Aí, mãe, meu chefe pediu pra esperar, pra ver se rolava alguma coisa. E nada. A tarde toda.
Aí ele: pintou um caso de polícia. Gosta de matéria com sangue?
Aí eu: adoro matéria com sangue.
Aí ele: liga pro delegado nesse número. Doutor Junqueira.
Aí eu: ligo, sim, ligo agora.
Aí ele: parece que foi briga de bar, um morto, esfaqueado, checa lá. 15 linhas, ok?
Aí eu peguei o telefone, aí o doutor não tava na sala, aí eu liguei de novo, aí eu falei com o bendito doutor, aí eu anotei tudo rapidinho, aí eu não entendi minha letra, aí eu comecei a suar frio, aí eu escrevi correndo.
Aí ele: solta o texto, Luísa.
Aí eu: tô soltando.
Aí ele: solta o texto, Luísa.
Aí eu: já soltei.
Aí ele ficou lendo e franziu a testa e coçou a orelha com o dedinho.
Aí eu fiquei rezando pro texto estar bom, porque eu escrevi correndo, lembra, mãe?
Aí ele não parava de ler, meu Deus!
Aí eu já pensando que tava uma droga, porque como pode demorar tanto pra ler um texto de 15 linhas? E digitou umas coisas e outras coisas.
Aí ele: Luísa, vem cá.
Aí eu: tô indo (com as pernas bambas, sabe, mãe?).
Aí ele: teu texto tá ótimo.
Aí eu: nossa, obrigada!
Aí ele: tinha um errinho só, muitas aspas, viu?, mas depois a gente conversa.
Aí eu: ah, claro, muitas aspas.
Aí ele: como você quer assinar a matéria?
Aí eu: com meu nome.
Aí ele: isso eu sei. E qual o teu nome completo?
Aí eu: Ana Luísa Fonseca de Barros Oliveira Medeiros.
Aí ele: caramba, tudo isso?
Aí eu: tudo isso.
Aí ele: muito grande. Corta pruns três nomes.
Aí eu: gosto de Luísa Medeiros.
Aí ele: Luísa com “z”?
Aí eu: com “s” e acento.
Aí ele: pode chegar cedo amanhã?
Aí eu: na hora que você quiser.
Aí ele: gosta de pauta na rua?
Aí eu: adoro pauta na rua.
Aí ele: às 7 horas aqui (e coçou a orelha de novo com o dedinho).
Aí, mãe, foi isso. Primeira matéria assinada! Página 3, meio lá embaixo, sabe? E, ó, não esquece de comprar o jornal amanhã, tá?
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segunda-feira, 21 de outubro de 2013
terça-feira, 26 de março de 2013
Nada a seu tempo
Tudo o que ele mais queria era ser levado a sério.
Não bastasse a vergonha do currículo cheio de corpo catorze e outras pequenas trapaças, olham para mim como se eu ainda fosse um repórter que faz cocô nas pautas. Não sou mais tão foca assim, não, tá ligado? Já fiz matéria importante, já entrevistei o prefeito, já dormi em delegacia. Quer saber mais? Já li Nietzsche. E entendi tudinho. O problema é essa minha cara de bebê que nem barba crescida dá jeito. O quê? Não, senhor, não é trabalho de faculdade.
Tudo o que ele mais queria era não ser levado a sério.
Legal essa coisa da experiência, do respeito conquistado, mas de repente a gente percebe que a vida perdeu a graça. É a fase filho-da-puta em que você começa a sentir saudade de si mesmo. Eu quero a porra-louquice da minha juventude de volta, a desordem, o sonho, a chance de errar. Como a gente faz para ser foca outra vez? Ser gente grande é muito careta. Saudade do tempo em que tudo era apenas um trabalho de faculdade.

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Não bastasse a vergonha do currículo cheio de corpo catorze e outras pequenas trapaças, olham para mim como se eu ainda fosse um repórter que faz cocô nas pautas. Não sou mais tão foca assim, não, tá ligado? Já fiz matéria importante, já entrevistei o prefeito, já dormi em delegacia. Quer saber mais? Já li Nietzsche. E entendi tudinho. O problema é essa minha cara de bebê que nem barba crescida dá jeito. O quê? Não, senhor, não é trabalho de faculdade.
Tudo o que ele mais queria era não ser levado a sério.
Legal essa coisa da experiência, do respeito conquistado, mas de repente a gente percebe que a vida perdeu a graça. É a fase filho-da-puta em que você começa a sentir saudade de si mesmo. Eu quero a porra-louquice da minha juventude de volta, a desordem, o sonho, a chance de errar. Como a gente faz para ser foca outra vez? Ser gente grande é muito careta. Saudade do tempo em que tudo era apenas um trabalho de faculdade.

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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Expediente
Se existe alguém que lê expediente de revista ou jornal, esse alguém é o próprio jornalista.
Tem o frila que visita bancas e livrarias bacanas à caça de contatos, contatos, contatos. É o tipo que anota tudo, mas não compra nada. Alguns preferem as bibliotecas. Os mais tecnológicos vasculham expedientes pela internet.
Tem o jornalista na cola de algum conhecido. Por onde anda o Wally? Gente curiosa em saber se um antigo colega de faculdade já virou editor-chefe. Nosso mundinho é tão pequeno quanto o nosso salário. Ainda mais numa época de redações anoréxicas.
Tem o assessor que rala para atualizar seus mailings. Com o entra-e-sai nas publicações, essas listas vendidas por aí envelhecem mais rápido do que o iPhone. Na hora de entupir com releases a caixa postal dos pauteiros, o mailing caseiro é mais confiável.
E tem, claro, o jornalista que saboreia o expediente da própria publicação. Ah, os focas. Ficam lá curtindo o nome estampado num pedaço de papel, sorriso besta na cara que diz sou jornalista de verdade, não tá vendo aqui, não?

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Tem o frila que visita bancas e livrarias bacanas à caça de contatos, contatos, contatos. É o tipo que anota tudo, mas não compra nada. Alguns preferem as bibliotecas. Os mais tecnológicos vasculham expedientes pela internet.
Tem o jornalista na cola de algum conhecido. Por onde anda o Wally? Gente curiosa em saber se um antigo colega de faculdade já virou editor-chefe. Nosso mundinho é tão pequeno quanto o nosso salário. Ainda mais numa época de redações anoréxicas.
Tem o assessor que rala para atualizar seus mailings. Com o entra-e-sai nas publicações, essas listas vendidas por aí envelhecem mais rápido do que o iPhone. Na hora de entupir com releases a caixa postal dos pauteiros, o mailing caseiro é mais confiável.
E tem, claro, o jornalista que saboreia o expediente da própria publicação. Ah, os focas. Ficam lá curtindo o nome estampado num pedaço de papel, sorriso besta na cara que diz sou jornalista de verdade, não tá vendo aqui, não?

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sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Moça com botas de borracha
Como a cobertura de enchentes é muito comum nesta época do ano, republico um post sobre o tema.
A jovem jornalista escolheu o rumo de sua carreira antes mesmo de se formar: queria trabalhar com moda. Gostava da vida de desfiles, badalação, coquetéis, gente famosa. Entendia tudo de roupas, tecidos, tendências. Era também elegante, bonita, magra. Decidiu que seria uma nova Erika Palomino.
Mas a vida é quase sempre ingrata com os focas, e seu primeiro emprego foi o de repórter de Geral de um jornal impresso. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação do gás natural que explodiu. Toda noite, antes de dormir, chorava de tanto desgosto. Pensou em desistir, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade.
Numa tarde em que estava de bobeira na redação, foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu a missão de visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Não tinha opção. Deixou a redação já com as botas nos pés e ainda ouviu algum engraçadinho cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Caminhou pelas vielas, observou o lixo, a lama, o sofrimento no rosto de cada pessoa que tentava salvar os restos. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
No barraco, saboreando o café feito de improviso, a jornalista conheceu o caçula de dona Elza que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Achou graça. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata sarnento, escorregar na lama e quase sujar a bunda.
Estava exausta e, à noite, antes de dormir, olhou para o teto e sorriu como havia muito tempo não sorria. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
A jovem jornalista escolheu o rumo de sua carreira antes mesmo de se formar: queria trabalhar com moda. Gostava da vida de desfiles, badalação, coquetéis, gente famosa. Entendia tudo de roupas, tecidos, tendências. Era também elegante, bonita, magra. Decidiu que seria uma nova Erika Palomino.
Mas a vida é quase sempre ingrata com os focas, e seu primeiro emprego foi o de repórter de Geral de um jornal impresso. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação do gás natural que explodiu. Toda noite, antes de dormir, chorava de tanto desgosto. Pensou em desistir, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade.
Numa tarde em que estava de bobeira na redação, foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu a missão de visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Não tinha opção. Deixou a redação já com as botas nos pés e ainda ouviu algum engraçadinho cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Caminhou pelas vielas, observou o lixo, a lama, o sofrimento no rosto de cada pessoa que tentava salvar os restos. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
No barraco, saboreando o café feito de improviso, a jornalista conheceu o caçula de dona Elza que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Achou graça. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata sarnento, escorregar na lama e quase sujar a bunda.
