quinta-feira, 28 de maio de 2009
A ditadura da centimetragem
Por muito tempo, o que imperou absoluto no mercado foi o modelo da centimetragem, que é medir na régua o que foi publicado nas colunas de texto de jornais e revistas. Eu, desde muito jovem, sempre fui contra essa coisa de contar os centímetros, principalmente quando eu tomava banho com os meus amigos no vestiário do clube após o futebol. Mas essa é uma outra história e não é o caso lembrá-la em detalhes neste post.
O importante para os assessores de imprensa, nesses anos todos, foi juntar o máximo de centímetros possíveis para colocar no relatório final a ser entregue ao cliente. O tamanho era documento, sim! A polêmica deste modelo começou quando alguém, um pouco mais perspicaz, resolveu fazer a seguinte perguntinha: vale mais uma notinha bem pequena numa coluna badalada de um jornal importante ou uma página inteira em um jornal sem tanto prestígio? A coisa mudou. Começaram a desconfiar daquela exuberância toda dos centímetros. E eu voltei a tomar banho em público, feliz e sem constrangimentos.
Um outro modelo de mensuração de resultados, mais recente, é o modelo do “positivo” e “negativo”. As matérias publicadas passam por um critério subjetivo de avaliação: essa aqui é ótima para a imagem da empresa (positiva), aquela outra queima o filme da empresa (negativa). E tem também a coluna do meio, a matéria “neutra”. E qual a polêmica suscitada por este modelo? O que é “bom” para a empresa pode ser “ruim” para os seus funcionários, para os clientes, para a comunidade.
Hoje, estudiosos da comunicação fazem todos os esforços para tentar descobrir o inovador modelo que revolucionará o trabalho das assessorias de imprensa. Comentam até que as pesquisas estão mais avançadas do que as relacionadas à cura da aids. Eu, que sou muito desconfiado, prefiro aguardar sentado. E, no mais, desde que perdi o emprego, a única coisa que tenho mensurado é a circunferência da minha barriga. Essa história de almoçar e jantar de verdade acrescentou alguns centímetros a ela. Será que isso é positivo ou negativo?
terça-feira, 26 de maio de 2009
Quem é morto sempre aparece
O velhinho levantava cedo para pegar o jornal. Nem via a manchete de capa. Seguia diretamente para a seção dos mortos. Conferia todos os nomes, um por um, de homens e mulheres, de todas as idades. “Coitado, esse foi cedo, tinha só 21 anos”, lamentou certa vez. Outros, privilegiados, viviam quase um século. Por que tamanha injustiça? Ele mesmo admitia que estava no lucro. Já passava dos 90, apesar de sua queda pelo álcool.
Nonô sempre imaginou como seria o seu obituário. Escreveu o texto e orientou a família sobre a maneira como queria ver o anúncio fúnebre no jornal. Tinha de ser em letras garrafais, em negrito, para que todos os vivos soubessem de sua partida. “Aposentado não enxerga essa letrinha de merda que publicam por aí”, dizia.
Numa manhã, Nonô pegou o jornal e não encontrou a tal seção dos mortos. Teve uma sensação estranha. Em quase 20 anos, isso nunca tinha acontecido. Pegou o telefone e ligou para a redação. A voz estava embargada. Ficou sabendo, então, que o velhinho que fazia o obituário tinha morrido na tarde anterior. Desligou o telefone e foi para o quarto dormir. Desejava acordar só na manhã seguinte. Naquele dia, nem bebeu sua cachaça.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
O que eu ganho com isso?
