leis valem apenas para as pessoas comuns, as mesmas que olham para o jornalista com inveja e encantamento. O motorista, que também se sente importante com seus óculos escuros – mesmo nos dias chuvosos e cinzentos –, concorda com o jornalista e pisa fundo no acelerador.

O carro de reportagem é amigo dos carros da polícia, que também são diferenciados. A rua está interditada por causa de um protesto de moradores um pouco mais à frente, mas o policial dá sinal verde para o carro de reportagem furar o bloqueio. Para chegar com mais facilidade à sua pauta, o carro do jornalista tem o privilégio de subir na calçada e ir além dos limites estabelecidos às pessoas comuns. O carro estaciona e o repórter desce com a empáfia escrota de um anônimo que se sente uma estrela pop.

Naquela minha primeira viagem no carro de reportagem do jornal, voltei à redação com a sensação de ser “o cara” e, mesmo após algum tempo em terra firme, continuei extasiado pelo poder mentiroso dos adesivos. Só me dei conta do quão ordinário eu era quando, voltando para casa naquele mesmo dia, olhei fixamente para um outro adesivo na porta de um outro carro: “Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma”.

9 comentários:

Derla disse...

"poder mentiroso dos adesivos" HAHAHA melhor frase... Esse adesivo é realmente fantástico. A parte dos óculos escuros também é verdade... rsrsrs

Hidaiana Rosa disse...

O segundo adesivo praticamente diz "Que bom que você acordou!"

Lucas Vettorazzo disse...

Sensacional, me identifiquei totalmente. Muito bom o blog. Abs.

Diógenes de S. disse...

hahahahaha
não fosse o grande amigo motorista eu teria perdido as melhores matérias! o engraçado é que de tanto andar conosco, ele próprio já adquiriu o feeling...hehehe

dina disse...

haha! E o adesivo "Foi Deus quem me deu", geralmente pregado em carro de quinta? Dá a impressão de que existe gente mais f* que eu, e bem mais orgulhosa disso.

Bangalô Cult disse...

E o jornalista "acordou" prá realidade, hein Duda??
Adorei o texto.

Larissa Veloso disse...

Isso porque você nunca foi cobrir pauta de Kombi. Isso é que é status. ;)

Duda Rangel disse...

Jornalista é um bicho que gosta de se sentir importante, mesmo ganhando mal e trabalhando pra cacete (e ninguém precisa saber disso). Larissa, o pior é que eu já fiz pauta de Kombi, quando saía por bairros de São Paulo atrás de reclamações de moradores. Ia até um segurança comigo. Tinha tanto espaço lá dentro que eu me sentia um milionário em uma limusine. Valeu pela participação de todos! Abraços.

Laís disse...

"poder mentiroso dos adesivos". essa foi massa hehehe

há poucos dias senti essa sensação de importância, quando entrei a primeira vez no dito carro :)