quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Rápidas lições para fingir ser um jornalista intelectual e descolado


Atenção à primeira dica: jornalistas intelectuais e descolados não vêem TV, ok? Mídia alienante não pega bem. Confessar que você adora o quadro “Minha patroa é um avião”, da Luciana Gimenez, então, pega mal ao cubo. Abra exceção apenas para os telejornais, da CNN ou BBC, afinal você precisa estar bem-informado. Como a proposta destas rápidas lições não é ser um intelectual, apenas fingir ser, você pode destacar também que assiste sempre ao Manhattan Connection. Como viver sem aquelas dicas cool de Nova York?

Quando o assunto é leitura, diga que seus cadernos preferidos do jornal são os de Cultura e Internacional. Decore o nome e a situação política de alguns países da África que ninguém conhece. Critique, sempre que possível, o caderno de Esportes, aquela coisa menor que não agrega nada à sua intelectualidade. Compre revistas cults com nomes esquisitos e ande com elas debaixo do braço. Nem precisa ler. Enaltecer os clássicos russos da literatura e falar mal do Paulo Coelho (mesmo sem nunca tê-lo lido) também é de bom-tom.

Na segunda-feira, elogie um filme iraniano ou um documentário brazuca que você fingirá ter visto no fim de semana, mesmo sabendo que eles são muito chatos. O mesmo serve para espetáculos de dança. Música? Pesquise na web uma banda indie do momento. Da Islândia. Na mesa do bar, discorra sobre o novo álbum, “o mais emblemático e visceral” de todos os dois já lançados, e, claro, fale do cenário musical islandês atual. Se alguém mencionar um tal Luan Santana, franza as sobrancelhas e pergunte “quem é Juan Santana?”.

Viagens internacionais também dão um toque descolado ao jornalista. Mas, por favor, nada de postar no Facebook fotos suas em parques de diversão de Orlando, ok? Londres, que já foi o sonho de consumo de jornalistas pseudo-intelectuais, anda meio caída e cheia daquele povo ilegal dos Brics. Esqueça. Que tal montar um álbum com suas viagens para Berlim ou Copenhague? Antes, claro, pesquise na internet onde fica Copenhague. Como você nunca visitou estas cidades, faça uma montagem. Photoshop existe pra quê? E não se esqueça de postar nas fotos comentários como “gente, Berlim é tudo”, de preferência em alemão.

Ufa, muita informação? Bom, agora que você aprendeu algumas lições de como fingir ser um jornalista bacana, que tal relaxar? Se não tiver ninguém por perto para você ter que se exibir, fique à vontade para ler o caderno de Esportes ou o horóscopo do dia. E uma última coisa: hoje tem Luan Santana na Luciana Gimenez, hein? Imperdível!



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25 comentários:

Mariana Serafini disse...

esses estão em alta ultimamente, hein?

tem também o jornalista saudável e ecologicamente correto. #oiq?

JD - João Damasio disse...

Mas, então... quem é Juan Santana?

Lauro Soares disse...

Impressiona muito também dizer que lê Guimarães Rosa, mesmo sem entender nada de húngaro.

Joyce disse...

Poxa vida, eu elogiei a entrevista do Paulo Coelho no programa da Ana Maria Braga no FB. Dois graves erros para fingir ser um jornalista intelectual e descolado: a Ana Maria e o Paulo Coelho. kkkkkkkkkk

Anderson Morais disse...

Eita que esse texto tem algo em comum com o bate papo do final de semana da turma do #apêdacibercultura em Caruaru - PE.

Bruna Tavares disse...

Porram, tô em Londres e me achando mto cool! #Fail

Eduardo Azeredo disse...

Mas que a cena musical islandesa é excelente não dá pra negar! hahaha

A viajante disse...

Os intelectualóides de carteirinha (da Gucci) me dão asco...argh!

ELIANE SILVESTRE (atriz e poeta) disse...

HAHAHAHAHAHAAHAHAH ótimo!

Margareth Marmori disse...

Gente! Jornalista morando em Copenhague deve então ser o ó do borogodó, não? Eu era (sou) cool e não sabia. Mas ainda não fui (nem pretendo) ir ao NOMA. Que mancada, hein?

Duda Rangel disse...

Eduardo, as lições não são destinadas a quem gosta verdadeiramente da cena musical islandesa, apenas ao que pretendem fingir gostar.
Margareth, se um dia decidir ir ao NOMA, nem pense em pedir pra levar uma quentinha pra casa...rs. Isso não é nada cool.
Abraços a todos.

Anônimo disse...

Faltou colocar Café e Beatles como coisas mais favoritas do mundo nas redes sociais!

JaqueTelis disse...

pior que tem um garoto na minha turma de jornalismo que é desse jeito! rs! ótimo!!!

Mário Braz disse...