Estava exausta e, à noite, antes de dormir, olhou para o teto e sorriu como havia muito tempo não sorria. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
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quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
No princípio era o foca
Ser foca é o começo do caminho. Um começo sofrido, assim como também são sofridos o meio e o fim.
Ser foca é a libertação da condição de mero estudante de jornalismo. Como é insuportável ser por tantos anos um mero estudante. Agonia demais para quem tem pressa de viver tudo na prática. Já notaram como o foca enche a boca para dizer que é, enfim, jornalista?
Ser foca é não ter ainda experiência. É o menino virgem levado pelo pai ao puteiro. Medo danado de falhar. Mas tão grande quanto o frio na barriga é a vontade de descobrir um mundo novo.
Quando se é foca, não há perrengue que não se possa enfrentar. O foca aceita trabalhar por muito pouco ou de graça e não reclama. Pega pauta roubada e acha o máximo. O foca corre todos os riscos, paga todos os micos.
O foca tudo pode. Sensação de imortalidade da infância.
Ser foca é fazer clipping na madrugada, infográfico, notinha baseada em release, pesquisa para a matéria dos outros. É suplicar por uma pauta decente na reunião semanal, assim como o cachorro suplica um carinho do dono.
Ser foca é jogar paciência enquanto o mundo parece pegar fogo.
Ser foca é ter humildade de ouvir os mais velhos, inclusive o mais derrotado de todos. O jornalista velho de estrada não será, com certeza, nenhum modelo de herói para o foca, mas ensinará atalhos salvadores. Quem precisa de heróis é filme americano. O foca precisa aprender a não se perder no caminho.
Ser foca é ter a incrível capacidade – que vai desaparecendo com o tempo – de respirar fundo diante das dificuldades e dizer...
... Que se foda!
Ser foca é a libertação da condição de mero estudante de jornalismo. Como é insuportável ser por tantos anos um mero estudante. Agonia demais para quem tem pressa de viver tudo na prática. Já notaram como o foca enche a boca para dizer que é, enfim, jornalista?
Ser foca é não ter ainda experiência. É o menino virgem levado pelo pai ao puteiro. Medo danado de falhar. Mas tão grande quanto o frio na barriga é a vontade de descobrir um mundo novo.
Quando se é foca, não há perrengue que não se possa enfrentar. O foca aceita trabalhar por muito pouco ou de graça e não reclama. Pega pauta roubada e acha o máximo. O foca corre todos os riscos, paga todos os micos.
O foca tudo pode. Sensação de imortalidade da infância.
Ser foca é fazer clipping na madrugada, infográfico, notinha baseada em release, pesquisa para a matéria dos outros. É suplicar por uma pauta decente na reunião semanal, assim como o cachorro suplica um carinho do dono.
Ser foca é jogar paciência enquanto o mundo parece pegar fogo.
Ser foca é ter humildade de ouvir os mais velhos, inclusive o mais derrotado de todos. O jornalista velho de estrada não será, com certeza, nenhum modelo de herói para o foca, mas ensinará atalhos salvadores. Quem precisa de heróis é filme americano. O foca precisa aprender a não se perder no caminho.
Ser foca é ter a incrível capacidade – que vai desaparecendo com o tempo – de respirar fundo diante das dificuldades e dizer...
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terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Carta de um jovem jornalista ao Papai Noel
"Olá, Papai Noel. Eu me chamo João e sou um jornalista recém-formado. Ainda estou chateado com essa história do diploma não ser mais obrigatório, mas não vou desistir da profissão que eu amo! Com ou sem diploma, o problema maior é que está muito difícil arrumar um emprego. Estou escrevendo para pedir uma oportunidade de trabalho neste Natal. Deixei uma meia pendurada na janela com meu currículo atualizado.
Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, faço até plantão no carnaval. Sei que vou ganhar um salário pequeno. Estou ansioso para aprender jornalismo na prática e confiante que o próximo ano será bem melhor. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.
Cometi alguns erros este ano, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Facebook e lendo o blog do Duda Rangel. O único vício que eu tenho é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E se é para uso medicinal não há problema, o senhor bem sabe.
Na faculdade, eu sempre fui um aluno dedicado. Fazia os trabalhos direitinho. Li até livro do Diogo Mainardi que eles me obrigaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet. O meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem vírgula separando o sujeito do verbo nesta carta.
Estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele acontecem mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Também quero conhecer o tal pescoção. Só não quero ser corno como o Duda, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."
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Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, faço até plantão no carnaval. Sei que vou ganhar um salário pequeno. Estou ansioso para aprender jornalismo na prática e confiante que o próximo ano será bem melhor. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.
Cometi alguns erros este ano, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Facebook e lendo o blog do Duda Rangel. O único vício que eu tenho é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E se é para uso medicinal não há problema, o senhor bem sabe.
Na faculdade, eu sempre fui um aluno dedicado. Fazia os trabalhos direitinho. Li até livro do Diogo Mainardi que eles me obrigaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet. O meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem vírgula separando o sujeito do verbo nesta carta.
Estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele acontecem mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Também quero conhecer o tal pescoção. Só não quero ser corno como o Duda, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Quis porque quis fazer jornalismo
Depois de muitos anos, duas mães se reencontram num colégio, no dia de votação de uma eleição qualquer.
- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?
- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?
- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?
- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.
- Mas isso é fase, Maria Helena.
- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.
- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.
Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.
- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?
- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.
- Que bom, já é alguma coisa, né?
- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?
- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.
- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...
Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.
- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!
- Sério?
- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?
- É o meu filho, sim.
- Jura?
- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.
- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?
- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.
- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?
- Sério? Coitado...
- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.
- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.
- Nossa, que coisa, né?
- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?
- Maria Helena? Você não é a mãe do Paulo Henrique, o amigo do Arturzinho, meu filho, nos tempos aqui do colégio?
- Claro! Sou a mãe do Paulo Henrique, sim. Quanto tempo, Célia! E como vai o Arturzinho?
- Arturzinho tá ótimo. Tá nos Estados Unidos. Acabou a faculdade de Economia na USP e está fazendo uma pós-graduação em Nova York. Tá todo empolgado! A família também. E o Paulo Henrique?
- Paulo é aquela coisa: nunca gostou de estudar. Quis porque quis fazer jornalismo. O pai não queria. Agora tá aí, desempregado. Diz que manda currículo todo dia, pra tudo que é lugar, mas a situação tá difícil.
- Mas isso é fase, Maria Helena.
- Deus te ouça, Célia. O Paulo Henrique passa o dia inteiro tocando guitarra no quarto. Diz que vai ser músico também. O pai não tá gostando nada. Eu queria tanto que ele fosse igual ao Arturzinho.
- Bem, Maria Helena, deixa eu ir. Sucesso pro Paulo Henrique.
Dois anos depois, numa outra eleição, novo reencontro.
- Oi, tudo bem? E o Paulo Henrique? Ainda sem emprego?
- Oi, Célia, tudo bem. O Paulo arrumou umas coisas, sim, mas tudo bico. Pelo menos tá pagando as contas dele.
- Que bom, já é alguma coisa, né?
- Ele diz que também está fazendo um blog. Acho que é esse o nome: blog. Não ganha nada. Diz que vai ganhar, mas até agora nada. Diz que é um blog sobre transparência política. Não entendo direito. Ah, esse moleque. E o Artur?
- Arturzinho tá ótimo. Já tá voltando pro Brasil. Mês que vem. Com a pós que ele fez lá nos Estados Unidos, já garantiu um superemprego aqui, num banco grande. Tão jovem e já vai ter um cargo importante, sabe? Salário excelente.
- Que bom. O Arturzinho sempre foi muito estudioso. Eu falava pro Paulo: segue o exemplo do seu amigo. Mas fazer o quê? Quis porque quis fazer essa bobagem de jornalismo...
Pelas mais diversas circunstâncias, o encontro seguinte só ocorreu depois de oito anos.
- Maria Helena, tudo bem? Lembrei de você esses dias!
- Sério?
- Me fala uma coisa: o Paulo Henrique Dias, o jornalista que denunciou o esquema de corrupção lá no Senado, é o seu filho?
- É o meu filho, sim.
- Jura?
- Paulinho tá trabalhando em Brasília há uns cinco anos ou mais. Gostou mesmo dessa coisa de política, investigação, transparência. Lembra que eu falei do blog? Arrumou até emprego por causa do blog.
- Lembro do blog, sim. Que coisa, né?
- Não ganha o salário do Arturzinho, mas tá muito feliz.
- Então, deixa eu te contar. O Artur não está mais no banco. Fez uma besteira lá num investimento alto, o banco perdeu muito dinheiro e mandou ele embora. O pai ficou uma fera. Vai estudar nos Estados Unidos pra fazer uma besteira dessas?
- Sério? Coitado...
- E quando é pra dar errado dá tudo junto. Ele tinha casado, mas depois da confusão com o banco até a mulher abandonou o Artur. Tá em depressão. Não vai nem mais às aulas de esgrima.
- O pai do Paulinho tá todo orgulhoso do filho. Eu também, sabe? Tenho uma pasta aqui com os recortes das matérias dele. Quer ver? Só matéria de capa.
- Nossa, que coisa, né?
- E não é que o Paulinho se encontrou mesmo no jornalismo?
