terça-feira, 22 de setembro de 2009
Curso rápido de jornalismo para idiotas
O texto acima é a abertura de uma matéria do Comunique-se, publicada dias atrás e assinada por Sérgio Matsuura. Como sou um sujeito curioso, resolvi buscar mais detalhes do curso na página da empresa na web e me deparei com os tópicos principais das aulas (que são mais de 20). Há um pouco de tudo, desde “Criando uma Agenda de Fontes” a “Ganhando dinheiro no ramo de Jornalismo On-Line”. Os pré-requisitos para o curso: NENHUM. Acho que até o Nestor poderia fazer a sua matrícula.
Sempre acreditei que um curso de quatro anos é muito tempo para estudar jornalismo. Eu, por exemplo, passei metade do meu curso no boteco ou tentando comer as gostosas que estudavam Publicidade. Mas um curso de 45 horas também é uma piada. E de mau gosto. Daqui a pouco, vai ter escola divulgando o método Sleeping Learning. Aprenda jornalismo dormindo! Será que dá para sonhar com um lead perfeito ou um texto redondinho?
Outro aspecto pitoresco desta história do curso em 45 horas é a capacidade do brasileiro de se adaptar às novas regras para ganhar dinheiro fácil. É tudo uma questão de oportunidade. Não duvido que vai ter um monte de mané pagando quarenta paus para se tornar um “cyber repórter de sucesso”. E a empresa vai se dar bem. Por que eu nunca tenho essas sacadas geniais de negócio? Definitivamente, não sei ganhar dinheiro. Ou seja, sou um autêntico jornalista!
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
O velório
- Era um excelente jornalista, mas sempre se achou o único repórter capaz de fazer a cobertura policial, afirmou Carlão.
- Como se gabava ao dizer que era amigo de delegados, que tinha entrevistado os criminosos mais perigosos, emendou Jurandir.
- Contava que recebia ameaças de morte só para ter privilégios do jornal, completou Pedrosa.
Almeida ficou pálido, mais do que já estava. Então era essa a imagem que os colegas tinham dele? Para falar mal, que ficassem em casa. Ou no jornal, com suas pautas ordinárias. Tinham, sim, inveja de seu faro apurado, de suas fontes secretas, dos inúmeros furos, do sucesso com as mulheres.
- Era um conquistador barato, lembrou Ritinha. Diziam que, quando bebia então, não dava no couro.
Aí já era demais. Não respeitavam nem um defunto. Por que tanto rancor? Cansado, Almeida desejava virar para o lado e colocar um algodão também nos ouvidos, antes que chegassem ao velório seu chefe e sua ex-mulher. Nessas horas, o melhor a fazer é descansar em paz.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Engarrafados
A rádio, embora preste um importante serviço jornalístico, me deixa deprimido toda vez que a escuto. É só desgraça. Caminhão quebrado na Bandeirantes, pontos de alagamento nas Marginais, acidente com curiosos na zona leste, algum protesto bloqueando a Paulista. Os ouvintes também participam, por gravações de voz ou torpedos. Competem para saber quem tem a pior história para contar. Isso que é jornalismo colaborativo.
Os repórteres da rádio dão dicas de rotas alternativas, mas nem sempre é possível escapar do caos. O negócio é ter paciência, uma virtude que desconheço. Nessas horas, não sei o que é pior: ouvir aquelas buzinas insuportáveis dos motoboys ou respirar o escapamento dos caminhões. Eu também detesto a sensação de ser observado pelos motoristas ao lado. Não se pode mais falar sozinho em voz alta ou retirar uma catota do nariz em paz.
O tempo passa, e minha ansiedade aumenta. Por que não fui de transporte público? Seria melhor? Olho o relógio e o marcador da temperatura de meu carro, que começa a subir. Só falta meu velho companheiro me deixar na mão agora! O apresentador da rádio tenta amenizar o sofrimento dos ouvintes com seu bom humor e curiosidades da metrópole.
– Vocês sabem por que o complexo do Cebolão, na ligação dos rios Tietê e Pinheiros, leva este nome? Porque suas várias pontes, umas sobre as outras, são como camadas de uma cebola.
Desligo o rádio. O que me resta é rezar. Do meu carro popular, sem ar-condicionado, surge uma fumaça estranha. Um cheirinho de churrasco. Acho que terei de atrasar o aluguel do meu apê de novo. Culpa do trânsito!
