O nome de pia é Teotônio Camargo, mas, cá entre nós, isso não é nome de jornalista cultural.
Ficou Tetê Camargo. E ponto.
Tetê acha que entende de Cinema. De Teatro. Moda. Acha que entende de Artes Plásticas. Enfim, Tetê se acha.
Tetê diz ser contra todos os modismos, mas não abre mão do All Star verde, da echarpe de lã e dos óculos com aros gigantes. Porque ouviu dizer que estão na moda.
Tetê vive um tipo de dependência de palavras como idiossincrasia, emblemático, visceral.
Tetê não vê a hora de cobrir o Festival de Cinema de Cannes, só que o máximo que conseguiu até hoje foi acompanhar o Festival Comunitário de Curtas do Capão Redondo.
Tetê suporta blablablá de artista plástico pseudovanguardista apenas para filar um carpaccio de salmão no vernissage.
Tetê é fã do Herchcovitch. Assumido. Cruza as pernas como o Caetano Veloso na primeira fila da SPFW, mas vira macho se algum engraçadinho diz que em Cultura só tem viado.
Tetê sonha ser dramaturgo e ator. Fez até oficina com o Zé Celso. Só que não tem talento pra coisa. O jeito é virar crítico teatral.
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terça-feira, 10 de abril de 2012
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Pequenos casos de amor
Alessandro trabalhava na redação como office-boy. Cuidava do papel da impressora, do papel do fax, comprava cigarro na padoca para os repórteres mais folgados. Era preto, pobre e nunca tinha grandes oportunidades na vida. Era também curioso. Ficava observando o trabalho dos jornalistas e começou a se encantar pela coisa. Um dia pediu ao editor de Cultura que lesse um texto que ele havia escrito sobre uma peça teatral. “Então, você gosta de teatro?”, perguntou o editor. “Sempre que tem peça de graça eu vou.” O editor corrigiu um problema de ortografia aqui, uma crase errada ali, deslizes que até jornalista profissional comete. No geral, gostou bastante do que leu. Texto enxuto, bem sacado, sem afetação. A partir daquele dia, Alessandro começou a colaborar na produção do roteiro cultural da semana. Era uma espécie de assistente do estagiário, cargo que, convenhamos, é nada interessante. Mas Alessandro achou o máximo. Os jornalistas, empolgados com o tesão que o menino mostrava, resolveram fazer uma vaquinha para bancar a faculdade de jornalismo para ele. Alguns repórteres mal tinham dinheiro para pagar o aluguel do apê em que moravam, mas colaboraram mesmo assim. Alessandro estudou jornalismo e conseguiu o diploma que, naquela época, ainda valia alguma coisa. Hoje, é repórter do caderno de Cultura e faz matérias sobre teatro, sobre cinema, música. Ah, e sabe tudo de crase também.
Motorista do jornal, Teixeira vivia nas ruas e criou uma grande intimidade com as cenas inesperadas. Enquanto seus colegas de profissão dedicavam-se à arte de jogar conversa fora, difamar a vida alheia e paquerar “princesas” por todos os cantos da cidade, Teixeira atentava-se a fatos, a imagens. Um dia comprou uma máquina fotográfica simples e de segunda mão e a deixou guardada no porta-luvas de seu carro. Em casa, a patroa protestou. “Mas o que deu na sua cabeça, homem, de querer virar fotógrafo? Deu para gastar dinheiro com essas besteiras agora?” Sempre que podia, Teixeira registrava uma cena. Começou com coisas banais. Os fotógrafos do jornal, camaradas, faziam a revelação de seus filmes no estúdio da redação. Um dia, o editor de Arte viu uma fotografia perdida sobre uma mesa. Pivetes tomando banho no chafariz de uma praça. Achou a imagem poética. “Porra, a foto é de quem? Que Teixeira? O motorista?” Tempos depois, Teixeira, o motorista, foi o único a conseguir registrar o exato momento da execução de um sem-teto em confronto com a polícia. Ganhou a capa do jornal. Os fotógrafos, empolgados com seu talento, resolveram fazer uma vaquinha para comprar uma máquina profissional para ele. Alguns mal tinham dinheiro para pagar a conta da luz, mas colaboraram mesmo assim. Hoje, Teixeira faz até exposição de fotos. A patroa ficou toda orgulhosa. “Que talento tem esse homem!”
