sexta-feira, 20 de maio de 2011
A luta continua
João: A gente precisa ver essa parada de gestão revolucionária que prometeu pra galera. Logo vão cobrar. Ganhamos por causa da porra da revolução.
Paulo: É, as pessoas vão querer saber da revolução!
Diego: Mas que revolução a gente vai fazer mesmo?
João: Então, cara, é isso que a gente precisa pensar agora.
Paulo: Tem que ser algo que mude a vida dos estudantes!
(Silêncio)
Diego: Já sei, véio! Vamos lutar contra o abuso do valor das mensalidades!
João: Porra, Diego, tá louco? A gente estuda numa universidade pública. Esqueceu que você não tá mais num colégio de playboy?
Paulo: Que merda de revolucionário você é, hein?
Diego: Pô, galera, confundi. Foi mal.
(Silêncio)
Paulo: Se vocês quiserem, posso falar com um tio jornalista. O cara é velho, lutou contra a ditadura, apanhou, foi preso, essas paradas todas. Ele deve entender alguma coisa de revolução.
João: A gente tem que pensar no que os jovens de hoje querem.
Paulo: Mas os jovens de hoje querem alguma coisa?
João: Devem querer, sei lá.
Paulo: Diego, cê tá muito quieto, cara. Tá com medo de falar outra merda?
Diego: Véio, tô pensando numa revolução maneira!
João: Já sei! Vamos lutar por liberdade!
Paulo: Liberdade? Você não consegue nem se libertar dos seus pais! Disse que iria morar sozinho, fazer festa todo dia. Que moral você tem pra lutar por liberdade?
João: Porra, cara, é que eu ainda não tenho grana. Mas quando rolar um trampo, me liberto dos velhos.
(Silêncio)
Diego: Na boa, véio, essa parada de revolução é chata pra caralho! A gente precisa mesmo definir isso agora?
João: Agora, agora, não. Mas a gente não pode esquecer. Lembrem-se: somos futuros jornalistas. Se a gente não fizer as próximas revoluções, quem vai fazer?
Paulo: Verdade.
Diego: Tá certo.
(Silêncio)
Diego: Bom, já que não vai rolar revolução agora, que tal a gente jogar um playstation? Tô com o Pro Evolution Soccer 2011 aqui.
Paulo: Sério? Caraca! Champions League?
Diego: Champions League, véio. Liga a TV aí.
Paulo: Eu vou ser o Manchester!
João: Sou o Barcelona!
Diego: Tá maluco, João? Eu sou o Barça!
João: Mas nem fodendo. Eu sou o Barça!
quarta-feira, 18 de maio de 2011
Simpatias para jornalistas
Pegue o diploma que você tinha plastificado para usar como toalha em refeições rápidas. Junte a ele um baralho de truco virgem, um livro de Marshall McLuhan e pétalas de duas rosas amarelas. Guarde tudo em uma gaveta e feche com chave. Costure uma foto do doutor Gilmar Mendes na boca de um sapo e enterre o sapo no lixão mais nojento que conhecer. Se milhares de jornalistas fizerem a simpatia, há grande chance de a PEC do diploma ser votada no Senado.
Para fazer a puta matéria e ganhar um Prêmio Esso:
Está amarrado? Sua carreira não progride? Livre-se da preguiça que te impede de sair às ruas para fazer grandes reportagens. Em uma bacia, coloque três copos de água, pedaços limpos de papel do seu bloquinho de anotações e pétalas de quatro rosas brancas. Molhe uma toalha amarela na água e a passe por todo o corpo. O ritual de purificação liberta o repórter de energias negativas, como o Google e o ar-condicionado da redação.
Para filar um rango mais decente em coletivas:
Se você não suporta mais comer canapezinho ou filé ao molho madeira com arroz e batatas, prepare um carré de cordeiro com cuscuz marroquino, harmonize com um Bordeaux tinto e leve tudo a uma encruzilhada. Velas especiais dão um charme à oferenda. Infalível. Em poucos dias, vai chover boca-livre chique. E, para não pagar mico à mesa, faça um curso de etiqueta, mesmo porque ainda não inventaram simpatia com este objetivo.