A pauta começa cedo. Segue pela tarde. Muito trabalho. Pressão. Sem tempo para almoço. Apenas uma coxinha. Cheia de gordura. Correria. Uma entrevista aqui. Outra ali. Um puta calor. Entro no carro do jornal. Sem ar-condicionado. Trânsito caótico. Motorista xinga. Fotógrafo reclama. Fumaça. Buzinas. Motoboys. Olho para o relógio. Uma coletiva me espera. Será que chego? Vontade de ir ao banheiro. Número 1. Sem chances. Aperto. Lentidão. O tempo passa. Surgem os atalhos. Agora vai. Checo o endereço do hotel. Estamos perto. Fecha o farol. Caralho! Sempre nessas horas! Destampo a caneta. Tampo a caneta. Destampo de novo. A porra do farol não abre. Vendedores enchem o saco. Abre o farol. Arrumo minha roupa. Pego o bloquinho. Chegamos. Corro. Fila na porta. Credenciamento. Entro. Cansaço. Bafo de coxinha. Nem escovo os dentes. Coletiva atrasa. Passo no banheiro. Alívio. Tiro uma salsinha dos dentes. Com o dedo. Volto pro auditório. Repórteres armados. Fotógrafos brigam por espaço. Barulho. Pedidos de silêncio. Tudo pronto. Perguntas. Respostas. Réplicas. Tréplicas. Intromissões. Discussões. Todos querem falar. Que zona! Questiono. Anoto. Reflito. Fim de papo. Vôo pro carro. Pressa. Mais trânsito. Mais fumaça. Mais buzinas. Mais motoboys. O tempo é curto. Pego o bloquinho. Rascunho o lead. Letra horrível. Penso na matéria. Mordo os lábios. Vontade de ir ao banheiro. Número 2. Aperto. Que bosta! Logo agora! Boca seca. Pressa. O farol fecha. Mais vendedores. Limpadores de vidro. Espera. Olho para o relógio. O farol abre. O motorista corre. Falta pouco. Chego ao jornal. Corro. Fila no elevador. Caralho! Espero. Entro. Aperto. Solto um peido. Disfarço. Subo. Desço. Corro. A redação está cheia. Fechamento. O tempo é ainda mais curto. Terei muito espaço? Terei pouco espaço? Tensão. Corro de novo. Tropeço. Paro. Vejo meu editor.
– Duda, relaxa, tua pauta caiu.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
O lance é um dia visitar o Sebrae
Na segunda colocação, ficou a alternativa “Torraria o FGTS numa viagem à Índia de descoberta do verdadeiro ‘eu’”, com 27% dos votos. Além da proposta espiritual, muitas jornalistas (e alguns do sexo masculino) aproveitariam a viagem para tentar descobrir também o endereço do Raj, o indiano gostosão da novela da Globo. Tenho uma amiga que confessou ter orgasmos múltiplos toda vez que o cara dá aquela balançadinha de cabeça. Hare baba!
E menção honrosa para a alternativa “Viveria de pequenos golpes em gente de bem”, que amealhou incríveis 22% dos votos, uma clara evidência de que por trás do ser humano sofrido que é o jornalista há também o nobre ideal de se dar bem nessa vida, independentemente dos meios.
A nova pesquisa, já no ar, quer saber qual o maior perrengue enfrentado por um assessor de imprensa, o que mais aflige a alma deste pobre profissional. Como nada é fácil para nós, a disputa promete ser grande outra vez. Façam suas apostas!
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Viciado em nariz-de-cera
– Sou um jovem e angustiado repórter de política. De jornal diário.
– Entendo, senhor.
– Não consigo escrever um lead conciso.
– Entendo, senhor.
– Sempre achei essa coisa de "o que, quem, quando, onde, como e por quê" a maior cascata. Deixa nosso texto pobre, limita a criatividade.
– Mas os textos jornalísticos precisam ser claros e objetivos, senhor.
– Quando abro um arquivo novo no computador, o espaço vazio me desperta a volúpia de escrever sem parar.
– A simplicidade exige técnica, senhor.
– Já escrevi leads de mais de 20 linhas.
– O caso do senhor parece grave, mas confie em nós. Já curamos alguns figurões da imprensa.
– Figurões?
– Esse mal não é exclusivo dos focas. Alguns colegas experientes adoram divagar, romancear. Talvez sejam escritores frustrados.
– Na redação, sou alvo de chacotas. Meu apelido é Nariga. Dizem que sou o rei do nariz-de-cera.
– O senhor já procurou tratamento antes?
– Uma vez, participei de um grupo de ajuda chamado "Repórteres que escrevem demais". Aqueles encontros eram uma enrolação. Fiquei pior.
– Imagino, senhor.
– Estou desesperado. Vou desistir do Jornalismo para estudar Direito.
– Tente se controlar, senhor.
– Vou me inscrever hoje mesmo numa daquelas faculdades que dão diploma em dois anos.
– Fique tranqüilo, por favor. Está sozinho em casa?
