sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

A festa da firma


Como festa de fim de ano é sempre igual, um post para relembrar.

Na minha época de redação, dezembro chegava e o povo tinha que decidir a escala especial de folga – quem trabalha no Natal e quem trabalha no ano-novo. Ou quem trabalha nos dois, caso de alguns focas. Sobravam divergências e eventual ofensa à mãe alheia. Mas dezembro também era um tempo alegre, tempo de festa da firma.

Após passar o ano inteiro explorando os pobres funcionários, principalmente os jornalistas, o dono do jornal decide promover uma festança. Para alguns, um lampejo de humanidade do patrão, mas, para mim, pura estratégia. Ele sabe que o jornalista é facilmente seduzido por uma boca-livre. Alimente um jornalista e ele se tornará seu amigo, dizia um filósofo de botequim. Ele esquecerá até das horas extras não pagas.

A festa da firma é um clássico exemplo da política “pão e circo”. Mas quem se importa com isso? Adoramos comida e bebida fartas, show com banda ao vivo, sorteio de prêmios. No meu tempo, começavam com brindes institucionais e acabavam com o prêmio máximo da noite, uma semana com a família na colônia de férias em Mongaguá. Eu, que sempre preferi o pão ao circo, até criei um grupo de amigos batizado de “a nuvem dos gafanhotos”, que perambulava pelas mesas deixando só devastação.

O evento é uma grande chance para o jornalista conhecer pessoas de outros departamentos, a turma do administrativo, a turma do comercial - ou “os vendedores de anúncio”. Até os jornalistas que nunca conseguem um alvará da patroa para as bebedeiras habituais vão à festa. Só não aparece a ala dos intelectuais, jornalistas que acreditam que a festa da firma não passa de uma forma primitiva de entretenimento, regada a axé, cerveja e suor.

Na festa da firma, muita gente perde o pudor, paga mico, arruma confusão. As taxas de sangue no álcool ficam baixíssimas. A vantagem de ficar um pouco mais sóbrio é testemunhar as aberrações da noite e ter matéria-prima para fofocar nos dias seguintes. Jamais esquecerei a festa em que o foca do caderno de Variedades, moço tímido, foi arrebatado pela música do Abba, subiu na mesa, arrancou a camisa, rebolou como uma lagartixa e gritou: “I am the queen, I am the dancing queen!”.

Depois disso, nunca mais foi visto na redação.


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7 comentários:

Maíra Brito disse...

Genial, Duda.

Alan Bordallo disse...

impressionante, na festa da firma onde trabalho um colega subiu na mesa, mas soltou o gogó ao som de 'i will survive'. só acrescentaria uma coisa: dizem que a festa de fim de ano também é a grande oportunidade de virar esquimó, se é que me entendes

Aline Oliveira disse...

Nossa, muito "A vida como ela é"!! Hoje mesmo, um colega jornalista ligou para confirmar uma pauta no período da manhã e me perguntou: Ei assessora, vai ter coffee break na inauguraçao de hoje? kakakaka, parabéns Duda!

A viajante disse...

Duda, gosto de pão também, mas olhar o circo, à distância, é um prato delicioso...pior momento: o discurso do dono...aff, ninguém merece fala ensaiada e feita pela secretária! Bj

Duda Rangel disse...

Meus caros, jornalista é mesmo doido por uma festinha, principalmente se não tiver que pagar nada pelo pão e pelo circo. Abraços.

Anônimo disse...

Aqui em Belém, a festa da bagaça é da Federação das Indústrias do Pará (FIEPA), que já se tornaram lendárias. Já aconteceu cada coisa por lá. Na primeira, teve gente que dormiu embaixo da árvore de Natal, outro saiu da festa direto pra um hospital, e na manhã seguinte, as pautas saíram tarde, bem tarde, nas redações da cidade. No ano passado, houve farta distribuição de tequila, e este ano, com certeza, muita caipirinha, já que otema é samba. Oremos!!!
Dedé Mesquita (frequentadora assídua das ditas festas, mas sem grande máculas no curículo)

Duda Rangel disse...

Dedé, depois me conte como foi a festança deste ano na FIEPA. Quero os detalhes sórdidos. Abraços.