quinta-feira, 23 de julho de 2009
24 horas
Desperto, enfim. No meio da noite. Estou ansioso. Preocupado com a matéria do dia seguinte. Essas pautas malucas acabam com o meu sono.
terça-feira, 21 de julho de 2009
Vamos respeitar, minha gente
Mas o que mais chamou a atenção no ranking brasileiro – alerta feito por um velho amigo – é que os jornalistas aparecem na honrosa quinta colocação (com um nível de confiança de 79%), atrás apenas dos campeões bombeiros (98%), carteiros (90%), médicos (82%) e professores do ensino fundamental e médio (81%). Ainda não garantimos um lugar no pódio ou uma vaga para a Libertadores, mas estamos bem perto. O mais importante é que a pesquisa é um alento para a nossa tão combalida auto-estima.
Com o respeito reconquistado, podemos voltar a preencher o cadastro do crediário das Casas Bahia com o nome de nossa verdadeira profissão e negociar um empréstimo com juros menores com o gerente do banco. Eu, particularmente, já poderei falar para o juiz que trata do litígio com minha ex-mulher que sou, sim, jornalista, e que tenho todas as condições de dar uma vida digna ao Nestor, nosso cão. Agora, ele pode confiar!
Um fato curioso é que, no ranking mundial, os jornalistas aparecem na modesta 12ª colocação, com um nível de confiança de apenas 41%, a metade do índice dos jornalistas brasileiros. Por que será que nós temos um desempenho tão superior ao dos nossos colegas pelo resto do mundo? Será que foi a titia Monique Evans que ajudou a melhorar a nossa imagem?
PS: Os publicitários, nossos primos ricos da comunicação, só inspiram mais confiança do que os políticos no ranking mundial. Estão na zona do rebaixamento moral.
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Conflito de gerações
– Hoje, serei levado a um importante evento, com políticos, artistas, intelectuais. E você?
– Saco, não vê que estou descansando?
– Deve ser triste a solidão deste escritório.
– Quem disse que estou sozinha? Veja aquela estante repleta de livros.
– Seu tempo já passou. O que vale agora é a alta tecnologia.
– É verdade, mas não se gabe só por ter uns recursos diferentes.
– Carrego softwares de todos os tipos, aplicativos, drivers. Tô conectado com a internet. Sabe o que é isso?
– Mas você é passageiro. Eu sou para sempre.
– Uma aposentada que só serve de enfeite.
– Tenho história, meu filho, experiência de vida.
– Em mim, nascem grandes matérias.
– Que morrem no dia seguinte.
– E daí? Pelo menos me sinto vivo.
– Em mim, nasceram grandes obras literárias, que vão durar décadas e décadas.
– Mas é a mim que ele procura todos os dias.
– Por obrigação de um trabalho rotineiro.
– Invejosa!
– É a mim que ele sempre jurou amor verdadeiro.
– É um velho saudosista.
O jornalista entra no escritório, apressado. Pega a bolsa, o celular e o notebook, que, antes de ir embora, olha com desprezo para a máquina de escrever.
– Pobrezinha, que vidinha sem graça ela leva – pensa o notebook.
– Coitado, nem imagina que logo será trocado por um modelo mais compacto, com webcam e bluetooth – pensa a máquina.
quarta-feira, 15 de julho de 2009
Enquete: Zé, titia ou Alemão?
