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quarta-feira, 9 de março de 2011

Receita para um programa sensacionalista


Ingredientes

1 apresentador egocêntrico e indignado com o mundo
10 minutos de deslizamento de terra com barraco soterrado
1 link de helicóptero com acidente de motoboy
1 menina violentada e esquartejada pelo padrasto bem picadinha
6 minutos de ex-BBB que cobra pensão de jogador de futebol
Uma pitada de suposto crime passional
Chamadas de texto na tela e músicas de fundo fortes (nada light)
Inverdades a gosto

Modo de preparo

Junte todos os ingredientes em uma reunião de pauta algumas horas antes de o programa ir ao ar. Reserve a menina esquartejada para o fim. No primeiro bloco, aqueça a audiência em fogo médio com o deslizamento de terra e o barraco soterrado. Sofrimento de gente pobre e críticas indignadas do apresentador às autoridades dão um sabor especial. No segundo bloco, adicione o link de helicóptero com um acidente bem fresco de motoboy na Marginal do Tietê (de preferência com o corpo ainda se contorcendo na pista) e uma pitada de suposto crime passional para dar mais consistência. No terceiro bloco, acrescente o caso da ex-BBB que cobra a pensão do jogador de futebol. No quarto e último bloco, salpique os pedaços da menina violentada e esquartejada pelo padrasto que estavam reservados. Misture mais um pouco de indignação do apresentador. Tempere o programa o tempo todo com chamadas de texto na tela e músicas de fundo fortes. Se ainda assim o programa ficar insosso ou a audiência esfriar, espalhe algumas inverdades, servindo-as imediatamente.

Rendimento

Pelo menos 6 pontos no Ibope.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

São tantas emoções


Tenho a lembrança de duas grandes mentiras ditas por um professor de ética na faculdade: “o jornalista tem a obrigação de ser absolutamente racional” e “vou colocar apenas a cabecinha” (no caso, para algumas inocentes alunas que embarcavam com ele em aventuras extracurriculares). Neste post, vou abordar apenas a primeira grande mentira. Será que o jornalista precisa ter a frieza de uma boneca inflável para contar uma história sem distorcer a realidade?

A questão me voltou à mente ao ver o Jornal Nacional da última sexta-feira, quando os apresentadores, imbuídos de um sensacionalismo dateniano, anunciaram por todo o telejornal uma matéria sobre o resgate de uma haitiana presa sob os escombros, três dias após o terremoto em Porto Príncipe. O que me chamou a atenção foi a postura da repórter, que mesmo visivelmente emocionada, no local da tragédia, conseguiu relatar o trabalho de resgate feito por militares brasileiros.

Carlos Alberto Di Franco, um crítico da imprensa brasileira, escreveu certa vez: “Jornalismo não é ciência exata e jornalistas não são autômatos. Além disso, não se faz bom jornalismo sem emoção. A frieza é anti-humana e, portanto, antijornalística.” Concordo com ele. Em certas coberturas é muito difícil ficar indiferente a situações de extrema penúria humana, como acompanhar flagelados de uma catástrofe natural, sobreviventes de uma guerra ou fãs ensandecidos em um show da banda Calypso.

Um professor dizer que um jornalista não tem o direito de se emocionar – que precisa fazer o tipo durão – é o mesmo que um pai dizer para o filho que homem não chora, que isso é coisa de menininha. Tudo bem que não precisamos nos tornar uma Helena do Manoel Carlos diante de uma cena de terror. Mas um pouco de coração mole não faz mal à isenção jornalística de ninguém.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Televisão verdade


Ao ver o global Profissão Repórter da semana passada, sobre a vida em presídios, me lembrei do Documento Especial, jornalístico que ganhou fama a partir de 1989 na TV Manchete. O programa abordava, com irreverência carioca e de forma bem crua, temas polêmicos, como violência, sexo, drogas, sexo, religião e... sexo. Tinha uma edição tosca, mas foi um caso de sucesso de jornalismo investigativo. A apresentação era de Roberto Maya (foto), conhecido também por suas atuações em clássicos do cinema erótico nacional.