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
O sanatório – parte 2
Começou a ficar com fama ruim na redação, mas não deixou de ser um grande jornalista e nem perdeu o meu respeito. E, agora, após muito tempo sem notícias suas, soube que estava no sanatório. O enfermeiro me contou que ele era um dos pacientes mais agitados e, por esta razão, era sedado vez ou outra. Nosso reencontro foi emocionante, ele chorou muito quando me viu.
- Fiquei sabendo que você é o agitador do pedaço, brinquei. Continua fazendo muita bagunça, como nos velhos tempos?
- Duda, estou com um problema sério aqui.
- Problema sério?
- Tenho um plano de fuga sensacional, arquitetado há meses. Coisa de profissional, sabe? Mas os outros internos querem roubar minha idéia. É muito triste isso.
Meu amigo tinha razão. O lugar era muito triste. Mas também era fascinante. Aquela gente toda, aquelas neuroses, tudo era muito familiar para mim.
Ficou tarde e fui obrigado a dormir no sanatório. Partiria bem cedo no dia seguinte. À noite, tive uma longa conversa com o enfermeiro, que me deu detalhes sobre as demências mais comuns dos jornalistas. Era impressionante como ele conhecia o nosso mundo! Contei a ele sobre a minha carreira, sobre minha vida e tudo mais, e ele me ouviu com paciência. Antes de ir para cama, o enfermeiro me desejou bons sonhos e despediu-se.
- Quem sabe o doutor ainda não volta pra cá no futuro para passar mais tempo com a gente?
terça-feira, 8 de setembro de 2009
O sanatório – parte 1
Notei um homem de barba e cabelos longos sentado no chão. Embora devesse receber cuidados, estava em um estado deplorável. Lembrava um mendigo. Pegava sujeira dos cabelos e colocava na boca. Me olhava de um jeito agressivo. Foi então que um outro maluco, com uma aparência até elegante, aproximou-se. Sorriu, sentou-se ao meu lado e puxou assunto. Logo de cara disse que não era louco, que não deveria estar ali.
- Fui um dos jornalistas mais premiados de minha geração, sabia? Ganhei prêmios Esso e outros mais. Pode perguntar a qualquer um aqui. Sou o mais respeitado dessa espelunca.
Meu amigo ainda dormia. Será que recebeu uma dose cavalar de sedativo? O premiado jornalista, que se apresentou como Ernesto, não parava de falar, de contar suas glórias, sua trajetória de sucesso. Um enfermeiro me chamou para entrar. Finalmente.
- Nossa, o Ernesto fala demais, brinquei com o enfermeiro. Me contou todos os seus prêmios, falou das cerimônias de entrega, dos discursos de agradecimento...
- O Ernesto nunca ganhou prêmio, doutor, respondeu o enfermeiro. Aqui, tem um monte de ex-jornalista que nunca ganhou nada, mas fala que ganhou. Eram obcecados por isso.
Ri, meio sem graça.
- O único que ganhou um Esso aqui foi aquele sentado no chão – e apontou para o louco com a aparência deplorável, o que parecia um mendigo. Foi um fotógrafo e tanto, mas a cocaína acabou com ele. Perdeu família, dinheiro, o juízo, e acabou aqui, abandonado.
Suspirei. E voltei o meu olhar novamente ao homem que comia sujeiras do cabelo.
- Vamos lá, doutor, prosseguiu o enfermeiro. Seu amigo já acordou.
Continua no próximo post...
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Ricardão, o mais temido pelos jornalistas
Com 38% dos votos, o Ricardão foi visto como a maior ameaça aos jornalistas, superando adversários temidos, como um terrorista árabe, um corintiano e um parlamentar picareta (desculpem-me pelo pleonasmo).
Eu sou testemunha do poder do Ricardão. Subestimei o sujeito e, quando menos esperava, lá estava ele com a minha mulher e meus chinelos novos. Porra, não podia ao menos ter pegado os chinelos velhos? Mas agora não adianta chorar. Atenção, meus caros! Eis uma informação útil a quem trabalha até tarde nas redações ou assessorias de imprensa. E informação é tudo hoje.
A próxima pesquisa, já no ar, quer saber qual a maior saia-justa que pode enfrentar um apresentador de telejornal. Um teleprompter que não funciona? Uma matéria que não entra? Um entrevistado chato que não pára de falar? Ou uma crise de riso durante o programa? Bons votos!