Candidato 1: Zé do Caixão, entrevistador e repórter do programa O Estranho Mundo de Zé do Caixão, do Canal Brasil. Veja um trecho de sua entrevista com Inri Cristo, que, com certeza, entrará para os anais do jornalismo mundial. Notem também sua destreza como repórter (ele segura o microfone com uma mão e o cigarro com a outra) e o pleno domínio da língua portuguesa, com expressões como “sejam bem-vindo”.
http://www.youtube.com/watch?v=J4JXKzIBV6Q
Candidata 2: Titia Monique Evans, repórter do TV Fama, já fez parte de minhas fantasias erótico-juvenis nos idos de 80. Hoje atua como uma conceituada jornalista na conceituada RedeTV!. No vídeo, titia faz uma reportagem (digna de receber um Prêmio Esso) sobre o concurso Mister Gay. Ela faz perguntas instigantes, como “alguma mulher já pôs a mão no seu cofrinho?”.
http://www.youtube.com/watch?v=-65On3OWwxQ
Candidato 3: Diego Alemão, ex-BBB, o cara que se disse apaixonado por uma caipira semi-analfabeta, ganhou a simpatia de milhões de mulheres românticas e, por conta disso, faturou o prêmio máximo do programa. Hoje, para complementar a renda, faz frila de repórter, especializado em Big Brother, único assunto que domina. No vídeo, ele entrevista o casal Max e Fran, um papo tão cabeça que deve ter deixado com inveja o Antônio Abujamra.
http://www.youtube.com/watch?v=kvkcLhHEoSk
PS: Na última enquete – O que você poderia ter feito com a grana usada para comprar o diploma de jornalista? –, a inspiração gastronômica sugerida pelo dotô Gilmar levou os leitores a darem a vitória à alternativa “Teria aplicado num restaurante, onde também seria o chef de cozinha”, com folgados 37% dos votos, bem distante das demais opções.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
A pequena imprensa
No jornal de uma pequena cidade do interior, o diploma de jornalista é, há muitos anos, algo dispensável, e isso bem antes mesmo de qualquer decisão do STF. A coluna social, por exemplo, que mostra as festas bregas do clube freqüentado por uma elite local ainda mais brega, é de responsabilidade da filha do dono do jornal, uma jovenzinha sem qualquer formação, caipira, mas extremamente hype para os padrões da cidade.
Outras colunas existem aos montes, como a do psicólogo amigo do dono do jornal. É ele quem escreve sobre a bipolaridade, esse mal da atualidade, ou sobre a importância de homens e mulheres não medirem esforços para manter um casamento feliz. A cunhada do dono do jornal, que sempre foi uma mulher excêntrica com aqueles seus cabelos loiros esverdeados (para não dizer “esquisita”), comanda a coluna esotérica.
A qualidade editorial é um conceito muito vago. O Português, pobrezinho, é desrespeitado página após página. É bastante comum encontrar uma vírgula se metendo, sem o menor escrúpulo, entre o sujeito e o predicado de um título ou no lead de uma matéria.
O jornal de uma pequena cidade do interior está comprometido com os anunciantes. Se o veterinário comprar um quarto de página da edição da semana ganhará uma matéria bastante elogiosa na edição seguinte, mesmo que ele seja o maior carniceiro da cidade. O dono do jornal é, ao mesmo tempo, o diretor comercial e o diretor de redação, um homem que jamais teve um diploma, mas um faro invejável para os negócios.
Um dia, a jovem que cuida da coluna social herdará o jornal de seu pai, que, por sua vez, já havia herdado do avô da moça. Com alguma sorte e o apoio do comércio local, e se as mídias digitais deixarem, esta história perdurará por mais algumas gerações.
PS: Rabo preso não é exclusividade da pequena imprensa. Que isso fique bem claro!
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Minhas primeiras ilusões
– Como gestor de Media Analysis, você aprenderá a ter uma visão global do impacto da comunicação nos negócios de nossos clientes – prometeu meu primeiro empregador.
Descobri, na prática, que deveria clipar notícias em jornais e revistas e contar os centímetros das matérias. Começava a trabalhar às 3 da manhã, para que os relatórios estivessem prontos na mesa dos clientes quatro horas depois. Me sentia como Chaplin apertando parafusos em Tempos Modernos. No segundo estágio, conquistei o nobre cargo de consultor de Follow up, numa outra agência. Tinha a missão de importunar os jornalistas por telefone, como vendedor de releases. Por isso, pago meus pecados até hoje, agüentando operadores de telemarketing, principalmente os da Telefônica.