Para casar com alguém de outra profissão:
É uma simpatia três em uma. Ao casar com um(a) não-jornalista, você também atrai mais dinheiro e um parceiro mais estável (emocionalmente, profissionalmente, sexualmente e outros advérbios de modo). Mas não se trata de uma simpatia fácil. Depende de muita reza, muita vela, muito mel e muito sacrifício para trocar os deliciosos bares de jornalista por baladas cheias de gente careta e com um papo chato do caralho.
Para arrumar um emprego:
Descole uma imagem pequena de Santo Antônio do Bom Emprego, aquela em que ele segura uma pastinha com seu portfólio de matérias publicadas. Coloque o santo de cabeça para baixo em um copo de água e retire a pastinha de suas mãos. Só livre o danado do afogamento e lhe devolva o portfólio quando conseguir o emprego. Se em uma semana você não for chamado nem para uma entrevista, esqueça simpatias e melhore sua rede de contatos.
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Sete sintomas da pobreza de um jornalista
1. Ir a um encontro romântico, ostentando o jabá recebido dias antes numa coletiva para a imprensa. Tudo bem que o restaurante não é nenhum francês bacanérrimo, mas é muito decepcionante para uma mulher jantar com um homem – ela chegou até a imaginar que ele poderia ser o futuro pai de seus filhos – que veste uma camisa pólo azul-cafona com os dizeres “Tubos e Conexões Tigre”.
2. Embolsar o dinheiro do táxi e seguir para a pauta de ônibus. Lotado, claro. Além de poder chegar atrasado ao local da reportagem, o jornalista ficará com a roupa toda amassada e também poderá perder o gravador e o bloquinho de anotações no trajeto. Se o motorista do ônibus for daqueles que dão uma freada brusca antes de parar em cada ponto, há ainda o risco de uma gravidez indesejada.
3. Ir a uma coletiva de imprensa que não despertou o menor interesse do jornal apenas para filar o almoço. O jornalista finge que prestou atenção na entrevista, finge para o assessor de imprensa que vai dar um espaço legal para o assunto na edição do dia seguinte e devora o filé mignon ao molho madeira sem qualquer outro fingimento.
4. Pedir para o garçom do almoço acima preparar uma quentinha que o jornalista finge que vai levar ao motorista. É um dos sintomas mais tristes da pobreza. Na verdade, será o jantar do jornalista naquela mesma noite.
5. Participar de uma entrevista concorrida, cheia de empurra-empurra, com dois microfones e um gravador nas mãos. O repórter de rádio/TV/internet chega a lembrar um daqueles deuses hindus que têm um monte de braços. Faz malabarismos para conseguir captar o áudio. Se falhar, pode perder um de seus três empregos. Ah, ele tem também um quarto trabalho, um bico como assessor de imprensa na prefeitura.
6. Levar o filho, que mora com a ex-mulher, ao cinema para assistir ao filme “O Guerreiro Didi e a Ninja Lili”, com um par de ingressos que estava esquecido numa mesa da redação. Ao fim do filme, o filho, que já tem uns 15 anos, vai dizer ao pai: “Da próxima vez, a gente poderia ver X-Men ou, sei lá, pai, um filme em 3D?”.
7. Ficar do lado de fora de um evento chique, de artistas ou políticos, e tentar descolar comida e bebida com um segurança da casa. O grupo é liderado por um fotógrafo desinibido – aliás, fotógrafos são todos desinibidos –, que faz a negociação com o segurança. Quando enfim chegam os salgadinhos gelados e o prosecco sem gás, os jornalistas disputam os restos numa cena comovente e chocante, digna de ser registrada pelas lentes de Sebastião Salgado.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Crendices de jornalista
Você pode até quebrar um espelho, mas se quebrar o sigilo prometido a uma fonte, estará condenado a sete anos de desconfiança.