– Como advogado, poderei escrever páginas e mais páginas de petições, processos...
– Procure manter o equilíbrio, senhor.
– Mandarei a concisão e a clareza para a casa do caralho.
– Calma, senhor. Não faça nenhuma besteira. Estou aqui para ajudá-lo.
– ...
– Senhor? Senhor?
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Sem generalizar, por favor
Eu leio desde muito jovem. Com 11, 12 anos, já devorava a Playboy todinha e a seção “Fórum”, da revista Ele & Ela. Pouco depois, já me dedicava às revistas suecas, que exigiam um entendimento mais elaborado da vida, além de um segundo idioma. Hoje, leio de tudo, de análises macroeconômicas a bula de remédio.
O problema da falta de informação também afeta um outro tipo de jornalista: o generalista. Pelos dicionários, generalista é a pessoa que não tem uma especialização, mas que entende de vários assuntos. No caso do jornalista generalista, trata-se do cara que não entende porra nenhuma de vários assuntos. Fica pingando de pauta em pauta, totalmente desconexas, entrevista o analista financeiro e o jogador de futebol numa mesma tarde. Em TV, rolava muito disso.
Estava certa vez em um treino da Fórmula 1, em Interlagos. Encontro um amigo repórter de TV, ofegante, terno desarrumado, jeitão de quem está perdido. “Porra, Duda, me ajuda aí, cara. O que tá rolando aqui hoje? Me mandaram para cá, caí de pára-quedas. Tenho uma entrada ao vivo daqui a pouco.” Poucas horas antes, ele estava na inauguração de um hospital pelo governador. Pensei em sacaneá-lo, dizer que a notícia era o melhor tempo do Rubinho, mas acabei ajudando o coitado.
O jornalista generalista de TV tem sempre aquele olhar que clama por piedade e uma informação que lhe traga de volta ao planeta Terra. A malandragem também funciona. O cara se aproxima de um bolo de repórteres que entrevista um ilustre empresário, manda ligar a câmera, coloca o microfone na boca do sujeito e grava tudo, sem fazer uma pergunta sequer. Vai só na carona dos outros jornalistas. Por fim, ainda tem a cara-de-pau de virar para o lado e dizer: “Amigo, como chama esse empresário mesmo?”
quarta-feira, 13 de maio de 2009
Tô rico, tô rico!
E por que será que esses frilas pintam aos 40 minutos do segundo tempo? São sempre para ontem. Deadline apertadíssimo, alerta o editor. Nos fazem parar tudo, sacrificar horas de sono, mas valem a pena. Tudo pela sobrevivência.
Quem também ficará feliz com essa grana extra é o Nestor. Ele vai ganhar até uma cama nova, ou melhor, vai ganhar a primeira cama dele aqui no meu apê, com direito a um cobertor zero bala e sem pulgas, para enfrentar as noites de inverno.
Seu Vitório, o velhinho que aluga o apê de 49 metros quadrados para mim, é outro que vai comemorar. Para minha desgraça, ele mora no mesmo prédio. “Já arrumou um trabalho, meu filho?”, me pergunta sempre, em nossos encontros casuais no elevador. Acho que ele andou remexendo o roteiro da minha vida e roubou essa fala do meu pai, dita tantas vezes em minha juventude.
O frila não valeu apenas pela grana boa. Era uma reportagem instigante para uma conceituada revista feminina, se é que isso existe. O tema? As mulheres que comandam o mercado de sexo nas ruas de São Paulo. A arte de proxenetar não é mais uma exclusividade daqueles cafetões truculentos e insensíveis. Conheci mulheres que começaram por baixo, literalmente, e hoje são verdadeiras executivas. Me deu até inveja dessa ascensão profissional toda.
segunda-feira, 11 de maio de 2009
Condenados à liberdade
Já conheci jornalistas – e sou um deles – que passam a vida blasfemando contra a dureza das redações, o trabalho insalubre, o chefe chato. Até o dia em que, por vontade própria ou não, libertam-se. Vão traçar seus próprios caminhos, bem longe da empresa que os explorava. Mas muitos jamais saberão ser, simplesmente, livres, assim como os ex-escravos negros de Manderlay. Ficam loucos para voltar à redação, aos antigos senhores, como se fosse impossível viver sem eles. Agarram-se aos antigos hábitos da dominação.