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
O barbeiro demoníaco da Rua Cruzeiro
No salão do João, na Rua Cruzeiro, espécie de “sebo” também, eu resgato a leitura de umas revistas Playboy bem antigas e fico sabendo de todas as fofocas da vizinhança. O barbeiro, mesmo sem diploma de jornalista, sempre dá seus furos. Por ele, descobri que a filha do dentista engravidou do mecânico da esquina. Que seu Vitório, o velhinho que aluga o apê para mim, é viciado em Viagra com Coca-Cola. João não poupa ninguém.
Barbeiro, assim como taxista e aposentado, também tem opinião para tudo. Analisa cenários, faz previsões. João é comentarista de política: “Duda, ouvi dizer que o Lula vai dar o golpe e tentar o terceiro mandato”. João é comentarista de Esportes: “Se o Dunga não convocar o Ronaldo para a Copa, a gente não passa das oitavas”. João é comentarista do mundo do entretenimento. “Tô dizendo que esse Michael Jackson não morreu. Deve estar escondido na mesma cabana do Belchior no Uruguai”.
Minha ex-mulher sempre pedia para eu mudar o corte de cabelo, para algo mais moderno, num “centro de estética bacana”, mas nunca abri mão do salão do João. Sentado em sua velha poltrona de couro, em frente a um espelho com rachaduras e uma pequena televisão pendurada no teto, tenho informação e diversão. Só lamentei o dia em que o desgraçado espalhou pelo bairro que minha ex havia me trocado por um office-boy saradão, com a metade de sua idade. Barbeiro filho-da-puta!
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Um assessor de imprensa, muitas contas
Sem emprego em redação, o jovem jornalista vira assessor de imprensa. É contratado por uma agência para "coordenar" o núcleo de Saúde e Bem-Estar. São apenas duas contas - uma sociedade médica na área de urologia e um spa modernex do interior de São Paulo. Está feliz.
Duas semanas depois, assume mais dois clientes, de outros segmentos – um escritório de advocacia e uma agência de turismo. Mas não era para coordenar o núcleo de Saúde? Já não está tão feliz. No fim do primeiro mês, passa a atender também a associação de moradores de uma favela da Brasilândia, na capital (trabalho voluntário da agência). Começa a ficar de saco cheio.
O ritmo é frenético. Escreve vários releases por dia, muitas vezes, sem ter nada interessante para contar. Reuniões chatérrimas com clientes, cobranças do chefe, jantares com jornalistas, entregas de jabá, campanhas de divulgação, eventos, e-mails pra cá, telefonemas pra lá, o maldito follow up. O seu mailing de contatos da imprensa mais parece uma lista de músicas de cantor de churrascaria: tem de tudo. Em dois meses de trabalho, o saco está prestes a explodir.
A vida seria melhor numa redação? Quem disse que assessor tem vida boa, com horário para entrar e sair e folga de fim de semana? Mas o grande problema é quando tanta informação, de variadas fontes, começa a perturbar a mente do jovem jornalista. Ele precisa saber de tudo, da avançada técnica russa de emagrecimento do spa ao novo pacote Índia Maravilhosa da agência de turismo. Está quase ficando louco.
- Por favor, você pode me confirmar quando será o simpósio Urologia e a Saúde do Homem Moderno?, pergunta um jornalista, ao telefone.
- Dia 17.
- Mas dia 17 é domingo. Tem certeza?
- Opa, desculpa, fiz confusão. Domingo é a final do concurso Garota da Laje na Brasilândia. O simpósio é no dia 27.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
A felicidade nas pequenas coisas
Ontem, eu li um pouco mais sobre o Michael Jackson, um cara que conquistou dinheiro e fama. Mas tinha uma vida de merda. Sim, uma vida de merda, porque é assim que se define a existência de alguém que suplica todos os dias a um médico a aplicação de anestésicos fortíssimos. É muito triste ter de viver sedado para não sentir as dores do corpo e da mente. E eu aqui reclamando de ter me tornado apenas um pobre anônimo. E corno.
Comecei a perceber quanta coisa boa eu vivi na minha carreira de jornalista, mesmo sem ganhar dinheiro e fama. O tesão do jovem Duda ao ver sua primeira matéria assinada não tem preço. A primeira matéria assinada na capa do jornal então me garantiu orgasmos múltiplos. Era delicioso conquistar, após meses, uma entrevista com alguém que não queria falar com jornalistas, mas que acabava falando comigo só para eu parar de encher o saco.