Ao entrar na sala de reunião de pauta, pise sempre com o pé direito. Caso contrário, ficará com as piores pautas, como cobrir buraco de rua ou a agenda política do Gilberto Kassab.
O número 13 traz mau agouro. Nunca aceite um frila com 13 fontes para entrevistar. Até porque vão te pagar por uma matéria de, no máximo, duas fontes. Se pagarem, é claro.
Quando o editor se dirigir à equipe de reportagem no fim do expediente com uma pauta de última hora, evite passar por baixo da mesa para se esconder. Isso dá mais azar do que passar por baixo de escada. O editor não é bobo. A pauta roubada, com certeza, será sua.
Numa coletiva, pular a vez do colega para fazer uma pergunta traz um infortúnio danado. Existe o risco de, na hora de ir embora, o jabá acabar bem no instante de você recebê-lo. E não adianta bater três vezes na madeira.
Nunca decida ser jornalista em noites de lua cheia. A lua enfeitiça. Você vai ficar aprisionado a uma profissão apaixonante e cruel para o resto da vida.
Cruzar com assessor de imprensa chato na redação é pior do que cruzar com gato preto na rua. Azar do cacete. O cara vai querer vender pra você uma pauta sem graça como se fosse “a matéria”.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Olha a enquete do blog de volta aí, gente
Na semana em que se comemora a libertação dos escravos, vamos falar sobre a liberdade de ser jornalista. Você se considera um jornalista livre? Questão complicada, não? Para responder, basta ir à coluna que fica à direita do blog. Conto com o seu voto.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Angústias de um assessor de imprensa
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Mãe de jornalista
Mãe de jornalista não tem noção da rotina do filho. Não, mãe, eu não tô na farra. Tô no pescoção, mãe. Isso, mãe, pescoção é trabalho. Pois é, mãe, jornalista trabalha até essa hora. Então, mãe, também não vai dar pra almoçar com a senhora no domingo. Vou estar de plantão. Por favor, mãe, não chora. Mãe?
Mãe de jornalista não entende o visual desleixado do filho. Há quantos anos você usa essa calça? E esse All Star todo sujo? A barba, meu filho, faz a barba! Parece um mendigo!
Mãe de jornalista adora comparar a filha jornalista com o filho médico. Você poderia muito bem ter feito como o seu irmão, o Pedro Paulo, e seguido a profissão do seu pai. Filha, aquele consultório o seu pai construiu pra deixar pra vocês dois! Ainda dá tempo de mudar, filha! Esquece essa coisa de lutar por um mundo melhor e faz como o Pedro Paulo.
Mãe de jornalista também tem orgulho da filha. Recorta tudo que é matéria publicada no jornal. Coleciona, mostra pra família, pras amigas invejosas. Ou fica sentadinha na frente da TV, joelhos colados, mãos sobre as coxas. Não perde um instante da entrevista da filha, com não sei quem, sobre sei lá o quê. Pela tela, faz cafuné na cabeça da moça. Os olhos num aguaceiro só.

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quarta-feira, 4 de maio de 2011
Censo jornalístico 2010
O poder de consumo do jornalista está cada vez menor. Em 2000, seu salário mensal demorava 20 dias para acabar. Em 2010, 14 dias. A expectativa é que, em 2050, o salário do jornalista dure apenas 2 horas e 37 minutos.
Nos últimos 10 anos, a migração de jornalistas com carteira assinada para o sistema PJ só não foi maior do que a migração de jornalistas com carteira assinada para o olho da rua.
A imprensa está ainda mais vaidosa. O ego dos jornalistas teve expansão de 30% nos últimos 10 anos. Um dado interessante é que, pela primeira vez, os repórteres de TV perderam a liderança do ranking do estrelismo para os jornalistas blogueiros.
O contato dos jornalistas com a sacanagem começa cada vez mais precocemente. 74% de repórteres com menos de 20 anos confessaram que fazem três ou mais matérias num único dia, mantendo relação com diferentes fontes.