Meses depois, com a ajuda de um amigo, fui indicado para uma grande emissora de rádio. Enfim, meu primeiro estágio em redação. Qual seria a vaga? Fiquei sonhando com o dia-a-dia de trabalho. As reportagens, as locuções. Minha voz ficaria famosa. Aguardei, com ansiedade, o dia da minha entrevista com o empregador.
– Prazer, Duda, tenho certeza que você vai adorar sua rotina de rádio-escuta.
terça-feira, 7 de julho de 2009
A coxinha de frango
Sempre que tinha um dia corrido, com pautas pela manhã e logo no começo da tarde, não almoçava no restaurante do jornal. Descia até o boteco ao lado e mandava ver umas coxinhas de frango, versão clássica, é claro. Era tudo muito rápido, não podia perder tempo. Ainda assim aquela coisa breve parecia interminável. Às vezes, conversava com os garçons do balcão, velhos amigos. Lá eu era a “chefia”. Às vezes, comia quieto, observando os outros clientes e imaginando as histórias daquela gente, anônima e estranha, como eu.
A lembrança da coxinha de frango no boteco ao lado é a lembrança de bons tempos: frenéticos, difíceis, mas também saborosos. Foi nesse boteco simples, de azulejos portugueses e uma flâmula da Ilha da Madeira nas paredes, que vivi também memoráveis noites de sexta-feira ao lado de outros jornalistas. Conversas apaixonadas, debates intensos, retrospectiva da semana. Bebíamos quase todas e voltávamos para a redação para fechar o jornal de domingo. Depois, lá pelas quatro horas da manhã, estávamos de novo à mesa, para beber as que tinham faltado para completar todas.
- Seu troco, senhor, seu troco, me disse a tiazinha que vendia coxinhas no parque, com uma moedinha de 50 centavos na mão.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Homem livre
Mas agora estou mais feliz. Ao folhear um jornal encontrado por acaso numa estação do metrô dias atrás, li a notícia de que os brasileiros trabalham em média 132 dias num ano somente para pagar impostos, mais de um terço do ano apenas para engordar os cofres públicos. Perceberam o que isso significa para mim? Sou um homem livre desses tributos. Tive vontade de correr pela plataforma de embarque da estação, beijar bochechas desconhecidas e gritar: “Com o meu desemprego, não dou um mísero centavo para o governo.”
Pelos cálculos do IPEA mostrados na reportagem, em todo o mês de junho, por exemplo, o meu ócio foi destinado a não pagar os benefícios da Previdência Social e as pensões e aposentadorias dos servidores públicos federais. Dediquei outros vinte dias do mês de maio a não amortizar os juros da dívida pública. O meu dolce far niente ainda prejudicou em um dia e meio a distribuição do Bolsa Família. Será que a Dilma vai ficar brava comigo?
A minha viagem de metrô nunca foi tão empolgante. Não conseguia tirar da cabeça a matéria do jornal, os números. Via pessoas apressadas, seguindo para o trabalho. Mal desconfiavam que o árduo esforço do dia seria apenas para custear gastos do governo, talvez as mamatas secretas do Senado. Desci do metrô e caminhei lentamente até uma agência da Caixa para receber a derradeira parcela do meu seguro-desemprego.
- Sabia que você passará a semana inteira, talvez o mês inteiro, trabalhando só para me pagar este benefício?, perguntei à mocinha que me atendeu no guichê.
- Não entendi; o que disse, senhor?
Respondi apenas com um sorriso cruel.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Do outro lado da mureta
Do meu lado, os pobres tinham de se contentar com a comida que depositavam sobre a bandeja. Não havia muita escolha. O pior era ter de dividir a mesa com os peões da gráfica, que viviam com as unhas sujas de tinta e adoravam falar alto enquanto comiam. Não gostava daquela gente sem classe. Eles também me olhavam com desdém. “Só porque tem um diplominha de bosta, se acha melhor do que nós”, deviam pensar de mim.
