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segunda-feira, 12 de março de 2012

Tudo o que você sempre quis saber sobre jornalismo (mas tinha medo de perguntar)


Praticar jornalismo antes de se formar é pecado?
Não, claro que não. Os tempos mudaram. Tem gente, inclusive, praticando o jornalismo mesmo sem a faculdade, que já é outro extremo. É preciso achar um ponto de equilíbrio ou a coisa vira baixaria. No seu caso, como ainda é jovem e não se formou, pratique o jornalismo, mas vá devagar. Não precisa sair por aí pegando qualquer pauta safada.

Devo usar o gravador com entrevistados de risco?
Óbvio. Entrevista segura sempre. Muitos entrevistados podem alegar depois que não falaram o que falaram e pedir a sua cabeça ao chefe. Com o gravador, você evita as DSTs (Demissões Sacanamente Transmissíveis).

Conheço uma assessora de imprensa que antes era jornalista de redação. Há cinco anos, decidiu fazer a operação para mudança de profissão e hoje se diz mais completa e feliz. Mas tenho dúvidas. Quando a pessoa faz este tipo de mudança não perde o prazer?
Vários trans-jornalistas desempenham ótimo papel como assessores e sentem prazer na nova atividade. É preciso respeitar a diferença. Mais: é preciso um grande processo de inclusão do assessor na sociedade. Quando teremos um assessor numa novela da Globo?

Tenho um fetiche muito grande por emplacar a manchete do jornal. Fico todo excitado, ainda mais se for manchete de domingo. Sou um pervertido?
A excitação pela manchete ou matéria de capa é um transtorno tão comum que chega a ser algo normal para os jornalistas. Doente você seria se não a tivesse.

Publicar notícias com muita rapidez deixa o leitor insatisfeito?
Sim, os leitores ficam na maior vontade por uma matéria mais aprofundada. Uma grande disfunção do jornalismo atual é a ejaculação de informação precoce, que afeta principalmente jornalistas de portais. Invista nas apurações preliminares.

A primeira vez no pescoção dói?
Dói, ô se dói. A primeira, a segunda, a terceira...

Engulo o esporro do editor ou cuspo na cara dele?
Se precisa muito do emprego, engula. E sem fazer cara feia, ok?

É saudável ter fantasias jornalísticas? Eu, por exemplo, sempre me imagino apresentando o Jornal Nacional com a Patrícia Poeta numa ilha deserta.
A realidade é melhor do que qualquer fantasia. Mesmo que seja cobrir a explosão de um bueiro numa rua nada deserta.

Na minha editoria, há apenas homens. É muito comum um comentar o tamanho do lead do outro. O meu é sempre muito pequeno, porque tenho dificuldade de colocar o “como” e o “por quê” logo no primeiro parágrafo. Como aumentar o meu lead?
Não caia na cilada daqueles e-mails “enlarge your lead”, ok? Você nunca ouviu ninguém dizer que não importa o tamanho do lead, mas, sim, o prazer informativo que ele proporciona? A coisa é por aí. De que adiantam leads enormes e bobocas?


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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Crise existencial


De onde vim e pra que pauta irei?

Existe vida após um dia de trabalho de 14 horas?

O jornal impresso vai mesmo acabar em 2012?

Onde estava Deus na hora em que decidi prestar jornalismo?

Por que a liberdade vem sempre pela metade?

Por que o tempo passa mais rápido quando a gente tá atrasado?

Qual o sentido da faculdade de jornalismo? Pra lá ou pra cá?

O que é felicidade? Uma manchete assinada? Uma porção de calabresa?

Deus está vivo? Roberto Marinho é o Deus? Roberto Marinho está vivo?

Ser assessor de imprensa ou não ser?

Se existem perguntas sem resposta, por que o meu editor me enche tanto o saco?

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Perguntas


Ronald sempre folga na Páscoa. Na redação, metade da gente folga no carnaval e metade folga na Páscoa e todo ano é aquela zoeira pra decidir a escala. Ronald odeia o carnaval. Ronald odeia a obrigação de se divertir no carnaval. Pior: Ronald odeia ficar respondendo por que odeia se divertir no carnaval. Prefere a desculpa de ter que trabalhar. Ronald também não morre de amores pela Páscoa, mas acha que a Páscoa tem uma melancolia que combina com a sua melancolia. Ronald é um cabra sozinho em São Paulo. Não dá nem recebe ovos de chocolate. Só uma vez passou o almoço de Páscoa no apartamento de seu Juvêncio, o zelador do prédio, cearense como ele, também sozinho em São Paulo. Teve buchada e cachaça e pouca conversa. Ficaram seu Juvêncio mais Ronald na sala, fumando e vendo um filme sobre o Senhor Jesus Cristo na TV.

Ronald sempre folga no Natal. E a redação toda quer folgar no ano-novo. Essa gente parece que gosta de ficar horas num congestionamento só pra pular ondinhas no mar. O Natal também é melancólico como Ronald e é tempo de viajar pra São João do Jaguaribe, tempo de visitar a mãe mais os irmãos mais as tias mais não sei mais quem. Entre os seus, Ronald também é um cabra calado e estranho, mas um cabra calado e estranho cheio de importância, porque estudou, porque se fez jornalista e porque foi o único que teve peito de trocar a vidinha sem graça de São João do Jaguaribe pela vidinha sem graça de São Paulo. A única coisa que deixa Ronald apurrinhado no Natal são as perguntas de sempre da mãe – por que ainda tá fumando, por que ainda não arrumou moça pra casar, por que tanta magreza?

Ronald odeia responder perguntas.

Ronald é jornalista, porra! É ele quem faz as perguntas.


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