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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

TCC


O TCC é uma aporrinhação para o estudante de Jornalismo. Um esforço danado pra quem passou quase quatro anos numa vida serena, entre aulinhas sem graça e a cervejinha no bar. Com o TCC, são meses de abstinência social. Pode ser monografia, livro-reportagem, documentário. Não importa. É um trabalho de conclusão de curso que teima em nunca acabar.

TCC requer criatividade pra escolher um tema original. Sorte pra descolar um orientador gente boa. Madrugadas de leitura. Debates em grupo de avivar gastrite nervosa. Pesquisas, entrevistas, páginas e páginas de citações teóricas. Revisa aqui, compila ali, encaixa acolá. Trabalhos que mais parecem um Frankenstein. Tem estudante que surta. Tem estudante que enfim descobre onde fica a biblioteca da faculdade.

TCC tem dedicatória brega do aluno à família que o apoiou. E penou para pagar o curso. À paciência do orientador, sempre com tempo curto e mil outros projetos para acompanhar. TCC tem a porra da formatação da ABNT. Papel branco A4, Times corpo 12, margem de 3 centímetros à esquerda, parágrafo com recuo de 2 centímetros, referência bibliográfica assim, sumário assado, não sei o quê em itálico, em caixa baixa, em caixa alta.

TCC exige sangue-frio do estudante para lidar com o furo de um dos membros da banca às vésperas da banca. Agilidade para conseguir um substituto pra ontem. É uma mistura de tensão e ansiedade até a apresentação final do trabalho, quando o professor-orientador, do alto de sua sabedoria acadêmica, atesta que seu pupilo está apto para ser JORNALISTA!!! Papai e mamãe ficam orgulhosos. Todos se abraçam, riem, choram.

Então, o jornalista cai no mercado de trabalho e descobre que fazer um TCC é algo até bem sossegado, sabe?


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segunda-feira, 2 de agosto de 2010

O post do desassossego


O jornalista desassossega-se com grana. Tem dias em que acorda e pensa: “Puta merda, ainda não fiz aquele plano de previdência privada que eu planejei há anos! Assim, eu vou acabar passando a minha velhice no retiro dos jornalistas”. Faz contas, pergunta-se, pela enésima vez, se é melhor um PGBL ou um VGBL. Só sossega um pouco quando trabalha com o cenário de não conseguir chegar à velhice, o que é bem provável, considerado o ritmo maluco de vida. O jornalista desassossegado batalha frilas o tempo todo, já que o salário – quando tem – é insuficiente. Passa as madrugadas acordado, escrevendo, enchendo a cara de café e pensando nos prazos finais.

O jornalista desassossega-se com o que pode ocorrer no dia de seu plantão. Pede a Deus – esquece até que é ateu – que nenhuma desgraça extraordinária aconteça no mundo no período em que ele vive seu cárcere na redação. Já pensou se o Pelé resolve morrer logo num sábado à noite? O jornalista desassossegado vive o mesmo drama quando está deixando o jornal em um dia normal de trabalho. Para evitar uma pauta de última hora, adota a saída à francesa, na ponta dos pés, escondendo a bolsa sob o casaco e olhando discretamente para os lados.

O jornalista desassossega-se com seus projetos profissionais. Será que é isso mesmo que eu quero para o resto da minha carreira? Será que não é hora de largar esse mundo podre da política que eu cubro há tanto tempo para me dedicar ao jornalismo cultural que eu sempre amei? Será que não é o momento de recomeçar, do zero? Será que não é o caso de vender o carro e passar um ano fora do Brasil, conhecer gente nova, idéias novas? Será que, mesmo velho, eu ainda vou levar um curso de Inglês a sério?

O jornalista desassossega-se com tudo que está acontecendo no planeta. Precisa saber sobre os últimos escândalos políticos, as últimas catástrofes naturais. Precisa formar opinião sobre tudo, sobre o casamento gay, sobre as novas mídias, sobre a necessidade de ter opinião sobre tudo. Muitos jornalistas tomam café da manhã na padaria com as páginas do jornal abertas. O jornalista desassossegado não pode passar vexame na reunião de pauta e, pior, não pode ficar sem assunto na mesa do bar.

Como eu gosto deste desassossego.