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
TCC
O TCC é uma aporrinhação para o estudante de Jornalismo. Um esforço danado pra quem passou quase quatro anos numa vida serena, entre aulinhas sem graça e a cervejinha no bar. Com o TCC, são meses de abstinência social. Pode ser monografia, livro-reportagem, documentário. Não importa. É um trabalho de conclusão de curso que teima em nunca acabar.
TCC requer criatividade pra escolher um tema original. Sorte pra descolar um orientador gente boa. Madrugadas de leitura. Debates em grupo de avivar gastrite nervosa. Pesquisas, entrevistas, páginas e páginas de citações teóricas. Revisa aqui, compila ali, encaixa acolá. Trabalhos que mais parecem um Frankenstein. Tem estudante que surta. Tem estudante que enfim descobre onde fica a biblioteca da faculdade.
TCC tem dedicatória brega do aluno à família que o apoiou. E penou para pagar o curso. À paciência do orientador, sempre com tempo curto e mil outros projetos para acompanhar. TCC tem a porra da formatação da ABNT. Papel branco A4, Times corpo 12, margem de 3 centímetros à esquerda, parágrafo com recuo de 2 centímetros, referência bibliográfica assim, sumário assado, não sei o quê em itálico, em caixa baixa, em caixa alta.
TCC exige sangue-frio do estudante para lidar com o furo de um dos membros da banca às vésperas da banca. Agilidade para conseguir um substituto pra ontem. É uma mistura de tensão e ansiedade até a apresentação final do trabalho, quando o professor-orientador, do alto de sua sabedoria acadêmica, atesta que seu pupilo está apto para ser JORNALISTA!!! Papai e mamãe ficam orgulhosos. Todos se abraçam, riem, choram.
Então, o jornalista cai no mercado de trabalho e descobre que fazer um TCC é algo até bem sossegado, sabe?
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TCC requer criatividade pra escolher um tema original. Sorte pra descolar um orientador gente boa. Madrugadas de leitura. Debates em grupo de avivar gastrite nervosa. Pesquisas, entrevistas, páginas e páginas de citações teóricas. Revisa aqui, compila ali, encaixa acolá. Trabalhos que mais parecem um Frankenstein. Tem estudante que surta. Tem estudante que enfim descobre onde fica a biblioteca da faculdade.
TCC tem dedicatória brega do aluno à família que o apoiou. E penou para pagar o curso. À paciência do orientador, sempre com tempo curto e mil outros projetos para acompanhar. TCC tem a porra da formatação da ABNT. Papel branco A4, Times corpo 12, margem de 3 centímetros à esquerda, parágrafo com recuo de 2 centímetros, referência bibliográfica assim, sumário assado, não sei o quê em itálico, em caixa baixa, em caixa alta.
TCC exige sangue-frio do estudante para lidar com o furo de um dos membros da banca às vésperas da banca. Agilidade para conseguir um substituto pra ontem. É uma mistura de tensão e ansiedade até a apresentação final do trabalho, quando o professor-orientador, do alto de sua sabedoria acadêmica, atesta que seu pupilo está apto para ser JORNALISTA!!! Papai e mamãe ficam orgulhosos. Todos se abraçam, riem, choram.
Então, o jornalista cai no mercado de trabalho e descobre que fazer um TCC é algo até bem sossegado, sabe?
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segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Me dá uma pauta aí
Ele até conseguia suportar a rejeição da menina que amava, do pai, que queria um filho médico, mas não a rejeição do pauteiro. Tem dor maior para a alma de um jovem repórter do que a dor de ficar sem pauta? Enquanto os outros repórteres estavam na rua, apurando, investigando, vivendo, o jovem repórter sem pauta estava condenado à melancolia da redação, lendo o horóscopo do dia, fazendo pesquisas no arquivo, fingindo viver.
Nas reuniões de pauta semanais, que definiam as matérias das edições seguintes, o jovem repórter ficava no seu canto, diminuído, invisível. Para passar o tempo e enganar o constrangimento, rabiscava, dezenas de vezes, o seu nome numa folha de papel. Quando estava muito irritado com a situação – quase sempre –, costumava rabiscar “pauteiro filho-da-puta”.
Todos já estavam deixando a sala de reunião e ele, tímido, esboçou uma reação.
- Oi, senhor... senhor pauteiro? Olha, eu fiquei sem pauta de novo esta semana. Não tem nada que eu possa fazer, ajudar em alguma matéria especial?
O pauteiro sugeriu a ele redigir mais um daqueles perfis de gaveta, que são publicados na ocasião da morte de pessoas famosas.
- Mas, senhor, a trajetória pessoal e profissional da Hebe Camargo eu já escrevi na semana passada. Passei dois dias no arquivo só fazendo pesquisa, o senhor não lembra? Não tem pelo menos alguém diferente pra gente matar esta semana?
Foi pra isso que eu estudei quatro anos?, refletia, no ônibus, na volta para casa. Quando a gente está na faculdade, não vê a hora de começar a trabalhar de verdade. Então eu chego à redação e é esse o meu destino, o ceifador de vidas de celebridades?
Já pensava em estudar Medicina – por que não ouvi o meu pai? – quando um repórter mais velho e gente boa lhe deu uma dica.
- Rapaz, não fique esperando pela pauta! Você é quem tem que sugerir a pauta. Pare de reclamar e coloque essa cabeça pra funcionar. Cadê a porra da pró-atividade?
Na reunião de pauta seguinte, chegou cheio de idéias. A excitação era tanta que nem se lembrou dos rabiscos. Mas a reunião foi mais breve e ele não conseguiu apresentar as sugestões ao pauteiro. Mesmo assim, estava empolgado. Sabia que a grande oportunidade chegaria. E só dependia dele. Naquela tarde, enquanto pesquisava a vida e a obra de Elza Soares no arquivo, até sorriu. Seus dias de jornalismo mórbido estavam perto do fim.
Nas reuniões de pauta semanais, que definiam as matérias das edições seguintes, o jovem repórter ficava no seu canto, diminuído, invisível. Para passar o tempo e enganar o constrangimento, rabiscava, dezenas de vezes, o seu nome numa folha de papel. Quando estava muito irritado com a situação – quase sempre –, costumava rabiscar “pauteiro filho-da-puta”.
Todos já estavam deixando a sala de reunião e ele, tímido, esboçou uma reação.
- Oi, senhor... senhor pauteiro? Olha, eu fiquei sem pauta de novo esta semana. Não tem nada que eu possa fazer, ajudar em alguma matéria especial?
O pauteiro sugeriu a ele redigir mais um daqueles perfis de gaveta, que são publicados na ocasião da morte de pessoas famosas.
- Mas, senhor, a trajetória pessoal e profissional da Hebe Camargo eu já escrevi na semana passada. Passei dois dias no arquivo só fazendo pesquisa, o senhor não lembra? Não tem pelo menos alguém diferente pra gente matar esta semana?
Foi pra isso que eu estudei quatro anos?, refletia, no ônibus, na volta para casa. Quando a gente está na faculdade, não vê a hora de começar a trabalhar de verdade. Então eu chego à redação e é esse o meu destino, o ceifador de vidas de celebridades?
Já pensava em estudar Medicina – por que não ouvi o meu pai? – quando um repórter mais velho e gente boa lhe deu uma dica.
- Rapaz, não fique esperando pela pauta! Você é quem tem que sugerir a pauta. Pare de reclamar e coloque essa cabeça pra funcionar. Cadê a porra da pró-atividade?
Na reunião de pauta seguinte, chegou cheio de idéias. A excitação era tanta que nem se lembrou dos rabiscos. Mas a reunião foi mais breve e ele não conseguiu apresentar as sugestões ao pauteiro. Mesmo assim, estava empolgado. Sabia que a grande oportunidade chegaria. E só dependia dele. Naquela tarde, enquanto pesquisava a vida e a obra de Elza Soares no arquivo, até sorriu. Seus dias de jornalismo mórbido estavam perto do fim.
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sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Dicas básicas para um foca não morrer na praia
Cuidado com o deslumbramento. Controle a vaidade. Não é por você ter assinado uma matéria e andar no carro da reportagem que poderá empinar o nariz e ficar com ar blasé por aí. É preciso ralar muito para reivindicar o direito de se achar o “fodão”.
Numa pauta, nunca tente dar ordens ou orientar o trabalho de um fotógrafo experiente. Cada um faz a sua parte. Ou você corre o risco de ouvir algo do tipo: “Sabia que quando você ainda se borrava todo nas fraldas, eu já trabalhava na imprensa?”.
Não fique enchendo o saco do editor com perguntas a toda hora. Saiba que ele é um jornalista ocupadíssimo, apesar de gastar um bom tempo contando piadas pelos corredores e brigando com a mulher no telefone. Evite um esporro em público. É o maior mico.
Não fique sacaneando os colegas mais velhos por ainda usarem aquelas jurássicas agendas de telefone e sofrerem para aprender a mexer nos novos modelos eletrônicos. Amanhã, você poderá precisar de algum contato importante deles.
Foca precisa ser sempre prestativo. Os editores adoram jovens disponíveis para serviços extras, como pegar um cafezinho e ir à lotérica ao lado da redação fazer uma fé na Mega-Sena para eles. São experiências que não se aprendem na faculdade.