Os jornalistas estão trabalhando mais. Na última década, 25.000 homens tiveram o diagnóstico de ricardite crônica ou mal de Euclides da Cunha, doença que afeta jornalistas que viajam muito, fazem plantões ou pescoções até a alta madrugada.
Repórteres de celebridades e de esportes lideram a lista dos jornalistas que mais publicam informações falsas. A criação do Twitter teve contribuição significativa para o aumento de 170% das barrigas jornalísticas no período.
Os fotógrafos estão mais caretas. 27% admitiram que trocaram os bares sem frescura pelos restaurantes japoneses com rodízio de sushi e sashimi. 22% trocaram o cigarrinho de maconha pelo sachê industrializado de chá verde com limão.
74% dos jornalistas saem da faculdade e vão direto para as assessorias, sem nunca pisar numa redação. São os mesmos 74% que ligam para vender release na hora do fechamento.
Com o fim da obrigatoriedade do diploma, o Brasil fechou 2010 com a marca de 150 milhões de jornalistas.
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Mantras para jornalistas
Quando o jornalista descobre que o dissídio do ano será de apenas 2,16%:
Eu não preciso de muito dinheiro para ser feliz.
Quando o jornalista toma um furo da concorrência:
Eu não sou um merda.
Quando o jornalista está desempregado:
Tenho todo o tempo para viver a vida em sua plenitude.
Quando insistem em vender uma pauta nada a ver:
Eu sou muito paciente com assessores de imprensa.
Quando o jornalista vai à editora receber a grana do frila:
Eles vão me pagar hoje sem falta.
Quando o jornalista passa um lindo domingo de plantão:
Como eu adoro trabalhar em dias de sol.
Quando o editor avisa que a matéria caiu para entrar um anúncio de última hora:
O trabalho, mesmo o inútil, nos eleva espiritualmente.
Quando o jornalista se forma na faculdade:
Ter um emprego não é tudo na vida.
sexta-feira, 29 de abril de 2011
Quem?
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Pleonasmos do mundo dos jornalistas
Trabalho árduo.
Salário de merda.
Dissídio ridículo.
Fato real.
Fotógrafo doidão.
Equipe enxuta.
Fechamento alucinante.
Nota curta.
Pauta de gaveta guardada.
Repórter de TV vaidoso.
Encarar o entrevistado de frente.
Novidade inédita.
Jornal de notícias.
Foca sonhador.
Lead de abertura.
Lançar um novo caderno.
Profissão maluca.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Manual do guerrilheiro da redação
Se publicar algum comentário crítico ao seu próprio jornal no Twitter ou em outras redes, jamais revele sua identidade. Utilize disfarces. Mostrar a cara significa ser demitido.
Se for agitar uma greve por mais liberdade ou melhores salários, evite reuniões pelos corredores da redação ou na máquina de café. Opte pela clandestinidade dos bares.
Para ninguém desconfiar de seu envolvimento com o movimento, diga “sim” aos mimos do patrão, como festinhas de fim de ano. Recusar jabás do sistema é cair na armadilha.
Para ninguém desconfiar que você está verdadeiramente lutando pelos jornalistas, torne-se líder do sindicato da categoria. No sindicato, o patrão não irá vê-lo como uma ameaça.
Nos plantões intermináveis em hospitais e delegacias, dissemine as idéias subversivas a outros jornalistas, mas com cautela. Cuidado com os motoristas fofoqueiros e traíras.
Suporte com dignidade a tortura, como ser obrigado a fazer matérias institucionais só falando bem do jornal, e jamais seja um delator dos demais companheiros do movimento.
Num interrogatório, se o patrão disser que está pegando sua mulher, releve. É terrorismo psicológico. Pense que, mesmo se for verdade, ele é apenas mais um pegando a sua mulher.