De minha mesa, ficava contemplando a vida dos abastados no self service. Às vezes, eu sentava bem perto da mureta para descobrir o que estavam comendo ou sentir algum aroma diferente. Muitos dos jornalistas mais importantes da empresa nem olhavam para nós do bandejão. Outros adoravam me sacanear. “Você já provou a bavaroise de papaia ao creme de iogurte e mel? Que delícia!”
Tempos mais tarde, após alguns dissídios e um salário um pouco melhor, decidi conhecer, enfim, o mundo dos ricos. Era uma questão de status perante os amigos, uma forma de provar a mim mesmo que estava tendo, de alguma forma, ascensão profissional. Triste dia em que descobri que a comida de lá era a mesma do bandejão, apenas com o direito de servir-se.
Para a sobremesa, tive de optar entre um potinho de plástico de gelatina, uma laranja já descascada ou uma fatia de melancia. Nunca havia existido porra nenhuma de bavaroise de papaia por lá. Olhei para o lado dos pobres e vi, ao longe, os peões da gráfica. “Come a mesma merda que nós e paga cinco vezes mais caro por isso. Trouxa”, pareciam estar pensando. Esqueci o passado e, com ar superior, voltei à minha mesa. Não via a hora de devorar aquele potinho de gelatina.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Sombras e gargalhadas sádicas
- Uma esmola pro ceguinho, pelo amor de Deus. Pode dar dez centavos, senhor, cinco centavos, o que tiver. Deus vai lhe devolver em dobro.
Eu conheço essa voz. Sim, eu conheço. Chego mais perto e identifico o sujeito. O ceguinho é o Amaral, meu antigo colega de redação, o editor de Economia. Logo ele, um cara fino, de ações sempre nobres, elegantes.
- Amaral, desde quando você é cego, rapaz?
- Duda?! Ô, meu amigo, fala baixo, por favor.
Amaral me conta que, desde que o diploma para os jornalistas perdeu o seu valor, ele e vários outros velhos colegas perderam o emprego, perderam tudo. Ele poderia estar roubando, como me explica, mas preferia pedir ajuda pro ceguinho.
- Triste é o caso do Fonseca, o repórter de Turismo. Lembra dele, Duda? Sem diploma, caiu na marginalidade. Vivia aqui na praça assaltando aposentados até ser preso.
Fico chocado com a história do Fonseca. Depois, o Amaral me revela histórias ainda piores de outros amigos, que fazem de tudo para sobreviver num mundo sem diploma, gente vendendo DVD pirata nas ruas, vendendo o corpo, a alma.
Minha cabeça começa a girar e, de repente, não estou mais naquela praça triste. Estou agora num grande campo aberto, um gramado imenso e bonito. Vejo os ministros do STF felizes. Eles pulam, riem, viram cambalhotas, como crianças ou loucos de um sanatório. Gilmar Mendes saltita de mãos dadas com o Daniel Dantas. De repente, quem aparece? O office-boy que roubou a minha mulher! Sádico e cheio de soberba, ele gargalha e me mostra um diploma do curso de farramenteiro do Senai. “O meu vale, o seu, não; o meu vale, o seu, não.”
Acordo assustado, suado, cheio de tremedeiras.
- Filhos-da-puta!
sexta-feira, 26 de junho de 2009
Meu caro diploma
Vamos considerar, apenas para efeito de cálculo, que a mensalidade de um curso de jornalismo custe 800 reais. Em um ano, um estudante gastaria 8 mil reais (10 mensalidades). Em quatro anos, esta facada subiria para 32 mil, sem contar gastos com transporte, alimentação, livros e cachaça (mais uns 5 mil reais). Tudo isso para conquistar o precioso diploma.