E pior que depois desse post os intelectuais que adoravam Globo News vão passar a odiar. Assim mesmo, só porque leram isso aqui. :D

TORRACA disse...

"Abra exceção apenas para os telejornais, da CNN ou BBC, afinal você precisa estar bem-informado." O cara que acha que algum desses grupos merece mais crédito do que uma Globo da vida não faz nem ideia de quem elas são. A CNN sempre foi pró-Washington mesmo quando finge não ser e a BBC de Rupert Murdoch chegou a admitir recentemente seu envolvimento na derrubada de Mohammad Mosaddegh em 1953, no golpe arquitetado pela CIA.

"Quando o assunto é leitura, diga que seus cadernos preferidos do jornal são os de Cultura e Internacional." E aqui está a diferença entre quem vê o mundo por aquilo que ele é e quem acha que faz isso. Jornais não são, nunca foram e provavelmente nunca serão justos em sua cobertura daquilo que acontece fora do país. O cara que me diz que lê assim só me faz rir, na verdade. À propósito, Paulo Coelho é realmente um bolha, mas eu li 7 livros dele antes de chegar a essa conclusão. Aceitá-lo na ABL deve ter sido o precedente para mais tarde dar um prêmio Machado de Assis a um imbecil de um jogador de futebol.


O estereótipo que Duda mostrou ali se enquadra perfeitamente no que eu chamo de intelectualóide. Não adianta me dizer que o cara é "crânio", se ele ainda se preocupa com que colocação o "seu" time vai obter no Campeonato Brasileiro, nem chamá-lo de "gênio" se tudo o que ele lê é ficção do tipo "Game Of Thrones". Dizer que não assiste TV tem um motivo. Não assisto TV porque o que passa por "jornalismo" nela me perturba ao ponto de me irritar, além dos comerciais infinitos e da tentativa constante de lavagem cerebral. Antes de determinar se alguém "deve ou não" ver TV, aconselho ler um pouco sobre Edward Bernais (até rimou). Gente "cult" me dá nojo.

Carla Dias disse...

Pior que sem querer eu descobri que sou realmente cool!!! e o melhor, sem fingir!! hahaha odeio caderno de esportes, quero ir pra Berlin antes de qq outra city, nao assisto TV, meus preferidos sao cultura e internacional, adoro indie e eletroica (faltou dizer q no momento ser cool eh entender de musica eletronica) assisto documentarios mesmo, a primeira vez q minha amiga falou do luan santana eu fiz essa pergunta, quem eh esse ser, ja li muito paulo coelho e aprendi que machado de assis eh bem melhor mto cedo rs bom, apesar disso nao me acho intelectual e odeio esses papos de jornalista de quem sabe mais... o negocio eh ser natural.

Duda Rangel disse...

Mandou bem, Carla! Beijo

Tamyres Matos disse...

Não curto gente que finge, não importa o quê. Mas essa onda atual de exacerbar um "nojo" de quem tem, ou diz ter, preferências culturais e intelectuais consideradas "cult" também me assusta.

Em relação ao BBB, por exemplo, antes era vergonhoso dizer que gostava e assistia. Agora, você deve dizer bem baixinho que acha uma porcaria, porque, se não, vai se configurar em um tipo desprezível de "pseudointelectual" que na verdade está fingindo não gostar do programa.

O problema é se achar melhor do que os outros, agora se alguém quiser ler apenas as citações de Dostoiévski e usá-las no Facebook porque achou interessante, para mim tanto faz. Não me incomoda em nada.

Anônimo disse...

ei, na boa, você exagerou em alguns pontos, não acha? gosto de muitos dessas coisas e das quais você diz não ser "cult".
acho que você é preconceituoso nas duas mãos. deixe as pessoas serem o que quiserem. se isso é pseudo-cult e a pessoa curte, quem é você pra ficar com essa ironia barata? estilo de vida ninguém discute. até mesmo de pseudos qualquer coisa!

Duda Rangel disse...

Anônimo, acho que você não entendeu. O texto não satiriza quem "é", mas quem "finge ser". Abraço procê. :)

Érika Muniz Lins disse...

Lendo esse post, acabei de descobrir que meu professor de filosofia leu antes de mim e aprendeu muuiitooo bem como fingir ser um jornalista intelectual! hahahaa

Stray Cat disse...

kkkk
Eu contei 4 pseudo-intelectuais nos comentários até agora. E o Duda foi esperto por não usar a palavra "Hipster" nesse post, porque aí sim ia ter gente rodando a baiana por aqui

Lilian Costa disse...

Ué, vc tá falando de pseudo jornalista descolados ou de blogayras de muóda??

Danilo Moreira disse...

Parabéns, Duda, você lavou a alma das "Marias Madalenas" do Jornalismo (inclusive homens)kkkk Tem muita gente assim, parece fetiche.

Abraços!

Duda Rangel disse...

Valeu, Danilo. Abraços.