Não descarte a ação violenta. Seqüestrar o patrão pode ser uma boa estratégia. Só liberte o desgraçado se ele se comprometer a não mais publicar matéria chapa-branca em favor deste ou daquele governo, a pagar as horas extras, e a trocar a máquina de café da redação por uma mais moderna, com pelo menos dois tipos de capuccino mais chocolate quente.
quarta-feira, 20 de abril de 2011
Perguntas
Ronald sempre folga no Natal. E a redação toda quer folgar no ano-novo. Essa gente parece que gosta de ficar horas num congestionamento só pra pular ondinhas no mar. O Natal também é melancólico como Ronald e é tempo de viajar pra São João do Jaguaribe, tempo de visitar a mãe mais os irmãos mais as tias mais não sei mais quem. Entre os seus, Ronald também é um cabra calado e estranho, mas um cabra calado e estranho cheio de importância, porque estudou, porque se fez jornalista e porque foi o único que teve peito de trocar a vidinha sem graça de São João do Jaguaribe pela vidinha sem graça de São Paulo. A única coisa que deixa Ronald apurrinhado no Natal são as perguntas de sempre da mãe – por que ainda tá fumando, por que ainda não arrumou moça pra casar, por que tanta magreza?
Ronald odeia responder perguntas.
Ronald é jornalista, porra! É ele quem faz as perguntas.

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segunda-feira, 18 de abril de 2011
Grandes obras da literatura sobre o jornalismo
Memória de minhas pautas tristes – Gabriel García Márquez
O processo (por calúnia, injúria e difamação) – Franz Kafka
A insustentável pobreza do ser – Milan Kundera
A vida de jornalista como ela é – Nelson Rodrigues
Textos de gaveta mofados – Caio Fernando Abreu
Editorial sujo – Ferreira Gullar
O encontro desmarcado – Fernando Sabino
Admirável emprego novo – Aldous Huxley
Crime e sensacionalismo – Fiódor Dostoiévski
O tempo e o fechamento – Erico Veríssimo
Histórias de anonimatos e de famas – Julio Cortázar
A profissão do desassossego – Fernando Pessoa
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Quem mexeu no meu texto?
O orgulho do jornalista não admite que o texto tem vícios, erros. É seu filho perfeito. O lead está sempre no lugar certo. Clichê é o máximo. Nariz-de-cera, então, é a coisa mais bonita do papai.
A vaidade do jornalista não aceita críticas ao texto. É sua obra-prima. Não tolera pitacos, desconstrução de idéias, novos enfoques. É provocação. Que danação! Seu texto é sagrado, pra ser venerado. Jamais profanado.
O ciúme do jornalista o torna possessivo. O texto é sua nêga. E tem sempre gente querendo botar a mão. O editor é o mais vil dos cobiçadores de texto alheio, de amor alheio. Ricardão maldito. Deflorador. Deleta aqui, corrige ali, reescreve acolá. Corta pelo pé.
Você pode até mexer com a mãe de um jornalista. Mas experimenta só mexer no texto dele. Experimenta.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
20 formas de um jornalista sentir um orgasmo
2. Pegar o jornal do dia e ver o seu nome estampado na capa.
3. Mostrar o seu nome estampado na capa para o vizinho invejoso.
4. Entrevistar aquele cara que odeia falar com a imprensa depois de três meses de insistência.
5. Acabar a matéria a 1 minuto e 37 segundos do fechamento.
6. Saber que a(o) nova(o) estagiária(o) gostosa(o) vai trabalhar ao seu lado.
7. Desligar o computador após um longo dia de ralação.
8. Pagar todas as contas do mês sem atraso.
9. Ter qualquer credencial pendurada no pescoço.
10. Ter a pergunta elogiada pelo entrevistado numa coletiva de imprensa.
11. Receber o pagamento de um frila no dia combinado.
12. Comer pra caramba numa boca-livre chique.
13. Descobrir que vai folgar justamente no fim de semana da tão esperada viagem com os amigos.
14. Ser rendido por um colega após 12 horas de plantão na porta de um hospital.
15. Ter a confirmação de que seu nome não está na lista do passaralho da vez.
16. Escutar de um leigo: “Deve ser o máximo ser jornalista, hein?”.
17. Saber que o doutor Gilmar Mendes foi assaltado.
18. Chegar em casa às 5 da manhã depois de um pescoção e encontrar sua mulher sozinha na cama.
19. Chegar em casa às 5 da manhã depois de um pescoção e conseguir fazer sexo.
20. Ouvir do editor: “Parabéns, você está contratado. Pode começar agora?”.
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segunda-feira, 11 de abril de 2011
Assessores de imprensa X galera da redação
- Boa tarde, com quem eu falo?