Não faça biquinho por ter de redigir notas de pé de página. O foca tem pouco espaço mesmo. Nunca recuse uma pauta de seu chefe, por mais esdrúxula que seja. Caso contrário, você estará condenado a servir cafezinho e ir à lotérica por um bom tempo.
Dúvidas são normais no início da carreira, como descobrir o melhor enfoque a dar para um texto. Errar faz parte da vida. Tudo isso é importante para a evolução do jornalista. Só não faça a besteira de colocar o lead no pé da matéria. Por favor.
Se até os jornalistas mais velhos não são os maiores sábios, o que dizer de um jovem? Não diga que você é expert em economia só por saber quanto se paga de juros no cheque especial ou em cinema expressionista alemão só por ter visto Nosferatu.
Atenção para o excesso de ilusões. Não ache que você vai viver num mundo de glamour e ficar rico agora que já é um jornalista e arranjou emprego. Quando você resolver morar sozinho e bancar todas as contas com o seu salário entenderá o que estou dizendo.
Numa pauta, nunca tente dar ordens ou orientar o trabalho de um fotógrafo experiente. Cada um faz a sua parte. Ou você corre o risco de ouvir algo do tipo: “Sabia que quando você ainda se borrava todo nas fraldas, eu já trabalhava na imprensa?”.
Não fique enchendo o saco do editor com perguntas a toda hora. Saiba que ele é um jornalista ocupadíssimo, apesar de gastar um bom tempo contando piadas pelos corredores e brigando com a mulher no telefone. Evite um esporro em público. É o maior mico.
Não fique sacaneando os colegas mais velhos por ainda usarem aquelas jurássicas agendas de telefone e sofrerem para aprender a mexer nos novos modelos eletrônicos. Amanhã, você poderá precisar de algum contato importante deles.
Foca precisa ser sempre prestativo. Os editores adoram jovens disponíveis para serviços extras, como pegar um cafezinho e ir à lotérica ao lado da redação fazer uma fé na Mega-Sena para eles. São experiências que não se aprendem na faculdade.
Não faça biquinho por ter de redigir notas de pé de página. O foca tem pouco espaço mesmo. Nunca recuse uma pauta de seu chefe, por mais esdrúxula que seja. Caso contrário, você estará condenado a servir cafezinho e ir à lotérica por um bom tempo.
Dúvidas são normais no início da carreira, como descobrir o melhor enfoque a dar para um texto. Errar faz parte da vida. Tudo isso é importante para a evolução do jornalista. Só não faça a besteira de colocar o lead no pé da matéria. Por favor.
Se até os jornalistas mais velhos não são os maiores sábios, o que dizer de um jovem? Não diga que você é expert em economia só por saber quanto se paga de juros no cheque especial ou em cinema expressionista alemão só por ter visto Nosferatu.
Atenção para o excesso de ilusões. Não ache que você vai viver num mundo de glamour e ficar rico agora que já é um jornalista e arranjou emprego. Quando você resolver morar sozinho e bancar todas as contas com o seu salário entenderá o que estou dizendo.
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quarta-feira, 14 de abril de 2010
Foi bom pra você?
Relato de um jovem a Duda Rangel.
Chega o tão sonhado dia. Minha primeira vez, aos 22 anos. Não posso falhar. Esperei tanto por isso. A mulher ao meu lado, com o dobro da minha idade, esbanja experiência. Sorridente, segura. Estou ansioso. Que puta frio na barriga! E se eu travar na hora H?
– Faltam três minutos, grita o produtor.
Meu primeiro link. A entrada ao vivo na TV é um desafio radical para um repórter iniciante. Leio minhas anotações no papel. Arrumo o nó da gravata pela décima vez. A entrevistada percebe a minha apreensão. Tenta me acalmar. Não estou tenso, estou muito tenso. Quero dizer, estou cagando de medo. E se eu engasgar quando falar? E se me der um branco? Revejo minhas anotações. Repasso as perguntas que farei para ela. Bate uma vontade louca de ir ao banheiro. Não tenho mais tempo.
– Faltam dois minutos, grita o produtor.
O ambiente também está carregado. O sinal da transmissão oscila. Pode cair a qualquer momento. Testo o som com o estúdio. O retorno está fraco. Por que não fui trabalhar em jornal impresso? A mulher ao meu lado continua sorridente. Já deu muitas entrevistas ao vivo. É só um telejornal regional, penso. Não vou pagar mico para o Brasil inteiro. Com um pequeno espelho, dou uma última olhada no meu visual. Encontro um pelinho tentando fugir do nariz. Desgraçado! Com o dedo molhado em saliva, o coloco para dentro de novo. Aproveito para despachar algumas caspas do meu terno.
– Falta um minuto, grita o produtor.
Meu momento está chegando. Torço para que nenhum engraçadinho passe atrás de mim para aparecer na TV. Concentração total. Acerto a gravata pela décima primeira vez. O retorno melhora. Me posiciono ao lado da entrevistada. É preciso relaxar, apesar da vontade louca de ir ao banheiro.
– Faltam 30 segundos, grita o produtor.
Não há mais tempo para angústia. Agora vai. O sinal está OK. Dou aquela tossidinha básica para mostrar que estou pronto. Conto até 10. O apresentador me chama. Hora de entrar em cena. A entrevista é rápida, rola numa boa. Sem brancos, sem falhas na hora H. Fora do ar, a mulher elogia meu desempenho. Me sinto o fodão do pedaço. Imagino até que estou fumando um cigarrinho ao lado dela depois do link. Foi bom pra você?
Chega o tão sonhado dia. Minha primeira vez, aos 22 anos. Não posso falhar. Esperei tanto por isso. A mulher ao meu lado, com o dobro da minha idade, esbanja experiência. Sorridente, segura. Estou ansioso. Que puta frio na barriga! E se eu travar na hora H?
– Faltam três minutos, grita o produtor.
Meu primeiro link. A entrada ao vivo na TV é um desafio radical para um repórter iniciante. Leio minhas anotações no papel. Arrumo o nó da gravata pela décima vez. A entrevistada percebe a minha apreensão. Tenta me acalmar. Não estou tenso, estou muito tenso. Quero dizer, estou cagando de medo. E se eu engasgar quando falar? E se me der um branco? Revejo minhas anotações. Repasso as perguntas que farei para ela. Bate uma vontade louca de ir ao banheiro. Não tenho mais tempo.
– Faltam dois minutos, grita o produtor.
O ambiente também está carregado. O sinal da transmissão oscila. Pode cair a qualquer momento. Testo o som com o estúdio. O retorno está fraco. Por que não fui trabalhar em jornal impresso? A mulher ao meu lado continua sorridente. Já deu muitas entrevistas ao vivo. É só um telejornal regional, penso. Não vou pagar mico para o Brasil inteiro. Com um pequeno espelho, dou uma última olhada no meu visual. Encontro um pelinho tentando fugir do nariz. Desgraçado! Com o dedo molhado em saliva, o coloco para dentro de novo. Aproveito para despachar algumas caspas do meu terno.
– Falta um minuto, grita o produtor.
Meu momento está chegando. Torço para que nenhum engraçadinho passe atrás de mim para aparecer na TV. Concentração total. Acerto a gravata pela décima primeira vez. O retorno melhora. Me posiciono ao lado da entrevistada. É preciso relaxar, apesar da vontade louca de ir ao banheiro.
– Faltam 30 segundos, grita o produtor.
Não há mais tempo para angústia. Agora vai. O sinal está OK. Dou aquela tossidinha básica para mostrar que estou pronto. Conto até 10. O apresentador me chama. Hora de entrar em cena. A entrevista é rápida, rola numa boa. Sem brancos, sem falhas na hora H. Fora do ar, a mulher elogia meu desempenho. Me sinto o fodão do pedaço. Imagino até que estou fumando um cigarrinho ao lado dela depois do link. Foi bom pra você?
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sexta-feira, 9 de abril de 2010
O jornalista e o gênio
O jornalista recém-formado caminha pela rua quando reconhece um gênio da lâmpada mágica, sentado num banco de praça, fumando um cigarrinho. Aproxima-se dele e pergunta se teria direito a três pedidos. De mau humor, o gênio, em seus poucos minutos de folga, responde que o esquema agora é realizar um só desejo. Está tão atolado de trabalho que nem tem tido mais tempo de voltar para a lâmpada.
– Sabe, seu gênio, meu sonho é trabalhar na grande imprensa. Não vejo a hora de desfilar num carro de reportagem no meio de uma multidão de curiosos. Acho que vou me sentir o cara mais importante do planeta.
– Olha, chefia, o que mais tem por aí é jornalista pedindo uma boquinha dessas. E, para piorar, as redações estão enxutas. Não vai rolar.
– Bom, se não for em grande imprensa, que seja, pelo menos, um emprego com carteira assinada.
– Carteira assinada? (o gênio dá um sorriso maroto). O que tem saído nesses dias é o sistema PJ e olhe lá.
– Tudo bem. Pode ser PJ desde que o salário seja bom.
– Salário bom? (o gênio quase engasga com o cigarro ao ter uma crise de risos). Você não precisa ser gênio para saber que o mercado tá uma merda!
– Mas você não é o gênio da lâmpada mágica? Não consegue qualquer coisa?
O gênio percebe o clima tenso, controla o riso e pede para o jornalista recém-formado sentar-se ao seu lado no banco.