Há um outro tipo de jornalista, mais jovem, que adoraria ter vivido a época da ditadura. Bons tempos, pensam esses ingênuos, eram aqueles do chumbo grosso. Deveria ser irado protestar, subverter, ser preso ou criar um grupo revolucionário com aqueles nomes cheios de siglas. Veio a democracia, suspendeu-se a censura e a graça acabou. Com a liberdade política, este jovem é um acomodado. E nem se dá conta de que neste mundo de hoje ainda há espaço para muitas lutas, contra racismos, morais religiosas e outros tantos males.
Até a liberdade pós-casamento é de uma estranheza só. Quando, tempos atrás, minha mulher me trocou por um garotão, sofri a dor dos seres desprezados. Meu tormento, contudo, durou pouco. Pensei: “Duda, você está livre de um casamento: não precisará mais assistir àqueles filmes chatérrimos da Meg Ryan! Poderá comer todas sem culpa”. Mas logo minha euforia também acabou. A solteirice, às vezes, não faz o menor sentido para mim. Eu, definitivamente, sou um ser meio esquisito.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
A pastinha vagabunda
Enquanto ele falava, fiz uma viagem aos meus 20 e poucos anos. A pastinha, apesar de ordinária, reunia minhas grandes matérias. Estava esquecida num armário qualquer, ao lado de uma pilha de jornais que nunca tive coragem de arquivar. Coisa de gente preguiçosa. Resgatar aquela papelada seria um reencontro com o início de minha carreira. Lembranças de uma época de descobertas, entusiasmo com o jornalismo, erros inocentes que hoje me fariam rir. Bons tempos que, infelizmente, não voltam.
O cubano Pedro Juan Gutiérrez, no livro Trilogia suja de Havana, escreve: “É impossível me livrar das saudades porque é impossível se livrar da memória. Você não pode se livrar daquilo que amou”. Ele tem razão.
- E vê se escaneia essa porra direito, completou o meu amigo.
quarta-feira, 6 de maio de 2009
O "jornalismo" do Ratinho voltou
A estréia de Ratinho foi na última segunda-feira. Liguei a televisão para conferir, afinal, como estou desempregado, me sobra tempo para o ócio e me falta dinheiro para assinar uma TV a cabo. O jornalismo de Carlos Massa me lembrou seu “190 Urgente”, que passava na CNT nos anos 90, mas sem o famoso cassetete. Nada de novo. Muita matéria policial, recheada de escracho. Numa reportagem sobre a apreensão de um caminhão carregado de maconha, o apresentador soltou essa: “Também o que tem de maconheiro por aí. Só aqui no SBT tem um monte”. É impossível não rir de suas pérolas.
Escrevi, há pouco tempo, um post sobre o finado Notícias Populares, um jornal que, apesar de alguns exageros, tinha sacadas criativas e bem-humoradas. Gosto do lado B, mas Ratinho passa dos limites muito mais do que o NP passava.
Com exceção de alguns poucos minutos de matérias mais digeríveis, o resto era só baixaria, apoiada por uma platéia ensandecida, uma bandinha típica de circo mambembe e as intervenções pitorescas do rato Xaropinho. O “cunho jornalístico” de Ratinho está mais para um programa de humor. De quinta categoria.
A estréia fechou com uma reportagem sobre o menino-cachorro da Guatemala, um jovem com aparente distúrbio mental que age como um bicho nas ruas, dando cabeçada em tudo o que vê pela frente e assustando a criançada do povoado. A reportagem ouviu religiosos, insinuando que o garoto estava possuído pelo capeta. Matéria grotesca, mas Ratinho fez questão de exaltar o caráter de seriedade da reportagem. “Aqui não tem baixaria, não. Baixaria é lá no programa do Datena”.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Ó, meu Deus, quantas escolhas!
É realmente muito difícil chegar a uma conclusão confiável sobre o que leva uma pessoa a ser jornalista. Muitos escolhem tal caminho não por uma razão apenas, mas por várias razões ao mesmo tempo. Outros, como suspeitam psicanalistas renomados, são desprovidos de qualquer razão no momento da decisão. Enfim, trata-se de uma discussão polêmica e complexa. Nem Caetano, que sabe como ninguém ser objetivo e claro em um raciocínio, explicaria esta questão de uma forma simples.