- Pedro.
- Pedro, aqui é o Edson, da Pauta Criativa Comunicação, tudo bom?
- Edson, estamos no fechamento. Liga depois, por favor.
- Vocês receberam o release do show do Bee Gees Cover?
- Não sei, mas agora não vai dar pra ver isso.
- Pedro, é só uma checadinha.
- Cara, não deu pra entender que estamos no fechamento?
- Mas é rapidi...
(tu-tu-tu)
- Vou mandar as perguntas por e-mail, ok?
- Fátima, nosso diretor comercial é muito ocupado e prefere atender a imprensa por telefone. É mais ágil.
- Querido, eu também sou muitíssimo ocupada aqui na redação. Vou mandar por e-mail mesmo.
- Quantas perguntas são, Fátima?
- Umas 20?
- Vinte?
- Vinte. Algum problema?
- Bom, vou ver se ele consegue responder tudo até sexta.
- Querido, tá louco? Aqui é jornal diário. Preciso das respostas em, no máximo, no máximo, uma hora. E presta atenção: quero também foto em alta resolução. E boa, hein?
- Bom dia, eu queria falar com o chefe de Reportagem. É o Marcos Araújo, né?
- Olha, o Marcos não trabalha aqui no jornal há mais de um ano.
- Mas tenho certeza que ele abraçou um novo desafio profissional.
- O Marcos morreu.
- Putz, morreu? Eu sinto muito mesmo. Não sabia.
- Tudo bem.
- Me desculpe. Estes mailings de imprensa vivem desatualizados.
- Tudo bem.
- Deixa então eu aproveitar pra falar da minha pauta com você mesma.
- Manda pro meu e-mail, por favor, que depois eu leio com calma. Pode ser?
- Vou mandar, sim, mas antes quero falar do novo tratamento para remoção de manchas na pele que é bár-ba-ro. Sabe bárbaro?
- Olha, você ligou no Caderno de Política. Ciência & Saúde é no ramal 3526.
- Tuuuudo bem. Vou ligar pra lá agora.
- Só um detalhe: o pessoal lá só chega à tarde.
- Alô.
- Alô. Edson? É Pedro, do Caderno de Cultura, tudo jóia?
- Sim, Pedro, do Caderno de Cultura, tudo jóia.
- Deixa eu te perguntar uma coisa, amigão: você tem ingresso sobrando pro show do Bee Gees Cover? Minha namorada adora Bee Gees, tá louca pra ir.
- Vocês não deram nem uma notinha, né? Viu pelo menos o release?
- Pois é, não teve espaço. Fica pra próxima. O show promete, hein?
- O show promete.
- E o ingresso rola?
- Pode ser, pode ser. Aguarda só um minutinho na linha que eu vou falar com a minha gerente.
- Tudo bem.
(tu-tu-tu)
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quinta-feira, 7 de abril de 2011
O jornalismo é cosa nostra
A vaidade é cosa nostra.
Ganhar merreca é cosa nostra.
Folgar na terça é cosa nostra.
A boca-livre é cosa nostra.
Mas o que vai vai, o que vem vem.
A ilusão é cosa nostra.
Dar carteirada é cosa nostra.
Dizer verdades é cosa nostra.
Contar mentiras é cosa nostra.
Mas o que vai vai, o que vem vem.
O cafezinho é cosa nostra.
Achar que é independente é cosa nostra.
Queimar um beck é cosa nostra.
E a desgracença é cosa nostra.
Mas o que vai vai, o que vem vem.
Ser assessor é cosa nostra.
