segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Quis porque quis fazer jornalismo


Depois de muitos anos, duas mães se reencontram num colégio, no dia de votação de uma eleição qualquer.

- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?

- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?

- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?

- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.

- Mas isso é fase, Maria Helena.

- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.

- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.


Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.

- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?

- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.

- Que bom, já é alguma coisa, né?

- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?

- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.

- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...


Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.

- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!

- Sério?

- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?

- É o meu filho, sim.

- Jura?

- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.

- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?

- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.

- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?

- Sério? Coitado...

- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.

- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.

- Nossa, que coisa, né?

- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?

38 comentários:

Sasha Portrait disse...

suhaushau, eu também sonho que um dia a minha mãe diga assim pra alguma amiga dela: "pois eh, a minha filha quis porque quis fazer letras, mas felizmente ela acabou se encontrando nisso. Hoje em dia ela dá aulas para um grupo de pós-doutorado numa universidade e já lançou uns cinco livros, todos de sucesso. Sem falar que ela revolucionou o ensino de escola pública, até hoje ela ensina lá"
e a outra mãe: "Nossa, mas que bom! eu queria que isso tivesse acontecido com a minha filha. Ela quis fazer direito, mas já está fazendo tudo errado lá dentro."

vamos investir nos pequenos grandes sonhos! ;D

Elisângela Valença disse...

kkkkkkkkkkkkkkk
Parece com minha história, com a diferença de eu já sair da faculdade empregada (e graças a Deus nunca ter ficado sem emprego!). Foi um verdadeira guerra em casa, mas logo depois virei 'objeto de exibição' e olha que não sou ninguém no jogo do bicho! Pais, né, fazer o que?!

Gutto Wendler disse...

Por isso que eu continuo "fazendo" jornalismo...hehehe

Parabéns Duda! Show de bola seus textos....

Jéssica Balbino disse...

Morri ! Li isso e tudo e morri. Tenho certeza que meus pais tem conversas como essas com todos pais de ex-coleguinhas meus...hahahhaha
espero que me encontrei tbm, como o Paulinho, viu !
Por enquanto, só blog !
bjo

PS. Parabéns pelos textos, são intensos e verdadeiros. Quem sabe vc tbm não se encontra, através do blog...

Aline Oliveira disse...

Adorei, obrigada Duda, por nos deixar um alento de esperança sobre a profissão ahahaha. Tomara que os colegas sejam mais Paulinhos do que Arturzinhos!!!

Irmãs Conect@das disse...

Adorei o texto, tô nessa onda de blog mas já estou desencantando....Não estou na área, mas sei que vai rolar, não quero deixar as coisas rolar muito solto....Além do jornalismo, vou tentar outras áreas, quem sabe não dou sorte....

Ri muito com o texto.
Abçs
Al~e

TetoSolo disse...

Duda!?

Acordou com o pé direito? é a primeira vez que posta uma crônica falando bem do jornalismo!

É isso ai, vai que um dia minha mãe tb encontra a mãe do arthurzinho.....rsrs

Muito boa a crônica. Mostrou uma luz no fim do tunel para nós, Paulos Henriques....!

Paloma, a mãe disse...

Muito bom! Pelo menos o talento venceu. Confesso que tava morrendo de medo de um final trágico pro nosso colega... ufa!

Clauderlan Vilela disse...

Que texto incrível! Impossível não rir com as comparações e não vibrar com as mudanças... Parabéns!

Priscilla Nery disse...

Adorei! Existe esperança, afinal, para nós, pobres jornalistas! hauah

Rebelc disse...

Plagio! É a minha história, mas só até segundo capítulo. Tenho amigos que se deram muito bem em suas profissões. Quem foram pro exterior fazer cursos e hoje tão com o "burro na sobra". But, eu ainda sonho com essa virada do último capítulo -- claro que sem desejar mal aos meus amigos. :)
Parabéns, mais um grande texto. Pô, to viciado nesse blog;

Janaína Casanova disse...

hahahaha!um final feliz, até que enfim! muito bom, muito bom "Não vai nem mais às aulas de esgrima".. ai, ai!

Letícia Iambasso disse...

Ufa!!!

Estava pensando que seria mais um final "pessimista", mas me enganei.

Parabéns, Duda!

Tatiana Lazzarotto disse...

Eu tabém, achei que ia ser um final trágico, que o Paulinho ia vender o apartamento dos pais pra comprar drogas, algo do gênero. Haha
Até hoje eu acho que meus pais não entendem o que eu realmente faço da vida.

yana disse...

Eu como estudante de jornalismo adorei essa história. Muitos falam que o Jornalismo não dá emprego, mas, é só se dedicar e ter fé que tudo conspira para dar certo!!!


adorei o blog!!

www.daianavlopes.blogspot.com

Ana Karolinni disse...

Eu tenho vivido um dilema enorme na minha vida. Na verdade, acho que todo aluno de jornalismo hora ou outra passa por isso.
O problema é essa velha crença de que: "todo jornalista é pobre."
Me encontro dividida entre a esperança e a realidade.
Na verdade, eu amo muito esta área.
É linda pra mim, sempre vai ser.
Mas sei que o retorno (financeiro) pode demorar um pouco.
E bem, meu pai já não tá mais numa boa idade para trabalhar...
Queria poder ajudar minha família.
E olha se estou assim não é culpa do "desilusões perdidas". (hehe)
Ao contrário, teu blog me fez admirar mais a profissão.
Vou aproveitar bem este período de transição entre este ano e o próximo para repensar minha vida. Como de praste.
Bem, quando estiver decidida volto aqui pra te contar.
Um grande abraço!
Teus textos continuam maravilhosos...
Tô esperando o livro, heim?