* * *
Por várias vezes, de cabeça quente, pensei em abandonar o jornalismo e ser dono de uma franquia do McDonald’s. Como a lanchonete está sempre lotada, calculava ganhar uma puta grana. Depois, mais calmo e com o juízo recuperado, percebia que ainda tinha muito amor pela profissão, que valeria a pena tentar mais uma vez. E, além de tudo, nunca teria dinheiro para investir em uma franquia do McDonald’s.
Contei esta breve história só para lembrar que, de tempos em tempos, todos nós, jornalistas, mergulhamos em nossas crises profissionais. Será que estou no caminho certo? Será que ainda existe amor? Será melhor fazer terapia? Enfim, todos aqueles questionamentos que mais parecem os de um casamento em crise. O final da história pode ser feliz ou não.
A nova enquete trabalha com uma situação hipotética: que rumo você, meu caro amigo ou amiga, daria à sua vida caso decidisse abandonar o jornalismo de forma definitiva? As opções vão de uma jornada espiritual pela Índia a uma carreira artística na TV.
quinta-feira, 30 de abril de 2009
Filhos da pauta jamais!
Certa vez, fui pautado para cobrir a festa de uma central sindical pelo Dia do Trabalho, um grande espetáculo para o povão, com sorteio de prêmios, churrascão e cerveja. A ideologia ficou no passado. “Duda, vai rolar até show do Latino, do KLB e de alguns grupos de pagode. Só te dei esse privilégio porque você é meu amigo”, cutucou meu pauteiro, com um sorriso de sacanagem.
No carro do jornal, enquanto arrastava meu corpo até o famigerado evento, fiquei preso no trânsito. Sem saída. Mas até em feriado? A avenida foi ocupada por um grupo de manifestantes naturistas ultra-radicais que defendia o direito de andar nu pelas ruas de São Paulo. "Pelados, unidos, jamais serão vestidos." A PM decidiu prender o líder do protesto, um senhor que, apesar da privação de roupas, não devia tomar sol naquela bunda branca havia muito tempo. A pancadaria começou.
Avisei meu editor pelo telefone e minha pauta foi mudada. A cobertura dos peladões teve muita tensão e nenhum pudor, mas nada melhor do que não ter de ouvir o Latino cantar. E ao vivo!
Num outro emprego, na área de Cultura, fui escalado para acompanhar o vernissage de um badalado artista plástico ítalo-chileno, com um trabalho conceitual sobre a pintura rupestre e sua relação com a pós-modernidade. Que puta roubada! Mas, desta vez, nenhuma pauta inesperada rolou para me livrar da indecifrável e torturante obra de Pepe Meléndez. Cobrir um show do KLB naquela noite até que não teria sido tão ruim assim.
quarta-feira, 29 de abril de 2009
A culpa dos outros
Lendo o noticiário dos últimos dias, fiquei com a certeza de que tem coisa pior do que uma iminente pandemia de gripe suína. O quê, por exemplo? Gente como o Ciro Gomes, o maior humorista do Ceará de todos os tempos, e o Michel Temer, um dos líderes do PMDB (Partido do Me Dei Bem). Não agüento mais ver estes nobres deputados defenderem, com aquela cara de quem peidou e olhou para o lado, seus coleguinhas em escândalos e mais escândalos. E, naturalmente, a culpa de toda essa lama sobrou para nós, jornalistas.
Será que essa gente nobre nunca terá um pouco de vergonha na cara? Vai sempre querer intimidar os jornalistas e acabar com o nosso legítimo direito e dever de denunciar toda a picaretagem que há anos, décadas, faz parte da cultura do Congresso? Se a imprensa adora fazer o papel de abutre a rondar a carniça, como muitos dizem com razão, por que não assumir logo a podridão e tratar de moralizar a coisa?
