quarta-feira, 19 de maio de 2010

Fechamento


Bar ao lado da redação, 19h15

Pedro, o editor-assistente, pede a primeira rodada de cerveja. Tem esquema com o garçom, velho conhecido. Abraça Carlos, o repórter, que ajeita as mesas para os demais colegas de trabalho. Silas, o editor-chefe, fala com a mulher, ao celular, entre baforadas de cigarro. Avisa que vai chegar mais tarde em casa. Não pode abandonar a equipe. Chefe também é filho de Deus. Todos sorriem, alegres. Falam besteiras, como grandes amigos.

Redação, 18h45 (15 minutos antes do fechamento)

O clima está pesado. Ainda faltam duas páginas. O tempo é curto. Cadê a imagem do abre do caderno? Silas, o editor-chefe, liga para o setor de fotografia, aos berros. Faz cara de decepção. E o texto do correspondente do interior? Sempre atrasado. Pedro, o editor-assistente, lê a matéria de Carlos, o repórter. Única pendência da página 2. Muitas palavras, pouco espaço. Lá vem o facão. Pedro, o editor-assistente, reclama com Carlos, o repórter. Não sabia do tamanho da matéria? Por que não é mais conciso? Carlos, o repórter, fecha a cara. Babaca. Cachaceiro do caralho, pensa. Não gosta da bronca em público. Só espera que Pedro, o editor-assistente, não corte o texto pelo pé. É sempre mais fácil.

Redação, 18h50

A imagem da capa não chega. Silas, o editor-chefe, fica mais impaciente. Está louco para fumar. Não pode. O tempo avança. Barulho na redação. Repórteres à toa enchem o saco. Esporro geral. O som alto da televisão, ligado num telejornal, tira a concentração de Pedro, o editor-assistente, que ainda lê o texto de Carlos, o repórter. Não entende uma frase específica. Chama o repórter. Explicações. Diálogo ríspido. O telefone toca. Será o correspondente? Silas, o editor-chefe, atende. É um assessor de imprensa. Sumariamente despachado. Isso é hora de vender pauta? Vá à merda. A imagem, enfim, chega.

Redação, 18h55

Pedro, o editor-assistente, finaliza a leitura do texto. Tudo certo? Não. Se esquece da legenda da foto da matéria de Carlos, o repórter. Por que esse cara não me ajuda?, pensa Pedro, o editor-assistente. Que correria! O pessoal da gráfica não tolera atrasos. A temperatura na redação aumenta. Chega a matéria do correspondente. Silas, o editor-chefe, começa a editá-la. Por sorte, o filho-da-puta tem um texto redondo. Legenda pronta. Página 2 está fechada. Pedro, o editor-assistente, dá o aval. Liberada. Só falta o abre. Todos parecem exaustos. Pela pressão do horário. Não podem falhar. Silas, o editor-chefe, então, se desdobra e arremata a página 1.

Redação, 19h00

Fim do sufoco. Respiram, aliviados. Fechamento é sempre assim. Chega o momento de relaxar. No bar ao lado.

8 comentários:

Anônimo disse...

Pena que ao lado da redação onde trabalho não há bares... :((

Derla disse...

Os bares aqui do lado da redação dão medo...

A viajante disse...

Ai, que pressão fdp...vocês só funcionam assim? Amo escrever, mas a considero como libertadora...
Adoro seus textos, Duda!
Me visita lá: www.foiassimdoispontos.blogspot.com

Thays Petters disse...

Aqui este encontro se chamava 'Sexta sem Lei', no Bar do Véio, ou 'da Miriam', a garçonete.

Duda Rangel disse...

Bares sempre foram um refúgio para os jornalistas. Meu fígado não me deixa mentir. Abraços.

Laís disse...

pow...o bar mais próximo do meu trabalho é meio vovô demais rs

Anônimo disse...

Fechamento 19 horas? Quero trabalhar nessa redação!

Duda Rangel disse...

Anônimo, este é o primeiro fechamento, da edição nacional. Depois vêm os outros. Enfim, cada jornal tem os seus horários. Abração.