– Tem um monte de gênio picareta por aí que promete o melhor emprego do mundo para os jornalistas. A fama do William Bonner, o salário do Datena, o assédio de mulheres lindas, prêmios Esso e o cacete. São esses caras que mancham a imagem da minha categoria. O que consigo pra você agora é uma vaga em agência de assessoria de imprensa, com piso salarial e vale-refeição. Você começa amanhã, às 8. Se bobear, tem outro que pega a vaga.
O jornalista recém-formado, feliz, aceita a proposta, levanta-se do banco, agradece o gênio e segue sua caminhada.
– Ah, chefia, não atrasa, não, viu? Você terá cinco contas para atender...
– Sabe, seu gênio, meu sonho é trabalhar na grande imprensa. Não vejo a hora de desfilar num carro de reportagem no meio de uma multidão de curiosos. Acho que vou me sentir o cara mais importante do planeta.
– Olha, chefia, o que mais tem por aí é jornalista pedindo uma boquinha dessas. E, para piorar, as redações estão enxutas. Não vai rolar.
– Bom, se não for em grande imprensa, que seja, pelo menos, um emprego com carteira assinada.
– Carteira assinada? (o gênio dá um sorriso maroto). O que tem saído nesses dias é o sistema PJ e olhe lá.
– Tudo bem. Pode ser PJ desde que o salário seja bom.
– Salário bom? (o gênio quase engasga com o cigarro ao ter uma crise de risos). Você não precisa ser gênio para saber que o mercado tá uma merda!
– Mas você não é o gênio da lâmpada mágica? Não consegue qualquer coisa?
O gênio percebe o clima tenso, controla o riso e pede para o jornalista recém-formado sentar-se ao seu lado no banco.
– Tem um monte de gênio picareta por aí que promete o melhor emprego do mundo para os jornalistas. A fama do William Bonner, o salário do Datena, o assédio de mulheres lindas, prêmios Esso e o cacete. São esses caras que mancham a imagem da minha categoria. O que consigo pra você agora é uma vaga em agência de assessoria de imprensa, com piso salarial e vale-refeição. Você começa amanhã, às 8. Se bobear, tem outro que pega a vaga.
O jornalista recém-formado, feliz, aceita a proposta, levanta-se do banco, agradece o gênio e segue sua caminhada.
– Ah, chefia, não atrasa, não, viu? Você terá cinco contas para atender...
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quarta-feira, 17 de março de 2010
Que porra é essa?
Na manhã daquela sexta-feira, eu, ainda um jovem Duda, cheguei à redação tranqüilo. Não estava na pauta do dia, tinha apenas uns textos para escrever para o fim de semana. Daria para almoçar com calma, fazer algumas pesquisas e paquerar a menina do arquivo. Mas como eu sempre me dou mal neste blog, a história deste post não poderia ser diferente. O pauteiro, que me via de longe, apesar de minha discrição, aproximou-se rapidamente.
- Oi, Duda, que bom que você chegou. O Roberto, que não pôde vir hoje por causa de suas cólicas renais, tem uma entrevista marcada para as 11 horas com o embaixador brasileiro nos Estados Unidos, lá no prédio da Bolsa. Você vai ter de segurar essa.
- Mas olha a minha roupa. Não vim preparado para entrevistar um embaixador.
- Você está ótimo, Duda, e agora não dá para ficar preocupado com isso. A pauta é sobre aquela polêmica da propriedade intelectual, da quebra de patentes e tal.
- Eu preciso pesquisar algo no arquivo antes de ir.
- Duda, voa para a Bolsa porque a entrevista é daqui a meia hora!
Voei. Aliás, um vôo cheio de turbulência no carro de reportagem. Estava desesperado, inseguro. Comecei a ter dor de barriga, as mãos suavam. Não tinha qualquer idéia do que seria a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Que porra era aquela? Naquele tempo, não havia BlackBerry, internet móvel, Google ou Wikipedia para me socorrer. Éramos apenas eu e minha ignorância no carro. Ou melhor, ao meu lado também estava o seu Péricles, motorista do jornal, cantarolando uma música sertaneja que tocava na rádio.
- Ô, seu Péricles, o senhor sabe alguma coisa sobre esse caso de propriedade intelectual, da polêmica com os Estados Unidos?
- Olha, seu Duda, a única polêmica com propriedade que eu tô sabendo é a questão da regularização das casas lá onde eu moro.
E começou a contar que morava num terreno invadido havia anos, que era área de manancial, mas que a prefeitura estava querendo dar o título de propriedade aos moradores. A minha cabeça viajava, não ouvia mais nada da história do motorista. Pensei em fazer a mesma consulta ao rapaz que vendia Suflair no farol, mas logo percebi que esta tentativa seria pior do que a primeira. E não era só o meu desconhecimento sobre o assunto que me perturbava. O que eram aquelas roupas? Calça velha, tênis velhos, camisa amarrotada. Ainda tinha a barba cerrada. O embaixador, com certeza, me olharia com cara de nojo.
Enfim cheguei ao prédio da Bolsa, com um ligeiro atraso e uma dor de barriga ainda maior. Subi, me apresentei e, minutos depois, fui recebido pelo embaixador. Com cara de nojo, é claro. Só fiquei mais aliviado quando apelei para a sinceridade. Contei das pedras no rim do meu colega de trabalho, que eu havia sido pego de surpresa pela pauta e que desconhecia o assunto. O embaixador riu e o que era para ser uma entrevista transformou-se num monólogo, ou uma aula sobre a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Entendi tudo e perfeitamente, e tive material abundante para, naquela tarde, escrever uma incrível notinha de sete linhas.
- Oi, Duda, que bom que você chegou. O Roberto, que não pôde vir hoje por causa de suas cólicas renais, tem uma entrevista marcada para as 11 horas com o embaixador brasileiro nos Estados Unidos, lá no prédio da Bolsa. Você vai ter de segurar essa.
- Mas olha a minha roupa. Não vim preparado para entrevistar um embaixador.
- Você está ótimo, Duda, e agora não dá para ficar preocupado com isso. A pauta é sobre aquela polêmica da propriedade intelectual, da quebra de patentes e tal.
- Eu preciso pesquisar algo no arquivo antes de ir.
- Duda, voa para a Bolsa porque a entrevista é daqui a meia hora!
Voei. Aliás, um vôo cheio de turbulência no carro de reportagem. Estava desesperado, inseguro. Comecei a ter dor de barriga, as mãos suavam. Não tinha qualquer idéia do que seria a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Que porra era aquela? Naquele tempo, não havia BlackBerry, internet móvel, Google ou Wikipedia para me socorrer. Éramos apenas eu e minha ignorância no carro. Ou melhor, ao meu lado também estava o seu Péricles, motorista do jornal, cantarolando uma música sertaneja que tocava na rádio.
- Ô, seu Péricles, o senhor sabe alguma coisa sobre esse caso de propriedade intelectual, da polêmica com os Estados Unidos?
- Olha, seu Duda, a única polêmica com propriedade que eu tô sabendo é a questão da regularização das casas lá onde eu moro.
E começou a contar que morava num terreno invadido havia anos, que era área de manancial, mas que a prefeitura estava querendo dar o título de propriedade aos moradores. A minha cabeça viajava, não ouvia mais nada da história do motorista. Pensei em fazer a mesma consulta ao rapaz que vendia Suflair no farol, mas logo percebi que esta tentativa seria pior do que a primeira. E não era só o meu desconhecimento sobre o assunto que me perturbava. O que eram aquelas roupas? Calça velha, tênis velhos, camisa amarrotada. Ainda tinha a barba cerrada. O embaixador, com certeza, me olharia com cara de nojo.
Enfim cheguei ao prédio da Bolsa, com um ligeiro atraso e uma dor de barriga ainda maior. Subi, me apresentei e, minutos depois, fui recebido pelo embaixador. Com cara de nojo, é claro. Só fiquei mais aliviado quando apelei para a sinceridade. Contei das pedras no rim do meu colega de trabalho, que eu havia sido pego de surpresa pela pauta e que desconhecia o assunto. O embaixador riu e o que era para ser uma entrevista transformou-se num monólogo, ou uma aula sobre a polêmica da propriedade intelectual com os Estados Unidos. Entendi tudo e perfeitamente, e tive material abundante para, naquela tarde, escrever uma incrível notinha de sete linhas.
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sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Moça com botas de borracha
A jovem jornalista já havia traçado um plano para sua carreira antes mesmo de se formar: queria trabalhar com moda, sua grande paixão. Gostava daquela vida de desfiles, badalação, coquetéis, gente famosa, além de entender bem de roupas, tecidos, tendências. Era também elegante, bonita, magra. Estava decidida a ser uma nova Erika Palomino.
Mas a vida é quase sempre ingrata com os jovens jornalistas, e seu primeiro emprego foi o de repórter no caderno geral de um jornal impresso. Pensou em desistir logo no dia de estréia, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade. Melhor isso do que nada. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação de gás natural que explodiu, uma passeata de garis no centro da cidade em protesto ao Boris Casoy. Brincadeira, eles só queriam melhores salários.