Os jogadores de futebol, por sua vez, culpam os jornalistas pela falta de privacidade, mas não têm o menor cuidado ou pudor ao andar por aí com travecos ou com a Mulher-Picanha. Muitos artistas culpam os críticos, mas esquecem que seu ego é maior do que o seu talento. Daqui a pouco seremos os responsáveis por todas as mazelas da humanidade, os novos mordomos.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Viva a boca-livre
Quando eu ainda era um jornalista empregado, geralmente comia mal, gastronomicamente falando. Muita porcaria pelas ruas da cidade, entre uma entrevista e outra. Mas havia um momento de redenção. Sim, havia! Este momento respondia pelo nome de “filé mignon ao molho madeira com batatas (prussianas ou noisettes) e arroz”, prato clássico servido em eventos que reúnem jornalistas, conhecidos adoradores de uma boca-livre.
Estudiosos do comportamento humano jamais conseguiram explicar este fenômeno jornalístico. Seria uma forma de vingança contra a miséria opressiva cotidiana? Ou o simples desejo de levar vantagem? A única coisa que se sabe, após décadas de pesquisas, é que o gene responsável pela boca-livre é o mesmo ligado à vontade insana de ganhar presentinhos e jabás em geral.
Conheci jornalista que freqüentava aqueles congressos bacanas de empresários só para comer. O encontro com o filé mignon ao molho madeira era sagrado. Ninguém se preocupava se, em alguma mesa naquele salão, uma informação que fosse estremecer o mercado estivesse sendo revelada.
Os organizadores de tais eventos faziam questão de isolar os jornalistas em mesas pelos cantos, versão mais moderna do vale dos leprosos. Nelas se juntavam repórteres, cinegrafistas, fotógrafos e alguns motoristas que, vez ou outra, também participavam da boca-livre.
Seu Nelson era um dos meus motoristas preferidos, um velho bigodudo e bonachão que também tinha uma queda pela comida boa a custo zero. “Ô, seu Duda, dá um jeitinho de eu almoçar lá com vocês.” Seu Nelson dividiu a mesa com os jornalistas inúmeras vezes. Não falava nada. De boca sempre cheia, apenas fazia um sinal positivo com o polegar para indicar que o filé mignon e as batatas estavam ótimos. E como sujava aquele bigodão com molho madeira.
sexta-feira, 24 de abril de 2009
O que a faculdade não ensina
Jornalismo Contemporâneo: Questões de Sobrevivência
– Aprenda a ser ágil em uma redação cada vez mais enxuta: a arte de escrever três matérias ao mesmo tempo.
– É possível decolar na carreira tendo um péssimo texto? A estratégia de dar para o chefe ainda funciona?
– O desafio de trabalhar pra caralho e sem folga, e ter uma vida saudável.
– Regras básicas para se tornar um assessor de imprensa eficiente e feliz, mesmo odiando este tipo de trabalho.
Teoria Geral da Economia para Enforcados
– Como fazer o seu mísero salário render até o fim do mês.
– Complementando a renda: fazer frila ou vender o corpinho? Os prós e contras de cada opção.
– Evite gastos desnecessários: a arte de decorar sua casa apenas com jabás.
– Plano de carreira na redação: mito ou realidade?
Psicologia Aplicada à Desgraça Cotidiana
– Nunca serei um fodão da TV: a melhor maneira de lidar com as frustrações.
– Como tomar uma porrada de furos da concorrência e não se sentir um merda.
– Maximizando a força interior: sou um fracassado, mas não cometi suicídio.
– Não deixe a sensação de poder subir à cabeça: a famosa frase "sabe com quem você está falando?" é uma grande bobagem.
Sociologia do Caos na Pós-Modernidade
– A arte de trabalhar em hard news e ver o crescimento dos filhos (se tiver tempo de fazê-los).
– Os plantões e a cornitude: estudos de caso.
– Como ter vida social fora da redação, sem precisar interagir apenas com jornalistas.
Elementos Jurídicos no Jornalismo: uma Introdução
– Crimes sexuais: comer a estagiária pode dar cadeia?
– Direito trabalhista: vale a pena colocar seu empregador no pau pelas horas extras que não foram pagas?
– Como transformar sua condenação por calúnia em doação de singelas cestas básicas.
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terça-feira, 21 de abril de 2009
Entrevista com o Torresmão
O papo seria no QG do Torresmão, que ficava em algum lugar que ninguém conhecia. Foram meses e meses de negociação com o Silvinho de Assis, o Azeitona, bandido que acumulava a função de assessor de comunicação da organização. Em tempo: o Azeitona não tinha diploma de jornalista.