Como eu ficava feliz ao ver um caderno especial feito com tanto carinho e por tanto tempo enfim impresso nas minhas mãos. Como eu ficava feliz ao ouvir a estagiária gostosa dizer que a minha matéria do domingo estava ótima, quando eu achava que estava apenas boa. Como eu ficava feliz ao ter um fim de semana de folga depois de duas semanas trabalhando sem descanso. Como eu ficava feliz ao ganhar um jabá, mesmo que fosse um vinho barato para celebrar o Natal.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Televisão verdade
Ao ver o global Profissão Repórter da semana passada, sobre a vida em presídios, me lembrei do Documento Especial, jornalístico que ganhou fama a partir de 1989 na TV Manchete. O programa abordava, com irreverência carioca e de forma bem crua, temas polêmicos, como violência, sexo, drogas, sexo, religião e... sexo. Tinha uma edição tosca, mas foi um caso de sucesso de jornalismo investigativo. A apresentação era de Roberto Maya (foto), conhecido também por suas atuações em clássicos do cinema erótico nacional.Uns amigos mais abastados, que têm TV por assinatura em casa, me disseram que o Documento Especial é reapresentado, há algum tempo, no Canal Brasil. Vasculhei no YouTube e encontrei algumas pérolas, como o episódio “Os pobres vão à praia”, considerado pelo antigo diretor do programa, Nelson Hoineff, o mais significativo de todos. A reportagem mostra um grupo de pessoas do subúrbio carioca barbarizando nas praias da zona sul. São cenas de baixaria total. Hoje em dia na TV, algo semelhante só nas sessões do Senado.
Em outro episódio, “Profissão: prostituto”, o programa apresentou, pela primeira vez na televisão, a Noite dos Leopardos, show de strip-tease masculino na Galeria Alaska, reduto gay do Rio. Revelou também como jovens desempregados e sem rumo na vida (talvez algum jornalista estivesse por lá) decidem vender o corpo para conseguir uns trocados.
Chamado de “televisão verdade”, o Documento Especial era uma espécie de reality show da TV brasileira de 20 anos atrás. Com uma vantagem: sem Kleber Bambam e Diego Alemão. Um prato cheio para quem gosta de jornalismo e do lado B da vida.
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Campanha Jornalista Esperança
Para doar um emprego na modalidade pessoa jurídica (sem aquela bobagem de direitos trabalhistas), ligue 0500-2009-502.
Para doar um super-mega-hiper emprego com carteira assinada, ligue 0500-2009-503.
A doação é depositada diretamente na conta do Duda Rangel.
Sua participação é muito importante!
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Confissões de um jornalista
– Padre, fiz uma matéria que acabou com a reputação de um homem. Só porque ele é contrário ao partido apoiado pelo jornal em que trabalho. Não concordei, mas fui obrigado pelo meu chefe.
– Engolimos sapos para manter o emprego, meu filho. Você só cumpriu ordens e sente culpa por isso. Reze dez ave-marias.
– Padre, tem uma outra coisa. Numa recente viagem de trabalho, todos os meus colegas falsificaram umas notas fiscais para ter um reembolso melhor. Eu não podia furar com eles. Colocamos tudo na conta do táxi. Ganho um salário de fome, sem hora extra...
– A vida está dura, meu filho. Reze mais dez ave-marias.
– Obrigado, padre, me sinto mais aliviado agora.
– Vá com Deus, meu filho. Mas não se esqueça de pagar sua contribuição para a manutenção da igreja, que anda meio atrasada.
Com todas as contas acertadas, Junqueira seguiu para a redação, onde teria um dia de muito trabalho. Encontraria também a estagiária do caderno de Economia, uma daquelas jovens ambiciosas que adoram homens de terno e gravata. Casado, o repórter sentia-se culpado pela idéia de ceder às provocações da garota, que o estava deixando maluco. Será que queimaria mesmo no inferno? Bem que o padre alertou: a vida está dura.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
A arte jornalística de viajar de graça
Nos meus tempos de redação, o pessoal do caderno de Turismo distribuía, com freqüência, viagens para repórteres de outras editorias. Já que não existia um plano de carreira, viajar era, ao menos, uma forma de recompensar os jornalistas pela ralação do dia-a-dia. Rolava uma disputa pelos melhores roteiros. Viajar era bom; para um lugar legal, melhor ainda.