Desunião é cosa nostra.
Adrenalina é cosa nostra.
Levar na bunda é cosa nostra.
Mas o que vai vai, o que vem vem.
A República Livre do Copo-Sujo é cosa nostra.
Ser curioso é cosa nostra.
Rotina louca é cosa nostra.
Viver em crise é cosa nostra.
Mas o que vai vai, o que vai vem.
Mas o que vai vai, o que vai vem.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Pequeno dicionário de expressões jornalísticas mortas
Copydesk – uma espécie de revisor, este profissional corrigia as cagadas nos textos dos jornalistas. Vivia em briga com os repórteres, que o acusavam de mexer demais onde não devia e de cortar as matérias pelo pé. O copydesk perdeu o emprego para o corretor ortográfico do Word, que trabalha de graça e não exige férias nem plano de carreira.
Viúva – não confundir com a mulher do jornalista que, de tanto comer calabresa acebolada e tomar todas no boteco, foi vítima de um ataque do coração aos 43 anos. Viúva era só aquela palavrinha solta, abandonada numa linha de texto incompleta.
Jornalista investigativo – repórter que ia para as ruas farejar grandes matérias. Com a criação do Google e com os dossiês políticos customizados, o jornalista investigativo passou a ser chamado de jornalista-da-bunda-quadrada. Fica só na redação, sentado na frente do computador, com o celular ligado, esperando cair em seu colo uma bomba. Parece mais atendente do Disque-Denúncia.
Gillette Press – era a arte de pegar uma notícia já publicada, cortar aqui, aparar ali e, na maior cara-de-pau, apresentar um texto completamente “novo”. Hoje, a expressão foi esquecida, mas a prática está cada vez mais forte. Na era digital, os jornalistas, sem tempo para a apuração ou sem vergonha na cara, preferem chamá-la de “Copy and Paste” (ou Ctrl C / Ctrl V).
Paste-up – parece, mas não tem nada a ver com marca de pasta de dente. Era uma colagem de tiras de textos, impressos em papel fotográfico, no processo de composição de uma página de jornal. Um trabalho lúdico, feito pela turma da Arte, que, na infância, sempre tirava as melhores notas nas aulas de Educação Artística.
Apuração cuidadosa – era uma prática comum nas redações do período Neolítico, quando ainda havia preocupação com a qualidade da informação. Com a transformação das redações em linhas de produção de notícias e a pressa de furar a concorrência, foi criada a matéria-miojo, de apuração instantânea, que fica pronta em três minutinhos.
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sexta-feira, 1 de abril de 2011
As mentiras que os jornalistas contam
Fique tranquilo que, se você está me dizendo que é off, a gente não vai publicar.
Sabe a foca gostosa, a namoradinha do editor-executivo? Então, comi ontem.
Já decidi: vou parar de beber, de comer porcaria e começar a cuidar mais da minha saúde.
Faz o seguinte: manda o release pro meu e-mail que depois eu leio com calma, ok?
Meu amigo, tô trabalhando. Você acha que eu sou o tipo que fica dando carteirada por aí?
Eu não trabalho num jornaleco que se vende por qualquer anúncio. Eu sou da grande imprensa. Temos independência.
Não vejo a hora de abandonar essa profissão ingrata. Como eu odeio o jornalismo!
E as mentiras que os jornalistas ouvem
Finalmente o jornal decidiu que vai ter um plano de carreira para vocês.
Meu bem, é claro que eu não me importo de você trabalhar até as quatro da manhã.
Querido, olha, a pauta é ótima, superinédita. Eu tô mandando o release só para vocês, viu?
Futuros jornalistas, percebam como é nobre a nossa profissão. Vocês têm a chance de mudar o mundo!
Aqui, na nossa agência de assessoria, você só vai atender um ou, no máximo, dois clientes. O trabalho é bem fácil.
O doutor acabou de entrar em outra reunião, ainda mais urgente, e não vai poder te dar a entrevista agora.
Paulo Maluf não tem nem nunca teve conta no exterior.

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