- Duda, vai estar todo mundo lá, disse o meu amigo. O Valdenir de Souza, o Cabeção, é o cérebro do grupo, o cara do planejamento, da logística e tal; o Paulo Cordeiro, o Paulinho Motoserra, é o responsável pelo departamento de execuções; o Gilbertinho Assunção, o Beringelão...
Ensaiei perguntar por que “Beringelão”, mas desisti.
A entrevista estava cercada de mistério. Meu amigo encontraria com membros do bando em uma estação de metrô. De lá, seguiria com os olhos vendados em um carro até o QG do Torresmão. Parecia até uma entrevista com o chefão de um daqueles grupos terroristas árabes que bombam por aí.
Antes de o papo começar, o Azeitona, eficiente assessor de comunicação, avisou que já havia levantado todas as informações pessoais do meu amigo. Sabia até onde sua filhinha estudava. A recomendação era para não vacilar. Apesar do tom ameaçador do início, a entrevista foi tranqüila. O Torresmão falou da estrutura empresarial de sua organização, das propinas que pagava aos policiais, filosofou, comentou futebol. Disse até que gostava dos jornalistas porque muitos eram seus clientes mais fiéis de pó.
Ao fim da entrevista, o Azeitona fez um sinal com a cabeça para o Torresmão, que anunciou então sua última exigência. Queria ler toda a matéria antes de ser publicada. Meu amigo, que em toda sua carreira jamais deixara alguém cometer tamanha afronta, ficou indignado. Se nem ministro de Estado interferiu em seu trabalho, não seria um bandido, um vagabundo daqueles que faria isso. Olhou o Torresmão nos olhos e disparou:
- Quer que eu mande por e-mail ou por fax?
sexta-feira, 17 de abril de 2009
A muvuca
A muvuca estava formada. Todo mundo querendo falar com o empresário. Atmosfera sufocante. O sujeito mal conseguia andar, espremido por aquele bolo de jornalistas.
A cena reunia personagens pitorescos. Tinha o repórter que, para aumentar a renda mensal, trabalhava para uma emissora de TV e duas emissoras de rádio. Tinha de dar conta, no meio do caos, de segurar dois microfones e um gravador. Se fosse um daqueles deuses hindus cheios de braços, tudo seria mais fácil. Mas não era. Havia também aquele repórter baixinho, que praguejava contra este tipo de cobertura. Era sempre engolido pela massa.
A bela e jovem repórter de TV era também fresca e reclamava de tudo. Fazia ares de quem freqüentava a Oscar Freire, mas aquele seu tailleur rosa denunciava sua pobre condição de jornalista. Decerto, fora comprado numa liquidação da Riachuelo. Foi ela quem soltou um grito histérico quando um cinegrafista descuidado bateu de leve com a câmera em sua cabeça. Gemeu, mas não tirou os olhos do empresário. Questão de sobrevivência.
O empresário, que se esquivava dos microfones para não perder um dente, não falava nada. Já tinha sido instruído pelo dotô advogado. Nem tinha como falar. Eram muitas perguntas, simultâneas, cruzadas, confusas. Um fotógrafo, que andava de costas abrindo o caminho, tropeçou e caiu na saída da delegacia. Se não fosse ágil, teria sido pisoteado. O empresário foi embora, mudo. Os jornalistas, ofegantes, amarrotados e frustrados, tratavam de se recompor.
- Quatro horas nessa delegacia e o filho-da-puta não fala porra nenhuma, protesta um colega.
O repórter dos dois microfones e um gravador buscava agora organizar aquele monte de equipamentos e cabos. O baixinho perguntava a alguém mais alto se tinha perdido algum detalhe importante. E a jornalista fresca da TV, ao mesmo tempo em que massageava a cabeça, dava-se conta de que, no meio daquela confusão, alguém passara a mão em sua bunda. Pela pegada, sabia que não havia sido sem querer. Mas desta vez ela não reclamou.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Quem tá preocupado com a crise?
A exploração do mundo das celebridades ganha, a cada dia, mais espaço em nossa mídia. Falo, particularmente, dos sítios de fofoca, que se proliferam aos montes pela internê. Abordam, em geral, temas de grande relevância para a humanidade, como as novidades das novelas, festinhas de jogadores de futebol com travestis ou a separação de algum casalzinho de famosos. Tudo com muito glamour, é claro.