Um dia, estava de bobeira na redação, quando foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu uma inglória missão: visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa, retrucou.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Melhor isso do que nada. Já estava se acostumando a este tipo de resignação. Deixou a redação já com as botas enormes nos pés e ainda ouviu alguém cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Muito lixo, lama, cheiro forte. Meio desajeitada com tudo, caminhou pelo lugar, observou cada detalhe com atenção, a expressão no rosto de cada pessoa que trabalhava para salvar o que restou. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza, uma velha muito simpática.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
O café no barraco da dona Elza, feito num fogo improvisado, foi longo. A jornalista teve oportunidade de conhecer toda a família que ali morava, inclusive o caçula que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata bem sujo, escorregar na lama e sujar a bunda.
Naquela noite, antes de dormir, estava feliz, ao contrário dos primeiros dias no jornal. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
Mas a vida é quase sempre ingrata com os jovens jornalistas, e seu primeiro emprego foi o de repórter no caderno geral de um jornal impresso. Pensou em desistir logo no dia de estréia, mas logo lembrou que a coisa poderia ser pior, poderia nem ter emprego, como vários de seus colegas da faculdade. Melhor isso do que nada. Fazia de tudo um pouco: ronda policial em delegacias, matérias sobre buracos nas ruas, a tubulação de gás natural que explodiu, uma passeata de garis no centro da cidade em protesto ao Boris Casoy. Brincadeira, eles só queriam melhores salários.
Um dia, estava de bobeira na redação, quando foi chamada à mesa do pauteiro. Recebeu uma inglória missão: visitar a região da cidade mais afetada pelas chuvas daqueles dias, entrar na favela, ver o que sobrou, conhecer as histórias de quem perdeu tudo.
- Bonitinha como você é, vai fazer o maior sucesso no pedaço, brincou o pauteiro.
- Mas eu não tenho nem sapato adequado para entrar numa favela submersa, retrucou.
O pauteiro lhe indicou uma caixa no chão, com um par bem velho de botas de borracha, uns dois ou três números maiores do que o pé da moça. Melhor isso do que nada. Já estava se acostumando a este tipo de resignação. Deixou a redação já com as botas enormes nos pés e ainda ouviu alguém cantarolar: “É isso aí”.
A água já havia baixado quando ela chegou à favela. Muito lixo, lama, cheiro forte. Meio desajeitada com tudo, caminhou pelo lugar, observou cada detalhe com atenção, a expressão no rosto de cada pessoa que trabalhava para salvar o que restou. Foi ganhando coragem. Visitou vários barracos, conversou com muita gente, conheceu dramas variados, do fogão novinho das Casas Bahia que virou sucata ao menino que desapareceu no córrego. Foi até convidada a tomar um café no barraco da dona Elza, uma velha muito simpática.
- A senhora acredita que nós, jornalistas, podemos fazer alguma coisa para mudar a situação de vocês aqui?
- Ninguém muda nada aqui, não, minha filha. Faz mais de 15 anos que a gente sofre com enchente. O bom é que, com os jornalistas aqui, a gente pode, pelo menos, falar mal das autoridades. Assim, a prefeitura vem mais rápido limpar a entulhada toda deste ano.
O café no barraco da dona Elza, feito num fogo improvisado, foi longo. A jornalista teve oportunidade de conhecer toda a família que ali morava, inclusive o caçula que, quando crescesse, queria ser jornalista. Ou bombeiro. Tudo havia sido tão intenso na favela que ela até esqueceu que as botas grandes e velhas a incomodavam. Antes de partir, ainda teve tempo de brincar com um vira-lata bem sujo, escorregar na lama e sujar a bunda.
Naquela noite, antes de dormir, estava feliz, ao contrário dos primeiros dias no jornal. Pensou até que a vida da Erika Palomino deveria ser, assim, meio sem graça, sabe?
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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Travessura de velho
As ilusões do jovem jornalista são prejudiciais à saúde. No verso da ficha de inscrição das faculdades de jornalismo, o Ministério da Saúde deveria fazer tal advertência. Crenças num poder ilimitado de mudar o mundo ou numa vida cheia de glamour e dinheiro são perigosíssimas. Um dia a realidade vence a utopia, as ilusões viram desilusões e, para superar, só com o tempo ou terapia. No meu caso, virei blogueiro para me libertar de minhas desilusões (meu antigo drama está no post de estréia para quem quiser reler).
Há alguns deslumbramentos de jovem jornalista, que poderiam ser vistos de forma negativa também, mas são mais inofensivos e até gostosos de sentir. São mais modestos em suas pretensões. Há sensações na carreira de um jornalista bem típicas da juventude e precisam ser saboreadas na hora certa. Uma delas são as primeiras matérias assinadas num jornal.
Para um iniciante, é um prazer quase sexual, melhor, é um prazer bem maior do que o sexual. A minha primeira vez, jornalisticamente falando, foi na publicação da faculdade que funcionava como laboratório para os alunos. Matéria boba, assunto sem importância, mas eu não via a hora de ter a impressão final nas mãos. A razão: ver meu nome estampado na matéria me faria (e me fez) sentir, enfim, jornalista de verdade.
As primeiras matérias assinadas são saboreadas à exaustão. Não tem jeito: somos, desde cedo, impregnados de narcisismo e adoramos lamber a nossa cria. Somos como o pai orgulhoso que desfila com um bebê lindo no parque com cara de “fui eu que fiz”.
Minha primeira matéria assinada já levava o nome de Duda Rangel. O nome completo, de batismo, Carlos Eduardo Rangel, não caía bem. E isso nunca teve nada a ver com numerologia, juro por tudo de sagrado e profano deste mundo. Sempre acreditei que nome composto cansaria o leitor, não teria impacto, além do fato de nome composto lembrar bronca de mãe quando se é criança e apronta alguma travessura.
Às vezes, parecia até que eu corria até a pasta com as minhas matérias só para me certificar de que a assinatura ainda estava lá, que não tinha fugido. “A sua assinatura empreendeu fuga nesta manhã, mas dois investigadores já estão nas ruas para tentar encontrá-la e devolvê-la à sua matéria”, me diria um delegado qualquer se eu cobrasse providências. Mas assinaturas não empreendem fugas. Ficam lá, imóveis. Meu zelo era paranóico.
Nos últimos dias, eu me lembrei dessa história das assinaturas, fiquei resgatando as gostosas sensações passadas. Senti muita falta da juventude, dos tempos que não voltam mais. Como é estranho ter saudade de si mesmo, escreveu o dinamarquês Jacobsen. Certa nostalgia é indício de que não estamos sabendo envelhecer. “Carlos Eduardo, pare com essa coisa de nostalgia boba, meu filho. Viva seu presente!”, me diria a minha mãe, diante dessa minha última travessura.
Há alguns deslumbramentos de jovem jornalista, que poderiam ser vistos de forma negativa também, mas são mais inofensivos e até gostosos de sentir. São mais modestos em suas pretensões. Há sensações na carreira de um jornalista bem típicas da juventude e precisam ser saboreadas na hora certa. Uma delas são as primeiras matérias assinadas num jornal.
Para um iniciante, é um prazer quase sexual, melhor, é um prazer bem maior do que o sexual. A minha primeira vez, jornalisticamente falando, foi na publicação da faculdade que funcionava como laboratório para os alunos. Matéria boba, assunto sem importância, mas eu não via a hora de ter a impressão final nas mãos. A razão: ver meu nome estampado na matéria me faria (e me fez) sentir, enfim, jornalista de verdade.
As primeiras matérias assinadas são saboreadas à exaustão. Não tem jeito: somos, desde cedo, impregnados de narcisismo e adoramos lamber a nossa cria. Somos como o pai orgulhoso que desfila com um bebê lindo no parque com cara de “fui eu que fiz”.
Minha primeira matéria assinada já levava o nome de Duda Rangel. O nome completo, de batismo, Carlos Eduardo Rangel, não caía bem. E isso nunca teve nada a ver com numerologia, juro por tudo de sagrado e profano deste mundo. Sempre acreditei que nome composto cansaria o leitor, não teria impacto, além do fato de nome composto lembrar bronca de mãe quando se é criança e apronta alguma travessura.
Às vezes, parecia até que eu corria até a pasta com as minhas matérias só para me certificar de que a assinatura ainda estava lá, que não tinha fugido. “A sua assinatura empreendeu fuga nesta manhã, mas dois investigadores já estão nas ruas para tentar encontrá-la e devolvê-la à sua matéria”, me diria um delegado qualquer se eu cobrasse providências. Mas assinaturas não empreendem fugas. Ficam lá, imóveis. Meu zelo era paranóico.
Nos últimos dias, eu me lembrei dessa história das assinaturas, fiquei resgatando as gostosas sensações passadas. Senti muita falta da juventude, dos tempos que não voltam mais. Como é estranho ter saudade de si mesmo, escreveu o dinamarquês Jacobsen. Certa nostalgia é indício de que não estamos sabendo envelhecer. “Carlos Eduardo, pare com essa coisa de nostalgia boba, meu filho. Viva seu presente!”, me diria a minha mãe, diante dessa minha última travessura.
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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Esse estranho desejo de trabalhar
Passado o período do rebolation, o Brasil volta ao seu ritmo normal de trabalho (o enrolation). Contagiado por esse estranho desejo de ser produtivo e economicamente ativo, o jornalista recém-formado e desempregado decide fazer seu currículo e batalhar a entrada no mercado de trabalho. Por que as propagandas de faculdade sempre dizem que o sucesso profissional está garantido?, pensa. Por que todo mundo sempre acredita nessa mentira? Mas agora não adianta conjecturar. O carnaval acabou e o currículo precisa estar pronto. Rapidamente.