É certo que, além do canudo, o aluno adquire conhecimentos para toda a vida. Eu, por exemplo, aprendi a jogar truco e nunca mais esqueci. Mas, cá entre nós, 37 mil reais por um pedaço de papel que não vale mais nada é coisa pra cacete. Então fica a pergunta: o que você teria feito com a grana investida no diploma? A nova enquete está no ar. Custa nada participar!
A pesquisa que acabou de ser encerrada – Você acha que um jabá pode corromper um jornalista? – teve como grande vitoriosa a alternativa “Não. Acredito na ética, apesar de ganhar um salário de merda”, com 41% dos votos. Isso não significa, porém, que estes jornalistas cheios de nobres intenções recusem o presentinho. Apenas não deixarão que o mimo influencie no texto final, quer dizer, acho que não deixarão, sei lá, mil coisas...
quarta-feira, 24 de junho de 2009
Pobre, mas limpinho

Meio século depois, é possível encontrar Marcellos aos montes por aí. Como tem jornalista que adora bajular uma atriz famosa ou uma estrela do futebol. Parece que, por um momento, deixam toda a sua insignificância de lado e se tornam importantes. A Via Veneto de Fellini, cheia de celebridades, são hoje as boates badaladas de Rio e São Paulo, o Projac, a porta das igrejas em dia de casamento de gente distinta como o Roberto Justus.
Ser amigo de um famoso pode garantir aos jornalistas algumas facilidades, como entrar em uma festa reservada a poucos ou o acesso a um camarote vip. Já vi repórter esportivo se aproveitar de um suposto bom relacionamento com um jogador de futebol para pedir dinheiro emprestado. Ou para ir a baladas com os boleiros só para impressionar as marias-chuteiras.
Sou um jornalista miserável, sim, do que tipo que aluga DVDs de catálogo, mas mantenho a minha dignidade intacta. Isso significa dizer que jamais precisarei elogiar o “corpinho” da Susana Vieira só para ficar amigo de tal senhora. Deus me livre um dia ser amigo de tal senhora. Sou pobre, mas sou limpinho.
segunda-feira, 22 de junho de 2009
Domingo eu quero ver o domingo acabar
9:30: Vejo a foto do Nestor no porta-retratos ao lado de minha cama. Era o meu fim de semana com ele, mas a ex viajou e levou o pobrezinho junto. O juiz saberá disso.
10:15: Café da manhã na padoca. O pedido de sempre: pão na chapa e um pingado.
10:53: Compro jornais do dia na banca e sigo de volta ao meu apê.
11:15: Deitado no sofá, descubro novos atos secretos, novas fraudes e novas picaretagens em geral no Senado: e eu fazendo mau juízo do Irã.
12:00: Um amigo me telefona, conversamos um monte de besteira. Ele me lembra que a Telefônica está proibida de vender o Speedy. Morremos de rir.
13:30: Esquento, no microondas, um resto de lasanha perdido na geladeira há uns três ou quatro dias. Rezo para que o rango não me faça mal.
14:00: Queria ir ao cinema, gastando pouco naturalmente (algo como um ciclo de filmes poloneses a R$ 2 o ingresso), mas estou indisposto. Decido ficar em casa. Procuro um sal de fruta Eno.
15:10: Corro ao banheiro desesperadamente. Lasanha maldita.
15:12: Sentado no trono, jogo sudoku em meu celular, para aliviar a tensão.
15:30: Bem, amigos da Rede Globo! Me preparo para assistir a Brasil versus Itália em todas as suas emoções, grande clássico do futebol mundial.
15:40: Zzzzzzzzzzzzzzzzz...
18:00: Acordo assustado. Perdi o jogo. O Brasil já não me empolga mais. Caraca, como a camisa do Faustão é feia!
18:12: Corro para o banheiro. Nunca mais como resto de lasanha perdido há uns três ou quatro dias na geladeira.
18:14: Sentado no trono, lembro o nome da mulher que poderia ter roubado os meus rins: Rita, dona de uma loja de roupas íntimas num shopping. Ou será que ela era vendedora?