São alimento para leitores que adoram bisbilhotar a vida alheia ou, simplesmente, buscam algum assunto interessante para debater na casa da sogra, durante o almoço de domingo. Eu adoro os flagras de atrizes gostosas que vão sintetizar a vitamina D de seus corpos em alguma praia carioca. Não me prendo muito aos textos. Valorizo mais as fotos dos paparazzi.
Em época de crise, a mídia da fofoca é a salvação dos artistas que chafurdam no limbo. E dos jornalistas desempregados também. Hoje em dia, qualquer subcelebridade tem um assessor de imprensa, que não precisa de muita criatividade para gerar pautas. Mas deve ser um porre escrever um release sobre a morte do cachorrinho de uma mulher-fruta ou sobre o novo corte de cabelo de uma apresentadora decadente de TV.
E como sofrem nossos coleguinhas que trabalham nestes sítios! É cruel manter um contato mais inteligente com muitos dos entrevistados. Eu, que já atuei na imprensa esportiva, não sei o que é pior: conversar com um jogador de futebol ou uma celebridade que agoniza.
- Tá sumido?
- Pois é, tô dando um tempo, estudando muito...
- Projetos?
- Tô com um projeto bárbaro que deve rolar em breve, mas, por enquanto, é segredo, não posso revelar... Brasil, me aguarde!
- E TV? Quando vai voltar a fazer?
- Você sabe que TV é tudo, é onde eu fico mais à vontade. Tô esperando convites...
Os sítios de fofoca fomentam discussões filosóficas. Será que o Max, o novo milionário do BBB, é viado? Teria Alexandre Frota desistido mesmo dos filmes pornôs? Adriano, o Imperador, cheira ou não cheira quando sobe o Morro da Chatuba? E tem gente que ainda está preocupada com a crise econômica mundial.
segunda-feira, 13 de abril de 2009
Me dê motivo
A nova pesquisa, já no ar, quer saber o que, afinal de contas, levou você a decidir ser um jornalista. Não vale mentir para amenizar a dor. O máximo que está permitido é pedir ajuda aos universitários, desde que eles sejam estudantes de Jornalismo. Se alguém tem alguma outra razão que não foi relacionada entre as opções, comente aqui ou se cale para sempre. Bons votos!
quinta-feira, 9 de abril de 2009
O lado B da vida
O Meia Hora me trouxe lembranças do finado Notícias Populares, ou simplesmente NP, que circulava em São Paulo. Era aquele que bastava torcer para sair sangue. Na seção policial, não faltavam imagens de cadáveres destroçados. Havia notícias pitorescas. As moçoilas seminuas que embelezavam suas páginas eram, na maioria, trabalhadoras da Rua Augusta. Como eu apreciava a apimentada cobertura do Carnaval! E não posso me esquecer de mencionar o curioso caso do bebê-diabo de São Bernardo. Sempre fui um admirador do lado B da vida!
Gostava também da coluna de Voltaire de Souza, com seus dramalhões humanos que quase sempre terminavam em desgraça. Talvez um cruel retrato do cotidiano de alguns leitores. O NP era célebre por seus textos cheios de gírias e manchetes impagáveis, ótimas sacadas de criativos jornalistas. Pérolas como “Bicha põe rosquinha no seguro” e “Broxa torra o pênis na tomada”. Havia ainda as promoções, do tipo “Compre um presentão para a mulher da sua vida. Mas não esqueça a lembrancinha de sua esposa”.
Certa vez, em sua capa, o NP estampou uma foto de Joana Prado, a então famosa Feiticeira, apenas de véu, brincos e salto alto. A genitália desnuda estava coberta por uma das mãos, onde se lia uma instigante chamada: “Veja a chana na página 5”. Curioso, voei para o destino indicado. Lá, encontrei uma entrevista com Chana, a goleira da seleção brasileira de handebol. Mijei de tanto rir, apesar da frustração. Se eu quisesse ver a Feiticeira por completo teria de ir a uma daquelas bancas vagabundas do centrão, verdadeiros sebos da libertinagem, que vendem Playboys antigas com páginas coladas.