Uns amigos mais abastados, que têm TV por assinatura em casa, me disseram que o Documento Especial é reapresentado, há algum tempo, no Canal Brasil. Vasculhei no YouTube e encontrei algumas pérolas, como o episódio “Os pobres vão à praia”, considerado pelo antigo diretor do programa, Nelson Hoineff, o mais significativo de todos. A reportagem mostra um grupo de pessoas do subúrbio carioca barbarizando nas praias da zona sul. São cenas de baixaria total. Hoje em dia na TV, algo semelhante só nas sessões do Senado.

Em outro episódio, “Profissão: prostituto”, o programa apresentou, pela primeira vez na televisão, a Noite dos Leopardos, show de strip-tease masculino na Galeria Alaska, reduto gay do Rio. Revelou também como jovens desempregados e sem rumo na vida (talvez algum jornalista estivesse por lá) decidem vender o corpo para conseguir uns trocados.

Chamado de “televisão verdade”, o Documento Especial era uma espécie de reality show da TV brasileira de 20 anos atrás. Com uma vantagem: sem Kleber Bambam e Diego Alemão. Um prato cheio para quem gosta de jornalismo e do lado B da vida.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

E depois criticam a mãe Dinah


De pijama e chinelão no aconchego do meu apê de 49 metros quadrados, acompanhei, nos últimos dois dias, as notícias do desaparecimento do avião da Air France. Mais uma tragédia para a imprensa dissecar até o bagaço. Só se fala disso nos telejornais, na mídia impressa, nas rádios, na internê. Esqueceram a quebra da GM, a enchente no Piauí e a ameaça de a Coréia do Norte jogar bosta nuclear no ventilador. A desgraça do momento é outra!

A falta de informação aliada à necessidade de furar a concorrência é uma mistura desastrosa. Choveu especialista comentando o que ninguém sabe ao certo o que aconteceu. Hipóteses aqui, suspeitas ali, análises vazias acolá. Um jogo de adivinhações. A princípio, um raio poderia ter sido a causa principal da “queda”. Horas mais tarde, essa versão passou a ser absurda. Já falaram em pane elétrica, zona de convergência intertropical, turbulência, bomba. Daqui a pouco a culpa será do Dunga. Depois criticam quando a mãe Dinah fala alguma besteira.

É fato que, no primeiro dia da cobertura, era mais fácil encontrar um político honesto em Brasília do que algum dado oficial sobre a tragédia. Nessas horas, o problema para o jornalista é ter a obrigação de informar o público a todo o momento sem ter nada de novo para acrescentar. Vira um vale-tudo danado. Alguns coleguinhas chegaram a matar 80 brasileiros; depois este número caiu para 59, 58. Jornalista é ruim de matemática mesmo!

A carga de dramaticidade também é proporcional ao tamanho da tragédia. O desespero dos familiares em busca de notícias nos aeroportos, por exemplo, sempre foi um prato cheio para os urubus de plantão, principalmente de programas sensacionalistas. A Air France, pelo menos, reservou uma área especial para receber parentes e amigos dos passageiros e não deixá-los tão expostos. Bem, podem meter o pau na imprensa, mas o público também adora se deliciar com todos os detalhes da desgraça alheia. Coisa de ser humano.

E como não poderia ser diferente, a partir de agora vão pipocar as matérias sobre segurança nos vôos, o papel das autoridades, a responsabilidade das empresas aéreas e aquele blablablá todo que já conhecemos. Depois, a gente esquece a tragédia e tudo volta ao normal, sem soluções para os problemas. A vida e a pauta diária seguem. Até a queda do próximo avião.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

O "jornalismo" do Ratinho voltou


Semanas atrás, li no jornal que Ratinho, vulgo Carlos Massa, voltaria à TV depois de um longo período na geladeira do seu Silvio. A matéria destacava que o novo programa não teria nada do antigo circo dos horrores, mas, sim, um “cunho jornalístico”. Aquelas palavras me deram calafrio. Isso mesmo, amigos, Ratinho, que se auto-intitula o “defensor do povo brasileiro”, estava voltando, para fazer jornalismo. E no SBT.