Guilherme Zocchio disse...

Só não concordo em dizerem que jornalista não estuda.

Agora, quanto ao fim... só alegria. Trabalho não é só dinheiro não.

Renata Oliveira :D disse...

Nada como confiar no que se gosta.

Gisa Carvalho disse...

Uma graça. Vivo dizendo pra minha mãe que era pra eu ter teimado com ela (faço isso tão bem...) quando ela disse que eu deveria fazer algo q me dixasse feliz, em vez de primar pelo meu possível salário. Obedeci, vim pro Jornalismo, estou no ultimo semestre procurando um estágio... Estou feliz e lisa. Talvez um dia eu ganhe dinheiro! Hahahahha

Dayana Hashim disse...

Duda!?

Acordou com o pé direito? é a primeira vez que posta uma crônica falando bem do jornalismo! [2]

Haha... Confesso que terminei de ler o texto sorrindo! Espero que minha história no futuro seja parecida (com a segunda parte, claro, rs)

Muito bom, como sempre!

Rosalba Moreira disse...

Tá vendo só, o mundo dá voltas..rsrsr. Por essas e outras que não desisto do jornalismo. Adorei o texto, parabéns!

Margarete disse...

olha...um texto otimista...humm...quem diria...hehehe Bjo!

Duda Rangel disse...

Gostaria de fazer um comentário especial para a Ana Karolinni. Dúvidas sobre a carreira a seguir são normais. Não vamos ficar ricos com o jornalismo, mas podemos ter uma vida bacana, com um salário decente e fazendo o que realmente gostamos. É uma área apaixonante. O sucesso depende do esforço de cada um. Não desista, não!
Obrigado a todos pelas mensagens. Acho que fui contaminado pelo espírito de Natal e levado a escrever um texto com final feliz. Mas não se animem muito. Meu otimismo passa rapidinho...
Abraços.

Laura Zschaber disse...

Como sempre, li, ri e adorei o texto! Sou estudante de jornalismo e estagiária de um jornal, e não raro, me deparo com situações semelhantes na redação e no dia a dia, das descritas aqui. Todo jornalista ou estudante já passou por alguma dessas situações ou conhece alguém que já. Além disso, é bom encontrar bom humor em meio ao caos da profissão. Rs.
E, Ana Karolinni, se te consola, estou vivendo um dilema parecido! Um dia, ainda vamos sentar com o Duda pra contar que estamos bem sucedidas, e com certeza vai ser como jornalistas, hein? =)

Ah, Duda, aguardo o livro também, ansiosamente...

Duda Rangel disse...

Oi, Laura, aguardo o futuro convite para o bate-papo. Beijos.

Claudia Costa disse...

Duda, acabei de conhecer seu blog através do #FF da Martha Mendonça no Twitter...Gostei dos posts e acessei o blog. Sou jornalista também ,mas trabalho em Assessoria de Comunicação. Já fui repórter (por apenas 5 anos) e percebi que suas colocações são perfeitas. Dei muita risada. Pense sim em lançar um livro em breve. Certamente será um sucesso! Bjo e boa sorte!

Duda Rangel disse...

Obrigado, Claudia. Seja bem-vinda ao blog. Sucesso pra ti também! Beijos.

Andressa Barros disse...

HaHaHa.

Muito bom. Parece lá em casa. Os amigos do meu pai chegam pra ele e perguntam: -"Eaí, quanto tempo. Como estão as meninas?" -"Ah, a mais velha tá bem. Fez direito. Passou num concurso e hoje é promotora de justiça. Tem casa, carro, marido, filhos, etc." -"E a mais nova?" -"Pois é a mais nova resolveu fazer jornalismo. E agora disse que quer ser fotógrafa. Vamo vê o que vai dar." -"Aaah. Mas é bom também, né?"...
Pena que pela escrita não tem como fazer a entonação da voz. hehehehe
A vida é dura. Abraços.

Pricilla Farina Soares disse...

hahah ótimo! Percebo essas pequenas diferenças nos comentários dos meus pais quando perguntam sobre mim (jornalista) e sobre meu irmão (que faz direito), apesar da constante negação deles.

"Não adianta, eles precisam fazer o que gostam, né?"

Duda Rangel disse...

Andressa e Pricilla, o problema não é só estudar Jornalismo. O problema é estudar Jornalismo e ter um irmão que faz Direito. Beijos e boa sorte!

Sônia Pillon disse...

hahahahaa Chapéu serviu bonito!!!!

Rafaela Lima disse...

A-D-O-R-E-I!!!!

Duda Rangel disse...

Obrigado, Rafaela.

Anônimo disse...

Tomara que a minha mãe seja igual a do Paulo Henrique, um dia ainda vai ter ogulho por eu ter escolhido o jornalismo e quando encontrar nas rodinhas com as amigas, principalmente parentes, possa dizer: essa é a minha filha... adorei o texto, muito bom Duda!!1

Duda Rangel disse...

Valeu, Anônima.

Ana Paula disse...

Duda... só faltou a pergunta da mãe do Arthur: Mas ele não trabalha na TV? ... As pessoas não entendem que o jornalismo tem muita coisa além da TV... Me identifiquei com o texto...
Alias, todos nós jornalistas nos identificamos, certeza!

cary disse...

Rezo para que esse final seja o meu hauahuahua, porque de início parece beeem fictício. :)

Duda Rangel disse...

Valeu, Ana Paula.
Sucesso, Cary.