19:00: Vejo o meu diploma de jornalista pendurado na parede do quarto: descanse em paz, meu amigo.
19:15: Tomo três comprimidos de Floratil 200 de uma única vez para tentar salvar minha noite. Reboco até a alma.
20:25: Não estou com saco de ler livros hoje. Checo os e-mails.
21:30: Vejo o reality show A Fazenda: quem é Theo Becker?
22:00: Desligo a TV e fico ouvindo música, de bobeira. Faço um monte de reflexões e decido que preciso me alimentar melhor. Vou começar a cozinhar, afinal jornalistas devem saber cozinhar. Tomo um banho.
23:56: Deitado em minha cama, tento dormir, mas não consigo. Lembrei: Rita, a que não roubou os meus rins, é a vendedora de Herba Life. Quem é a mulher do shopping mesmo?
quinta-feira, 18 de junho de 2009
Diploma, ascensão e queda
A única certeza que tenho é que, a partir de hoje, serei cozinheiro profissional, inspirado nas sábias palavras do Gilmar Mendes. Sem diploma, é claro. Aliás, alguém pode me ensinar aquela técnica de cortar legumes de uma forma bem rapidinha?
segunda-feira, 15 de junho de 2009
A minha retrospectiva
Era o despertar de um jornalista. Ao longo do ano, eu guardava jornais e revistas com informações sobre o Brasil e o mundo – nessa época, não havia descoberto ainda a Playboy, a Ele&Ela e as preciosidades suecas. Lia tudo o que podia, selecionava os fatos mais importantes, definia a pauta do programa, editava os textos e redigia as laudas para leitura. Tudo isso muitos anos antes de aprender jornalismo na faculdade. Me preparava para o grande dia: a apresentação da minha retrospectiva, que podia ser feita em qualquer parte da casa, desde que existisse uma mesa para ser a bancada.
Eu usava o paletó de um terno emprestado de meu pai, gigante para mim. Na parte de baixo, apenas bermuda e chinelos, afinal era assim que diziam que trabalhavam os apresentadores de TV. Adotei óculos, para dar mais seriedade ao trabalho. Não havia câmeras na minha frente; apenas uma platéia, ao vivo, composta por parentes e alguns amigos da família. Gente que fazia o maior esforço para estar ali.
– Esse menino diz que seu sonho é ser jornalista. Isso é coisa de vagabundo! Ele não quer é estudar – murmurava uma tia solteirona, pelos cantos da casa.
Um dos meus maiores apoiadores era meu avô, que se dizia um visionário.
– Esse moleque ainda vai ser um jornalista famoso, trabalhar na Globo e comer toda a mulherada.
Como ele vibrava com o meu “boa noite” na abertura de cada edição do resumão de notícias, ano após ano. Para mim, aquele era também um momento mágico.
Aos poucos, a platéia e o meu desejo de apresentar retrospectivas foram diminuindo. Com o crescimento dos pêlos no saco, meus interesses de fim de ano mudaram. O programa acabou, mas mantive viva a paixão pelo jornalismo, com a esperança de um dia cumprir a profecia do vovô.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Em busca do feriado perdido
Ah, quantos Natais eu já passei numa redação. Quantos plantões de carnaval. Tem quem goste, é claro, mas eu odiei cobrir certa vez o desfile no sambódromo. Era um foca, louco para estar na praia com os amigos, mas tive de ficar na avenida, entrevistando populares ensandecidos, aquele barulho desgraçado, um cheiro insuportável de mijo na dispersão. Trabalhar no carnaval é um porre. E eu que, quando criança, sonhava em cobrir, algum dia, o concurso A Mais Bela Mulher Casada, no Ilha Porchat.
Nas redações, a definição de quem trabalha e de quem folga nos feriados é uma verdadeira batalha. Escalas e mais escalas, privilégios para uns, reclamações dos outros. Cansei de ouvir e dizer frases do tipo “já fiz plantão no carnaval, meu amigo, nem fodendo que eu vou trabalhar na Páscoa” ou “o problema é teu se você não vê a tua querida mãezinha há cinco anos; eu vou folgar no Natal e ponto final”.