A estréia de Ratinho foi na última segunda-feira. Liguei a televisão para conferir, afinal, como estou desempregado, me sobra tempo para o ócio e me falta dinheiro para assinar uma TV a cabo. O jornalismo de Carlos Massa me lembrou seu “190 Urgente”, que passava na CNT nos anos 90, mas sem o famoso cassetete. Nada de novo. Muita matéria policial, recheada de escracho. Numa reportagem sobre a apreensão de um caminhão carregado de maconha, o apresentador soltou essa: “Também o que tem de maconheiro por aí. Só aqui no SBT tem um monte”. É impossível não rir de suas pérolas.

Escrevi, há pouco tempo, um post sobre o finado Notícias Populares, um jornal que, apesar de alguns exageros, tinha sacadas criativas e bem-humoradas. Gosto do lado B, mas Ratinho passa dos limites muito mais do que o NP passava.

Com exceção de alguns poucos minutos de matérias mais digeríveis, o resto era só baixaria, apoiada por uma platéia ensandecida, uma bandinha típica de circo mambembe e as intervenções pitorescas do rato Xaropinho. O “cunho jornalístico” de Ratinho está mais para um programa de humor. De quinta categoria.

A estréia fechou com uma reportagem sobre o menino-cachorro da Guatemala, um jovem com aparente distúrbio mental que age como um bicho nas ruas, dando cabeçada em tudo o que vê pela frente e assustando a criançada do povoado. A reportagem ouviu religiosos, insinuando que o garoto estava possuído pelo capeta. Matéria grotesca, mas Ratinho fez questão de exaltar o caráter de seriedade da reportagem. “Aqui não tem baixaria, não. Baixaria é lá no programa do Datena”.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O Inferno de Duda, a continuação


Meus caros amigos, eis a segunda e última parte do meu Inferno imaginário, formado apenas por jornalistas. Caminho cada vez mais para o fundo do buraco, no centro da Terra. A jornada acabou sendo rápida porque meu guia, ranzinza, estava de saco cheio de tudo. A primeira parte está em post abaixo.

5º círculo (assessores de imprensa do mal): este espaço é destinado aos que enviavam releases com informações inverídicas, que vendiam a mesma pauta exclusiva para vários jornais ao mesmo tempo, que ligavam para a redação na hora do fechamento e eram insuportavelmente chatos no follow-up. Como castigo, passam o dia inteiro ao telefone, recebendo propostas de aquisição de cartão de crédito, TV a cabo, assinatura de revistas e filtros de água. Os assessores do bem ficaram no limbo.

6º círculo (vaidosos e competitivos): são os jornalistas que faziam de tudo para conseguir um furo de reportagem, nem que, para isso, tivessem de puxar o tapete de um colega. Sonhavam com prêmios. São os que sonegavam informações aos amigos e se debruçavam sobre a tela do computador para que ninguém por perto descobrisse sua “grande matéria”. Hoje, atuam como rádio-escuta no jornal oficial do Inferno, para ajudar os colegas. O único furo que dão é para o Capeta, mas não precisamos entrar em detalhes aqui.

7º círculo (abutres em geral): local reservado aos jornalistas sensacionalistas, que adoravam alavancar a audiência de seus noticiários explorando a desgraça e a miséria alheias. Têm a companhia dos invasores de privacidade, paparazzi e afins. No Inferno, são condenados a editar um tablóide diário em que reportam os próprios castigos a que são submetidos, tudo com muito drama e sofrimento. Afinal, o Capeta também adora uma imprensa marrom.

8º círculo (mentirosos e caluniadores): é um grupo formado por pecadores de respeito, os principais responsáveis por manchar a reputação da crasse. São os que inventavam matérias, criavam factóides, tudo com um único objetivo: difamar o outro. Sofrem um dos piores castigos: diariamente são publicadas, no jornal oficial do Inferno, notícias falsas que denigrem a imagem destes pecadores. Sem direito de resposta.

9º círculo (vendidos e subornadores): estão no nível mais baixo do Inferno, os pecadores de alta periculosidade. São os que, na carreira, tiveram o rabo preso e serviram apenas a interesses obscuros. Lá também estão os que publicavam informações mediante vantagem financeira e os que subornavam fontes em troca de privilégios. São os que agora ardem nas profundezas. No Inferno, até tentam negociar algum tipo de benefício, mas o Capeta, que é um cara muito do mal, não dá a mínima. Só quer aumentar o tamanho da labareda.