Lembro-me até hoje do meu primeiro convite de viagem. O responsável pelo caderno de Turismo me chamou para um café. O grande momento havia chegado. Era foca e, nessa condição, não dava para contar com um destino maravilhoso, mas, como sonhar nunca custou nada, me imaginei em uma praia paradisíaca do Nordeste, num hotel bacana.
- Duda, teu editor te indicou para uma viagem pelo jornal. Você vai passar um fim de semana na Baixada Santista, mais precisamente em São Vicente, e escrever uma matéria sobre a cidade. Garoto de sorte, hein?
Minha sorte foi ter chovido o fim de semana todo, o que me deixou preso no hotel. Viajar para São Vicente era resgatar as férias de minha infância classe média. Era lá que eu passava as noites me divertindo num carrinho de bate-bate e comendo quindim. A barraca do doce ficava em frente à “biquinha”, uma fonte de água que é a grande atração turística da cidade.
A minha primeira viagem a convite de alguém rendeu muita frustração e apenas uma notinha para o caderno de Turismo. Sobre o quê? Sobre a revitalização da “biquinha”.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
A inveja é uma merda
– Que vida chata você tem, hein? Não tem mulher naquela sua faculdade? Só macho? Devia ter estudado jornalismo.
O tempo passa e os velhos amigos estão formados. Num reencontro da turma do colégio, o jovem jornalista lamenta que ganha um salário de merda. Rala, rala e ganha um salário de merda. O jovem engenheiro, trainee numa multinacional, revela que recebe um valor quatro vezes maior. E mais: passará um ano na Suécia, sede da empresa, fazendo um curso de especialização que lhe garantirá uma ascensão ainda mais rápida.
– E o melhor são as minhas colegas de curso, todas mulheres, engenheiras suecas, umas loiras bem gostosas. Ai, que vida chata!
O jovem jornalista busca então uma saída estratégica. Pela direita.
A recém-concluída pesquisa deste blog – O que mais faz sofrer um jovem jornalista em seu emprego? – apontou como vitoriosa a alternativa “Ver o amigo engenheiro ganhar um puta salário como trainne numa multinacional”, com 38% dos votos.
A próxima pesquisa quer saber qual o trabalho de maior risco a que pode estar exposto um jornalista. Quem assusta mais: um terrorista árabe, um deputado ou o Ricardão? Votem!
PS: Ainda em relação ao fato de o jornalista ganhar mal em início de carreira, apenas uma ressalva: com o tempo, as coisas mudam. E ele passará a ganhar muito mal.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Toddynho
Decisões conscientes como esta me fazem acreditar num futuro promissor para a imprensa brasileira.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Paixões proibidas
- Filho, você precisa sair mais de casa. Por que não vai a um puteiro?
Aceitei o conselho. Achava que a visita ao local seria desastrosa, mas curti a experiência. A menina, só um pouco mais velha do que eu, tinha olhos e lábios lindos, era inteligente, gostava de conversar. Voltei para casa e fui falar com meu pai. Estava encantado pela moça, queria levá-la ao cinema no dia seguinte.
- Porra, meu filho, ficar apaixonado por puta não dá.
Não a levei ao cinema no dia seguinte. Nunca mais a vi.
Lembrei essa história muitos anos depois, quando fui tomar uma cerveja com um velho amigo da faculdade de jornalismo, que há tempos havia mudado de ramo e se tornado um pequeno empresário de sucesso. Contei a ele sobre meu desemprego, e ele quis me convencer a trabalhar como representante comercial (vendedor) de um purificador de água que a empresa dele fabrica. Um fixo todo mês, comissões, chance de ascensão.
Expliquei que, apesar de estar sem emprego, tenho me virado bem com meus frilas. Disse ainda que não consigo fazer outra coisa além de ser jornalista, que amo esta profissão.
- Porra, Duda, ser apaixonado pela profissão de jornalista não dá.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Eu quero ser correspondente em Roma
É claro que não dá para pagar a viagem de uma equipe para a Venezuela só para cobrir uma “invasãozinha boba”, mas, aqui entre nós, cobrir da Argentina é muito esquisito também.