Criar um currículo atraente quando se está iniciando a carreira é como seduzir uma daquelas gostosas do carnaval de Salvador sendo feio e pobre. Quase impossível, ou melhor, impossível. Já que não dá para fazer um currículo atraente, o jovem jornalista busca, ao menos, não queimar o filme. Há quem acredite que, hoje em dia, o currículo de um jovem jornalista sem erros grosseiros de Português já é um currículo diferenciado.
O jovem jornalista fica imóvel em frente ao computador. Caraca, o que eu coloco aqui nesta parte de “experiência profissional”?, reflete, intrigado. Será que vale a pena dizer que eu animava festinhas num bufê infantil? Que eu me vestia de Palhaço Carequinha? Isso pode não ter nada a ver com jornalismo, mas mostra que eu sou um cara versátil, não? No final das contas, acabou omitindo a experiência como palhaço. Mencionou apenas o trabalho como office-boy no escritório do pai e o jornalzinho que fazia em casa quando criança.
Navegou pelo Google (ah, o Google!) e visitou páginas com dicas de como fazer um currículo legal. Gostou principalmente do conselho para evitar páginas e mais páginas. Concisão é tudo num currículo, anotou num bloquinho. Quer coisa mais concisa do que o currículo de um iniciante? Ponto para mim, disse em voz alta.
Depois de algum tempo, o currículo estava pronto. Havia descolado um mailing com uma amiga da faculdade com o contato de diversos jornalistas importantes. Agora, era só mandar um e-mail para todos eles suplicando uma oportunidade de trabalho. Vai que dá certo, não? Mas isso seria a missão do dia seguinte. Já era noite quando desligou o computador, com a sensação de dever cumprido. Desceu correndo para a sala e ligou a televisão, empolgado. O rebolation já acabou, mas o Big Brother ainda não.
Criar um currículo atraente quando se está iniciando a carreira é como seduzir uma daquelas gostosas do carnaval de Salvador sendo feio e pobre. Quase impossível, ou melhor, impossível. Já que não dá para fazer um currículo atraente, o jovem jornalista busca, ao menos, não queimar o filme. Há quem acredite que, hoje em dia, o currículo de um jovem jornalista sem erros grosseiros de Português já é um currículo diferenciado.
O jovem jornalista fica imóvel em frente ao computador. Caraca, o que eu coloco aqui nesta parte de “experiência profissional”?, reflete, intrigado. Será que vale a pena dizer que eu animava festinhas num bufê infantil? Que eu me vestia de Palhaço Carequinha? Isso pode não ter nada a ver com jornalismo, mas mostra que eu sou um cara versátil, não? No final das contas, acabou omitindo a experiência como palhaço. Mencionou apenas o trabalho como office-boy no escritório do pai e o jornalzinho que fazia em casa quando criança.
Navegou pelo Google (ah, o Google!) e visitou páginas com dicas de como fazer um currículo legal. Gostou principalmente do conselho para evitar páginas e mais páginas. Concisão é tudo num currículo, anotou num bloquinho. Quer coisa mais concisa do que o currículo de um iniciante? Ponto para mim, disse em voz alta.
Depois de algum tempo, o currículo estava pronto. Havia descolado um mailing com uma amiga da faculdade com o contato de diversos jornalistas importantes. Agora, era só mandar um e-mail para todos eles suplicando uma oportunidade de trabalho. Vai que dá certo, não? Mas isso seria a missão do dia seguinte. Já era noite quando desligou o computador, com a sensação de dever cumprido. Desceu correndo para a sala e ligou a televisão, empolgado. O rebolation já acabou, mas o Big Brother ainda não.
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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Carta de um jovem jornalista ao Papai Noel
"Olá, Papai Noel. Eu me chamo João e acabei de me formar em jornalismo, como milhares de outros jovens do meu Brasil. Este ano, eu fiquei meio chateado com essa história de o diploma não ser mais obrigatório, mas não vou desistir da profissão que eu amo! Com ou sem diploma, porém, o problema maior é que está muito difícil arrumar um emprego. Estou justamente escrevendo para pedir uma oportunidade de trabalho neste Natal. Deixei uma meia pendurada na janela com meu currículo atualizado.
Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, vale qualquer coisa. Sei que vou ganhar um salário bem pequeno, mas já estou mais conformado com isso. Na verdade, eu estou louco para aprender jornalismo na prática. Estão dizendo que em 2010 a crise vai passar, que a vida vai melhorar e estou mais confiante. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.
Eu sei que cometi alguns erros em 2009, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Eu matei umas aulas na faculdade, fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Twitter, fuçando o Orkut alheio, lendo o blog do Duda Rangel. Também gastei dinheiro com a Playboy da Fernanda Young e eu sei que isso não foi legal. O único vício que eu tenho mesmo é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E, se é para uso medicinal, não há problema, o senhor bem sabe.
No geral, eu até fui um aluno dedicado na faculdade. Fiz os trabalhos direitinho, li um monte de livros que eles indicaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet, até de política internacional. E o meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem nenhuma vírgula separando o sujeito do predicado nesta carta, não tem “menas” nem exceção com “ss”.
Em 2010, como jornalista real, estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele são verdadeiras mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, denunciar as coisas que estão erradas, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Eu também quero conhecer o tal pescoção, trabalhar até altas horas da madrugada. Só não quero ser corno, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."
Nem precisa ser um emprego muito bom. Para começar, vale qualquer coisa. Sei que vou ganhar um salário bem pequeno, mas já estou mais conformado com isso. Na verdade, eu estou louco para aprender jornalismo na prática. Estão dizendo que em 2010 a crise vai passar, que a vida vai melhorar e estou mais confiante. Meus amigos dizem que sou muito otimista, que acredito em tudo, até em Papai Noel. Mas a gente precisa ser assim.
Eu sei que cometi alguns erros em 2009, mas nada tão grave que não me faça merecer este emprego. O senhor vai compreender. Eu matei umas aulas na faculdade, fiquei de bobeira na internet, escrevendo bobagem no Twitter, fuçando o Orkut alheio, lendo o blog do Duda Rangel. Também gastei dinheiro com a Playboy da Fernanda Young e eu sei que isso não foi legal. O único vício que eu tenho mesmo é beber demais, embora falam que todo jornalista bebe. Também dou um tapa num baseado de vez em quando, mas só quando estou estressado e com dor de cabeça. E, se é para uso medicinal, não há problema, o senhor bem sabe.
No geral, eu até fui um aluno dedicado na faculdade. Fiz os trabalhos direitinho, li um monte de livros que eles indicaram. Eu também sou bem-informado. Não gosto de ler jornal, mas sigo todas as notícias na internet, até de política internacional. E o meu Português é bem correto também. O senhor pode notar que não tem nenhuma vírgula separando o sujeito do predicado nesta carta, não tem “menas” nem exceção com “ss”.
Em 2010, como jornalista real, estou louco para ver se todas aquelas coisas que o Duda Rangel escreve no blog dele são verdadeiras mesmo. Estou com um puta tesão (ops, desculpa!) de ir para a rua, fazer reportagens, buscar sempre a história mais bacana, denunciar as coisas que estão erradas, comer coxinha de frango na padoca, ganhar um monte de jabá e almoçar de graça nos eventos. Eu também quero conhecer o tal pescoção, trabalhar até altas horas da madrugada. Só não quero ser corno, mas este pedido fica para o outro Natal, está bom? Não vou abusar mais do senhor! Obrigado, Papai Noel. João."
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quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Experiência única
Dias atrás, uma amiga, sabendo que tenho vivido de frilas, encaminhou à minha caixa de e-mails um anúncio de trabalho, cuja fonte é o blog http://mktcomunicacao.blogspot.com. Não sei se ela esqueceu que fiquei velho ou se quis me sacanear mesmo. Já não tenho mais a disposição dos jovens, embora conserve o bom humor para enfrentar a dureza de nossa profissão.
Reproduzo abaixo o anúncio, inclusive com os erros de Português, com os meus comentários em negrito. Em alguns trechos, o anúncio parece piada pronta e mostra que ser jornalista é viver, muitas vezes, grandes aventuras.
São Paulo/SP - Requisitos:
O lema do evento, para atletas e staff, é: "durma quando puder, coma quando puder, tome banho quando puder". (Como o lema dos jornalistas é “viva quando puder”, temos tudo a ver com este evento. Aliás, adorei a sinceridade do anúncio! Comer pra quê? Dormir pra quê?) Portanto, aceitamos CVs de profissionais que realmente queiram fazer a narração de 10 dias de competição (com bases móveis, estilo Rally dos Sertões), onde os atletas têm apenas 4 horas de sono obrigatório durante todo o evento. Experiência única. (Realmente tem de querer muito! Adorei também as “4 horas de sono obrigatório”!)
Reproduzo abaixo o anúncio, inclusive com os erros de Português, com os meus comentários em negrito. Em alguns trechos, o anúncio parece piada pronta e mostra que ser jornalista é viver, muitas vezes, grandes aventuras.
