No mundo selvagem da imprensa, algumas espécies de jornalistas, ameaçadas de extinção, lutam pela sobrevivência. Fica aqui uma ótima sugestão de pauta para o Globo Repórter, que adora falar de animais exóticos.
Jornalista-que-lê-muito – É uma espécie cada vez mais rara nas redações brasileiras. Uma subespécie muito famosa é o jornalista-da-mão-escura, conhecido por ter as mãos sujas pela tinta do papel dos jornais. Costuma devorar periódicos impressos e é atraído pela boa literatura. Sua principal característica é estar sempre bem informado e ter uma vasta cultura geral. O jornalista-que-lê-muito tem como maior predador o jornalista-alienado-do-iPod-dourado, espécie cujas atividades intelectuais principais são ouvir música e dedicar-se a joguinhos virtuais como Mafia Wars ou FarmVille. Pesquisadores têm dificuldade de encontrar o jornalista-que-lê-muito, que passou a viver isolado e escondido. A espécie é socialmente discriminada, uma vez que ainda não criou uma conta no Twitter, nem um perfil no Facebook.
Jornalista-de-vida-desregrada – Conhecida por seus hábitos boêmios noturnos, regados a álcool, cigarro e porções de calabresa, esta espécie tem perdido espaço para um novo grupo de jornalistas preocupados em levar uma vida mais saudável. A nova geração, careta pra cacete, caga de medo desse papinho chato de colesterol ruim, bom, colesterol mais ou menos, triglicérides e o escambau. Os bares de quinta categoria, hábitat natural do jornalista-de-vida-desregrada – cuja subespécie mais famosa é o jornalista-com-barriga-de-grávida, cultivada por muito chope –, estão cada vez mais vazios. A espécie em ascensão, o jornalista-natureba-do-rabo-malhado, costuma freqüentar restaurantes irritantemente limpos e sem gordura trans. Com a iminente extinção do jornalista-de-vida-desregrada, há também o risco de serem dizimadas as filosofias de botequim e as maledicências em geral.
Jornalista-que-vive-na-rua – Está cada vez mais difícil ver esta espécie de jornalista, que antigamente era livre para sair pela cidade em busca de notícia, solta por aí. Hoje, vive presa nas redações. Estes jornalistas apuram matérias por telefone, fazem entrevistas por e-mail e têm no Google a principal fonte de pesquisa para suas matérias. Alguns jornalistas da nova geração já nascem em cativeiro e têm pouca chance de sobrevivência quando vão para as ruas sozinhos. São os chamados jornalistas-da-bunda-quadrada, que passam grande parte do dia sentados numa cadeira. Analistas do comportamento comprovaram, após estudos, que o jornalista-que-vive-na-rua tem paixão pela pauta inesperada, por coisas vivas, dinâmicas, enquanto o jornalista-da-bunda-quadrada adora – mas como adora – um release.
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quarta-feira, 9 de junho de 2010
Jornalistas em extinção
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