Hoje, todos os dias são feriados para mim, mas o feriado desta semana, de Corpus Christi, será especial, porque terei quatro dias com o Nestor. Estou com a maior saudade daquele cachorro danado. Se o frio continuar, vamos passar todos os dias debaixo do edredom, comendo pipoca e vendo uns filminhos. O Nestor adora uns filminhos.
Aos amigos jornalistas que vão trabalhar no feriadão, muita paciência e a fé de que nenhuma tragédia vai acontecer, ninguém famoso morrerá. Descansarei por vocês!
segunda-feira, 8 de junho de 2009
As agruras de um assessor
A opção "Ser obrigado a conquistar uma puta matéria, de página inteira ou na Globo, mesmo sem ter um puta assunto para divulgar" venceu, com 43% dos votos. Na segunda colocação, bem coladinha, ficou a alternativa "Reunir uma galera numa coletiva sem graça, sem coffee break, numa manhã de chuva", com 39%. Como comentou uma leitora aqui neste blog, coletiva que bomba só no cinema ou na novela Celebridade.
A nova enquete, que já está no ar, quer saber se o jabá, aquele famoso presentinho que os jornalistas ganham de vez em quando, é um inocente mimo ou um eficaz meio de sedução ou corrupção. Bons votos a todos.
sexta-feira, 5 de junho de 2009
Sobre desgraças e cervejas
Dias atrás, uma amiga e leitora me enviou uma matéria sobre o fim da Gazeta Mercantil. Sexta-feira, dia 29 de maio, circulou sua última edição. Nelson Tanure, dono da CBM, uma espécie de Lex Luthor tupiniquim, decidiu romper o contrato pelo uso da marca Gazeta Mercantil. Os jornalistas ganharam férias coletivas e a promessa de que receberão todos os seus direitos. Alguns ainda podem ser aproveitados em outras publicações de Tanure. É óbvio que os jornalistas acreditaram na promessa assim como acreditam no Papai Noel.
Mas o que mais chamou a atenção na tal matéria, da Folha de S.Paulo, se não me engano, foi o seguinte trecho: Apesar de acreditarem ser difícil a volta da publicação, os funcionários tentaram evitar o clima pesado no último dia. Após o fechamento da última edição do jornal, na noite de quinta (dia 28), houve cervejada na redação. Segundo jornalistas, o clima era de "dever cumprido e cabeça erguida”.
Isso que é despedida honrosa: encher a cara de cerveja.
Além do dever cumprido, eles devem ter celebrado também a libertação de Tanure. Ou a capacidade desenvolvida ao longo dos anos de enfrentar tanta coisa ruim. Com o tempo, nós, jornalistas, criamos anticorpos poderosíssimos contra desgraças em geral!
quarta-feira, 3 de junho de 2009
E depois criticam a mãe Dinah
A falta de informação aliada à necessidade de furar a concorrência é uma mistura desastrosa. Choveu especialista comentando o que ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Hipóteses aqui, suspeitas ali, análises vazias acolá. Um jogo de adivinhações. A princípio, um raio poderia ter sido a causa principal da “queda”. Horas mais tarde, essa versão passou a ser absurda. Já falaram em pane elétrica, zona de convergência intertropical, turbulência, bomba. Daqui a pouco a culpa será do Dunga. Depois criticam quando a mãe Dinah fala alguma besteira.
É fato que, no primeiro dia da cobertura, era mais fácil encontrar um político honesto em Brasília do que algum dado oficial sobre a tragédia. Nessas horas, o problema para o jornalista é ter a obrigação de informar o público a todo o momento sem ter nada de novo para acrescentar. Vira um vale-tudo danado. Alguns coleguinhas chegaram a matar 80 brasileiros; depois este número caiu para 59, 58. Jornalista é ruim de matemática mesmo!