São Paulo/SP - Requisitos:
- Graduação em jornalismo
- Experiência em apuração de fatos e redação para web
- Experiência em cobertura de eventos
- Inglês fluente
- Disponibilidade para viajar do dia 16 a 29 de novembro (SP-MG-SP)
- Ter notebook é imprescindível (Todos os jornalistas, principalmente os mais jovens, têm notebook, com internet wireless.)
- Espírito aventureiro, disposição, bom humor e gostar de esportes de aventura são diferenciais (Bom humor é diferencial, sim. Só rindo!)
- Jornalista jovem e com muita disposição para auxiliar na cobertura jornalística online de um evento esportivo de grande porte no cenário internacional.
O lema do evento, para atletas e staff, é: "durma quando puder, coma quando puder, tome banho quando puder". (Como o lema dos jornalistas é “viva quando puder”, temos tudo a ver com este evento. Aliás, adorei a sinceridade do anúncio! Comer pra quê? Dormir pra quê?) Portanto, aceitamos CVs de profissionais que realmente queiram fazer a narração de 10 dias de competição (com bases móveis, estilo Rally dos Sertões), onde os atletas têm apenas 4 horas de sono obrigatório durante todo o evento. Experiência única. (Realmente tem de querer muito! Adorei também as “4 horas de sono obrigatório”!)
O trabalho é freelancer e oferece:
- Verba de alimentação (Mas conseguiremos nos alimentar?)
- Hospedagem durante a viagem para o evento (Mas conseguiremos dormir?)
- Transporte de ida e volta para o local do evento (cidades históricas de Minas Gerais) (O que não vai faltar é igrejinha para rezarmos por dias melhores.)
- Valor para 10 dias de cobertura online: R$ 750,00 (Ou R$ 75,00 por dia, o valor de uma boa faxina em São Paulo, com direito a almoço e dispensa às 17 horas para ver as novelas da Globo. Haja bom humor!)
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Bloquinho ou gravador?
Quando a gente fica velho, vez ou outra se pergunta como pôde ter sentido, na juventude, tanto medo idiota por coisas banais. Simplesmente porque, na ocasião, certas coisas não eram tão banais assim. Hoje, eu rio disso tudo. Talvez esta seja uma das vantagens de ficar velho: rir dos medos idiotas da juventude.
Era a tão esperada e temida véspera. Na manhã seguinte, eu, um pobre estudante de jornalismo, faria a minha primeira reportagem, para o modesto jornal da faculdade. As vésperas sempre me deixavam ansioso. Era assim desde os tempos de criança, quando eu assistia à missa do galo na tevê esperando o Natal chegar. Naquela noite, além de ansioso, eu estava tenso, com um medo danado de fazer merda. Minha mente viajava...
Não posso esquecer de pegar mais de uma caneta! Na hora H, a caneta sempre falha e a gente fica com cara de bobo. Então o entrevistado dá risada do foca atrapalhado. Isso não pode acontecer! E será que eu levo só um bloquinho de anotações ou um gravador também? Um jornalista experiente me disse, certa vez, que o bloquinho é melhor, porque faz a gente prestar mais atenção nas palavras do entrevistado, consegue captar a essência da matéria. É isso, vou levar só o bloquinho. E se eu não entender a minha letra no bloquinho? Minha caligrafia é péssima! Está decidido: vou levar o gravador. Mas peraí: será que não vou acabar dependente de uma máquina, de um gravador? Meu Deus, tenho de aprender a fazer uma letra mais decente. É, vou levar só o bloquinho. Mas, e se o entrevistado disser que eu escrevi várias mentiras, que ele não disse nada daquilo que está no texto e resolver me processar? Com o gravador, posso provar que ele disse tudo aquilo, sim! E agora?
Resolvi levar o bloquinho e o gravador. Só para garantir. A minha única (e grande) mancada foi esquecer de verificar se as pilhas estavam no gravador. Na hora H, o negócio não funcionou. O entrevistado caiu na gargalhada. Puta sacanagem com um foca atrapalhado. Então eu usei só o bloquinho. Minha letra ficou, naturalmente, horrível, mas aprendi que é bem melhor mesmo prestar atenção nas palavras, captar a tal essência.
Era a tão esperada e temida véspera. Na manhã seguinte, eu, um pobre estudante de jornalismo, faria a minha primeira reportagem, para o modesto jornal da faculdade. As vésperas sempre me deixavam ansioso. Era assim desde os tempos de criança, quando eu assistia à missa do galo na tevê esperando o Natal chegar. Naquela noite, além de ansioso, eu estava tenso, com um medo danado de fazer merda. Minha mente viajava...
Não posso esquecer de pegar mais de uma caneta! Na hora H, a caneta sempre falha e a gente fica com cara de bobo. Então o entrevistado dá risada do foca atrapalhado. Isso não pode acontecer! E será que eu levo só um bloquinho de anotações ou um gravador também? Um jornalista experiente me disse, certa vez, que o bloquinho é melhor, porque faz a gente prestar mais atenção nas palavras do entrevistado, consegue captar a essência da matéria. É isso, vou levar só o bloquinho. E se eu não entender a minha letra no bloquinho? Minha caligrafia é péssima! Está decidido: vou levar o gravador. Mas peraí: será que não vou acabar dependente de uma máquina, de um gravador? Meu Deus, tenho de aprender a fazer uma letra mais decente. É, vou levar só o bloquinho. Mas, e se o entrevistado disser que eu escrevi várias mentiras, que ele não disse nada daquilo que está no texto e resolver me processar? Com o gravador, posso provar que ele disse tudo aquilo, sim! E agora?
Resolvi levar o bloquinho e o gravador. Só para garantir. A minha única (e grande) mancada foi esquecer de verificar se as pilhas estavam no gravador. Na hora H, o negócio não funcionou. O entrevistado caiu na gargalhada. Puta sacanagem com um foca atrapalhado. Então eu usei só o bloquinho. Minha letra ficou, naturalmente, horrível, mas aprendi que é bem melhor mesmo prestar atenção nas palavras, captar a tal essência.
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segunda-feira, 5 de outubro de 2009
O netinho querido da vovó
O Nestor resolveu ficar doente justamente no nosso fim de semana. Começou a chorar de forma estranha no sábado à noite. Levei o pobrezinho a um hospital veterinário 24 horas e gastei lá o dinheiro do almoço do domingo. E o do resto da semana também. Na sala de espera, havia muitos cães, um cheirando o rabo do outro, na maior confraternização. Uma velhinha, com um chihuahua chato no colo, puxou assunto. Aliás, velhinhos adoram puxar assunto, assim como chihuahuas adoram ser chatos.
- Ah, então o senhor é jornalista? O meu netinho também é. O senhor trabalha onde?
- No momento, estou buscando novos caminhos, me reciclando, estudando muito, me redescobrindo como jornalista...enfim, estou desempregado, minha senhora!
- O meu neto também. Acabou de se formar e não consegue emprego de jeito nenhum. O menino é inteligente, fala Inglês fluentemente, mas não arranja nada. Dá para acreditar?
Não é a primeira vez que eu conheço alguém que tem parente jornalista. Até uma faxineira que trabalhou lá em casa tinha um sobrinho jornalista. Também era inteligente e não tinha emprego. Só não lembro se falava Inglês.
- Vou pedir para o meu neto mandar o currículo para o senhor. Talvez possa ajudá-lo. O menino é muito bom, inteligente...
Na semana seguinte, recebi um e-mail do moço, “o neto da velhinha do veterinário”, como ele mesmo se apresentou. Era um currículo enxuto demais, como também era o meu quando me formei. Mas o que mais me chamou a atenção – e me assustou – foi a “experiência profiCional”, com “c”. O netinho querido poderia até dominar o Inglês, mas o Português estava sendo duramente castigado. Mas avó é sempre avó, não é?
PS: Naquele sábado à noite, o veterinário disse que o Nestor estava ótimo. Era apenas manha canina. O danado me fez comer miojo por uma semana!
- Ah, então o senhor é jornalista? O meu netinho também é. O senhor trabalha onde?
- No momento, estou buscando novos caminhos, me reciclando, estudando muito, me redescobrindo como jornalista...enfim, estou desempregado, minha senhora!
- O meu neto também. Acabou de se formar e não consegue emprego de jeito nenhum. O menino é inteligente, fala Inglês fluentemente, mas não arranja nada. Dá para acreditar?
Não é a primeira vez que eu conheço alguém que tem parente jornalista. Até uma faxineira que trabalhou lá em casa tinha um sobrinho jornalista. Também era inteligente e não tinha emprego. Só não lembro se falava Inglês.
- Vou pedir para o meu neto mandar o currículo para o senhor. Talvez possa ajudá-lo. O menino é muito bom, inteligente...
Na semana seguinte, recebi um e-mail do moço, “o neto da velhinha do veterinário”, como ele mesmo se apresentou. Era um currículo enxuto demais, como também era o meu quando me formei. Mas o que mais me chamou a atenção – e me assustou – foi a “experiência profiCional”, com “c”. O netinho querido poderia até dominar o Inglês, mas o Português estava sendo duramente castigado. Mas avó é sempre avó, não é?
PS: Naquele sábado à noite, o veterinário disse que o Nestor estava ótimo. Era apenas manha canina. O danado me fez comer miojo por uma semana!
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