Motorista do jornal, Teixeira vivia nas ruas e criou uma grande intimidade com as cenas inesperadas. Enquanto seus colegas de profissão dedicavam-se à arte de jogar conversa fora, difamar a vida alheia e paquerar “princesas” por todos os cantos da cidade, Teixeira atentava-se a fatos, a imagens. Um dia comprou uma máquina fotográfica simples e de segunda mão e a deixou guardada no porta-luvas de seu carro. Em casa, a patroa protestou. “Mas o que deu na sua cabeça, homem, de querer virar fotógrafo? Deu para gastar dinheiro com essas besteiras agora?” Sempre que podia, Teixeira registrava uma cena. Começou com coisas banais. Os fotógrafos do jornal, camaradas, faziam a revelação de seus filmes no estúdio da redação. Um dia, o editor de Arte viu uma fotografia perdida sobre uma mesa. Pivetes tomando banho no chafariz de uma praça. Achou a imagem poética. “Porra, a foto é de quem? Que Teixeira? O motorista?” Tempos depois, Teixeira, o motorista, foi o único a conseguir registrar o exato momento da execução de um sem-teto em confronto com a polícia. Ganhou a capa do jornal. Os fotógrafos, empolgados com seu talento, resolveram fazer uma vaquinha para comprar uma máquina profissional para ele. Alguns mal tinham dinheiro para pagar a conta da luz, mas colaboraram mesmo assim. Hoje, Teixeira faz até exposição de fotos. A patroa ficou toda orgulhosa. “Que talento tem esse homem!”
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segunda-feira, 10 de maio de 2010
O crítico de cinema
Com o jornal do dia nas mãos, o jovem cineasta entra no café e senta-se a uma mesa ao fundo. Pega logo o caderno de Cultura. Quer ler a crítica de seu filme que acabou de estrear. O que aquele crítico escreve faz toda a diferença. Pode tanto arruinar uma carreira como levar um jovem cineasta como ele à condição de grande revelação do ano.
“É um filme de grandes pretensões, e merecedor de elogios por se tratar de um diretor e também roteirista que está apenas começando sua carreira. Sua ousadia deu muito certo. O resultado é um filme denso, instigante e que não foge de temas polêmicos. Engana-se quem acredita que as cenas de sexo têm apenas o objetivo de chocar. É o sexo metafórico, que busca discutir grandes questões filosóficas de forma crua, por vezes árida, mas também tocante (...) O apreciador do cinema vai logo perceber que a cena em que a protagonista faz sexo com três policiais ao mesmo tempo em uma praça pública não tem nada de machista e humilhante. Pelo contrário. É, na verdade, simbologia sem pudor da libertação feminina, uma forma que o diretor encontrou, com seu olhar subjetivo, de mostrar que a mulher de hoje faz o que lhe dá prazer, sem se preocupar em ser julgada pela sociedade conservadora. Outra cena emblemática é quando a velhinha que vende cachorro-quente na rua pergunta ao garoto de programa que trabalha ali perto se ele toparia ir à sua casa naquela noite, uma bem-sucedida arma do diretor de evidenciar que o ser humano é livre para amar em qualquer idade e sob qualquer circunstância. Corajoso e inquietante, o filme deve projetar o diretor à grande revelação do ano”.
O jovem cineasta termina a leitura e dobra o jornal. Sorri, balança a cabeça, sorri de novo. Está naturalmente feliz com a crítica positiva, mas, ao mesmo tempo, surpreso.
Sexo metafórico? Simbologia sem pudor da libertação feminina? Questões filosóficas? Nada a ver o que esse cara escreveu! Viajou total! Eu só fiz um filme de sacanagem, assim, simples, um filme de sacanagem. Não quis discutir porra nenhuma. Mas uma coisa eu não posso negar: esse jornalista escreve bonito pra caralho...
- Amigo, um café, por favor. Puro.
“É um filme de grandes pretensões, e merecedor de elogios por se tratar de um diretor e também roteirista que está apenas começando sua carreira. Sua ousadia deu muito certo. O resultado é um filme denso, instigante e que não foge de temas polêmicos. Engana-se quem acredita que as cenas de sexo têm apenas o objetivo de chocar. É o sexo metafórico, que busca discutir grandes questões filosóficas de forma crua, por vezes árida, mas também tocante (...) O apreciador do cinema vai logo perceber que a cena em que a protagonista faz sexo com três policiais ao mesmo tempo em uma praça pública não tem nada de machista e humilhante. Pelo contrário. É, na verdade, simbologia sem pudor da libertação feminina, uma forma que o diretor encontrou, com seu olhar subjetivo, de mostrar que a mulher de hoje faz o que lhe dá prazer, sem se preocupar em ser julgada pela sociedade conservadora. Outra cena emblemática é quando a velhinha que vende cachorro-quente na rua pergunta ao garoto de programa que trabalha ali perto se ele toparia ir à sua casa naquela noite, uma bem-sucedida arma do diretor de evidenciar que o ser humano é livre para amar em qualquer idade e sob qualquer circunstância. Corajoso e inquietante, o filme deve projetar o diretor à grande revelação do ano”.
O jovem cineasta termina a leitura e dobra o jornal. Sorri, balança a cabeça, sorri de novo. Está naturalmente feliz com a crítica positiva, mas, ao mesmo tempo, surpreso.
Sexo metafórico? Simbologia sem pudor da libertação feminina? Questões filosóficas? Nada a ver o que esse cara escreveu! Viajou total! Eu só fiz um filme de sacanagem, assim, simples, um filme de sacanagem. Não quis discutir porra nenhuma. Mas uma coisa eu não posso negar: esse jornalista escreve bonito pra caralho...
- Amigo, um café, por favor. Puro.
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