A carga de dramaticidade também é proporcional ao tamanho da tragédia. O desespero dos familiares em busca de notícias nos aeroportos, por exemplo, sempre foi um prato cheio para os urubus de plantão, principalmente de programas sensacionalistas. A Air France, pelo menos, reservou uma área especial para receber parentes e amigos dos passageiros e não deixá-los tão expostos. Bem, podem meter o pau na imprensa, mas o público também adora se deliciar com todos os detalhes da desgraça alheia. Coisa de ser humano.
E como não poderia ser diferente, a partir de agora vão pipocar as matérias sobre segurança nos vôos, o papel das autoridades, a responsabilidade das empresas aéreas e aquele blablablá todo que já conhecemos. Depois, a gente esquece a tragédia e tudo volta ao normal, sem soluções para os problemas. A vida e a pauta diária seguem. Até a queda do próximo avião.
segunda-feira, 1 de junho de 2009
O plano B, o C, o D...
O jovem, confuso, às vésperas de prestar o vestibular, acaba de deixar o encontro de orientação vocacional do colégio. “Se nada der certo, eu viro hippie”, pensa. Na semana seguinte, após conversar com uma psicóloga sobre o mesmo assunto, faz nova reflexão: “Se nada der certo, inclusive ser hippie, eu viro jornalista”. Dias depois, já mais seguro de seu futuro, decide que quer mesmo um curso de jornalismo. Na vida, teremos sempre um plano B ou C ou D. Se nada der certo, inclusive ser hippie e jornalista, esse jovem, que já não será mais tão jovem, ainda poderá virar professor de jornalismo.
Ser professor de jornalismo hoje em dia tem sido a salvação para muita gente. Se faltam empregos nas redações, invadimos as assessorias de imprensa; se faltam empregos nas assessorias, invadimos as universidades. Ser professor de jornalismo é mais um campo profissional ou um complemento de renda. Alguns mais jovens terminam a graduação e já vão fazer um mestrado, porque, assim, terão mais chance em uma carreira docente.
Eu mesmo, jornalista desempregado, já pensei algumas vezes em dar aula. Seria um ótimo professor? Talvez sim. Ou prestaria um grande desserviço ao ensino superior brasileiro. Abaixo, transcrevo um cruel embate que rolou recentemente em minha consciência, entre um Duda que quer ser professor e um Duda que acha a idéia a maior roubada.
Duda que quer ser professor: O lance é dar aula, cara! Imagine a grande oportunidade que nós teremos de transmitir conhecimento aos jovens. Isso é o que vale a pena na vida!
Duda que não quer: Mas como? Numa sala de 80 alunos? Ninguém vai nos ouvir...
Duda que quer: Se metade ouvir já estará ótimo. Você não percebe a nobreza da missão?
Duda que não quer: Metade vai estar ouvindo música num Ipod durante a nossa aula! E a outra metade, sei lá...
Duda que quer: Tá bom. Então esqueça o lance nobre da coisa e sejamos práticos. Há quanto tempo estamos em atraso com as contas da luz e da água? E o aluguel?
Duda que não quer: Mas você acha que vamos ganhar muito dinheiro como professor? Pagam uma miséria! E, além disso, não temos nem mestrado.
Duda que quer: Tem um monte de faculdade que não exige mestrado. Até preferem, sabia?
Duda que não quer: Não vamos dar aula. A verdade é que não gostamos disso.
Duda que quer: Você não gosta. Fale apenas por você!
Duda que não quer: Tá bom, eu não gosto.
Alguns segundos de silêncio...
Duda que quer: E as menininhas? Nem pelas menininhas? Imagine quantas assistiriam às nossas aulas, ávidas por aprender jornalismo e algo mais...
Duda que não quer: (riso sarcástico) Estamos velhos, estamos velhos!
Duda que quer: Viado! E falo apenas de você, é claro!