Às vezes, eu acho que vida de correspondente internacional está muito fácil hoje em dia. O bicho pega na Faixa de Gaza ou no Paquistão e a cobertura é feita tranqüilamente de Londres ou de Nova York. Tudo na maior paz. E, naturalmente, com a ajuda da Reuters e da internet. O repórter faz aquela passagem básica em frente a algum cartão postal da cidade e já está livre para pegar um cineminha ou um teatro.
Mas a coisa mais bizarra do mundo dos correspondentes internacionais é, sem dúvida, a loira da Globo que fica em Roma, mais precisamente a “setorista do Papa”. Esse é o emprego que eu pedi a Deus. Ah, se o Cara fosse meu amigo e rolasse um Q.I.. Morar numa puta cidade legal e ter uma rotina mais do que light. Eu só me lembro de a loira ter ralado um pouquinho quando o último Papa morreu e o novo assumiu. Passadas a agitação e aquela história da fumaça, ela deve ter respirado aliviada. Tudo voltou ao normal, um bom restaurante, um bom vinho...
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
Fantasmas
O fantasma do calhau foi para o início de minha carreira de jornalista o mesmo que o monstro embaixo da cama e a loira do banheiro foram para a minha infância. No caso da loira do banheiro, eu até torcia para ela aparecer de vez em quando, coisa que nunca aconteceu.
Descobri, com o tempo, que anúncio publicitário é até bom. Garante a sobrevivência das empresas de comunicação e, por tabela, a dos jornalistas. O problema para nós, escribas, é quando o espaço dos anúncios começa a invadir o do editorial. Quantas vezes cheguei à redação e vi minha matéria de 50 linhas ser reduzida a uma de 20. Como bem filosofou Beaverbrook, antigo barão da imprensa: “Jornalismo é tudo aquilo que consigo enfiar entre um anúncio e outro”.
Assim como na redação, o departamento comercial dos jornais deve ter o seu “calhau”. Imagino o chefe da área gritando para seus subordinados: “Quem não conseguir fechar sua cota de anúncios até as 14 horas vai se dar mal. Os editores terão de colocar alguma matéria no lugar”. Pobres vendedores de anúncios. Eles também padecem com seus fantasmas.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
A carteirada
- Voltou pra escola, Pedrão?
- A coisa tá feia, rapaz. Esta eu mesmo fiz. Se perguntam alguma coisa, invento que faço o curso de História da Arte Barroca na Casa do Saber.
Pedro admite que até pagaria o valor total da entrada pela cena lésbico-erótica entre as atrizes. Diz também que se excita ao ver a Penélope falando espanhol.
Mas não pode pagar.
- Tô desempregado, Duda. E neste mês cai o último cheque do meu tratamento dentário.
E ri o riso dos desgraçados.
Pedro me faz lembrar de meus tempos de repórter, quando usava o crachá do jornal ou a carteirinha da Fenaj para invadir eventos culturais, esportivos, festas de bacana. Jornalista adora uma carteirada. É o seu momento de glória, de sentir que está levando algum tipo de vantagem na vida.
- Duda, se quiser, faço uma pra você. Só me manda uma foto e cinco Reais para a plastificação. Preciso estrear o novo Photoshop que comprei na Santa Efigênia.
Me despeço de Pedro e entro na sala do cinema, para ver um outro filme. Sentado no escuro, lá no fundão, penso em sua proposta de uma carteira de estudante falsa e na Penélope beijando a Scarlett. Uma dúvida também me intriga: quem será que faz um curso de História da Arte Barroca?
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Eu tô no Twitter
O jovem Duda, que na faculdade diagramava jornais toscamente, com um lápis e uma régua na mão e um trocadilho infame com a palavra paica (do Inglês, “pica”) na cabeça, nunca imaginou que um dia tudo seria digital. Chegou a era do template, que deixa as coisas mais fáceis. Assim é a vida.
O Twitter foi feito para gente econômica com as palavras – o que é bom, muitas vezes –, e para gente preguiçosa – o meu caso. E, como sou preguiçoso além da conta, já aviso que não vou ficar postando a cada cinco minutos uma mensagem sobre o que estou fazendo. Tentarei ainda evitar tweets que revelem momentos de grande intimidade, como “estou no banheiro; faltou papel higiênico; cadê meu diploma de jornalista?”.
O blog Desilusões perdidas seguirá firme e forte no ar, uma prova clara de que, a cada dia, estou ligado mais e mais à “convergência de mídias”. Aliás, puta expressão mala!